Possui em sua casa duas mesas cheias de santinhos, como gosta de referir. Depois faz a visita guiada ao santuário. Uso a palavra possui, porque é mesmo esse o sentido verbal da coisa. Ela tem posse daqueles santos todos. Reza a todos. Olhe este Santo António tão lindo. E é mesmo. Distingue-se das outras miudezas que por ali abundam. Digo miudezas no sentido em que são pequenos e, no meio de tantos, acabam por se tornar ainda mais pequenos. Porém, eu não desgosto disto. Nem da atitude da senhora Alcinda, nem da sua piedade. Muito menos da forma autêntica como acho que reza. Aliás, eu próprio tenho duas mesas cheias de cruzes. Como uma coleção ou quase coleção. Gosto de juntar as cruzes das minhas peregrinações, dos amigos que mas oferecem, daquelas cruzes que me prendem o olhar e tenho de as fazer minhas.
Contudo, na visita guiada da senhora Alcinda, não consegui encontrar Cristo algum. É certo que também não sou pródigo na visão. É certo que era quase como descobrir uma pessoa no meio de muitas pessoas. Mas nem ajeitando os óculos mais aos olhos. A custo lá encontrei um Cristo muito pequenino. Por sinal também numa cruz muito pequenina, por detrás de um Santo que lhe não sei o nome, mas que lhe fazia muita sombra. Era como um anão vigiado por guarda-costas, aqueles homens acima do tamanho normal. Era, afinal, um Cristo escondido. Era aquele tipo de Cristo que se esconde nas nossas muitas piedades, nas nossas muitas jaculatórias aprendidas desde criança, nos rituais a que nos habituámos, nas missas a correr, nas tradições populares, nos muitos afazeres da vida e da religião. O Cristo que se vai escondendo no meio de tanta coisa que lhe faz sombra.