Mostrar mensagens com a etiqueta matrimónio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta matrimónio. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O casal que não é casal

Foi na altura da Primeira Comunhão do filho mais velho. Bateram à porta os dois. Em sintonia. Truz, truz, truz. Três vezes que três é a conta que Deus fez. Ela encantara-se por ele assim que o viu. Ele encontrara nela aquilo que ainda não conhecia. Não se trata de um simples casamento civil. Uniu-os aquilo que Deus mais pediu entre os homens, o Amor. Hoje são felizes. Mas ele esteve casado com outra senhora. Uma que o atraiçoou várias vezes. Uma loiraça daquelas que não se contenta com o que tem em casa. Claro que o divórcio foi uma questão de tempo. Não tinham filhos. Foi um nadinha mais fácil.
Ela provém de família de laços cristãos. Apaixonou-se. Ele inclusive andou no Seminário. Colaboram na paróquia activamente. Mais importante ainda, sabem porque são cristãos. Que haviam de fazer? Queriam acompanhar o filho no sacramento da Eucaristia. Queriam participar plenamente. Sabiam que era importante a comunhão, a partilha de Cristo. Queriam mostrar ao filho que era mesmo assim. Não porque outros dissessem, mas porque os pais acreditam. Porém, eles não podiam. A Igreja afastara-os da comunhão. Eles até entendiam. Foi opção consciente dos dois. Mas não sabiam agora como fazer para com o filho. Como explicar. Ainda falei da hipótese remota de uma anulação do outro matrimónio. Baixei logo as defesas. Era mesmo remota. Ainda por cima a Primeira Comunhão era daí a dias. Já tinham pensado nisso muitas vezes. Comungavam por intenção, diziam. Mas agora. Agora não sabiam como agir. Nem eu propriamente. Falei, conscien-temente, da importância da felicidade e do amor. Depois, o que mais me custou, falei das leis da Igreja. Caramba, o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado! Cada caso é um caso! Mas calei este grito. Foi só meu. E para mim. Expliquei que Deus os amava. Mas não foi suficiente. Pelo menos para mim. Apeteceu-me dizer que Deus quer partilhar-se na comunhão com eles. Mas não disse. Calou-me a lei. Depois ainda abordei a questão como se de um escândalo pudesse vir a tratar-se. Pois que se não fosse, talvez até nem houvesse crise. Abordei a história da consciência, que se salvaguarda sempre. E lavei as mãos, como Pilatos. Ou sujei. Ou fizeram-me sujar.
Eles tranquilizaram a minha consciência. Nós explicamos-lhe, senhor padre. Fique descansado. Decidimos não comungar. Pode mesmo ser escândalo. Nesta terrinha é muito fácil fabricar escândalos.
Pensaram que sim, mas não sossegaram a minha consciência. Porque eles são gente de fé. São mesmo.