Hoje não quero saber se me dói alguma parte do corpo ou da alma. Enquanto fumo o último cigarro da noite, à janela que dá para as luzes da igreja, deixo que o tempo apenas passe por mim como o vento numa manhã de praia que avizinha o sol. Geralmente o tabaco ocupa aquela parte da meditação que faço, rabugento com o tempo, para me entregar a ele. Mas hoje quero que ele passe por mim, me cumprimente e se despeça no mesmo instante. É que, às vezes, damos tanta importância ao tempo que nos sobra que não damos conta do sol que desponta cada dia ao amanhecer. Sei que há algo de mim, neste corpo entregue a Deus, que precisa de algo mais do que o tempo. Mas hoje não quero mais pensar nisso. Vou apagar o cigarro, e deixar que as cinzas voem para longe. Lá, onde só eu e Deus daremos as mãos. Sorrio e digo. Bem-haja, Senhor meu Deus, que és tão generoso em mim, mesmo quando permites que uma dor perturbe a nossa amizade. Eu sei que há algo em nós que não se prova mas se sabe, como o sal que não se vê, mas que tempera o que comemos.
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quarta-feira, janeiro 17, 2018
quarta-feira, janeiro 03, 2018
Uma confissão banal
Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final.
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim.
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.
quarta-feira, dezembro 20, 2017
Ser padre ou ser Igreja?
Há muito que ando com esta pergunta aos tombos. Há já tanto tempo, como desde que comecei a sentir o que era deveras ser padre. Os primeiros anos do sacerdócio são os anos fantásticos dos sonhos, das esperanças, da vontade de oferecer ou vender a salvação por meia tuta de missas, confissões ou outros sacramentos. Muitas actividades para promover o espírito da comunidade cristã. Muitas conversas entusiásticas sobre um Deus que nos ama. Mas depois, com o tempo, vem a sabedoria da vida, a sabedoria de uma vida que se mantém igual, com pequenas nuances ou pequenos degraus. Esse tempo já la vai um pouco perdido pelo tédio ou pela rotina do nosso sacerdócio. Evito ser pessimista. Vejo ou quero ver tudo como oportunidades e desafios. Mas a pergunta vem e vai, bailando como sereia por um mar desconhecido. São muitos anos contados a fazer uma pergunta que é mais uma questão. Ou uma questão que se desenrola em muitas perguntas. Que Igreja quer Deus? Porque Deus fez assim as coisas? Para que enviou realmente o Seu Filho ao mundo? O que Ele pretende de nós? O que fazemos nós com Deus? E com estas vêm muitas outras perguntas similares, parecidas, mais retocadas ou mais embrulhadas. E todas elas se podem resumir neste desejo que trago em perceber como devo ser Igreja e como posso cumprir a vocação para a qual Deus me convidou. Repito a mim mesmo que não estou a ser pessimista e que, no meu mais íntimo, algo sei da resposta que busco. Talvez recluir-me em mim mesmo fosse a maneira para não me desperdiçar em tanta superficialidade. Mas também sei que não é isso que Deus me quer. É na vida que Ele pretende que eu seja padre e seja Igreja. Talvez o que eu queria era uma Igreja mais fácil, mais simples, mais verdadeira, na qual me pudesse sentir sempre como sou. Talvez consiga responder com mais claridade quando um dia for capaz de desprender-me do meu sacerdócio eu o encontre verdadeiramente. Ou por outras palavras, talvez quando um dia deixe de querer ser tão padre, eu consiga ser mais discípulo e mais Igreja como imagino que Deus sonhou.
sexta-feira, abril 21, 2017
Abandonar-me
Agora que estou aqui nas minhas meditações, acho curioso que Deus nunca me tenha abandonado. Mesmo nas ocasiões em que bati com a porta ou lhe virei costas porque já não aguentava a sua conversa. Sim. Sinto que nunca fui abandonado por Deus, ainda que às vezes não lhe tenha sentido a presença. Não porque Ele não estivesse lá, mas porque eu teimava em vê-lo como queria e a fazer-me as vontades como eu imaginava que necessitava.
Agora que estou aqui nas minhas meditações, quero agradecer-te por teres uma forma de amar que ultrapassa todas as formas de amar que conheço, por estares sempre lá, naquele local que não sei dizer o nome, mas que é meu e muito mais teu.
quarta-feira, abril 12, 2017
ter uma fé pequenina
Creio que o comum dos cristãos gostaria de possuir uma grande fé. Dou conta, porém, que pessoalmente, cada dia e cada vez mais, tenho vontade em possuir uma fé pequena. Uma fé tão pequena que pudesse chamar-se, carinhosamente, de pequenina. Uma fé que, por ser pequenina, sempre tivesse vontade de crescer. Uma fé que fosse sempre caminho. Uma fé livre, que não se agarrasse a nada prévio e buscasse sempre em Deus.
Creio que a fé das grandes certezas é a fé humana, essa fé que busca em si as respostas e não as busca em Deus. E eu não quero ter esse tipo de fé cheia de certezas e num patamar que não precise de crescer.
Creio que a fé pequenina é a fé dos que não se fecham na certeza da sua fé…
quarta-feira, abril 05, 2017
Tenho uma espiritualidade queixinhas
Quase me apetecia dizer que sou um queixinhas. Não daquele tipo de queixinhas que está sempre a pedir coisas a Deus. Cuido, aliás, que não peço muitas coisas a Deus. Sou mais daquele tipo de queixinhas que parece nunca estar satisfeito com a vida que lhe toca viver ou com as adversidades que lhe toca tocar para a frente.
Queixo-me muito. Queixo-me na vida. Mas ainda me queixo mais na oração. Muitas vezes transformo esses momentos em autênticas queixas. Perco-me nelas. Queixo-me de tudo e de todos, da Igreja que não gosto e da Igreja que não consigo ser, dos erros que concretizo e que concretizam comigo, dos pecados que cometo e daqueles que não quero pensar como pecado. Queixo-me do que tenho de fazer, do que fiz e do que faço. Queixo-me de mim mesmo, mas sobretudo dos outros. Queixo-me até de Deus. Queixo-me. E ao queixar-me contigo, cuido que rezo as minhas queixas. Assim mais ou menos como quem, partilhando o que sente, mesmo quando não se devia queixar tanto, mais não faz do que partilhar a vida com quem se ama.
Queixo-me muito. Queixo-me na vida. Mas ainda me queixo mais na oração. Muitas vezes transformo esses momentos em autênticas queixas. Perco-me nelas. Queixo-me de tudo e de todos, da Igreja que não gosto e da Igreja que não consigo ser, dos erros que concretizo e que concretizam comigo, dos pecados que cometo e daqueles que não quero pensar como pecado. Queixo-me do que tenho de fazer, do que fiz e do que faço. Queixo-me de mim mesmo, mas sobretudo dos outros. Queixo-me até de Deus. Queixo-me. E ao queixar-me contigo, cuido que rezo as minhas queixas. Assim mais ou menos como quem, partilhando o que sente, mesmo quando não se devia queixar tanto, mais não faz do que partilhar a vida com quem se ama.
quinta-feira, março 23, 2017
Padres exclusivamente espirituais
Não falo dos padres que se esforçam por ter uma grande espiritualidade. Refiro-me aos que vivem uma espiritualidade exclusiva. Uma espiritualidade que exclui. Uma espiritualidade que tranquiliza e sossega. Uma espiritualidade que se justifica para não ter mais nada que fazer. São aquele tipo de padres que gastam a sua vida na sacramentalidade das celebrações e não dedicam nada do seu tempo à sacralidade da vida. Padres que se esgotam a pregar e se desculpam com as mil pregações que têm de fazer. Padres que precisavam sentir na pele a pele de outra pessoa. Ou sentir na carne o peso de outra pessoa. Padres que entram na casa das pessoas para as abençoar, mas se esquecem de curar as suas feridas.
Eu sei que não dá de beber quem não tiver o copo cheio. Sei que a espiritualidade sacerdotal é uma das dimensões mais fundamentais do sacerdócio. Sei que muitas vezes é a sua ausência que faz um mau sacerdócio. Mas também sei que outras vezes é a desculpa certa para ficarmos por ali, por uma espiritualidade exclusiva, que exclui.
quarta-feira, março 08, 2017
Ficar horas por ali
Já deve ter dado para perceber, pelas vezes que escrevo diante do Senhor exposto, que gosto imenso desse espaço de oração. Ficaria horas por ali. Gosto de estar sozinho com Ele. De preferência com mais gente à volta, mas que não me distraia. Gente que me faça sentir Igreja e comunidade naquela hora de intimidade com o Senhor. Gosto e pronto. Mas isso não significa que o tempo passe sempre sem que se dê conta. Também dou por mim a olhar o relógio, a distrair-me com uma mosca, com a beleza do espaço. Além disso falo bastante. Entrego-lhe muitas coisas. E entre estas distrações e palavras, custa-me o verdadeiro silêncio. Estar assim. Sem dizer nada e à escuta.
Em tempos li que um determinado asceta gastava horas a respirar e em silêncio até descobrir Deus nesse tudo. Mas que foram meses e anos de trabalho interior. Gostava de também ser asceta, mas em muito menos tempo, que eu sou fruto desta época de imediatismo. Gostava de um dia poder dizer, como aquele camponês que passava horas na Igreja do Cura D’Ars, quando este último lhe perguntou o que fazia nesse tempo. Eu olho-o e ele olha-me.
sábado, fevereiro 11, 2017
Fraquezas e forças
Sempre gostei da frase de S. Paulo que diz mais ou menos assim Quando me sinto fraco, então é que sou forte. Gosto dela e já está. Compreendia-a como justificação para as minhas fraquezas. Compreendia-a como a garantia de que as debilidades nos fazem procurar a necessidade de Deus. Sim, o que eu pensava era que quanto mais débil, menos focado estava em mim, e mais me podia focar no auxílio de Deus.
Hoje, quando repetia esta frase, descobri algo ligeiramente novo. Que é nas minhas debilidades que se manifesta a força de Deus. Pela sua graça, pelo seu poder, e porque tudo se deve a Ele e não a mim, quanto mais débil, mais a força de Deus é o que nos capacita para viver. Quanto menos fazemos, mais Ele faz em nós. Quanto menos eu estou, mais Ele está. Quando nós fraquejamos, tem de ser Ele a aguentar-nos, a viver-nos. De certeza que era isto que Paulo queria dizer.
sexta-feira, janeiro 27, 2017
Os padres e as paredes
A dor do sofrimento dos padres é muitas vezes partilhada com as paredes. Sim, os padres também são humanos e também sofrem. Não sofrem diferente dos outros. Sofrem apenas com contornos diferentes. Estava eu a querer dizer que a maior parte das vezes que os padres sofrem é a olhar para umas paredes brancas ou para paredes que mudam de cor quando fechamos os olhos e continuam a ser paredes. Fazemo-lo com a vantagem de que elas não se queixam das nossas palavras que não dizemos para fora. É definitivamente uma vantagem. Também não as incomodamos muito. Não as podemos abraçar, e contudo elas abraçam-nos porque estão ao nosso redor e nos fecham dos quatro pontos que formam.
A esta altura do que escrevo já me estou a imaginar os pensamentos dos que advogam pelo progresso afectivo dentro do clero. Vejo-os a alegar que a vantagem de uma esposa ou de uma família que nos acolhe nos desabafos não se compara à vantagem de uma parede que não fala. Pressinto outrossim a resposta dos que advogam pela conservação da espécie. Estes dirão que o melhor é não haver misturas para fora de si.
A uns e outros quero hoje dizer que não me ocorreu nada disso. O que hoje senti é que, assim, só com paredes, Deus pode acabar por ser o único que se busca no meio do sofrimento. Atenção que eu não sou daqueles que defendem uma fé privatizada. Mas é verdade que dentro de quatro paredes não precisamos falar para fora porque Ele nos escuta dentro. Tudo na vida tem sempre dois lados. Nem que seja o de fora e o de dentro. Hoje prefiro ver este lado de uma solidão que fica aberta para se encher de Deus
quarta-feira, dezembro 28, 2016
O sacrário está vazio
Não sei o motivo, mas quando o meu colega expôs o Santíssimo para a adoração, deixou a porta do sacrário totalmente aberta. Se não fosse a dignidade do contexto, eu diria que ela estava escancarada. Mas não digo.
Nunca reparara tanto num sacrário vazio. Possuía uma leve iluminação. Estava forrado com um dourado mascado. Não possuía nem paninhos nem cortinas. Contudo o mais interessante deste sacrário é que o seu espaço vazio chamou a minha atenção. Prendeu-a mais que o próprio Senhor na hóstia consagrada. Neste momento, tal como me ocorreu quando escrevia, podem surgir uma série de vontades ou sensações recriminatórias. Eu próprio quis dar um nome a esta minha desatenção da custódia. Não lho dei porque não o encontrei. Ainda pensei que era mais um dos meus estados de espírito mundanos.
Paro e penso que me quero referir aos pensamentos ou sensações acerca de um mundo vazio, vazio de si e vazio de Deus. Tentei mais umas quantas justificações. Todas elas edificaram a minha meditação desta noite diante do sacrário vazio. Todas elas preencheram o meu vazio. Todas elas me falavam do vazio. Do vazio de um Deus que se quer ausente. Ou apenas no mítico espaço dos deuses. Ou pior, um Deus usado para esvaziar o mundo.
segunda-feira, novembro 21, 2016
Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus?
Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus?
Uma pergunta destas que surge desprovida de contexto e sem se contar com ela, parece algo banal ou sem sentido. Mas não era banal e fazia muito sentido a pergunta da senhora Luísa. Uma senhora que eu tinha e tenho como boa paroquiana e como crente. Aliás, é pergunta que já me ocorreu em noites mais escuras ou em dias mais fechados em mim.
Na verdade, quando percebemos e caímos na conta do amor perfeito de Deus, que ama sem limites, sem interesses, em liberdade, sem maquilhagem, e quando isso contrasta com as nossas debilidades, com os nossos interesses, com os nossos medos, com a nossa forma tão medida de amar, a pergunta da senhora Luísa começa a ganhar sentido e uma série de novos contornos. Será possível amá-lo mais? Como poderíamos amá-lo na perfeição? Como podemos amá-lo mais? Que fazer para aumentar esse amor?
Reconheço que a primeira reação que a senhora Luísa me incitou foi a de lhe responder com alguma doutrina à maneira, com palavras do costume, aquelas frases que nós padres temos muita mania em usar. Mas também não tinha palavras destas em mim. Naquele imediato e como quase sempre, foi o coração que falou sem que eu lhe desse autorização consentida. A melhor forma de amarmos mais a Deus é deixarmos que o seu amor entre mais ainda em nós.
quinta-feira, novembro 10, 2016
Perguntou quais eram os motivos para ser padre
No local onde em tempo de estudos resido tenho a oportunidade de me juntar com mais colegas sacerdotes e discutir sobre tudo e nada, a propósito e a despropósito. Como sou um dos que possui mais anos de sacerdócio, um deles decidiu perguntar-me qual ou quais eram os motivos para ser padre, o que é que ainda me mantinha após estes anos todos. E por acaso, como era um assunto que já pensara muitas vezes e em especial nesta semana dos Seminários, respondi que só tenho um motivo para ser padre, embora às vezes, ou muitas vezes, busque outros.
É difícil dar razões do nosso sacerdócio, buscá-las, dizê-las. Se calhar deveria haver milhares de razões e motivos. São esses que às vezes procuro para me justificar ou para me sentir um padre com razões para sê-lo. São, quase sempre, humanos e mundanos, mesmo que bons e altamente positivos. Contudo, e sinceramente, penso que só vale a pena ser sacerdote por um motivo: o Amor de Deus que nos chama e fala mais alto.
sábado, outubro 29, 2016
Indizível amor
Deus já nos amava antes de sermos. Ele amou-nos desde o seio do seu ser sem tempo que seja antes do que quer que seja. Releio a Palavra de Deus nas Escrituras. Deixo-me encantar com este entendimento. Porém, não entra em mim tamanho amor que consegue amar para além do existir. Nós também conseguimos, de certa forma, amar aqueles que já amávamos e já partiram. Mas não amamos aquilo que não existiu primeiro. Só um amor que não vive sem ser amando consegue amar aquilo que ainda não existe. Como a mãe que ama o filho ainda sem o conceber e sem haver nascido. Isto é tão grande, meu Deus. Pode até ser contestado por quem não quer saber deste seu amor. Mas quem, algum dia, chegou a senti-lo, como não contemplar o excelso, o indizível desse amor!
domingo, outubro 23, 2016
Marquito, um exemplo de oração
O Marquito anda no quarto ano. É bom moço. Vive com a mãe, que tem um emprego precário. Por isso não são de muitas posses, nem podem gastar dinheiro em coisas prescindíveis.
No outro dia o Marquito, ao passar numa loja da worten viu um tablet que estava em promoção e que lhe arregalou os olhos. Imaginem o que seria de bom poder receber uma dessas coisas que quase todos os coleguinhas da turma têm. Por isso, sabendo das dificuldades lá de casa, em vez de pedir à mãe, decidiu pedir directamente a Jesus, esse Amigo com letra grande de quem tem ouvido falar maravilhas na Catequese. E assim, contou a mãe, todos os dias à noite, antes de adormecer, dirigia um pedido a Jesus para que no dia do seu aniversário tivesse a alegria de receber um tablet daqueles que são fixes e estavam em promoção.
A mãe não sabia que fazer, mas sabia que quase de certeza não conseguiria juntar poupanças até ao seu aniversário para esse efeito. Como de facto. E no dia em que o Marquito cumpriu mais um ano de vida, o desejado tablet não apareceu lá por casa. Por isso, à noite, antes de deitar, a mãe decidiu ter uma pequena conversa com o seu filho para lhe diminuir a tristeza. Então, meu filho, estás triste porque Jesus não te respondeu? E para espanto da mãe, o Marquito respondeu que só estava um bocadinho triste e que Jesus lhe tinha respondido. E sem que a mãe interviesse de novo, ele acrescentou. Ele respondeu, mãe. Ele disse-me que não.
domingo, outubro 02, 2016
Praia e Deus
Na praia passa-se muito tempo deitado, de barriga para cima ou para baixo. Numa toalha quase sempre descolorida ou desbotada pelo sal, pela areia e pelo sol. De olhos fechados, e com a mente vazia. Vazia de preocupações. A mim ocorre-me assim e deixo-me levar pelo sol. O sol é coisa que se nota, que não se disfarça, que às vezes se afasta, mas que se deseja. É assim comigo. E deixo a sugestão de que sintam como eu sinto.
Experimentem então, numa dessas ocasiões, de preferência com a barriga para o ar, deixar os olhos fechados e abrir os restantes sentidos ao que está ao nosso redor. O som das ondas que vão e que vêm, que batem, que inspiram. O mar como se fosse um comboio a correr para algum lado. O sol a preencher-nos a pele, e a entrar para dentro de nós. O ruído das conversas que não se percebem mas que estão lá. A algazarra das crianças que se divertem com as areias. O vento a bater no guarda-sol com a força necessária para não o derrubar. Passados uns minutos que não se conseguem contabilizar, talvez consigam dizer, como eu disse ainda no outro dia. Isto é uma autêntica experiência de Deus. Tão simples, mas tão de Deus.
sexta-feira, julho 08, 2016
Connosco ao colo
Cada dia acorda com diferentes cores. Ainda ontem estava dourado do sol e hoje cinzento de chuva. Os estados ou ânimos de alma, como os dias, mudam constantemente na nossa humanidade. Mas o amor de Deus é sempre o mesmo.
Por isso hoje sento-me, com pernas cruzadas ou por cruzar. Sento-me para estar em silêncio. Para respirar. Dou conta das dores que trago no corpo e na alma. Aos poucos a respiração deixa de ofegar e ensina-me que as dores são pequeninas e provam que estamos vivos. A viver. Sento-me comigo mesmo, sozinho, e aos poucos dá-me a sensação de que o banco em que estou sentado não é mais banco. É colo. É colo de Deus. Dou conta de quem sou e que não tenho de ser mais do que o que sou. Dou conta que o mundo não muda porque queira, mas porque Deus pode querer. Que as dores que trago são pequenos nadas que Deus ama e por isso transforma.
Como é bom quando paramos e deixamos que Deus se sente connosco ao colo!
quinta-feira, junho 30, 2016
Cumpre-se hoje parte de uma vida
O tempo passa vorazmente. Os segundos não param, e arrastam os minutos, as horas, os dias e os anos. Não param porque assim é a vida. Não pára. É quase como um jogo em que lançamos os dados constantemente para chegar à meta.
Hoje cumpro duas dezenas de anos do meu sacerdócio. Faço por recordar a frescura do meu sim jovem, seguro, cheio de ânimo. Faço presente, neste momento, diante do altar, a promessa que quis fazer na minha primeira missa solene. Que todos os dias acordasse sacerdote e que todos os dias desejasse ser sacerdote com a mesma vontade.
Já lá vai muito tempo. O tempo suficiente para necessitar de um esforço de modo a recordar.
Houveram dias que, confesso, esqueci ou quis esquecer meu sacerdócio. Mas também houveram dias que fizeram valer cada segundo destes vinte anos de sacerdócio.
A esta altura da vida já se vai olhando menos para a frente. Parece que as horas passaram a ser segundos. O ânimo de outrora cimentou-se. Já não é ânimo. É apenas querer viver. A missão e vocação ganharam maturidade. Já não são paixão. São vida em forma de entrega. São entrega em forma de amor. Os que nos foram sendo entregues para cuidar eclesialmente já não são somente os que Deus nos deu para cuidar. São agora aqueles com quem caminhamos. Já não conseguimos ser donos de sonhos e aventuras. Fazemos parte deles e delas. Já não somos propriamente jovens que vão mudar o mundo e Igreja. Somos apenas Igreja e fazemos parte, muito pequenina por sinal, deste mundo.
Não quero pensar mais em mim. Hoje não é dia de pensar em mim. Hoje não é dia de pensar na minha vida. Se aqui cheguei e aqui estou, não é por mim, mas pelo Senhor. Por isso hoje é dia de pensar tão somente Nele. Todos estes anos só fazem sentido por causa de quem me chamou e me amou como sou. Graças por ti, senhor, por existires e me amares.
29 de Junho de 2016
quarta-feira, maio 11, 2016
como uma porta
Bater à porta é ter a certeza que alguém pode estar do outro lado, que alguém nos pode atender ou, pelo menos, escutar o ruído do bater da porta. Ninguém pode teimar em dizer que a porta é só uma porta. Se é porta é porque pode abrir-se e trazer o outro lado de lá, dele mesmo, ou levar-nos até esse lado que desconhecemos porventura, mas que ansiamos, senão não bateríamos à porta. Se é porta é porque possibilita encontrar esses dois mundos, o de lá e o de cá. Se é porta, é porque está na minha mão poder abrir-se, e à minha mão de poder tocar-se. Se é porta é porque tem paredes ao seu redor. E se tem paredes pode ser casa, e se é casa é lugar para habitar.
A porta não fecha somente a casa em si, mas abre-a. Dá a possibilidade de deixar entrar na casa quem vem e quem bate. Mesmo quando a porta tem uma fechadura, que serve o significado do que fecha, ela podia definir-se como abertura. Afinal o que se fecha é porque antes estava aberto e pode voltar a abrir-se.
Perguntar por Deus é como uma porta.
quinta-feira, abril 28, 2016
Tanto e tão pouco
Senhor, porque me deste tanto e esperas que nesse tanto te veja somente a ti?
Desculpa, meu amigo e Senhor, mas é nesse tanto que me deste, porque quiseste, que me deixo cair na auto-estima em desmesura. É nesse tanto que me regozijo centrado em mim. É nesse tanto que me esqueço de ti porque estou ocupado comigo. É nesse tanto que me afasto tantas vezes de ti porque não me dou conta que te necessito em mim. É nesse tanto, que é tão bom e me deste com amor, que eu me perco tantas vezes… Quando é quase sempre no meu tão pouco que te encontro e sou feliz!
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