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domingo, agosto 27, 2017

Mais um colega sacerdote foi levado pelo Senhor

Mais um colega sacerdote foi levado pelo Senhor, como se costuma dizer, para junto de Si. Não gosto da frase, mas uso-a. É uma frase que na morte nos diz que somos levados por Deus, como se Ele nos tirasse algo. Não gosto de pensar que Deus nos leva como quem nos tira a vida, sobretudo quando estou convencido que é nesse momento que mais nos dá de Si. Também não vejo Deus como um egoísta que leva as pessoas para si. Gosto mais de pensar que somos nós que vamos. Somos nós que vamos para ao pé Dele. Mas o que eu penso também deve ser de pouca importância. 
O meu colega tinha tanto a idade como a falta de saúde propícias para falecer. Fui ao funeral que o senhor bispo presidiu. Não lhe destapei o rosto. Não me apeteceu. Não tive vontade de satisfazer essa curiosidade. E ao longo da missa, que me perdoem, mas o meu pensamento não poisou sobre ele, sobre o caixão ou sobre as suas memórias. Andou por todo o lado a pensar em mim, neste sacerdócio que vivo ao lado dos poucos que vamos restando. Cada vez é mais desproporcional o número dos padres que morrem dos que vão sendo ordenados. Cada vez sobram mais paróquias e mais trabalho para os mesmos. A nostalgia veio a mim. Não porque tenha medo. É só mesmo porque gostava que as coisas fossem diferentes. 
Por isso o meu pensamento andou pelo relógio do tempo, umas décadas ou anos à frente, a pensar que um dia destes, se não mudarmos o modo como servimos a Deus, é bem capaz de ter de ser Deus a mudar.

sábado, julho 22, 2017

Um senhor Joaquim

O senhor Joaquim, de idade acima da média, veio à sacristia falar-me da pessoa que íamos sepultar. Dizia que era um “pobre diabo”. Que se metia nos copos. Que na sua casa as condições estavam muito abaixo das normais. Por isso a Câmara se dera ao esforço de compor a casa. E a sua dignidade. Depois levantava ou encolhia os ombros e repetia Enfim. No fundo o que ele queria dizer era que apesar de tudo, era um homem bom. Como sempre quando se morre, acrescentei em pensamentos. Somos sempre bons quando morremos. E continuou. Agora imagine a família. Tem vários irmãos, por sinal. Nunca se incomodaram com ele e com a vida que levava. Mas agora já estão a falar em ficar com a casa que a Câmara lhe arranjara. Nunca trataram dele e agora querem tratar do que era dele. Olhe, senhor padre, faça-me um favor. Fale destas coisas na homilia. E insistiu. Que eu falasse, como se as palavras fossem iguais aos gostos. Senhor padre, fale disto ou daquilo porque é o que eu quero ouvir. Como se a homilia não tivesse de ser Deus a falar na Palavra. E como se os gestos não falassem muito mais que as palavras. E como se dizer o que está mal fosse igual a fazer algo para tentar modificar o que está mal. Percebem a que me refiro, de certeza. As palavras costumam ficar a alguns metros dos gestos. É que o senhor Joaquim, pelos vistos, tampouco tinha feito muito pelo senhor que levávamos a sepultar! Ou se calhar até tinha. Mas do modo como falava, dava a sensação de que não tinha.

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

terça-feira, fevereiro 28, 2017

O que faz um padre quando faz um funeral II

Se há coisa que mexe comigo são os funerais. Quem me conhece sabe que um telefonema da funerária me desestabiliza e incomoda. Em tempos idos quis desculpar-me com o funeral da minha mãe. Mas isso não fazia sentido, porque foi algo muito especial e que recordo como uma marca da minha vida e da minha fé. A verdade é que os funerais não me deixam indiferente, e lido com eles a fugir deles. Não fujo da sua celebração, da sua realidade, daquilo que tenho e devo fazer. Mas interiormente é como se fugisse. 
Há dias, numa das minha meditações e devaneios espirituais, encontrei três respostas à pergunta que me fazia a mim mesmo sobre o que fazia quando fazia um funeral. Recordo que uma era a de que o padre cumprisse o ritual secular da morte como um dever cívico, social e algumas vezes laico. A outra era que o usasse de forma meio proselitista. E a última era que no funeral o padre se deixasse usar por um Deus que habita o homem, sobretudo quando sofre. 
Entretanto, chegaram à beira da minha meditação aquilo que poderia classificar como os auxiliares de um Deus que não me quer encerrado em poucas respostas, e a coisa fez-me bem. 
Alguém me disse, e não sei se recordam, que o padre faz num funeral aquilo que é pago para fazer, isto é, fazer o funeral. A pessoa não soube o alcance da sua proposta, mas eu pensei que essa poderia ser a minha quarta resposta. De facto, pode haver quem faça o funeral por cumprir o tal dever cívico ou social, e pode haver, por outro lado, quem o faça ou cumpra pelo preço do seu trabalho. 
Outro alguém, que muito prezo, esboçou uma resposta que bem poderia colocar ao lado da minha terceira resposta, a do padre que se deixa usar por um Deus que habita o homem. Dizia ele que o padre também poderia ver naquela urna a Cristo expirado, e tomasse aquele corpo sem vida como a própria Mãe o tomou depois de descido do madeiro. Que estremecesse com a dor e a revolta de Deus, como quando a terra tremeu, o véu do templo se rasgou e os túmulos se abriram. Que pressentisse no meio do silêncio e das lágrimas a madrugada de Páscoa. 
Ó Senhor, afinal, eu ainda não sei tudo do que faço quando faço um funeral!

sábado, fevereiro 04, 2017

O que faz um padre quando faz um funeral

Mais uma vez volto à conversa dos funerais. Esses momentos da vida de padre que não gosto de dizer, mas que digo tantas vezes. São das ocasiões mais propícias a Deus. Sei-o e creio que podem ser, se bem aproveitados, instrumentos de encontro com Deus. Mas também sei que muitos deles são somente o cumprimento de um ritual de uma cultura que já lá vai, uma cultura cristã. 
Por isso hoje, ao ajoelhar diante do sacrário, perguntei ao Senhor o que se pede a um padre quando se pede um funeral. Deu-me três respostas. Ou talvez só me tenha dado uma e eu é que acrescentei duas. As duas em que mais tenho pensado. 
Uma era a de que o padre cumprisse o ritual secular da morte como um dever cívico, social e algumas vezes laico. A outra era que o usasse de forma meio proselitista. E a última era que no funeral o padre se deixasse usar por um Deus que habita o homem, sobretudo quando sofre.

sábado, dezembro 31, 2016

O tempo passa e a vida vai atrás dele

O tempo passa e a vida vai atrás dele. São dois grandes parceiros. Contudo, um deles permanece aqui e o outro só permanecerá além. Não é bem um matrimónio até que a morte nos separe. Mas quase. São dois parceiros que caminham lado a lado, irmanados. 
Faltam, nesta hora, algumas horas para que um novo ano aconteça. Todos estamos atarefados com aquele momento em que se passa de um ano a outro. Essa meia-noite que se prolonga em copos, saltos, diversões, e beijos e abraços como se não houvesse amanhã. 
Teimamos em fazer desse segundo uma noite inteira. Teimamos em fazer parar o relógio. Como teimaríamos, se a varinha mágica existisse, em parar o tempo para que a nossa vida ficasse ali. Creio que vivemos uma vida a correr, convencidos de que ela está parada. Convencidos de que não há amanhã. Nem há depois de amanhã. Creio que vivemos ensimesmados em nós próprios. Fechados em sensações de que não existe dor, nem morremos. Que tudo é uma maquilhação do divino. 
Mas o tempo passa e as vidas vão atrás dele. Termina uma e começa outra. Não é a nossa que recomeça. E cada dia que passa é menos um dia de vida neste tempo que não termina. 
Não estou melancólico, minha gente. Estou somente a pensar que estamos prestes a entrar em novo ano, e continuamos a viver uma vida como sobreviventes de qualquer coisa. Parece que não a vivemos. Parece que a deixamos andar. Parece que nos preocupamos mais com os embrulhos e com os laços que lhe pomos, que com a prenda que ela é. A vida é para viver como quem no-la deu. A vida é um dom gratuito que vai muito para além de nós. A vida é tão boa, mas tão boa, que devíamos viver em constante estado de agradecimento, em constante estado de alegria, em constante Viver. Deixem passar o tempo e verão como a vida vai atrás dele. 

Aproveito para desejar a todos os que visitam este espaço e lêem estas palavras que vou soltando, um ano de 2017 cheio de Deus!

domingo, novembro 27, 2016

Perder o que se não tem

Depois de me cumprimentar com um sorriso, o genro do falecido alterou ligeiramente a tom da voz e a inclinação da cabeça para alegar o seu descontentamento. O funeral do sogro fora presidido pelo diácono, pois eu não estava, e outras dezenas de colegas que haviam contactado também não estavam disponíveis. Tiveram que aceitar o diácono ou o morto ficava por sepultar. Compreenderam, dizia ele, que eu não pudesse, pela distância a que me encontrava. Mas não compreendia onde a Igreja ia parar. Assim tudo acabava. Assim acabava a Igreja e a fé. Como se ambas estivessem dependentes de funerais. Ou como se o diácono não fosse Igreja como os padres e os leigos. E assim o meu amigo dava a entender que perdia ou poderia perder a sua fé, coisa que eu não me lembro de nas celebrações da comunidade ou fora delas ter percebido nele. Mas agora é que perdia o que não tinha. 
Pelos vistos são bastantes os que por causa de não terem o que queriam, dizem ter perdido aquilo que não têm.

terça-feira, novembro 08, 2016

pessoas especiais

Veio uma filha falar comigo passadas umas horas da suposta missa de sétimo dia para me dizer que estava magoada porque não fizera nenhum tipo de homenagem ou referência à sua mãe. A intenção de missa da sua mãe era uma entre outras, e pedira para que fosse a primeira a ser referida na eucaristia. Mesmo assim, estava magoada, e nisso temos de ser compreensivos. São momentos de especial dor. E a sua mãe era especial. Para ela. Provavelmente não para as outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Mas era ela que desejava que eu fizesse da sua mãe o ser mais especial do mundo. Que era. Mas para ela. Que era, tal como as mães das outras dezenas ou centenas de pessoas que estavam na eucaristia. Pedi perdão por tê-la magoado sem intenção. E que não era meu costume fazer homenagens senão a Deus na Palavra que é lida em cada liturgia.

quarta-feira, novembro 02, 2016

Como serão os funerais quando não houver padres?

Como serão os funerais quando não houver padres? E quem os fará? 
Apetece-me deixar a questão assim, no ar, sem respostas, sem nuances, sem rodeios, sem certezas, sem vontade maior que fazê-la sem elaborações. 
Contudo, depois apetece-me dizer que a Igreja é de Cristo e é natural que sempre haja padres. Digo eu. E também não se sabe se daqui por uns anos vão querer os padres a fazer funerais, quando já hoje muitos dizem à boca cheia que não querem padres para nada e garantem que não precisam deles. 
Ainda refaço a pergunta para me entender. Como serão os funerais sem missa? 
Mas não sei se me entendi. São perguntas que faço sem me dar conta que as faço. São perguntas de quem está a pensar nessa coisa que é não se precisar do padre para nada, como dizia há dias um jovem de óculos de sol. De quem vê o número de padres na europa cristã a diminuir. São perguntas de um padre que em algumas ocasiões precisava que aceitassem com fluidez, que é como quem diz, com naturalidade, que fosse o diácono a presidir ao funeral. Mas não. Não é fácil impingir um diácono nestas cerimónias. E já vimos porquê. Imensas razões culturais, sentimentais e outras que tais. Eu próprio sinto que são ocasiões de evangelização ímpares. Assim como é uma forma de a Igreja estar com quem sofre. É nosso dever estar presente no momento culminante da vida das pessoas, porque é esse que muitas vezes nos dá a vontade de Deus. Ou então não. Então é apenas a dor que precisa de ombro amigo que o padre pode ser por excelência. São só tolices, amigos, porque eu bem sei que devo estar presente o mais possível nestas ocasiões e não há volta a dar. 
Mas há dias, a propósito de alguém que queria missa para o pai, mesmo sem nunca ou quase nunca lá ir, nem pai, nem filha, mesmo que para isso o padre tivesse de sacrificar o seu único dia de folga, veio-me esta tolice ao pensamento (mesmo sabendo que o padre tem mais folgas do que as que precisa e que só tem trabalho aos domingos. Fora de brincadeiras). Mas se em vez de 60 ou 70 padres que uma diocese possua, passe a ter uns 10, com trinta paróquias cada um, quem fará os funerais? Como serão os funerais?

segunda-feira, setembro 05, 2016

cancro da mãe à porta

Ligou-me para dizer que o cancro da mãe estava com pressa. Se não reagir ao plasma que lhe vão injectar não terá muitas semanas de vida. Dizia ainda que a médica lhe mandara juntar um núcleo de apoio psicológico, caso precisasse. Cresceu sem pai, e fora a mãe quem a fizera crescer. Agora está a partir e não sabe que fazer. Tem o coração pequenino e pesado. Utilizava expressões que me fizeram pensar num daqueles grandes escritores com alma de sábios. Gostava que ela desse um pontapé no cancro, que escolhesse outra porta, que me acompanhasse mais uns tempos. Mas não dá. Claro que não dá. A vida aceita-se. A chamada telefónica fez-me pensar muito no último mês da minha mãe. Um mês de inquietação cada segundo desse mês. Um mês muito doloroso, mas muito especial. Porque foi o último mês que aproveitei da vida da minha mãe. 
Por isso lhe respondi, como sentia, que com tudo na vida aprendemos a viver, e não propriamente a deixar-nos viver ou a sobreviver. A vida e sofrimento da minha mãe ensinou-me coisas que não aprendia de outra forma. E assim respondi. Eu sei pelo que estás a passar e vai doer. Esta é a realidade. Mas não significa que a dor seja maior que tu!

nota: Escrevi este texto pouco depois da notícia que recebeu do cancro da mãe. 
Hoje publico porque faleceu ontem mesmo! A vida é para se viver!

segunda-feira, agosto 01, 2016

Atentados ou sublimados

Um muçulmano diz que precisa meia hora para rezar de manhã e o patrão dá-lhe autorização. Se um católico pede para ir à missa, não pode. Há que cumprir horários. Um muçulmano no hospital pede que não lhe dêem carne e já está. Não come carne. Um católico diz que não quer comer carne na quarta-feira de cinzas, e ou come carne ou não come nada. Se um artista plástico, como aconteceu em Espanha, decide fazer uma obra, a que chamou de arte, com hóstias consagradas roubadas, isso é arte e não tem mal. Mas se alguém propõe que se celebre uma Eucaristia na escola por alturas do Natal, isso não é de permitir, pois atenta contra aqueles que não são católicos. 
O Ocidente quer entrar em ruptura com a sua história, cultura e valores. Não me importuna que o faça. Mas não desta forma aviltante. Não de modo a perder-se, sem solução para se encontrar. 
Os que apregoam e exigem mais tolerância são geralmente os que menos tolerância têm para com a Igreja. De que terão medo? Ou qual a razão para tamanho incómodo? 
Os que apregoam mais liberdade e democracia são os que mais se impõem contra a Igreja e os valores que propõe. Os mesmos valores com que nasceram. Que pretendem afinal? Porque incomoda tanto a Igreja? 
Se há um atentado ao Charlie Hebdo é um atentado contra a liberdade de expressão. Se há um atentado numa discoteca gay, é homofobia. Se há um atentado em Nice, é atentado contra a liberdade, igualdade e fraternidade. Se há um atentado a um pobre homem de 84 anos, sacerdote, no meio da sua missão, é apenas mais um atentado. Assim como os milhares de cristãos, católicos ou não, que têm sido vítimas de violência em zonas fora da Europa. São apenas mais umas mortes. 
Quase apetece pedir ao Senhor Deus que encarne de novo, que venha por isto em ordem, ou que descarregue umas quantas rajadas neste mundo tão líquido. 
Ou então não. Podemos sempre pensar que o cristianismo tem esta capacidade de sublimação! Afinal, a cruz é o nosso sinal mais. O amor é a nossa melhor arma.

sexta-feira, abril 08, 2016

As não respostas que são resposta

A mãe gostara da homilia que eu fizera no funeral da sua filha. Porventura havia respondido às suas inquietações naquele momento indisível, que não se podia dizer porque seria o meu dizer e não o seu. Mas pelos vistos assimilou em si o que eu dissera na inocência da minha vontade de deixar Deus falar em mim. E o curioso é que não dissera quase nada. Ou melhor, não utilizara frases cliché ou dogmas que enfatizamos muitas vezes nas homilias para consolar ou para orientar o nosso olhar à Ressurreição. Simplesmente deixara quase tudo em aberto.
Recordo que apresentara algumas propostas de entendimento da morte, mas que deixara no ar afirmações de que não sabia tudo, pois que a forma de eu receber o mistério de Deus era diferente do contexto de qualquer outra pessoa. Não fiz o papel de quem não sabia que dizer, o que ocorre também muitas vezes no nada com que nos deparamos em funerais. Eu sabia o que estava a dizer. Só não queria apresentá-lo como encerrado numa doutrina sobre o mistério da morte.
Assumir em nós a incompreensão da morte é também assumir um Deus que se faz presente mesmo quando parece que nos faltam as palavras. Pelo menos foi o que pensei depois do comentário agradável daquela mãe. Espero que não tenha sido apenas complacente, mas aberta ao dom da morte que é tão incompreensível.

domingo, fevereiro 21, 2016

Deus resolve-nos a vida

Hoje não quero dar nome à pessoa que, em conversa, me disse que não entendia como Deus não nos resolvia os problemas que tínhamos e permitia que houvesse tanto sofrimento, mesmo de pessoas inocentes. Não quero dar-lhe nome, para que cada um possa ali colocar o seu. Porque sei que na nossa vida estas dúvidas aparecem apanhando-nos desprevenidos. A essas pessoas sem nome para dizer, eu hoje quero dizer. 
Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de as resolver. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida, mas interiormente. Basta tão só que O deixemos habitar em nós. Lá dentro Ele dará sentido a todo o nosso exterior.

quinta-feira, novembro 26, 2015

A auto-salvação

O padre António é um pouco mais novo que eu. Andámos na mesma escola e no mesmo Seminário com diferença de poucos anos. Há dias, ou semanas, tivemos a oportunidade de nos cruzarmos e cumprimentarmos num funeral. O padre António presidiu à celebração e, portanto, à homilia. Falou oportunamente da salvação que vem de Deus através de Jesus Cristo. Que bem falava o António. E recorria à frase conhecida de Jesus que se apresentava como o Caminho, a Verdade e a Vida, dizendo que este caminho que era Ele, era o mesmo que fazer como Ele, segundo o seu exemplo, virtudes, valores, os valores do Evangelho, para que assim pudéssemos chegar ao céu, ao céu da eternidade. Reconheço que de certa forma já falara assim do assunto, com essa explicação que parece óbvia. Mas ao escutar o António, e talvez porque não tinha que pensar no raciocínio do que dizer a seguir, recordei as famosas heresias de Pelágio e de Jansen. Conhecidas respectivamente por pelagianismo e jansenismo. E naquele dia dei por mim a reconhecer que esta forma de falar da salvação é mais uma auto-salvação que uma salvação por Jesus, é mais uma salvação por méritos que pela graça de Deus. Só Deus salva afinal. A nós resta-nos abrir o coração a essa graça tão grande que é o anseio maior da vida. A nós resta-nos o livre arbítrio. A Deus a graça da salvação.

segunda-feira, novembro 02, 2015

Homilia para funerais ou fieis defuntos

Estou a preparar a homilia para hoje, dia dos fieis defuntos. É das poucas ocasiões que podemos falar da morte sem os constrangimentos próprios da dor de um funeral. Podemos pensar a morte e dizê-la para que todos nos ouçam sem sofrer. Mas estou aqui às voltas e parece-me que não encontro as palavras certas. Vou pegar numa carta de S. Paulo onde fala que as coisas invisíveis são eternas e onde nos mostra a ressurreição de Jesus como sinal da nossa. Parece-me bem. Ando à volta de termos teológicos que nos dizem que a Encarnação de Jesus faz sentido pela Sua Ressurreição. Que nelas Deus assume a nossa condição humana para nos elevar à Sua condição divina. Mas temo que sejam apenas palavras.
Há uns anos uma jovem amiga contava-me que, ao escutar um colega meu, na sua paróquia, por ocasião dos funerais, este falava tão profundo e tão bem da morte, da ressurreição e da vida eterna, que quase lhe suscitava uma vontade estranha de morrer. Explicava depois que não era por desânimo com a vida, mas por entusiasmo. E olhem que este é o mistério central do nosso anúncio e da nossa missão!
Vou rezar ao Senhor para que na homilia que farei daqui a pouco seja Ele a falar, e para que quem nos escute aos dois sinta esse entusiasmo estranho por um dia poder viver na intimidade de Deus após a morte.

sábado, outubro 17, 2015

Vivemos como se não morrêssemos

Vivemos como se não morrêssemos, como se não tivéssemos de morrer. Num funeral é comum ouvir-se que todos temos de morrer. Mas são apenas palavras de quem sabe que é assim. Palavras que apenas têm significado por serem palavras ditas, mas que não se entendem na sua essência.
Só deveras pensamos nela quando nos toca perto, muito perto, num familiar directo que amamos, num amigo que nos faz falta para viver. Às vezes também ocorre numa pessoa de tenra idade que morre sem explicação ao nosso lado. E sempre numa dança que nos acorda e faz tremer.
Vivemos como se a morte fosse um dado adquirido, mas que pouco tem a ver connosco. A distância que vai entre ela e eu é a distância do não querer pensá-la na essência do que é. E como a morte é uma questão vital à fé, às vezes esta não acontece porque não acontece a morte, ou melhor, porque vivemos como se não morrêssemos.

quarta-feira, outubro 07, 2015

Para estar ao teu lado

O dia de hoje acordou como os outros. Escuro, cinzento, frio. Acordou para que nascesse e se tornasse claro, colorido, caloroso. A meio da manhã já o sol dizia bom dia e nos convidava a viver. 
Cada dia que passa é sempre ocasião para darmos graças a Deus pela vida que nos dá e pelo sentido que lhe dá, e porque nos quer oferecer uma vida ainda melhor. Cada dia que passa, afinal, escuro ou claro, cinzento ou colorido, frio ou caloroso, é um dia para caminharmos em direcção à Vida que o Pai nos teima em oferecer, aquela vida que só atingimos em pleno no céu, o céu de Deus. 
Em cada dia que nasce, nasce também a certeza de que este caminho é o Caminho. 
Mas hoje esta certeza veio a mim logo ao acordar, e teima em fazer-me rever cada passo que faço nessa direcção. E és tu, mãe, que mo lembras, porque o dia 7 de Outubro é, em todos os anos do calendário depois de 2001, o dia em que me apetece dizer ao Pai que quero muito ir para esse seu Céu, só que mais não seja para estar ao teu lado. 
Não queria que este dia voltasse. Porém, na verdade, é neste tipo de dias que melhor nos apercebemos que aqui estamos só de passagem, como caminhantes, para esse lado onde já estás.

domingo, julho 19, 2015

Se morresse

Se morresse com a idade da minha mãe, viveria pouco mais de vinte anos. Se morresse com a idade que o meu pai já tem, viveria ainda mais cerca de quarenta.
Não sei se tenho medo de morrer. Acho que não. Quando penso nisso, há um rosto de mistério que assusta, mas acalenta.
Se morresse daqui a pouco tempo, que levaria comigo? E pergunto-o sabendo que iria apenas um corpo vestido no caixão, provavelmente com a casula da minha ordenação. A pergunta é maior que o corpo, a roupa e o caixão. Que levaria? Que construí nesta vida? Que tenho feito do dom que Deus me deu?
Quando penso nos que amo e que deixaria, o corpo retorce-se em dor. De facto não quero deixá-los porque os amo, e quando se ama não se quer acabar essa coisa tão bonita que é o amor. Mas quando penso que também iria ao encontro do meu Deus que tanto amo, e que provavelmente iria experimentar a maravilha do amor mais misterioso e mais subtil, não sei bem que pensar.
Mas penso. E penso que ninguém fica nesta vida para ficar. O tempo passa e voa. Voa tão rápido como os segundos. Voa quase sem lhe sabermos o tempo e a duração.
Que mistério tão insigne, tão difícil de entender, tão estranhamente doloroso e tão grande ao mesmo tempo!

terça-feira, junho 30, 2015

um assunto a que não quero dar título

Há padres que se suicidam, e a notícia propaga-se, morbidamente, pelos corredores escuros dos claustros da vida. Nisto a comunicação social não se tem metido, não sei se por respeito aos falecidos ou seus familiares, se por ser uma realidade desconhecida, se porque na verdade o número é exíguo em comparação com aqueles que morrem de morte dita natural.
Mas a gente vai sabendo e, mais do que angustiar-se com a angústia, faz-se pergunta em nós da pergunta mais difícil que há. É a pergunta dos porquês? Fica-se assim a perguntar Porquê, ou porque é que a Fé não faz evitar estas coisas. Sim porque um padre deveria ser um exímio ser de Fé, e ela, que se saiba, responde como ninguém às questões da vida e da morte. Porém, o que nós esquecemos é que antes da fé a pessoa tem de ter resolvida igualmente a sua humanidade. Ninguém conseguirá um dia distanciar a sua fé da sua humanidade, ou usar apenas a fé. Nem os santos.
Outra pergunta que se faz, ou que é apenas minha e agora, é Porque é que ninguém se apercebeu ou fez alguma coisa, ou esteve ali presente para segurar o braço de quem se queria lançar no abismo. E também a resposta me veio sofrida, mas escorreita. Ninguém consegue viver nem sentir autenticamente Deus se não souber amar e viver essa maravilha do amor. Isso pode acontecer e expressar-se de muitas formas, mas tem de existir. Disso tenho a firme certeza. Pois é ou são esses amores que sustentam a nossa vontade de viver! Pois é ou são esses amores que estão ao nosso lado e nos podem segurar quando já não temos mão para agarrar ou não temos mão em nós.

sexta-feira, junho 12, 2015

O charlatão do restaurante

O meu cunhado é sócio de um restaurante onde vou de vez em quando visitá-lo e comer. Por lá sabem e comenta-se que ele tem um cunhado padre. Há dois dias fiz uma dessas visitas, e pedi, com fome, uma sopa e um segundo prato. Ainda não acabara a sopa quando um dos empregados me perguntou se o senhor ao balcão se podia sentar na minha mesa para conversar. Respondi que sim e fiz espaço.
O dito senhor apresentou-se como um charlatão de há três meses a esta parte. Advertiu que não acreditava em Deus, mas precisava falar. Enquanto espetava umas garfadas na comida, escutei os últimos três anos da sua vida, que vai nos setenta. A esposa tinha falecido com cancro há três anos e a filha há um com uma doença fulminante. Há três meses tinha-lhe sido diagnosticado um cancro inoperável, pois já não havia nada a fazer de tantas metástases. Não tinha medo da morte, mas precisava falar e eu, porventura, era um bom alvo de conversa. Ouvi sem o interromper muito, até nos fazerem sinal de que tinham de levantar a mesa. No final falei-lhe rapidamente de alguns casos idênticos que acompanhara e aos quais a fé ou a certeza de Deus dera a força que precisavam. Que Deus não nos resolvia os problemas, pois eles fazem parte da nossa vida aqui na terra, mas que dava a força necessária para os viver e para que o sofrimento pudesse ser algo revelador. Não quis concordar muito, mas à despedida, num aperto de mão agradecido, foi dizendo que ia pensar no que lhe disse e quem sabe se não se convertia.
Ao que lhe respondi que por algum motivo escolhera sentar-se ao lado de um padre para que o escutasse, e que eu aceitara exactamente pelo mesmo motivo.