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sexta-feira, dezembro 14, 2018

O Cristo escondido

Possui em sua casa duas mesas cheias de santinhos, como gosta de referir. Depois faz a visita guiada ao santuário. Uso a palavra possui, porque é mesmo esse o sentido verbal da coisa. Ela tem posse daqueles santos todos. Reza a todos. Olhe este Santo António tão lindo. E é mesmo. Distingue-se das outras miudezas que por ali abundam. Digo miudezas no sentido em que são pequenos e, no meio de tantos, acabam por se tornar ainda mais pequenos. Porém, eu não desgosto disto. Nem da atitude da senhora Alcinda, nem da sua piedade. Muito menos da forma autêntica como acho que reza. Aliás, eu próprio tenho duas mesas cheias de cruzes. Como uma coleção ou quase coleção. Gosto de juntar as cruzes das minhas peregrinações, dos amigos que mas oferecem, daquelas cruzes que me prendem o olhar e tenho de as fazer minhas. 
Contudo, na visita guiada da senhora Alcinda, não consegui encontrar Cristo algum. É certo que também não sou pródigo na visão. É certo que era quase como descobrir uma pessoa no meio de muitas pessoas. Mas nem ajeitando os óculos mais aos olhos. A custo lá encontrei um Cristo muito pequenino. Por sinal também numa cruz muito pequenina, por detrás de um Santo que lhe não sei o nome, mas que lhe fazia muita sombra. Era como um anão vigiado por guarda-costas, aqueles homens acima do tamanho normal. Era, afinal, um Cristo escondido. Era aquele tipo de Cristo que se esconde nas nossas muitas piedades, nas nossas muitas jaculatórias aprendidas desde criança, nos rituais a que nos habituámos, nas missas a correr, nas tradições populares, nos muitos afazeres da vida e da religião. O Cristo que se vai escondendo no meio de tanta coisa que lhe faz sombra.

quarta-feira, dezembro 05, 2018

A catequese serve para fazer pessoas boas?

É uma boa catequista. É interessada. Não se conforma com uma catequese doutrinal, escolar, com base no ensino e aprovação de conhecimentos e verdades. Mas há dias, no meio de uma reunião de catequistas, deu a entender que o objectivo da catequese, pelo menos como ela a via, era formar pessoas boas. A discussão que se gerou deu-me azo a clarificar que não basta formar pessoas boas na catequese. É necessário formar pessoas boas por causa de Cristo, ou melhor, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Crescer na fé não é apenas crescer na bondade. Esse pode ser um dos efeitos da fé. Mas a fé é mais que isso. Basta recordar que um muçulmano pode ser uma pessoa bondosa. Um ateu pode ser uma pessoa bondosa. O que a catequese deve fazer é iniciar, formar e ajudar as pessoas a chegar á maturidade da fé, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

domingo, agosto 12, 2018

A senhora que ouve muito mal e fala alto na Igreja

A senhora Francisca ouve muito mal. Para não dizer que não ouve nada. Chamo-a de Francisca porque o santo padroeiro dos surdos é S. Francisco de Sales. Não é o nome dela, obviamente. Mesmo que lhe gritem, tem dificuldade em perceber as palavras e o teor das frases. Mas vai quase sempre á missa, provando que estar com Deus nem sempre é escutar palavras dos homens.
Na passada quinta-feira, a senhora Francisca chegou na hora em que a Igreja estava em silêncio. O Santíssimo estava exposto à adoração, e centrava n'Ele todos os olhares e restantes sentidos. Acercou-se da pessoa responsável pela marcação de intenções de missa com o objectivo de marcar uma. Ela não deu conta, mas a sua voz soou como se trouxesse consigo um altifalante ligado à corrente. Começaram então os murmúrios da assembleia presente. A maior parte creio que eram de pena. Não quero pensar que eram de desdém, porque toda a gente vai conhecendo as limitações da senhora Francisca. Eu sorri com vontade de lhe fazer um afago. É verdade que também me distraíra da atenção que depositava no Senhor exposto. Mas a voz dela soara-me a voz de Deus. Era uma voz doce e meiga. Se, por um momento, me distraíra, logo me concentrou em Deus. Não me levantei, nem para a mandar calar nem para lhe fazer o afago que me apetecia fazer-lhe. Mas agradeci a Deus por ela. Viver com as nossas limitações é um dom enorme de Deus.

terça-feira, julho 03, 2018

Tenho devoção a Nossa Senhora, graças a Deus

O senhor Joaquim Neves é um típico indivíduo que é capaz de ir a Fátima quantas vezes lhe for possível, e ir à missa apenas nas festas e nos funerais. É meu amigo de longa data, daqueles amigos que quando nos avistam num café, se dirigem a nós para saber como está o senhor padre. Não é mau homem, nem se pode dizer que não tenha fé. É apenas alguém que precisava passar de uma fé um tanto infantilizada a uma fé amadurecida. 
Eu entrara, a meio da manhã, no café, para tomar um cafezinho rápido. Mas quando o senhor Joaquim me avistou, rapidamente se dirigiu ao meu encalço e iniciou uma conversação interessada. Que isto e que aquilo, que eu tenho muita fé, que eu mais isto e aquilo, e voltava ao Que eu tenho muita fé, ou aquela expressão ainda mais comum, Que eu cá tenho a minha fé. Tá a ver, padre, olhe que eu tenho muita devoção a Nossa Senhora, graças a Deus. 
E foi nesse preciso instante que meus olhos se arregalaram. O senhor Joaquim, que possui uma fé algo infantil, e que mais rapidamente diz que tem fé em Nossa Senhora do que em Deus, acabou construindo uma frase que não me deixou indiferente. Na verdade, acabou afirmando que a nossa devoção a Maria só existe por causa de Deus. Disse-o como aquela típica expressão que usamos a toda a hora: graças a Deus isto e graças a Deus aquilo. Mas eu entendi-o como se de uma verdade teológica se tratasse.

quarta-feira, maio 16, 2018

santinhas e missinhas

Não tem muito mais que metro e meio. Tudo nela parece diminutivo. Até no trato. Chamam-na de Alicinha. Não a conheço o suficiente. Agora que o expresso, dá-me vontade de rir, pensando que é capaz de não ter tamanho suficiente para se conhecer bem. Pensamentos tolos, mas que me poem um sorriso nos lábios. Dizia eu que quase tudo nela tem a ver com diminutivos. Por isso fala em santinha, procissãozinha, missinha, e outras inhas a propósito da festa do próximo fim-de-semana. Eu gosto da Alicinha e gosto daquilo que me parece ser o lugar carinhoso das palavras em diminutivo. Mas quando ouço coisas como santinho ou missinha, fico com uma sensação estranha de que, às vezes, estas coisas não são mais que uma diminuição daquilo que valem, daquilo que são! 

sexta-feira, maio 11, 2018

As festas e a fé

Quando saí de casa, no Domingo, para celebrar as missas, a manhã estava cinzenta. As nuvens pousavam, frias, sobre nós. As estradas estavam geadas. A aldeia onde ia celebrar a primeira missa ficava a várias dezenas de quilómetros. Pouca estrada se via o suficiente para ser desbravada com ligeireza. Cheguei atrasado uns oito minutos da hora prevista para a missa. Todos me esperavam dentro da Igreja, apesar desta também estar habitada pelo frio. Era, no entanto, menos fria que a rua. 
Porém, enquanto atravessava a aldeia, a meio do caminho, veio ao encalço do meu carro uma senhora que me obrigou a parar com gestos de “espere aí mais um pouco”. Enquanto abria o vidro do meu lado do carro, fui-lhe recordando que já estava atrasado e não havia tempo a perder. Ela insistiu para dizer que precisava que eu marcasse uma festinha a santo tal no dia tal, que era a cerca de quinze dias desse Domingo. Era só uma missinha e uma procissão. Com a vida organizada para os próximos meses, expliquei que as coisas não se podiam tratar deste modo. Nem as festas religiosas se devem marcar só porque alguém, do nada, por mais bem intencionada que esteja, se lembre de tal. 
Não consegui perceber propriamente o motivo de tal desejo e pedido. Mas o que mais me incomodou foi o que ocorreu depois que subi de novo o vidro do carro. A senhora que estivera uns quinze minutos ou mais à minha espera na rua fria, o que é de louvar pela coragem, e que desejava honrar o santo com uma missa e uma procissão, regressava então para os seus aposentos, para a sua casa que era logo ali ao lado. A missa daquele dia que a celebrasse eu e os outros que me esperavam.
E nós, padres, temos de continuar a acolher esta gente na esperança de que um dia percebam a verdadeira fé e a ter fé de verdade.

segunda-feira, abril 30, 2018

As coisas que Deus se lembra de fazer

Ela tinha ido dar um passeio para o sul da diocese, uma zona muito bonita, uma aldeia típica e cheia de história. E pelos vistos, também ela veio de lá com uma história para contar. Fez-lhe bem o passeio, como me disse, mas o que lhe ocorreu ao final da tarde, tal como mo descreveu, fez-lhe ainda melhor. Quando ia subir uma rua empedrada cruzou com um senhor de idade avançada que descia a mesma rua. O senhor transportava algumas laranjas e limões numa das mãos e uma vara ou cajado na outra. Parou diante dela, a uma distância que não era intimidante e que permitia ser acolhedora o suficiente, olhou-a com ternura e perguntou se queria uma laranja, que eram muito boas e faziam parte da colecção do seu quintal. Mesmo admirada, ela respondeu afirmativamente e estendeu a mão para pegar numa qualquer, quando ele lhe pediu para esperar, escolheu a melhor laranja e o melhor limão que tinha na mão e foi o que colocou na sua mão estendida. Ela fez então um ar de espanto. Não imagino como deve ter sido, mas quando me contou a história, os olhos estavam arregalados e a boca bem aberta, ainda que tapada pela mão. É mais ou menos o que fazemos para manifestar que não cabemos na nossa admiração. Nunca se tinham visto. Não se conheciam. Não era normal. Não é algo que se veja todos os dias e mais numa sociedade consumista e interesseira como a nossa. E dera-lhe o melhor para ela. Para ela. E repetia para ela fechando os olhos para esconder a lagrimita que surgia sem querer. Mas para mim o mais bonito da nossa conversa foi quando ela, que ainda por cima tem uma auto estima que precisa ser mais cuidada, me disse, ipsis verbis, Deus é fantástico.

sexta-feira, abril 20, 2018

Há padres e padres

A senhora, que é minha paroquiana, falou-me com amizade sobre o que presenciara nessa tarde. Hoje estava numa mesa de café quando ouvi falar mal de si, de alguém que não gosta de si porque não o deixou fazer o Crisma. O senhor que falava mal de si disse que teve de recorrer a um colega seu aqui do lado que não lhe pediu nada nem fez nenhuma exigência. Foi só aparecer no dia e já está. Por esse motivo o outro padre é que era bom e o senhor não prestava. 
Com curiosidade e alguma mágoa, perguntei que fizera a senhora ao ouvir estas coisas. Respondeu que se levantou, manifestando o seu desagrado, porque pensava exactamente o contrário, ou seja, que o outro padre é que não era bom, porque pouco mais lhe interessava do que agradar e ficar bem visto com os seus sins, sem preocupação por uma real evangelização ou formação de fé. Sorri como quem não sabe mais que fazer. Ficámos assim, eu sorrindo e ela olhando para mim com algum dó. 
Quando cheguei a casa, voltei a pensar no assunto, que afinal é recorrente. Fiquei a pensar se a senhora amiga que me confidenciara a situação, deveria responder ao dito senhor ou não, expressar a sua opinião ou não, defender seu pároco ou não. Há ocasiões em que o silêncio diz mais que as palavras ou as discussões. Mas também há outras em que uma palavra que clarifique diz mais que o silêncio. 

terça-feira, abril 10, 2018

E se os padres fizessem greve?

Li há tempos que um pároco em Itália afixara um cartaz na porta da Igreja a dizer algo mais ou menos do tipo "A missa foi suspensa por falta de fiéis. Padre tal estará disponível quando for chamado". A informação foi publicada num jornal e alvo de muita conversa, sobretudo nas redes sociais. 
Pessoalmente não me parece que a sua opção tenha sido a mais indicada. Um padre, à partida e como servo de Deus, deveria também ter a disponibilidade de coração para qualquer necessidade do foro da fé, mesmo quando à sua frente está um número reduzido de fiéis. No entanto, com a carência de sacerdotes, com as notícias que nos vão dando conta da sua debandada, das depressões ou similares na vida de tantos sacerdotes, o assunto merece a atenção de todos aqueles que se interessam pela Igreja.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova. 
Qualquer dia é bem possível que também os padres comecem a fazer greve para exigir que a vocação que abraçaram volte a ser a vocação sacerdotal.

sábado, março 17, 2018

Sabemos pouco da vida

Sabemos muito pouco da vida. O destino precede-nos como a sombra que caminha à nossa frente. O mundo domina-nos. Não somos nem o seu dono nem o patrão que lhe paga o salário. Somos o seu empregado. Dizemos que nos entregamos nas mãos de Deus, mas não lhe conhecemos o tamanho, a cor, as rugas, os calos e o calor que delas imana. Dizemo-lo porque a vida nos ultrapassa e não sabemos como a dominar. Vamos vivendo como se não morrêssemos. Como se estar aqui fosse habitar uma selva onde se sobrevive a pensar na hora em que somos apanhados numa armadilha. 
E alguém é capaz de perguntar se também os padres não sabem da vida quando têm uma ligação especial ao outro lado da vida. Não sei se têm ou não uma ligação especial com esse lado. Se têm explicações da fé para a vida. Apenas posso falar por mim. O que me parece é que pouco perguntamos da vida e pouco sabemos dela. Vivemos. Uns de forma mais consciente ou consistente, e outros vão andando sem saber porquê. Pessoalmente gostava de entrar nas entranhas mais profundas de Deus para perceber esse porquê. Para entender o que não entendo da vida. Também eu me entrego nas suas mãos. Mas preferia entregar-me ao seu coração.

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Beijar o menino Jesus

A senhora, que é minha paroquiana de uma das sete anexas que estão ao meu cuidado, para além das sete paróquias que fazem actualmente parte da minha missão como pároco, veio ao meu encalço antes de uma das eucaristias que, mais ou menos, duas vezes por mês, celebro nessa comunidade anexa. Passara pouco tempo da época natalícia, e ela demonstrava a sua insatisfação pelo facto de eu não ter lá ido proporcionar-lhes, como ela disse, a possibilidade de “beijar o menino”. 
Primeiro respondi-lhe, em tom acolhedor, que me era impossível, por mais que quisesse, aceder a todo esse tipo de pedidos numa ocasião como o Natal. Bem compreendia, e repito que compreendo cada vez mais e melhor como é importante para as pessoas determinadas tradições que acabam por fazer parte da nossa tradição católica. Cada vez sinto mais que devemos esforçar-nos por manter coisas que, no fundo, nos caracterizam. O “beijar o menino”, apesar de ter muito que se lhe diga em termos eclesiais, higiénicos e sociais, parece-me que faz parte desse conjunto de coisas a manter. No entanto, como já não é possível fazer o que se fazia há uns anos, quando um padre tinha a seu cargo poucas comunidades, também não seria possível celebrar mais missas do que as que celebrei pelo Natal. Nem foi possível celebrar eucaristia em todas as paróquias. Claro que poderia ter lá ido posteriormente. Acabou por me ser impossível. Afinal, também lhes tinha proporcionado celebrar festivamente a alegria de um Deus que nos ama no dia 23 de dezembro, um sábado bem perto do Natal. 
Mas todas essas explicações não foram suficientes para ela, que começou, numa expressão tipicamente portuguesa, por “desbaratinar”. Eu quase “desbaratinava” também. Mesmo assim, deu-me a oportunidade para, no final da eucaristia, recordar algumas coisas que me pareceram importantes, como por exemplo, que já não é possível fazer o “de sempre” e que, mais cedo do que pensamos, até o que temos vai ser difícil assegurar. Ou que é sempre possível deslocar-se à paróquia mais perto para esses fins. Mas não. Nada disso foi suficiente para a senhora que, assim que saiu da Igreja, começou com impropérios. O que mais custa é que ainda haja quem reduza a sua fé a coisas como “beijar o menino”.

terça-feira, janeiro 30, 2018

A Igreja precisa de padres?

Dava um bom título para um dos nossos pasquins mediáticos. Assim como dava um bom artigo de teologia numa revista especializada. Mas a pergunta surgiu numa reunião de padres que se queixavam a propósito de uma notícia badalada na comunicação social e que percorreu as redes sociais. 
O padre ainda é preciso para fazer funerais, as festas bonitas de alguns sacramentos e as festas populares com procissões e romarias que terminam com bailaricos, cantores famosos e muita bebida. Nalgumas paróquias servem ainda para as reclamações de missas, sobretudo as de sétimo dia ou de notícia, aquelas missas com intenções, em determinados aniversários de defuntos. 
São, a meu ver, necessidades autênticas e que a Igreja deve valorizar. Mas a pergunta, para mim, é muito mais profunda. A pergunta mexe com a razão verdadeira da existência dos sacerdotes, a própria existência da Igreja Católica, Apostólica e Romana, e que hoje já é costume chamar de ICAR (não gosto nada que lhe chamem assim, como se fosse o nome de uma instituição que se designa pelas suas iniciais e não pela sua razão de ser, o mandato de Cristo).
Precisa a Igreja dos padres, quando o seu número tem tendência a diminuir drasticamente e já não se conseguem manter as comunidades cristãs como no tempo da cristandade? O futuro dir-nos-á da necessidade dos padres, mas di-lo-á na procura daquilo que é a sua missão específica. Com o tempo creio que a Igreja assentará sobretudo no Povo de Deus que é constituído maioritariamente por leigos. Em breve serão eles a tomar conta das comunidades cristas, com um sacerdote que vai passando a celebrar missa de vez em quando. O próprio tempo fará com que deixemos de querer manter o de sempre. Talvez nessa altura descubramos que a Igreja é de Deus e não ao contrário, que a Igreja tem um deus. Na verdade, não é Cristo que precisa da Igreja, mas a Igreja que precisa de Cristo. 
Talvez nesse tempo sejamos obrigados a dar conta que os padres só são necessários porque Cristo é necessário.

sexta-feira, setembro 01, 2017

Fiquei sem as minhas irmãs

Fiquei sem elas. Aliás, não fui só eu quem ficou sem elas. Foi toda uma comunidade paroquial. Ficámos sem as irmãs consagradas que há várias décadas aqui haviam construído uma comunidade religiosa, uma presença espiritual. Sim, muito mais espiritual que pastoral, embora se notasse particularmente a sua presença na pastoral da paróquia. Como não têm tido vocações, a sua provincial vê-se obrigada a fechar, pouco a pouco, algumas casas onde estão pequenas comunidades religiosas. Quando anunciámos o encerramento desta casa e desta pequena comunidade de três irmãs, embora com umas lágrimas a deslizar pelo sulco da face, a voz do agradecimento foi mais forte. Nesta hora, dizia eu ao microfone da Igreja paroquial, não podemos prender-nos à lamentação da perda, mas ao agradecimento dos vários dons que cada um recebeu com a sua presença. É isso mesmo que penso. Mais do que lamentar-nos da sua ausência, devemos agradecer a sua presença. 
Foi tudo rápido e agora já cá não estão. Não quero desistir de procurar uma outra congregação ou Instituto de vida Consagrada para aqui estabelecer uma comunidade religiosa. Mas a coisa não está fácil. As respostas ao nosso convite vão chegando com a descrição de dificuldades similares. A maioria delas diz que também estão a fechar casas e comunidades. 
A realidade está ao alcance dos nossos olhos. E nós teimamos em fazer como se nada estivesse ocorrendo na Igreja. Vamos fazendo o mesmo de sempre, com menos vocações consagradas, menos cristãos, menos recursos, numa pastoral de manutenção que não tem mais lugar num mundo em que a fé conta cada vez menos.

segunda-feira, agosto 21, 2017

Uma católica que não pratica muito

Padre, eu não vou à missa, mas acredito. Sou católica mas não pratico muito, disse ela enquanto jantávamos à mesma mesa. E depois de lhe perguntar que significava para ela acreditar, foi asseverando que de vez em quando rezava e que para ela Deus existia e acabava por ser importante. Fez-me recordar aqueles meio-católicos que aprendem a sê-lo como religião de vontades extemporâneas. Essa religião que é fruto da educação, mas que não implica senão uma filiação numa instituição que se chama Igreja católica. 
A Ana está prestes a casar. Por isso lhe perguntei se o facto de ela acreditar no noivo, acreditar que ele existe ou que é importante para ela, ligar-lhe de vez em quando, sobretudo quando se lembra ou precisa de alguma coisa dele, lhe bastava. Sorriu para mim e respondeu que não. E que acharia se apenas de vez em quando tivesse oportunidade de tomar as refeições com ele, mesmo depois de casados. Ó padre, isso seria muito mau. 
Pois passa-se o mesmo com a fé. Não basta acreditar que Deus existe, lembrar-se dele algumas vezes, achar que ele é importante no sentido de ser coisa grande. É preciso que a gente viva partilhando com ele, confiando nele, querendo-o, vivendo com ele e nele, amando-o. É preciso tomar a refeição com ele. É preciso vê-lo como alguém importante, melhor ainda, imprescindível, para que a minha vida faça sentido. É isso que é ter fé. É isso que é ser católico.

sábado, julho 29, 2017

As respostas que não se dão porque não se têm

Quando alguém me interpela, como ainda ontem a pequena Tânia, uma paroquiana adolescente que conheço bastante bem, dizendo que não entende muito a Deus, ou a Igreja, ou estas coisas da vida, eu sinto-me um pouco impotente. Foi assim que olhei a Tânia e com naturalidade lhe disse que também não entendia tudo. Creio que é muito melhor sermos honestos com Deus, com os outros e connosco, do que fazermo-nos donos e senhores daquilo que nos ultrapassa. A Tânia esperava que eu lhe desse a resposta que precisava, mas eu não a tinha. Além disso, ela tinha de procurar a resposta dentro dela. Como eu também a procuro dentro de mim. Isto não é ser frágil. É ser o que somos, e assumi-lo com naturalidade. Não dei muitos conselhos à Tânia. Não usei a doutrina ou as verdades inquestionáveis da fé. Usei apenas a sinceridade do meu coração e da minha fé. E foi isso que a Tânia levou. 
Mas foi com a certeza de que afinal não estava mal diante de Deus. Estava tão só como é.

terça-feira, junho 20, 2017

Uma profissão de fé com pouca fé

Eu sei que isto parece mais uma das minhas queixas. Mas queixo-me só para ti, Senhor, baixinho, para que ninguém ouça o meu coração de padre a palpitar. Entrego-te estes miúdos que andam na catequese e que vão fazer a festa da profissão de fé. Entrego-te em especial aqueles que não voltaram a confessar-se desde a primeira comunhão, há três anos. E aqueles que não sabiam o acto de contrição para se confessar. E aqueles que pouco mais voltaram à missa e que, envergonhados, diziam que costumavam ir algumas vezes, que é o mesmo que dizer poucas, ou muito poucas. E aqueles que já nem sabem a oração do Pai-Nosso. Sim, essa oração que cada cristão deveria ter na ponta da língua, e que, pelo menos, este miudos tinham aprendido há quatro anos quando, na catequese, fizeram a festa do Pai-Nosso. 
Senhor, peço-te por eles, e pela Igreja dos tempos actuais que vive desta forma desprendida daquela que é a verdade da fé. Peço-te, em último lugar, por mim, para que não esmoreça a vontade de ser um verdadeiro modelo de fé, um verdadeiro testemunho do Evangelho, e não deixe de cumprir, em cada tarefa eclesial ou sacerdotal, o mandato que deixaste aos teus apóstolos de anunciar a Boa Nova, isto é, evangelizar.

quarta-feira, maio 10, 2017

Fui assim criada e assim hei-de morrer

Senhora Maria, diga-me porque tem fé. Fui assim criada e assim hei-de morrer. Ou assim hei-de ser até que o Senhor me leve. Podia ser deste modo o início de uma conversa com a senhora Maria ou com muitas das senhoras que, às vezes nas nossas comunidades, mais vão à missa ou mais dispõem as mãos para a oração. Seria, quase de certeza, uma conversa curta, pequena, sem discussão, encerrada em respostas breves e cerradas no Sempre foi assim. 
Não digo que a forma como essas pessoas receberam a fé é má ou desajustada. Quem sou eu para a questionar! Era recebida de pais para filhos, como se recebia tudo o resto. Ora isso é bom. Eu mesmo sou fruto dessa transmissão geracional. Dessa herança de fé. O menos bom é que isso, muitas vezes, ficava por ali. Por receber-se. Por ficar infantilizada. 
Também acho de uma enorme coragem, nos dias conturbado de hoje, que hajam pessoas a fazer convictamente a afirmação de que sempre terão esta fé que receberam. Assim como penso que não seria justo e correcto afirmar que essas pessoas não têm fé. Têm, com certeza. 
Contudo, tenho alguma dificuldade em aceitar que se tenham contentado com uma fé infantil. Muitas vezes descomprometida da vida, presa ao passado e ao culto. Uma fé que é mais uma religião ou uma forma religiosa de viver.

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

quarta-feira, abril 26, 2017

As hóstias bentas

Ocorreu bem longe daqui, numa paróquia que um amigo assumiu há pouco tempo. Contou ele que numa ocasião, durante a comunhão, se apercebera que as hóstias não eram suficientes. Começou, por isso, a parti-las de modo que chegassem para todos os que estavam na fila da comunhão. Nisto uma das catequistas, ao ver a dificuldade do padre, e com muita solicitude, correu à sacristia e trouxe de lá uma píxide improvisada com hóstias por consagrar. Abeirou-se do padre e sussurrou-lhe ao ouvido. Benza-as que assim já chega para todos. 
A situação é caricata apenas para quem sabe que não é o mesmo uma hóstia consagrada que uma hóstia por consagrar, e que não é o mesmo uma consagração que uma bênção. Termos simples e básicos, digo eu, para quem possui a mínima formação de fé. Pelos vistos a solícita catequista, pese embora a sua genuína generosidade, não a tinha. Claro que ninguém é obrigado a saber tudo. E, como costumo dizer, não sou ninguém para julgar a fé dos outros. 
Porém o problema vai muito para além do facto da senhora catequista não saber estas coisas. O problema é que uns dias antes o tal padre convidara os catequistas para uma formação e a resposta que obteve foi um claro Não. Que não precisavam mais formação.