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terça-feira, fevereiro 09, 2016

A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima

A Sónia é uma pequenita da terceira classe. A mãe tem uma das doenças do século, o cancro. ESta tem sofrido imenso, embora sem perder o ânimo de Deus. A Sónia percebe que a mãe sofre. A Sónia gostava de tirar a dor à mãe. A Sónia disfarça, mas sofre com a mãe. Uma vez unidas pelo cordão umbilical, toda a vida unidas. 
Encontrei-as em Fátima numa noite destas. A mãe costuma procurar-me para desabafar e contar da forma como vai lidando com a doença. Por isso aproveitámos a ocasião para uma actualização rápida. Desta vez tinha algo especialmente bonito para contar. Veja, padre, eu que não sou muito destas coisas, hoje decidi dar duas voltas de joelhos à Capelinha. Sabia que era doloroso. Sabia que não é o que mais Deus quer. Ou Nossa Senhora. Mas nesta etapa da minha vida, tento tudo. Não se tratava de uma promessa. Era tão só uma vontade. E pensei fazê-lo sem a pretensão de que Deus me cure. Era mesmo só para que Deus me desse força. E nisto, repare… Fez uma pausa para deixar sua cara sorrir… Imagine que a Sónia não deixou e disse que o faria por mim. Disse-o convictamente e impondo a sua vontade. Fê-lo, padre, com um sorriso a olhar o meu sorriso e as minhas pequenas lágrimas. E depois de dar duas voltas, veio dizer-me. Olha, mãe, dei duas voltas por ti. Agora dou mais três por mim. 
E eu que pensava que sabia o que ia no coração das pessoas que fazem estas coisas! 

vem a propósito este texto que escrevi em tempos: A criança do Santuário

quarta-feira, outubro 07, 2015

Para estar ao teu lado

O dia de hoje acordou como os outros. Escuro, cinzento, frio. Acordou para que nascesse e se tornasse claro, colorido, caloroso. A meio da manhã já o sol dizia bom dia e nos convidava a viver. 
Cada dia que passa é sempre ocasião para darmos graças a Deus pela vida que nos dá e pelo sentido que lhe dá, e porque nos quer oferecer uma vida ainda melhor. Cada dia que passa, afinal, escuro ou claro, cinzento ou colorido, frio ou caloroso, é um dia para caminharmos em direcção à Vida que o Pai nos teima em oferecer, aquela vida que só atingimos em pleno no céu, o céu de Deus. 
Em cada dia que nasce, nasce também a certeza de que este caminho é o Caminho. 
Mas hoje esta certeza veio a mim logo ao acordar, e teima em fazer-me rever cada passo que faço nessa direcção. E és tu, mãe, que mo lembras, porque o dia 7 de Outubro é, em todos os anos do calendário depois de 2001, o dia em que me apetece dizer ao Pai que quero muito ir para esse seu Céu, só que mais não seja para estar ao teu lado. 
Não queria que este dia voltasse. Porém, na verdade, é neste tipo de dias que melhor nos apercebemos que aqui estamos só de passagem, como caminhantes, para esse lado onde já estás.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

uma mãe a falar da fé

Foi-me dito por uma mãe de uma idade próxima aos quarenta, após um encontro com os pais daqueles que vão fazer a festa da vida e durante o qual se falou abertamente sobre questões de vida e de fé. Reproduzo-o porque me deslumbrou o que me contou. Não vou conseguir usar tão bem das palavras que ela usou. Mas foi mais ou menos assim. Senhor padre, eu queria tanto, mas tanto, que os meus filhos percebessem em mim a importância de ter fé, que às vezes até exagero. Procuro testemunhá-lo com a vida, mas ainda assim eles não conseguem perceber-me, e fico triste. Porém não desisto. Compreendo que não lhes posso impor nada e que eles estão numa fase complicada. O mais velho tem quinze anos. Vem de uma hora de catequese e diz que não aprendeu nada ou que não se lembra. Que não entende porque tem de ir à catequese. E há uns dias tiveram um grande diálogo em casa sobre estes assuntos. E que lhe disse: meu filho, enquanto tu tiveres tudo para te sentires satisfeito e preenchido, é óptimo. Mas quando deixares de o ter, também podes continuar a sentir-te satisfeito e preenchido. É isso que a fé faz. Por isso ela é tão importante.
Fiquei de boca à banda com o que ela falou ao filho. É mesmo isso que faz a fé. E para atestá-lo estão milhares de homens e mulheres que, embora ficando sem nada, envelhecendo, perdendo as capacidades e as forças da vida, continuam com uma vida cheia, preenchida e satisfeita, porque a fé lhes dá o que as outras coisas já não conseguem dar. Claro que a fé não é supletiva. Ela não substitui. Preenche. Preenche a vida.

quinta-feira, outubro 02, 2014

nulidade do matrimónio

Tenho um amigo que andou quase dez anos a tentar anular um casamento que deveras nunca lhe existiu. Eu disse de propósito a palavra “anular” porque era assim que ele pensava antes de se dar conta que “anular” era dizer que queria acabar com algo que existira. Afinal não existira. Por isso passou a pedir a “nulidade” do seu casamento. A sua vida tinha sido um embuste. Entretanto, descobrira a fé e Deus. Queria começar tudo de novo. Queria participar com todas as letras nos sacramentos, mormente no que o fazia ser parte de uma comunidade concreta e viva, a Eucaristia. Não podia. Durante anos, em tribunais eclesiásticos, juntou forças com desânimos, vontades com paciências. Pedia a nulidade do matrimónio. Era um sacramento que nunca fora. Um casamento que nunca fora. Tem filhos desse tempo. Não se arrepende. Da vida nunca nos devemos arrepender. Mas queria a verdade. Sobretudo a verdade da fé. A Verdade que descobrira em Deus. A verdade que lhe era vedada por uma lei que até fazia o seu sentido. Sim, ele sabia que fazia sentido. Só não sabia que o sentido de uma lei estava acima da vida e da fé. Hoje, num autêntico casamento, é feliz e aproveita o tempo e a voz que possui para dizer que agora não só tem um casamento autêntico como tem uma fé preenchida. Conheço mais casos de gente que a meio do seu percurso de vida e de fé se acharam, muitas vezes sem culpa medida, com um Deus que lhes é próximo mas que lhes pede uma certa distância. Sinceramente, como padre, como pastor, como pároco, como amigo, como crente, eu acho que devemos dizer sempre que o melhor caminho para fazer o caminho é aquele que não tem buracos na estrada, que tem um asfalto de topo, que não tem portagens. Mas quem percebe de carros sabe que nem sempre o carro está como novo. E quem percebe de condução sabe que nem sempre o condutor está em condições. Há cansaços, há sonos, há adrenalinas, há distrações. E assim os caminhos para chegar ao outro lado nem sempre são os que vêm no GPS. Como fazer? Fazemos um stop forçado na estrada para impedir que se chegue ao destino, ou ajudamos a pessoa que se enganou no caminho a voltar ao caminho?

quarta-feira, maio 28, 2014

Os Migueis e as Saras das nossas catequeses e paróquias

O Miguel anda no sétimo ano e também anda na catequese. Há dias a catequista convidou o seu grupo a participar na Eucaristia após a catequese. Os miúdos já estavam no corredor quando o Miguel disse Eu não vou. Era o que me faltava. Só se me obrigarem. Eu ia a passar, ouvi e meti conversa, perguntando-lhe porque é que não queria ir à missa, ao que me respondeu. Eu vou, senhor padre, senão a catequista pode marcar-me falta. Sorriu com ar de malandro. Eu também fiz o mesmo sorriso. Anda. E foi, mas foi como foi.
A Sara anda no sexto ano e também anda na catequese. Em conversa confidenciou-me que gostava muito de ir à missa, mas que a mãe não queria e quase não a deixava ir. Ela insistia, pedia, mas a mãe tinha mais que fazer. Fez um olhar triste. Eu também fiz o mesmo olhar, mas mais compreensivo que acusador.
Há muitos Migueis e Saras nas nossas catequeses e nas nossas paróquias. E questiono-me que adianta termos catequeses assim, termos paróquias com cristãos assim. E questiono-me se a catequese serve ou não para levar as pessoas à fé. E questiono-me se devemos andar a alimentar paróquias assim. E questiono-me o que Deus se questionará. E mais não quero questionar, porque senão deixo de ser eu para ser a questão.

quinta-feira, março 20, 2014

Feliz dia do pai

Estava aqui sentado, com a janela fechada e uma temperatura primaveril, quando senti entrar-me pelas costas, ou pela espinha dentro, um arrepio de frio. Olhei na direcção da janela para verificar se estava mal fechada. Não estava. Eu é que deixara o peso dos pensamentos crescer na cadeira onde estava sentado, e arrefecera entretanto.
Hoje levei o meu pai a jantar. Depois dos meus serviços fiz uma série de quilómetros para o levar a jantar, que hoje é dia do pai. Está entradote o meu pai. Está muito capaz. Mas está entradote na idade e na vida. Hoje estava doente com uma grande constipação que se notava na voz. Queria dizer-lhe tudo o que um filho deve dizer a um pai, e disse algumas coisas. Despedimo-nos com um Eu Amo-te muito, pai, e ele respondeu que também me amava muito. Mas as minhas palavras pareceram-me poucas face ao que lhe devo. Deve-se tanto a um pai! E quando se vê a vida a passar, perguntamo-nos que será da nossa vida quando a vida nos levar os nossos pais? Já sei o que é perder uma mãe. Mas ainda não sei o que é ficar completamente sozinho no mundo sem aqueles que nos deram a vida, a oportunidade de ser, e nos criaram para sermos. Ficar assim, a olhar para palavras que gostaríamos de dizer e confidências que gostaríamos de fazer. Ficar assim, a olhar o mundo de forma despernada. Ficar assim, cortados todos os cordões umbilicais, a pensar que a vida fica sem ter a quem se agarrar da forma mais gratuita que possa existir. Ficar assim a pensar que a vida passa depressa e a nossa não pára para descansar. Ficar assim, com uma sensação de que já não temos mais ninguém que nos ame como nos amam os pais.
Fiz os quilómetros de volta a casa, onde moro na paróquia, num passo desacelerado, esquecido no rosto cansado do meu pai. Não me imagino sem as comidas que me faz, a custo, quando vou lá a casa. Não me imagino sem as preocupações que ele me dá, garantindo que a minha vida de filho faz sentido. Não me imagino sem as suas orações. Não me imagino sem os seus ensinamentos preocupados. Não me imagino não ter a quem ligar todos os dias. Não me imagino chegar a casa para a minha folga e entrar nela sozinho, para ficar nela ainda mais sozinho.
Um pai não tem definição, porque um pai não se explica. Ama-se. Um pai é aquele ser que nos faz ser o que somos. E depois é aquele que, na velhice, nos ajuda a ser como devemos ser.
Dá-me vontade de abrir a janela para entrar todo o frio do mundo a fim de sentir que estamos vivos, eu e o meu pai. Mas não abro. Antes me ocorre outro pensamento que me enterra e arrefece ainda mais na cadeira. E quem um dia cuidará de mim, quem se preocupará com a minha vida envelhecida, quem falará de mim assim com palavras como estas, e me dirá Eu amo-te muito, pai?

domingo, maio 05, 2013

a minha mãe está viva

Hoje apoderou-se de mim uma vontade de ti. Não era uma vontade dos teus beijos ou dos teus abraços. Nem do teu colo. Era uma vontade de ti. Na primeira missa do dia lembrei-me vagamente do teu dia, que não é exclusivamente teu, mas de todas as mães. Na segunda missa, depois de uma oração que uma jovem mãe leu durante o momento da acção de graças, valeu-me que estava sentado e pude contrair-te toda em mim, atrás do altar. Na terceira, escapaste-me numa lágrima, quase ao final da missa. Hoje fui obrigado, entre aspas, a celebrar uma quarta missa de festa. E foi nesta que mais se apoderou de mim uma vontade de ti, mãe do meu coração e da minha alma, da minha vida e do meu ser, da minha vocação e da minha fé. Foi como se uma saudade me tivesse apertado contra ti. Busquei as palavras da oração das oblatas, mas elas teimavam em desaparecer do livro em cima do altar. Teimavam em desviar-se do lugar que deviam ocupar, de tão nubladas que se encontravam. Dei por mim sem conseguir olhar o meu povo na festa, engasgado nas palavras e no gesto de pegar no lenço de papel para me limpar. Todos na assembleia daquela missa sabiam que a minha mãe partiu já lá vão vários anos. Quando a força me chegou à voz, esclareci da minha fé, que se me perguntassem se eu queria a minha mãe junto de Deus ou longe de Deus, escolheria sempre a primeira opção. Por isso estava feliz por ela já lá estar, agarrada pela mão mais carinhosa do Deus que amo, aquela mão que está sempre aberta. Por isso dava graças, embargadas de lágrimas, a Deus. Um crente deseja que os que mais ama estejam o mais próximo de Deus. Por isso dava graças, embargadas de lágrimas, ao Deus que quis a minha mãe.
Naquela missa de festa uma outra jovem mãe ousara ler uma frase que tiniu em mim e ainda não saiu. Uma mãe nunca morre. E agora ouso acrescentar que enquanto houverem filhos, uma mãe nunca morre. Só morre quando os filhos morrem. E eu não quero que morras nunca.
Obrigado, Senhor, neste dia da mãe, porque a minha mãe está viva.

terça-feira, outubro 09, 2012

Estava capaz de gritar

Estava capaz de gritar. Estava capaz de gritar em plena missa, anteontem, Domingo, dia de Nossa Senhora do Rosário, faz onze anos que a minha mãe faleceu. Era um Domingo, tal como anteontem. Era um final de tarde, seriam umas seis horas. Anteontem, seriam umas sete, a família, junta por outros motivos, acabou por ir, igualmente junta, à missa que também se celebrava pela mãe. Desta vez fiquei do lado de lá. Fiquei do lado de lá do altar. Estava cansado. E não só. De vez em quando acho bom rezar do lado de lá, do lado diferente, do lado que me é mais estranho. Para quebrar a monotonia. E para experimentar o que é ser simplesmente leigo. Cada um deve celebrar a missa com o seu ministério ou função. Concordo. Mas de vez em quando, onde nem nos conhecem, sabe bem estarmos no meio da multidão, a sentir como a multidão sente. Reconheço agora que a maior parte dos sentimentos que tive durante a missa não eram os da multidão. Eram os meus. Eram a minha mãe. No início da missa o padre enganou-se e não leu o nome correcto da mãe ao anunciar a intenção. Sei como são estas coisas e não me importei. Mas a partir daquele momento, o meu pensamento voou na tua direcção, mãe, e a missa foi um quase só pensar em ti. Por isso estava capaz de gritar. Houve ali um momento, enquanto o padre falava e falava, em que me apeteceu interrompe-lo para gritar. Que a minha mãe morreu faz onze anos e queria tê-la por cá. Depois perguntava porque é que se tem de morrer numa idade imprevista. Constatava como são imprevistas as doenças e com o arrastar do tempo elas aparecem mais frequentes e são mais prováveis. Parece que estão latentes no subconsciente de alguém e saltam para fora para morrer. Depois falava do cancro da mãe para dizer que ela não se queixava, porque tinha fé e amava o Deus que lhe tinha dado a vida. Essa vida. Gritava o mais que pudesse para dizer que aquela mulher que é santa, que é de Deus, e que soube aguentar firme na dor e na vida, era a minha mãe. Queria exibi-la com orgulho, como se os outros quisessem saber alguma coisa disso. Não me zango com Deus. Também não adiantava, porque a vida e a morte vão continuar a ser como são. Fogem do nosso controle. Por isso é que Deus é Deus e nós não. Sei que o tempo que vai entre o início da vida e o início da morte é apenas o projecto de Deus para cada um, e que cumpri-lo seria o objectivo maior do nosso existir, sob pena de a nossa vida não valer de nada e para nada. Mas anteontem estava capaz de gritar, porque nem sempre nos apetece fazer a vontade de Deus, ou cumpri-la, ou aceitá-la. E a minha mãe estava ali bem presente, na minha missa. E pouca gente deu conta disso.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Uma passagem de ano com sandes

O Mário tem pouco mais de vinte anos. Não é bem como os outros jovens da sua idade porque a maioria deles anda a gastar dinheiros, tempos e, às vezes, estudos, nas Universidades e afins. O Mário optou por deixar os estudos, juntar os trapos com a Vera, e trabalhar para sustentar a primeira filha, primeiro, e agora a segunda. O Mário tem pouco mais de vinte anos. Mas que interessa a idade quando a vida nos ensina que ser jovem nem sempre é sinónimo de ter facilidade de emprego ou ter futuros garantidos. Conheço o Mário há tempo suficiente para perceber o que lhe vai na alma e no coração, mesmo sem ele dizer uma palavra. Gosta de desabafar comigo. Gosta de confiar em mim. Não fala muito. Guarda-se. Mas quando fala, parece que nunca mais acaba a história das coisas que conta. Uns dias antes do ano mudar de 2011 para 2012 esteve comigo, e falou. As coisas não estão fáceis desde que perdeu o último emprego já lá vão dois meses. Tem dívidas de empréstimos e já perdeu a casa. Mora em casa emprestada. Com o pouco que ganhava, conseguia ter uma vida organizada. Mas agora tem a vida organizada que os amigos lhe organizam com pequenos sacos do lidle ou pingo doce. Dizia-me que havia almoços em que a mesa tinha apenas umas sandes. A filha mais velha comia na creche, o que era uma sorte, pois não pagavam. A mais nova ainda tem o leite da mãe. O Mário e a Vera são jovens de hoje, dos tempos modernos, e têm almoços de sandes sem macdonald. A emigração está à vista, e até lá, que hajam mais pequenos sacos a entrar em casa. Na passagem do ano veio-me este diálogo ao pensamento. Imaginei-os à mesa com umas sandes. Imaginei-os o ano todo à mesa com umas sandes. O que vai ser deste país e dos jovens deste país?

terça-feira, setembro 27, 2011

um Instante

Uma lágrima. Duas lágrimas. Três lágrimas. Conto-as enchendo os olhos. Deixo de as contar enchendo o coração. Enchem-me todo por dentro. Prendem-me. E solto-as em liberdade. Deixo-as ir, rua abaixo. As ruas das minhas paróquias e dos que amo. As ruas dos que me fizeram feliz e dos que me fizeram sentir que vale a pena ser padre. Em dois meses percebi o que foram onze anos. Tudo passa num instante. Mas é o instante de Deus. É a Ele que agradeço tudo. É a Ele que devo tudo. E àqueles que aprendi a amar e a nunca esquecer.
(...)

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A oração antes do jantar

A casa fica ao cimo, quando se vai para o monte, do lado esquerdo. É amarela. Quando lhe bate o sol, torna-se doirada. Mas é discreta. Foi comprada a um doutor que gostava da claridade do sol. A casa fica muito iluminada. Hoje ainda está mais iluminada. Fora convidado a jantar por lá, com a família. São ambos professores. Dedicam-se a ensinar. São novos, mas têm vários filhos. Os que são do seu sangue e aqueles que o coração permite. Vão adoptar pelo menos um. Estavam sete pratos na mesa, o número da perfeição. O meu prato completara o número sete. Quis pensar que era algo fantástico. Quis comentar o número. Porém, como não me achei digno para fazer alusões a um número que me é tão distante, não o fiz. A mesa tinha uma simplicidade notória, mas estava recheada dos sinais próprios de uma visita. Senti-me uma daquelas visitas que é importante porque é assinalada a sua presença, a presença da visita, mas que ao mesmo tempo é tão próxima que não precisa de grandes requintes. Senti-me bem.
Depois de sentados, convidaram-me a rezar. Costuma ser função minha quando janto fora. Desta vez não convidara e fora convidado. A estranheza maior veio de seguida. Mas, senhor padre, temos uma forma de rezar diferente. Se não quiser, passamos à oração dita normal. Foram exactamente estas as palavras. Respondi que estava ali para jantar com eles e era com eles que queria jantar do princípio ao fim. Olhe, padre, antes de rezar propriamente, fazemos um pequeno exercício. É como um exame de consciência. Todos têm de contar o que de mais negativo e o que de mais positivo lhe aconteceu ao longo do dia. Começou o pai. A mãe fez algumas perguntas. Pediu algumas explicações. Depois foi a mãe e o pai fez as perguntas. Ficaram a saber o dia um do outro. Depois os filhos que contaram, alegres, o seu dia. Era-lhes mais fácil descobrir o que gostaram mais do que o que não gostaram muito. Reservaram-me o último exame. Falei com à vontade. Foi isto e isto. Deixaram-me à vontade. Não fizeram perguntas. Mas expliquei-me na mesma. Deu-me vontade. No final agradeceram a Deus o que tinha sido aquele dia. Não sei se a comida ainda se mantinha quente. Também não foi importante, porque o melhor de um jantar em casa de paroquianos é estarmos bem.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

O instante que passa num instante

Cada ano é mais um ano. Disso ninguém duvida. Até aos dezoito somam-se numa lentidão que até custa. A partir dos dezoito, a velocidade é aquela que as multas permitem ou impedem. A partir de uma certa idade, que nem vale a pena explicar ou definir, os anos somam-se a correr. Já não olhamos o presente. Temos apenas olhos para o passado que já foi e o futuro que está tão perto. E depois ainda existem alguns dias do ano em que tudo passa com a velocidade do sol. São os dias que acabam e começam os anos. São aqueles dias em que agora é um ano e num instante, que é um segundo, já é outro ano. É aquele instante que teimamos em contar com doze segundos e doze passas. É aquele instante em que as doze passas têm de ser engolidas a correr e a saltar de alegria. Uma alegria que contrasta com a sensação de envelhecer. É aquele instante que passa num instante.
E é nesse instante que a vida passa na nossa frente cheia de desejos, de intenções, de vontades, de promessas, de esperanças. Não temos tempo suficiente para pensar na vida, mas cuido que ninguém ousa passar este instante sem pensar na sua vida. Recordo que no ano em que a minha mãe faleceu, passei vinte minutos em silêncio numa varanda aberta para as luzes da noite. O silêncio natural das lágrimas. Era com a minha mãe que costumava passar aquele instante famoso do agora é um ano e agora já é outro. Já lá vão umas décadas. A pele ainda era macia. Ainda não tinha sido endurecida pela vida. A penugem começava a parecer-se com uma barba. Devia ter uns dez, onze, doze anos. Já andava no Seminário. Já sabia muitas coisas e faltavam-me saber milhares. Mas levava tudo a sério. E recordo que na passagem de ano toda a gente lá de casa saía para a noite. Conhecia o significado da noite, pois também saíra algumas. Mas na passagem de ano não. Ficávamos apenas eu, meu pai e minha mãe. Uns minutos antes da hora marcada para mudar de ano, já a minha mãe estava na cama, sentada, passando as contas do terço. Nalgumas dessas ocasiões o meu pai também estava com ela. Eu vestia o meu pijama verde-claro, entrava dentro dos seus lençóis, e sentava-me a seu lado. Pegava no meu terço, igualmente verde-claro, aquele que no escuro ficava iluminado, e contava ave-marias com minha mãe. Passávamos aquele instante com a oração do terço. Não imaginam o que eu sentia. A alegria que era poder partilhar aquele instante com Deus e com a minha mãe. Parecia que o ano seguinte se enchia deles os dois. E com eles, os desejos, as intenções, as vontades, as promessas, as esperanças tornavam-se certezas.
Com os anos, aquela forma de passar aquele instante passou ao esquecimento, porque as passas dos amigos caíram-me nas mãos e deixei-me levar pela corrente do engole passas, berras naquele segundo, bates nos tachos, beijas toda a gente, ligas aos mais chegados, e ponto final.
Por isso hoje não vou pegar nas passas. Vou pegar nos amigos que estiverem ao meu lado. E vou levá-los comigo a rezar uma pequena oração. Talvez o Pai Nosso porque gosto muito dele. Preciso de um ano cheio de certezas.

sábado, julho 31, 2010

O caso descaso!

Dirijo-me à conservatória do registo civil. Vou apressado porque é o último dia para entregar a acta do casamento de sábado. Temos três dias úteis para o fazer. Esqueci de retirar os óculos de sol. Está um calor insuportável. Entro e tudo se faz escuro. Continua, porém o calor. Estavam várias pessoas na fila de espera. Os padres já são conhecidos por tantas actas que entregam. Apesar de ser uma entrega simples e rápida, não quis ultrapassar ninguém da fila. Porém, de entre o escuro reconheço uma paroquiana. Olhamos um para o outro. Por aqui, padre? E tu também por aqui, Sofia? São as perguntas óbvias, como se não tivéssemos percebido que estávamos lá. Eu tinha a desculpa dos óculos escuros. Ela tinha a desculpa de estar de costas. Mas fizemos a aproximação normal das pessoas que se conhecem bem. Então que faz? Perguntou. Trago uma acta de casamento. Por acaso é do casamento deste sábado na paróquia. E tu? Trabalha num escritório de advogados e trazia um pedido de divórcio. Fiquei incomodado. Mas está a tornar-se normal e, sem querer, tentamos que seja normal para nós. Conheço? Tornei. São o José e a São, padre. Os do supermercado. Os meus olhos estavam cobertos pelos óculos e foi o que valeu. Mas fez-se ainda mais escuro e mais calor. Enquanto acrescentava um casal ao número dos casados, na mesma hora ela acrescentava um casal ao número dos divorciados. Não era propriamente novidade que as coisas não andavam bem, pois já os tinha escutado a ambos. Mas não pensei que as minhas palavras e orações não tivessem o efeito desejado. O diálogo gerou-se a partir do caso e descaso das pessoas. O caso hoje e descaso amanhã. A admiração dos que duram mais de dez anos. A admiração pelos que duram dezenas de anos. O conservador explicava que ganhava mais com os divórcios. E eu disse que as famílias, os filhos, a sociedade perdiam. Olhe que se calhar temos mais divórcios por ano que casamentos, padre. Acrescentou. A conversa prolongou-se. Mas fugi dali assim que consegui. Pena que não deixei lá a conversa. Entrei no carro. Continuava muito escuro e muito calor.

terça-feira, março 09, 2010

O olhar ferido

A Manuela é catequista do terceiro ano. Boa catequista e boa mãe. Simples. Tímida. Mas nas coisas da catequese sente-se a fazer algo de Deus e por isso entusiasma-se. Ontem estranhei a sua pressa em falar-me. Preciso desabafar consigo. Imaginei que viria repetir-me aquelas que ultimamente são as reclamações habituais dos meus catequistas. Os miúdos estão insuportáveis. Não querem nada. Não os vemos na missa. Faltam muito. Distraem-se e faltam ao respeito. Usam tudo para implicar connosco. As reclamações dos catequistas estão como o tempo. Frias. Ásperas. Caem como chuva, a desoras e em enxurradas. Mesmo as pequenas tempestades, de abundantes, soam a grandes temporais. Tento pensar que é ocasional. Que a seguir vem lá o sol e que esqueceremos depressa este frio. Por isso dispus-me, com alguma displicência, a ouvir a Manuela. Como estava com as mãos ocupadas, continuei a movimentá-las, seguindo-as com os olhos. Sabe, padre, ontem uma mãe veio ter comigo com um ar muito zangado, e a primeira coisa que me disse foi A senhora feriu o meu filho!
As minhas mãos pararam e eu parei também. Continuei com os olhos nelas. Mas o pensamento voou para a Manuela. Que teria acontecido? Perguntei. Ela respondeu com a pergunta que fez à dita mãe. Como, se eu nem lhe toquei? Ao que se seguiu a resposta da mãe. Feriu-o com o olhar.
Neste momento, os meus olhos e o meu olhar deixaram as mãos e voltaram-se completamente para a Manuela. As mãos ficaram desamparadas. Não sei sequer onde as coloquei, de tão estranha me ter parecido a reclamação daquela mãe. Aos tempos a que chegámos, onde já nem com o olhar podemos fazer educação!
Garanto que a Manuela é boa catequista e não vai desistir de olhar quem quer que seja. Mas são muitas as pessoas que querem fechar os olhos ou mantê-los fechados.

sexta-feira, setembro 25, 2009

A fugitiva

Ia calçada acima e ela vinha calçada abaixo. Estranhei que viesse caminho abaixo àquela hora. Iria passear? Mas a idade não lhe permitia grandes passeios. Estranhei muito. Por isso parei. Cumprimentei. Então que anda a fazer? Vou-me embora, padre. Vou para minha casa. Vinha do Lar e, com a bengala, esperava chegar junto da praça de táxis para apanhar um e fugir para a sua casa que é numa paróquia vizinha. Fugia. Ninguém sabia que ela se ausentara do lar, explicou com palavras dela. Ainda bem que o encontro, senhor prior. Não aguento mais lá estar naquela sala. Já pedi para me tirarem de ao pé daquela senhora no quarto. Não me ouvem. Fazem que não ouvem. Eu nunca quis ir para o lar. Obrigaram-me. Sofro muito. E os seus filhos? Perguntei. Sabem? Foram eles que lá me meteram. Já desde Abril que pedi à minha São que me tire de lá e nada. Ninguém quer saber de mim. Ontem a minha filha veio ver-me e eu estava a chorar à janela. E disse-lhe que ia para minha casa. Sabe que me respondeu? Que fizesse o que quisesse. Chorei tanto. Por isso vou para minha casinha. Lá é que estou bem.
Não sabia que dizer-lhe, pois nas minhas poucas visitas aos lares desta zona, fico sempre triste, apesar de saber que os funcionários fazem o melhor que sabem e podem. Mas é sempre uma mudança de vida numa altura em que já não se sabe viver. É sempre um estar dependente. É sempre uma prisão de pensamentos e de histórias que os nossos lares contam.
Então e de que vai viver? Quem a vai tratar? Respondeu-me que o centro de dia da terra. E os seus filhos? Não era melhor conversar com eles? Pois eles vêm aí por estes dias, é verdade. E eles disseram-me que ficavam mais descansados, sobretudo à noite, sabendo que estava num lar. Está a ver. Eu se fosse seu filho também ficava mais descansado. Nunca se sabe o que pode acontecer. Mas sofro tanto, senhor prior. Imagino que sim. Mas nada lhe garante que não sofresse mais lá em casa. Ali sempre tem quem lhe faça o que precisa. Comida, higiene, limpezas, medicação. Ora pense lá. Vai fugir e isso não é muito correcto. Devia falar com seus filhos e depois resolver tudo com calma.
Eu nem tinha a certeza se queria que ela fugisse ou voltasse atrás, porque um lar faz-me sempre pensar no lado de lá e no lado de cá. Mas falei pelo menos para o melhor no momento. E com uma lágrima no rosto ela respondeu. Obrigado, senhor prior. Vou voltar atrás. Tem razão. Vou pensar melhor, e vou esperar pelos meus filhos.
Despedimo-nos e, como quase sempre no final destas conversas, voltei para casa confuso. Confuso com a vida e com a minha missão.

quarta-feira, maio 13, 2009

O casamento depois de dez anos casados

Estão casados pelo civil há cerca de dez anos. Têm duas crianças. A mais nova possui pouco mais que doze meses. Já os conhecia de outras andanças e de outras paróquias. Recordo ter perguntado na altura o motivo de não terem casado pela Igreja. Seria natural, pelo menos da parte dela, católica que vive os motivos de o ser. Recordo também a resposta que me deixou a pensar. O Afonso não fez caminhada de fé suficiente. Para ele não tem significado algum o casamento religioso. Deus ainda não é importante para ele. Eu vou esperar, disse a Teresa. Não quero fazer nem hipocrisias a Deus nem ao Afonso. No entanto quiseram baptizar o filho mais velho. Falámos de novo sobre o casamento. Não estava posto de parte. Falámos da verdade da sua fé. Quer mais verdade do que esta, padre? Perguntou a Teresa. Ambos queremos Deus nas nossas vidas. Mas não queremos nada à pressa. E queremos que o Tiago – chama-se assim o mais velho – tenha a oportunidade de fazer connosco o caminho. O Tiago baptizou-se na legalidade própria e possível.
Hoje o Afonso, a Teresa, o Tiago e o mais novo vivem, por acaso do destino, numa das minhas paróquias e tivemos oportunidade de nos reencontrar há dias. Queriam baptizar o mais novo. E queriam também confidenciar, dialogar e saber o que pensaria se eles quisessem casar pela Igreja. Eu fiz o mesmo que uns anos atrás. Deixei que tomassem eles a decisão de forma consciente. Perguntei do Afonso, de Deus na vida do Afonso. Respondeu-me o próprio que ainda precisava de caminhar mais, mas que neste momento Deus já lhe era algo importante. Não foi preciso muito. A papelada fez-se com serenidade. A cerimónia também. Nada de embrulhos. Eu sabia sobretudo o que ia na cabeça feliz da Teresa. Mas não resisti a perguntar na homilia o motivo de só agora, passados dez anos, terem optado pela sua união com a bênção de Deus. A Teresa olhou o Afonso. Este não teve meias medidas. Falou abertamente. Já somos uma família. Mas queremos constituir uma família cristã.
Of course que obriguei os presentes, que não eram muito mais que uma vintena, a perceber o que havia sido dito. Repeti-o e iniciei uma salva de palmas à verdade daquele casamento.
Hoje, cada vez que um casal, daqueles que não estão casados pela Igreja, me pede o baptismo de um filho, fico à espera de rever a família do Afonso, da Teresa, do Tiago e do Mateus.

terça-feira, dezembro 23, 2008

O Natal de dois mil e cinquenta

Apreensiva a leitura que fiz há dias. Que em dois mil e sete Portugal registou um valor do índice de fecundidade de 1,3 filhos por mulher. Que tem vindo a diminuir substancialmente e que, se acaso esta situação não melhorar, em dois mil e cinquenta chegar-se-á a uma situação insustentável, com uma idade média acima dos cinquenta anos e um rácio de idosos sobre população activa superior a 0.6. A previsão lógica é que acabem as pensões de reforma ou os activos se revoltem com os impostos e taxas que terão que pagar. Dá que pensar. Deu-me que pensar.
Também não foi há muitos dias que fui visitar o lar. Faço-o de vez em quando. Quando o faço, quase sempre regresso a casa com algo para pensar. Os lares são locais propícios para pensar a vida. A época do Natal é propícia igualmente para pensar a vida. Porque Ele também quis viver como nós. Mas não foram estes os meus pensamentos desta visita. A manhã estava fria, mas tinha um sol a vislumbrar-se ao longe. Um pouco longe. Depois de falar com os utentes do lar sobre o amor que Deus nos tem, um amor tão grande que O obriga a tornar-se o mais próximo de nós possível, assumindo uma vida igual à nossa, com sofrimentos e tudo, sentei-me para almoçar ao lado deles. Enquanto dava voltas ao bacalhau, lembrei como vou juntar a minha família, nesta consoada, à volta do bacalhau. Por isso, e por curiosidade, perguntei quantos utentes iam passar o Natal a Casa. Informaram-me que seriam 10 % no máximo. Como achei aquilo absurdo, insisti se não tinham filhos? A resposta deixou-me ainda mais espantado. Praticamente todos.
E foi nesse momento que fiz contas à vida. Por este andar, em dois mil e cinquenta os velhos vão ser em número muito superior aos novos e os pais aos filhos. Se já hoje os filhos não dão o mínimo de atenção aos pais, pior será quando o número de filhos for menor. Em dois mil e cinquenta passaremos o Natal sozinhos nos lares de terceira idade. Praticamente todos.
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Aproveito a ocasião para desejar a todos os "penitentes" e amigos um Natal que nos faça sentir o valor e importância da Vida, uma Vida dada por Deus para sermos felizes!

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Falar da família é malhar

Sagrada Família de Nazaré. Sugiro-me falar das alterações que a família tem sofrido nas últimas décadas. Grande homilia. Ultrapasso os dez minutos habituais. Há um baptizado também na missa. Penso que estão atentos. Falo à vontade. O assunto interessa-me. Falo da realidade que, apesar de não se coadunar com todas as famílias, é bastante geral. Mais divórcios, separações. Recasados, uniões de facto. Filhos com 4 pais e meios-irmãos. Que vão conhecendo uma série de namorados ou namoradas aos pais. Que estudam fora ou deixam os pais cedo para arranjar emprego que ali não há, nem emprego nem estudos. Que casam mais tarde porque a vida assim o impõe, perdem uns saborosos anos para ter filhos, e depois já não há muita pachorra para os aturar. Filhos de gente que não está casada. Pais que têm poucos filhos, de preferência apenas um - embora seja aconselhável ter um animal de estimação por causa da solidão -, o que impede alguma consistência familiar. Só convém ter filhos quando a vida se ajusta ou dá jeito, isto é, quando as condições económicas, profissionais, governamentais, habitacionais, etcetera e tais, as ideais, existirem, e hoje isso é quase impossível. Pouco tempo que os membros de uma família têm uns para os outros porque todos regressam tarde, têm de levantar cedo e deitam cedo. Pouco tempo que sobra das refeições. Quando as há em comum, é com televisão ligada. Passam mais tempo fora que com os de casa. No emprego, na escola, na ama, no café. Filhos que recebem dos pais esta ausência de relação, de encontro e assim continuam fora de casa a mesma forma de viver. Ou então procuram encontrar esse espaço em outros que podem não ser os melhores companheiros ou companhias. Casa-se a Vamos ver se dá.
Valorizei as famílias de acolhimento, os pais adoptivos, os lares que funcionam como uma segunda família, ou as casas para estudantes, ou a possibilidade de uma paternidade mais responsável com o acesso à informação que hoje existe. Digo eu que existe. Ou a possibilidade que os jovens têm de conhecer melhor a sua esposa ou esposo, dado que trocam com frequência e experimentam muitos parceiros.
Falei, com argumentos da Escritura, da importância da Família para Deus. De que era o berço da sociedade. Falei que ela resolveria a maior parte dos problemas que nos aparecem. Que era nela que se deviam concentrar os esforços, as instituições, os governos, as campanhas. E no final da missa, dando os parabéns aos pais da criança baptizada, à própria criança, aproveitei para deixar no ar a ideia vocacional do sacerdócio. Noutras palavras. Que o Joãozito possa ser um grande homem, quem sabe um sacerdote. Não que o sacerdote tivesse de ser necessariamente um grande homem. Pergunto aos pais se gostavam ou se deixavam. E eles acenam ao mesmo tempo, quase premeditadamente, não. Pronto. Encolhi-me. Já na sacristia, diz-me o pai. Para malhar no pessoal, já chegam os que há. Não foi o que fez há pouco?!

domingo, dezembro 31, 2006

Devo o meu filho à minha mãe

A discussão foi acesa. Não nos zangámos. Mas fiquei triste. Sobretudo porque no meio das palavras amigas e sinceras de parte a parte denotei pouca informação e apenas a informação da televisão, aquela que há mais de dois anos tem aparecido numa campanha desenfreada pela liberalização do aborto. Não quero falar do meu respeito ou compreensão pelas opiniões diferentes da minha nem pelas mães que optam por uma atitude destas. No entanto o meu rosto enrugado provocou nos amigos, sobretudo num deles, algum desconforto. Digo-o pela mensagem que me enviou no dia seguinte. Mas a história, se quisermos dar-lhe esse atributo, veio depois da discussão e da mensagem. O amigo porventura dialogou com a mãe sobre o meu rosto. E a mãe ligou-me depois. Padre, hoje contei ao meu filho o que ainda não achara oportuno ele saber. Se hoje tenho um filho lindo e perfeito devo-o à minha mãe, que, na sua gravidez do meu ser, estivera prestes a abortar. Sabia que eu não tinha as condições melhores para a minha existência. Não as explicou e eu entrevi pelo que conheço dela. Pareceu-me que as palavras estavam molhadas, mas não vi porque o telefone não mostra. A sua mãe não se arrependera de lutar, e quase todos os dias ela dá graças a Deus e à mãe pela sua opção. Por isso, dizia-me, o meu filho é resultado do meu não aborto.
A mim calou-me. A ele não sei.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Se não fosse pecado, deixava-o

Esta história dos pecados deixa qualquer um congelado, mesmo que se pense numa fogueira eterna. Não é com medo, mas estático, sem saber que dizer para ser conforme aos pensamentos de Deus. Fantasiamos um final do mundo todo calamitoso. Deus com uma vara de muitos quilómetros a apontar destinos, a vergastar os mais distraídos. Não me parece.
Assim ela veio ter comigo com o rosto macerado. Repito macerado, porque as marcas não eram visíveis, mas perceptíveis nos olhares, no seu fechar constante e tremeliquente, nos gestos, nos tiques, na forma de abrir a boca, como se esta não se pudesse abrir muito porque podia sofrer as consequências. Perguntei da sua aflição. Ela falou que já não era aflição. Era a sua vida. Vivia com isso desde pouco tempo depois de casar. Tivera filhos. Adorava-os, mas preferia que tivesse sido com outro. Intriguei-me. Continuou. Padre, ele não sabe dar amor. Todos os dias deixa de ser ele próprio para ser o álcool. Até tenho medo de sair, de ir à missa. Já levei muitas, mas o pior foram as que se evitaram porque o estado moral estava já bem tratadinho. Como aguenta, perguntei-me. O peso da moral impedia-me de lhe perguntar. Os divórcios não foram feitos por Deus, penso. E embora estejam previstas as anulações, não são fáceis, como convém para que o matrimónio seja um dos maiores dons de Deus. A forma mais intensa do amor. Porém, apetecia-me perguntar. Mas a resposta veio na sua afirmação seguinte. Se não fosse pecado, deixava-o. Olhei-a com ar maternal zangado. O de uma mãe que quer repreender a atitude ou a postura ou a posição, mas que continua a amar o seu rebento porque ele precisa de sentir o seu amor. Afinal, de quem é o pecado? Esta saiu-me só para mim. Nesta conversa com ela conversei muito comigo. Para ela apenas o olhar maternal zangado. Esperei que ela entendesse que eu não conseguia dizer mais nada, mas que queria dizer tudo, esta tensão entre aquilo que é correcto e aquilo que é necessário, entre aquilo que é amar e aquilo que é sofrer, entre aquilo que é viver e aquilo que é deixar-se viver, entre aquilo que é sacrifício por amor aos homens e aquilo que é sofrer por amor a Deus, entre aquilo que os outros nos ensinam e aquilo que a vida nos ensina, entre aquilo que Deus quer e aquilo que Deus não quer, entre aquilo que é pecado e aquilo que é mal, entre o que aprendemos na catequese e o que aprendemos com o Evangelho, entre o que o senso do religioso nos diz e o que o senso da fé nos diz, entre a formação cristã convergente e a formação cristã divergente. Falei. Falei para mim, calado. E como demorei, ela indagou. Não diz nada, senhor padre? Não sei se seria pecado, minha senhora. Não me parece. Mas tenho a certeza que a sua força é um dom de Deus.