Mostrar mensagens com a etiqueta generosidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta generosidade. Mostrar todas as mensagens

sábado, novembro 17, 2012

O Seminário deixou de ser uma proposta

Foi durante uma missa festiva com e para as crianças. Abordei o assunto após a homilia que falava, a propósito da viúva de Sarepta e da que deitou duas moedas no Templo, que era mais importante dar-se que dar, dar-se o que se é do que o que se tem. Comecei assim como quem não quer fazer alarido. A propósito, hoje tem início a Semana dos Seminários. E voltei-me para as crianças que estavam atentas, perguntando se tinham conhecimento desta semana. Que não, não conheciam. Perguntei se sabiam o que eram os Seminários. Que não, não faziam a menor ideia. Se já tinham ouvido falar dos Seminários. Ou da boca dos pais, ou dos avós, ou na escola, ou aos amigos. Agora que lembro, não acrescentei a catequese. Nada, nunca tinham ouvido essa palavra sequer. Pronto. Acho que fiquei sem palavras, embora não me tivesse calado de imediato. Recordo que antigamente a cultura valorizava muito mais os padres e a mesma cultura achava que esta era uma boa proposta para propor aos meninos. Hoje as propostas são outras. Passam pelas engenharias, pelas medicinas, pelas advocacias, pelas doutorices. Embora eu ache que o valor dos padres está em Deus e não neles, embora eu ache que os padres não devam procurar reconhecimentos, embora eu ache que os padres devam ser um que conduz e vai ao lado, sem que espere que caminhem atrás ou à sua frente de joelhos, a verdade é que me incomoda que esta proposta tenha sido posta de parte, mesmo por aqueles que se acham católicos e vão à missa.

quarta-feira, maio 09, 2012

Esta é para ti, Diana, parte III, a bagagem

O irmão ligou-me há dois dias. Padre, a minha irmã precisa de si. É tão bom que precisem dos padres. É tão bom que precisem de nós. As coisas não estão bem. Nada bem. Explicou porque não estavam bem. Ela disse aos meus pais que gostava de ver duas pessoas. Uma delas é o senhor. É tão bom que o padre, como padre, seja o escolhido. É tão bom sermos escolhidos. Sabemos que lhe é difícil pelo tempo, pela disponibilidade, pela distância. Ela está em Lisboa, no hospital. Respondi que iria ainda esta semana. Ele respondeu que cada dia é sempre só mais um e que não sabia se havia outro. Deus arranjou então um dia. Deus arranjou uma forma de eu estar disponível num dia que, curiosamente, ficou disponível de um dia para o outro. Na bagagem levei-me só a mim. Deixei as dificuldades para trás. E agora que regresso de Lisboa, paro o carro para escrever tudo o que falámos. Venho com a bagagem cheia. Demoro mais de uma hora a escrever palavras, sentimentos, certezas. Tudo o que falámos e me encheu a bagagem. As horas da nossa conversa e do nosso encontro fizeram deste dia um dos melhores dos meus últimos tempos e da minha fé. Obrigado, Diana.

Para entenderem melhor este post devem ler de novo "Esta é para ti, Diana, parte I" e "Esta é para ti, Diana, parte II". Este texto em concreto foi escrito há mais de um mês, ainda no período da Quaresma. Nos próximos tempos, vou aqui colocar vários textos que escrevi nessa ocasião. Aos poucos perceberão porquê e para quê.

quinta-feira, março 22, 2012

O Carlos que é meu sacristão

O Carlos é meu sacristão e tem uma pequena quinta. Tem algum vivo. Nos animais e na terra está grande parte da sua vida. Mas como não tem chovido, a sua vida está a secar. É um homem de fé. Olho para o seu rosto, e imagino que os santos são assim. Quanto mais o conheço, mais o admiro do fundo do meu coração e da minha fé. Mesmo que cometa algum erro, não consigo zangar-me com ele. Basta olhar o seu rosto para que a minha chamada de atenção passe a ser apenas um ensinamento acompanhado de um sorriso. O Carlos tem rezado para que chova. Disse-me que pedia a Deus que chovesse, mas também não se zangava com Ele por não chover. E no outro dia, contou-me, estava já na cama quando sentiu o cheiro de ar sem pó de quando acaba de chover. Levantou-se, ajoelhou-se ao lado da cama, e agradeceu a Deus. Foi um gesto muito pequeno e simples. Aliás, muito natural no Carlos. Mas eu logo pensei que não seria capaz de me levantar para me ajoelhar e para agradecer a Deus com esta simplicidade e ternura. Olhei novamente o seu rosto, e mais uma vez tive a certeza que os santos não estão todos nos altares.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Não há engano que pague a nossa generosidade

A senhora entrou pela porta da sacristia adentro com uma criança pela mão. As crianças dão credibilidade às conversas. Precisava falar consigo em particular. Não a conhecia. Mas também não conheço a maior parte dos meus paroquianos. Aconteceu-me um desaire. Disse. Somos lá de cima do Norte, embora não tivesse especificado o norte exacto. Em tempos o meu marido tirou muitas fotografias aqui. Viemos de passeio. Aconteceu que ao colocar nosso cartão multibanco na máquina, ela ficou com ele. Não temos dinheiro para o gasóleo. Podia emprestar-nos, pelo menos, cinquenta euros? Tenho aqui os meus documentos que posso mostrar-lhe. Não mostrou. Sou professora. Não mostrou. Apontou a morada da paróquia para me reembolsar. À pressa. Meti a mão ao bolso. Todo o dinheiro que tinha eram quarenta e cinco euros. É o que tenho. Não fiquei nem com cinco euros para o café. Desde o princípio me pareceu uma história estranha. A máquina comer o cartão? Uma família moderna ter um só cartão? Os padres são potencialmente alvos fáceis. A pressa de ir para outro lado não me dava tempo para pensar. As crianças dão credibilidade aos pedidos. Não eram propriamente necessários cinquenta euros para o depósito chegar ao norte. Mas o dinheiro que tinha no bolso foi-se todo. Mal virei costas disse convicto para mim mesmo que tinha sido enganado. Mas também se não fui, a situação era por demais constrangedora para ambos. Eu costumo dizer aos pedintes que tenho muita gente para ajudar e ajudo. Desta vez desculpei-me dizendo que era mais importante a minha generosidade que o suposto engano da senhora. Não há engano que pague a nossa generosidade. A ver vamos.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Uma passagem de ano com sandes

O Mário tem pouco mais de vinte anos. Não é bem como os outros jovens da sua idade porque a maioria deles anda a gastar dinheiros, tempos e, às vezes, estudos, nas Universidades e afins. O Mário optou por deixar os estudos, juntar os trapos com a Vera, e trabalhar para sustentar a primeira filha, primeiro, e agora a segunda. O Mário tem pouco mais de vinte anos. Mas que interessa a idade quando a vida nos ensina que ser jovem nem sempre é sinónimo de ter facilidade de emprego ou ter futuros garantidos. Conheço o Mário há tempo suficiente para perceber o que lhe vai na alma e no coração, mesmo sem ele dizer uma palavra. Gosta de desabafar comigo. Gosta de confiar em mim. Não fala muito. Guarda-se. Mas quando fala, parece que nunca mais acaba a história das coisas que conta. Uns dias antes do ano mudar de 2011 para 2012 esteve comigo, e falou. As coisas não estão fáceis desde que perdeu o último emprego já lá vão dois meses. Tem dívidas de empréstimos e já perdeu a casa. Mora em casa emprestada. Com o pouco que ganhava, conseguia ter uma vida organizada. Mas agora tem a vida organizada que os amigos lhe organizam com pequenos sacos do lidle ou pingo doce. Dizia-me que havia almoços em que a mesa tinha apenas umas sandes. A filha mais velha comia na creche, o que era uma sorte, pois não pagavam. A mais nova ainda tem o leite da mãe. O Mário e a Vera são jovens de hoje, dos tempos modernos, e têm almoços de sandes sem macdonald. A emigração está à vista, e até lá, que hajam mais pequenos sacos a entrar em casa. Na passagem do ano veio-me este diálogo ao pensamento. Imaginei-os à mesa com umas sandes. Imaginei-os o ano todo à mesa com umas sandes. O que vai ser deste país e dos jovens deste país?

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A oração antes do jantar

A casa fica ao cimo, quando se vai para o monte, do lado esquerdo. É amarela. Quando lhe bate o sol, torna-se doirada. Mas é discreta. Foi comprada a um doutor que gostava da claridade do sol. A casa fica muito iluminada. Hoje ainda está mais iluminada. Fora convidado a jantar por lá, com a família. São ambos professores. Dedicam-se a ensinar. São novos, mas têm vários filhos. Os que são do seu sangue e aqueles que o coração permite. Vão adoptar pelo menos um. Estavam sete pratos na mesa, o número da perfeição. O meu prato completara o número sete. Quis pensar que era algo fantástico. Quis comentar o número. Porém, como não me achei digno para fazer alusões a um número que me é tão distante, não o fiz. A mesa tinha uma simplicidade notória, mas estava recheada dos sinais próprios de uma visita. Senti-me uma daquelas visitas que é importante porque é assinalada a sua presença, a presença da visita, mas que ao mesmo tempo é tão próxima que não precisa de grandes requintes. Senti-me bem.
Depois de sentados, convidaram-me a rezar. Costuma ser função minha quando janto fora. Desta vez não convidara e fora convidado. A estranheza maior veio de seguida. Mas, senhor padre, temos uma forma de rezar diferente. Se não quiser, passamos à oração dita normal. Foram exactamente estas as palavras. Respondi que estava ali para jantar com eles e era com eles que queria jantar do princípio ao fim. Olhe, padre, antes de rezar propriamente, fazemos um pequeno exercício. É como um exame de consciência. Todos têm de contar o que de mais negativo e o que de mais positivo lhe aconteceu ao longo do dia. Começou o pai. A mãe fez algumas perguntas. Pediu algumas explicações. Depois foi a mãe e o pai fez as perguntas. Ficaram a saber o dia um do outro. Depois os filhos que contaram, alegres, o seu dia. Era-lhes mais fácil descobrir o que gostaram mais do que o que não gostaram muito. Reservaram-me o último exame. Falei com à vontade. Foi isto e isto. Deixaram-me à vontade. Não fizeram perguntas. Mas expliquei-me na mesma. Deu-me vontade. No final agradeceram a Deus o que tinha sido aquele dia. Não sei se a comida ainda se mantinha quente. Também não foi importante, porque o melhor de um jantar em casa de paroquianos é estarmos bem.

sábado, maio 09, 2009

Quinze maçãs especiais

A ti Maria é uma figura ímpar. Usa, como bom costume, o preto. Lenço na cabeça. Rugas na face. Sobrolho em riste. Poucos dentes. Lembra um filme de Manoel de Oliveira, mas em género comédia. Tem atitudes engraçadas, que lhe são sempre perdoadas, pela figura. Trabalha imenso no campo, na sua horta de passatempo. Macieiras, oliveiras, couves, batatas, cenouras, tomates. Com as pitas e os recos. Passa por lá grande parte do tempo, que a vida está difícil e precisa estar ocupada para evitar pensamentos vãos ou pouco saudáveis. É generosa. Cultiva para si e para dar. Partilha o que tem e o que não tem. Por isso bateu-me à porta com um saco na mão. Não eram mais que umas quinze maçãs que o peso da idade não suporta facilmente o peso de muitas maças. Mas a generosidade suporta quinze maças. Digamos antes umas maçãzitas que, confirmei depois, possuíam uns sinais acastanhados da idade e do prazo. Senhor padre, trago-lhe este saquito. Não é muito, mas é de bom grado. Estava para as levar para os porcos, mas depois lembrei-me do senhor, e trago-lhas aqui com muita amizade. Aceitei-as com a mesma amizade, porque é importante para o cristão saber receber e aceitar. Mas fi-lo à pressa, para ter o tempo necessário de me conter. Contive-me até fechar a porta e depois desatei às gargalhadas sozinho. Sim senhora, a consideração era tão genuína como castiça. Estava para as levar para os porcos, mas depois lembrei-me do senhor.