Passados três dias do lindo funeral da Diana, recebi uma chamada da funerária para marcar o funeral de um jovem de vinte e quatro anos que morrera subitamente com doença fulminante, exactamente no dia e na hora em que completava esses vinte e quatro anos. Estudava no último ano de enfermagem. Tinha muitos colegas e amigos. Dará, por isso, para imaginar a dor de tanta gente e a minha aflição. Os funerais são sempre imensamente dolorosos para os que amam quem parte e para aqueles que têm de presidir à cerimónia. Fiquei, portanto, numa grande aflição. Que dizer na homilia do funeral? É comum ficarmos sem saber que dizer, porque também a nós nos custa aceitar. Porém, no mesmo momento em que a aflição me veio, veio também a certeza de que o funeral da Diana seria o ponto de partida do funeral do jovem de vinte e quatro anos. E assim foi, na certeza de que o que conta não é o tempo que dura a nossa vida, mas o sentido com que a vivemos. A minha partilha da homilia foi um contar da história da Diana. E porque passei os olhos no facebook do jovem de vinte e quatro anos, onde os amigos repetiam que a vida era injusta, a determinada altura da homilia, fazendo referência ao que tinha lido no facebook, insisti, com a ajuda da Diana, que a vida não era injusta. Nós é que precisávamos de a aprender melhor, quase como que a querer dizer que nós é que, porventura, às vezes, éramos injustos com ela.
Por causa desta homilia e desta história da Diana, passados uns dias, alguém me contou que a tia do jovem de vinte e quatro anos se sentiu confortada, muito confortada, aliás, no funeral do sobrinho. E a mãe agradeceu-me a homilia especial daquela ocasião. E contaram-me que algumas pessoas, sobretudo jovens, passaram aos amigos a história que tinham ouvido no funeral do jovem amigo de vinte e quatro anos. Lá está de novo a Diana.
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sábado, junho 02, 2012
Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem
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terça-feira, maio 29, 2012
Esta é para ti, Diana, parte X, O pai da Diana
A Diana foi para o céu no dia cinco de Maio deste ano de dois mil e doze. Foi direitinha para lá porque ela sabia que o céu existe mesmo e que Deus a esperava mesmo, e que a vida é isto mesmo. Ela foi direitinha para o céu, porque o lugar dos santos é junto de Deus. Ela foi direitinha para o céu porque é no céu que se atinge a plenitude da felicidade e ela merece ser feliz. Ela foi direitinha para o céu porque o seu exemplo de fé e de santidade tem de ser conhecido no melhor tempo da nossa vida que é a juventude. E foi isso que aconteceu à Diana. Ela sabia-o e eu sei-o. Foi a sepultar no dia sete à tarde. O pároco que me substituiu nesta paróquia permitiu que eu fizesse a homilia. Tinha muita coisa a contar. Contei as nossas conversas. Ou melhor, as suas palavras, a sua vida. Senti-me muito feliz a contar a história da Diana. As cerimónias passaram por entre homenagens lindas e por manifestações de fé e amizade. Gostei muito da missa da Diana. Gostei muito da forma como a mãe foi corajosa depois de anos e anos sem descansar o coração. Gostei muito dos amigos da Diana, que também são meus, ali ao lado dela. Gostei de tanta coisa que nem dá para imaginar. Mas o que gostei mais foi do pai da Diana. Um homem que não tem aquilo que se chama fé. Um homem que várias vezes me mostrou como estava revoltado com Deus. Um homem que me disse que não podia acreditar assim num deus que permite estas coisas injustas. Um homem que poucas vezes acompanhou a filha à missa. Um homem que no final de tudo, ao cruzarmo-nos na rua, se agarrou a mim para me dizer. Não conhecia esta parte da minha filha, padre. Obrigado. Hoje recebi a resposta a muitas das minhas questões, padre. Obrigado. E apertou ainda mais o abraço, comovido e sereno. Que pena não a ter acompanhado mais nesta forma da sua vida. Fez-me bem saber tudo isto, padre. Obrigado. A mãe ouviu, olhou-me com um sorriso suave, e eu falei-lhe dizendo. Já é a Diana, no céu, a fazer das suas.
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sábado, maio 26, 2012
Esta é para ti, Diana, parte IX, sexta-feira santa
A Diana entrou em coma induzido na sexta-feira santa, a sexta-feira da paixão do senhor. Curiosamente, nessa sexta-feira. Passaram outras, e no sábado passado, pela tarde, recebi novo telefonema do irmão. Quando vi o número do Bruno fiquei alarmado. Curiosamente – outra vez - estava a escrever umas coisas sobre a Diana. Estava com tempo naquela tarde e tinha-lhe prometido que, como ela já não conseguia contar a sua história, eu encarregar-me-ia de o fazer. Estava, portanto, a escrever e a pensar na Diana quando o irmão me ligou. Padre, vou já para Lisboa. As coisas estão como deve imaginar. Não precisamos de dizer mais nada. E não conseguem imaginar como fiquei paralisado a escrever e a escrever. Sabia que tinha de escrever tudo. Não podia parar. Só conseguia mexer os dedos no teclado. O resto ficara parado. Saí de casa porque tinha de sair. Às dezoito horas tinha de estar numa das paróquias para celebrar a missa e fazer um baptizado. O caminho durou uns vinte minutos de desassossego. Olhei por duas vezes o relógio. O coração apertava cada vez mais. Sabia que o melhor da Diana estava para vir. Mas estava perturbado, sem fôlego. Desta vez cheguei quase em cima da hora da missa. Contei a uma paroquiana amiga que estava muito perturbado. Expliquei os motivos e disse. Tenho a sensação que a minha amiga acabou de morrer. Não sei explicar. Algo me diz que é assim. Mas ninguém me ligou. Estava já à mesa de uns amigos para meter qualquer coisa à boca antes de uma outra missa quando tocou o telefone e eu corri para ele. Era o Bruno. Padre, era só para lhe dizer aquilo que já deve saber. Não digas mais nada, Bruno. Diz-me só a que horas foi. Tudo me caiu em cima quando ele disse que deviam faltar uns dez, doze minutos para as dezoito horas. E chorei. Não foi só porque a partida de um amigo dói. Chorei, emocionado, por causa dos desígnios de Deus que são tão grandes.
Esta é para ti, Diana, parte I
N.B. Vou atribuir acrescentos aos anteriores títulos, para ajudar a percepção dos textos.
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quarta-feira, maio 23, 2012
Esta é para ti, Diana, parte VIII, preparada
As frases da Diana saíram do nada, que é como quem diz Saíram sem serem esperadas. Mas saíram desse nada, e para a Diana é tudo. E para mim acabou por ser tudo.
Estou preparada. Sei para onde vou. Sei o que me espera. Não tenho medo de morrer amanhã. E a lágrima saiu como entrou, também do nada. Uma lágrima de emoção. Uma lágrima de tudo. E na dela colei a minha. Como colei o meu sorriso. E ela colou o dela no meu. Dois sorrisos e duas lágrimas bonitas a percorrerem um rosto bonito e um rosto de admiração. Olho-a e digo que é Deus que estou a olhar. E a nossa linguagem mistura-se, porque nos entendemos. Porque falamos a mesma linguagem. A linguagem de Deus. A visita que demorou quase três horas de mãos dadas e afagos de parte a parte, fixou a mais pura das nossas realidades humanas. Seres frágeis que são de Deus. Sabe, padre, já me apeteceu desistir. E eu disse-lhe que não podia. Deus não queria. Mas que se entregasse nas mãos Dele. Sabe, às vezes fico cansada de estar cansada. Sofro muito. E não é por deixar de sofrer que estou em paz para partir. É porque sei o que me espera. Deus.
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domingo, maio 20, 2012
Esta é para ti, Diana, parte VII, o livro
A Diana nasceu em 1991 com uma doença hereditária que faz com que certas glândulas produzam certas secreções anormais, com sintomas que afectam sobretudo o tubo digestivo e os pulmões. Por isso está sempre magra, rejeita comida, não faz bem a digestão de alguns alimentos e não pode comer de tudo. Por isso tem dificuldades para respirar e já andou muito tempo com oxigênio às costas. Por isso foi transplantada. E por isso agora está agarrada a máquinas. Com a vida presa por tubos. O tempo ensinou-me a dar nome a esta doença. Fibrose Quística. Escrevo com letra maiúscula, porque sinto que é maior que a minha compreensão. Como a forma de viver da Diana ultrapassa a minha compreensão. Só a entendo à luz da fé e de Deus. Há uns meses, ainda antes de dar entrada no hospital para se agarrar aos tubos, A Diana foi visitar-me e levar-me uma prenda. O embrulho fazia adivinhar um livro. Padre, assim que comecei a ler este livro pensei em si. Acho que vai gostar. Na dedicatória deixou escrito Acredito que este livro seja uma de muitas formas de conseguir encontrar a Força e a Coragem que precisamos em alguns momentos da vida. Por algum motivo escreveu Força e Coragem com letra maiúscula. A seguir vinha um smile, que os jovens gostam destas coisas e a Diana tem apenas vinte anos. O livro tem a capa amarela com um toque de laranja. Pelos vistos foram vendidos dois milhões de exemplares em seis meses. Chama-se “O Céu existe mesmo”, e conta a história real de um menino que esteve no Céu e trouxe de lá uma mensagem. Antes da minha visita ao hospital já o tinha lido todo. Faz pensar. “O Céu existe mesmo”. E ela lembrou-se de mim ao lê-lo. Porque as nossas conversas sobre o céu são certezas nossas, dos dois. Também falámos disso na visita do hospital. Sorrimos e chorámos. Contámos as nossas vidas. Enfim, estivemos ali os dois, um ao lado do outro, como se fosse o momento para se estar vivo. Como se fosse o momento de ser feliz como Deus quer. Esquecemo-nos das horas. Da hora de comer. O importante, quando se está com quem se aumenta a intensidade e a vontade de viver, vale por tudo o resto. Pequena joia de Deus, o teu lugar é em todo o lado. De certeza o será também no Céu.
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quinta-feira, maio 17, 2012
Esta é para ti, Diana, parte VI, a vida
Estávamos ali. Vivos. A falar como era nosso costume. Da vida. Tu sempre soubeste o que a vida vale, Diana. Sempre soubeste aproveitar cada minuto como se só existisse esse. Tu sim, sabes viver. As jovens da tua idade são, na maioria, fúteis. Porque não tiveram a graça que tu tiveste de sofrer desta forma. Eu sei, padre, e agradeço a Deus. Insisti que tinha mesmo muito a agradecer a Deus. Ela acenou que sim. Aquilo que pareceu, à partida, uma desgraça, acabou por te dar uma graça. Aquilo que nos parece a todos uma desgraça, acabou por te dar a graça de saberes viver e de saberes dar valor à vida que tens em cada segundo que ela exista. Eu sei, disse. E foi um Sei como se fosse o maior Sei. Tu és de Deus. Eu sei, disse. Para mim tu és santa. E apenas sorriu. Agradece o dom da tua vida a Deus. Faço-o todos os dias, respondeu. Na despedida perguntei-lhe como estava. Ela respondeu com os braços a fazer um círculo grande. Mais cheia, quis dizer. Obrigada, padre. Fez círculos grandes até eu sair pela porta de quarto dos paliativos. Voltei para trás e disse. Eu é que agradeço. Eu é que agradeço, repeti. Saí e depois disse baixinho. Obrigada, Senhor, por me teres posto esta tua joia na minha vida.
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segunda-feira, maio 14, 2012
Esta é para ti, Diana, parte V, o brilho
A Diana estava do outro lado do vidro. A fisioterapeuta estava com ela. Já não consegue fazer muitos movimentos. Já não consegue fazer muitos movimentos, mas a boca e os dentes não param de sorrir. Enquanto me vestia com os apetrechos do hospital próprios para entrar em quartos com cuidados especiais, uma bata, umas touca, uma máscara, reparei como ela sorria para a fisioterapeuta. É normal nela aquele sorriso rasgado e que brota do interior. Faz-me lembrar o sorriso de um Cristo que uma vez vi num filme e não mais esqueci. Um daqueles clássicos antigos que passavam na Páscoa na televisão. Ao meu lado, estavam dois enfermeiros da Diana. Enquanto esperava que a fisioterapeuta acabasse, falei com eles. Todos gostavam dela. Olhe, às vezes andamos à disputa para tomar conta dela. Ela tem um brilho especial. A maioria dos doentes quase nos torna doentes. A Diana não. A Diana faz-nos ter vontade de viver e de ser enfermeiros. Ao pé dela sentimo-nos bem. A mãe da Diana já me dissera aqui há uns tempos que os médicos e os enfermeiros gostavam muito da Diana e andavam sempre de roda dela. Nas quase três horas em que estivemos juntos, lado a lado e ao lado da sua cama, assisti à prova destas coisas que os enfermeiros e a mãe da Diana me haviam dito. Os enfermeiros e as enfermeiras iam passando só para dizer Olá. Acho que não havia um único que não acenasse, pelo menos, do outro lado do vidro. Vês como és especial, Diana. Tens tanto a dar de Deus. Deus deu-te tanto para dar. E apesar do teu sofrimento, aqui estás ainda a dar de ti, da tua vida, da tua alegria, da tua simpatia, do teu brilho, da tua fé, do teu e do nosso Deus.
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sexta-feira, maio 11, 2012
Esta é para ti, Diana, parte IV, os sins
A Diana foi transplantada aos pulmões há mais de um ano. Deitada na cama do hospital, confidenciou-me que na época agradecia a Deus essa pessoa que, ao morrer, lhe tinha doado os pulmões. Não sei quem é, padre. Mas agradeço. Fazia-o ao anoitecer, para agradecer o dia de vida que findou. Porém, ultimamente não tinha agradecido. Os pulmões não estão a responder, padre. Estão a rejeitar. Não consigo respirar. Eles criaram, por si, um vírus estranho sem explicação, mesmo para os médicos. Perguntei-lhe porque deixara de agradecer. Fiquei meio revoltada, meio triste, meio bloqueada. Eu disse que esses sentimentos eram normais. Que Deus a ouvia, a entendia, os aceitava. Mas que não deixasse que isso lhe afectasse o mais importante, que era viver a cem por cento. Ela concordou. Também a cem por cento. E hoje, depois de eu sair, vais de novo agradecer a Deus a pessoa que te doou os pulmões, certo? Mais certo não podia ser, porque ela sorriu e disse sim. Sorri sempre. E os sins dela são dos melhores sins que eu conheço.
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quarta-feira, maio 09, 2012
Esta é para ti, Diana, parte III, a bagagem
O irmão ligou-me há dois dias. Padre, a minha irmã precisa de si. É tão bom que precisem dos padres. É tão bom que precisem de nós. As coisas não estão bem. Nada bem. Explicou porque não estavam bem. Ela disse aos meus pais que gostava de ver duas pessoas. Uma delas é o senhor. É tão bom que o padre, como padre, seja o escolhido. É tão bom sermos escolhidos. Sabemos que lhe é difícil pelo tempo, pela disponibilidade, pela distância. Ela está em Lisboa, no hospital. Respondi que iria ainda esta semana. Ele respondeu que cada dia é sempre só mais um e que não sabia se havia outro. Deus arranjou então um dia. Deus arranjou uma forma de eu estar disponível num dia que, curiosamente, ficou disponível de um dia para o outro. Na bagagem levei-me só a mim. Deixei as dificuldades para trás. E agora que regresso de Lisboa, paro o carro para escrever tudo o que falámos. Venho com a bagagem cheia. Demoro mais de uma hora a escrever palavras, sentimentos, certezas. Tudo o que falámos e me encheu a bagagem. As horas da nossa conversa e do nosso encontro fizeram deste dia um dos melhores dos meus últimos tempos e da minha fé. Obrigado, Diana.
Para entenderem melhor este post devem ler de novo "Esta é para ti, Diana, parte I" e "Esta é para ti, Diana, parte II". Este texto em concreto foi escrito há mais de um mês, ainda no período da Quaresma. Nos próximos tempos, vou aqui colocar vários textos que escrevi nessa ocasião. Aos poucos perceberão porquê e para quê.
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quarta-feira, janeiro 18, 2012
Quem olha para dentro, desespera
A senhora Angelina é de uma das minhas novas paróquias. Tem ares de quem ficou presa ao passado, na saudade da sua infância e juventude, na força dos seus sonhos. E agora debruça-se sobre ela própria, sobre a doença que não a deixa andar e é sua. Usa muletas. No entanto o que a impede mais de andar não é a doença, mas a forma como olha para dentro, como se debruça sobre a dor que é sua. Tem uma filha que se fecha em casa com a mãe. É jovem, enquanto a idade o comprova. Já não estuda. Quando se aperalta, dá ares enormes de beleza. Ela não dá conta, porque não tem nem emprego nem namorado. E fecha-se em casa. Fecha-se em si mesmo. A mãe falava da filha, e aproveitava para se queixar da vida da mãe da sua filha. Que uma não encontra motivo para sorrir e a outra não sabe sorrir. Padre, não tenho muito tempo, porque não a quero deixar muito tempo sozinha em casa. Diga-me alguma coisinha que me ajude a pobre rapariga. E assim, na pressa, me lembrei de uma frase que em tempos li. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desespera. Disse-lhes mais umas coisas que a pressa permitiu. Mas acho que esta chega. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desespera.
terça-feira, novembro 09, 2010
A estatura do verdadeiro amor
O senhor Emanuel anda na casa dos sessenta. Mas nos últimos tempos o rosto tem traçado anos atrás de anos, como se cada minuto fosse uma semana de vida e cada segundo lhe desenhasse uma ruga. Quem olha para aquele homem de pequena estatura, sem querer concentra-se apenas no rosto. Um rosto que anda na casa dos setenta.
A esposa tem estado fora, lá para os lados da capital, numa clínica. A saúde dela exige cuidados que o senhor Emanuel já não possui para dar. Aguentou enquanto as forças físicas o permitiram. Hoje restam-lhe as forças anímicas ou afectivas. A doença de Alzheimer faz destas coisas. Tira muita coisa a quem padece dela. Mas tira outras tantas a quem está próximo dela. Eu sei que o senhor Emanuel tornou-se incapaz de fazer mais do que sentir. E andava mais triste ainda porque ela estava longe.
Há dias encontrámo-nos no meio do acaso da rua e no meio da sorte de Deus. Correu para me contar. Padre, ela já está aqui no lar da paróquia vizinha. O sorriso era grande, e contrastava com o rosto que lhe conheço dos últimos tempos. Por isso lhe perguntei porque estava feliz. O sorriso alargou-se e respondeu que agora podia ir todos os dias vê-la. Fiquei contente pelo sorriso. Mas, como sabia que ela estava num já quase estado de inconsciência, a curiosidade levou-me a perguntar se ela ainda o reconhecia. O senhor Emanuel baixou a cabeça e abanou-a, respondendo que não. As rugas voltaram. A minha curiosidade aumentou e, por isso, insisti. Então se ela já não sabe bem quem é o seu marido, porque está tão feliz, senhor Emanuel? Não acha que, com tanta visita, ainda sofre mais? Ao que ele respondeu, levantando de novo a cabeça e o sorriso. Ela pode já não saber quem eu sou. Mas eu sei quem ela é.
Abraçámo-nos com verdade e eu fiquei a saber que o senhor Emanuel é um homem que, de pequeno, só tem a estatura.
Há dias encontrámo-nos no meio do acaso da rua e no meio da sorte de Deus. Correu para me contar. Padre, ela já está aqui no lar da paróquia vizinha. O sorriso era grande, e contrastava com o rosto que lhe conheço dos últimos tempos. Por isso lhe perguntei porque estava feliz. O sorriso alargou-se e respondeu que agora podia ir todos os dias vê-la. Fiquei contente pelo sorriso. Mas, como sabia que ela estava num já quase estado de inconsciência, a curiosidade levou-me a perguntar se ela ainda o reconhecia. O senhor Emanuel baixou a cabeça e abanou-a, respondendo que não. As rugas voltaram. A minha curiosidade aumentou e, por isso, insisti. Então se ela já não sabe bem quem é o seu marido, porque está tão feliz, senhor Emanuel? Não acha que, com tanta visita, ainda sofre mais? Ao que ele respondeu, levantando de novo a cabeça e o sorriso. Ela pode já não saber quem eu sou. Mas eu sei quem ela é.
Abraçámo-nos com verdade e eu fiquei a saber que o senhor Emanuel é um homem que, de pequeno, só tem a estatura.
quinta-feira, dezembro 24, 2009
Estamos nas mãos de Deus
Há dias assim. Dias que nos tocam por dentro. Para o bem ou para o mal. Foi assim hoje, um dia antes do Natal. Acordei com vontade de sorrir e mostrar que o menino que celebramos faz sorrir. Mas ao longo do dia, entre as centenas de mensagens de Natal do telemóvel, chegaram outras que me fizeram sofrer. Ou porque o padre não fez como devia. Ou porque o padre devia ter feito. Ou porque o padre assim. Ou porque o padre assado. A hora da missa. O dia da missa. A celebração tal. A bênção tal. A Elvirinha que está nos cuidados intensivos. Ouvi sempre como se uma agulha me fosse espetada sem razão, motivo ou vontade. E assim foi crescendo em mim uma adversidade às coisas e à vida. Há dias assim.
Mas o Joaquim ligou-me. A sogra já tinha regressado do Hospital. Prometera ir lá a casa visitá-la e confessá-la nesta época. Entretanto, no dia em que me dispunha fazê-lo, dera entrada no hospital. Hoje estava em casa e o genro telefonara a dizer para me informar. Ou para pedir enquanto informava. Fui. Estava na cama com muitas dores. Premeditara sorrir para a vida, para que ela não entendesse as agulhas que tinha espetadas. Mas não aconteceu. O sorriso saiu-me natural porque olhei para ela e isso bastou. Perguntei se tinha muitas dores. Acenou que sim. Mas falou que estava nas mãos de Deus. Abri mais ainda o sorriso. Nada melhor que no dia de Natal estarmos nas mãos de Deus. E falei. Pois tenho a certeza que este vai ser o melhor momento deste meu Natal. Confessei-a. Conversámos. Rimos. Sempre aumentando e abrindo o meu sorriso. De facto, num dia em que se celebra a Vida, o Amor, a Felicidade que Deus nos promete, nos traz, e encarna no Seu Filho, nada melhor do que sentir que estamos nas mãos de Deus. Mesmo que seja a sofrer. No final contei-lhe que tinha sido o melhor momento do meu dia. Ela disse que também para ela o tinha sido. Agora já era Natal. E para mim também. Porque neste Natal descobri mais uma vez que estamos nas mãos de Deus!
Mas o Joaquim ligou-me. A sogra já tinha regressado do Hospital. Prometera ir lá a casa visitá-la e confessá-la nesta época. Entretanto, no dia em que me dispunha fazê-lo, dera entrada no hospital. Hoje estava em casa e o genro telefonara a dizer para me informar. Ou para pedir enquanto informava. Fui. Estava na cama com muitas dores. Premeditara sorrir para a vida, para que ela não entendesse as agulhas que tinha espetadas. Mas não aconteceu. O sorriso saiu-me natural porque olhei para ela e isso bastou. Perguntei se tinha muitas dores. Acenou que sim. Mas falou que estava nas mãos de Deus. Abri mais ainda o sorriso. Nada melhor que no dia de Natal estarmos nas mãos de Deus. E falei. Pois tenho a certeza que este vai ser o melhor momento deste meu Natal. Confessei-a. Conversámos. Rimos. Sempre aumentando e abrindo o meu sorriso. De facto, num dia em que se celebra a Vida, o Amor, a Felicidade que Deus nos promete, nos traz, e encarna no Seu Filho, nada melhor do que sentir que estamos nas mãos de Deus. Mesmo que seja a sofrer. No final contei-lhe que tinha sido o melhor momento do meu dia. Ela disse que também para ela o tinha sido. Agora já era Natal. E para mim também. Porque neste Natal descobri mais uma vez que estamos nas mãos de Deus!
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Aproveito para desejar a todos, penitentes, amigos, menos amigos, anónimos, menos anónimos, um Natal nas mãos de Deus!
quarta-feira, abril 22, 2009
Esta é para ti, Diana, parte II
Sentou-se no sofá porque é mais cómodo para a sua doença. Fica cansada com facilidade. Não consegue reter muita comida e energia. Retém a respiração consoante os pulmões lhe permitem. Devo exagerar, porque não faço muitas considerações à doença. Vejo-a como os outros jovens da sua idade. Nem mais nem menos. Só as nossas conversas são diferentes. Porque não há como ir direito aos assuntos. Não há como falar do que é essencial. Padre, diga-me que valor e sentido tem o sofrimento. De que serve? Porque se sofre?
Claro que as quatro ou cinco perguntas que fez com o mesmo rumo me deixaram descalço. Por isso encolhi as pernas e fiz uns raciocínios que há tempos venho fazendo, porque sem dúvida que este é um dos enigmas maiores da humanidade, mais incómodos e sombrios. Não é por acaso que a maioria dos doentes, nos ditos países mais desenvolvidos, morrem nos hospitais. Ninguém os quer em casa.
Apeteceu-me responder que com a dor descobrimos o sabor da não dor. Era um raciocínio algo lógico, mas superficial. Por isso avancei essa parte, para encontrar sentido no que queria dizer.
Encarei-a de frente e disse. Diana. Repeti. Diana. Sofremos, porque somos frágeis e limitados. Não somos deuses e senhores da vida. Somos apenas seus administradores. E sabias que isso pode fazer-nos reconhecer a necessidade de Deus? Por sermos limitados, mais facilmente aceitamos que os outros tenham limitações, o que nos põe em pé de igualdades. Não somos superiores a ninguém. Na dor e na morte somos todos iguais. Não há capacidades, bens, riquezas, poderes que lhes resistam. Por sermos limitados, mais facilmente nos sentimos necessitados dos outros. Entendes como a dor pode melhorar os relacionamentos entre as pessoas? Evitar guerras? Evitar conflitos?
Sofremos para nos aproximarmos mais de Deus. Porque nos sabemos, como já disse, necessitados de Deus. Repeti este raciocínio de propósito. Os auto-suficientes não precisam nem dos outros nem de Deus. O sofrimento tem a capacidade de nos fazer descobrir o que é essencial na vida, como tu sabes melhor que eu. Quem melhor do que aquele que sofre para saber o que vale a e na vida!
Incrível como Deus sempre fez com que, no mundo, as coisas grandes se fizessem com as coisas mais frágeis! Incrível como o sofrimento tem a capacidade de nos fazer Viver.
Claro que as quatro ou cinco perguntas que fez com o mesmo rumo me deixaram descalço. Por isso encolhi as pernas e fiz uns raciocínios que há tempos venho fazendo, porque sem dúvida que este é um dos enigmas maiores da humanidade, mais incómodos e sombrios. Não é por acaso que a maioria dos doentes, nos ditos países mais desenvolvidos, morrem nos hospitais. Ninguém os quer em casa.
Apeteceu-me responder que com a dor descobrimos o sabor da não dor. Era um raciocínio algo lógico, mas superficial. Por isso avancei essa parte, para encontrar sentido no que queria dizer.
Encarei-a de frente e disse. Diana. Repeti. Diana. Sofremos, porque somos frágeis e limitados. Não somos deuses e senhores da vida. Somos apenas seus administradores. E sabias que isso pode fazer-nos reconhecer a necessidade de Deus? Por sermos limitados, mais facilmente aceitamos que os outros tenham limitações, o que nos põe em pé de igualdades. Não somos superiores a ninguém. Na dor e na morte somos todos iguais. Não há capacidades, bens, riquezas, poderes que lhes resistam. Por sermos limitados, mais facilmente nos sentimos necessitados dos outros. Entendes como a dor pode melhorar os relacionamentos entre as pessoas? Evitar guerras? Evitar conflitos?
Sofremos para nos aproximarmos mais de Deus. Porque nos sabemos, como já disse, necessitados de Deus. Repeti este raciocínio de propósito. Os auto-suficientes não precisam nem dos outros nem de Deus. O sofrimento tem a capacidade de nos fazer descobrir o que é essencial na vida, como tu sabes melhor que eu. Quem melhor do que aquele que sofre para saber o que vale a e na vida!
Incrível como Deus sempre fez com que, no mundo, as coisas grandes se fizessem com as coisas mais frágeis! Incrível como o sofrimento tem a capacidade de nos fazer Viver.
quarta-feira, abril 08, 2009
Esta é para ti, Diana, parte I
A Diana é uma menina que nasceu com uma doença sem cura. Tem um nome complicado. Não o aprendi porque tenho estado mais atento à pessoa que é sua portadora. Mas é um nome complicado. Tão complicado como a doença. Vive mais dias no hospital que em casa. Já se passeia pelos corredores como sendo a sua sala de espera. Falamos muito, sobretudo quando ela precisa de alguém que lhe dê duas palavras para alimentar forças. Temos falado muito sobre o céu e o inferno. A vida para além da morte. O que Deus nos tem preparado e o que espera de nós. O que Ele nos dá e o que nós temos ou merecemos. A nossa história. A história de outros tantos que sofrem ou já partiram. O tempo. A vida. Há dias recebi esta mensagem da Diana: Aprendi que o tempo é muito precioso e não volta atrás. Por isso não vale a pena resgatar o passado. O que vale a pena é construir o futuro.
Escusado será dizer que me lembrou as vezes que complicamos a vida, sem necessidade e presos a um passado que nos faz resistir à própria vida. Ela sabe o que é necessário viver. Tenho-a recordado que o importante não é o tempo que vivemos, mas a intensidade com que se vive. Faz uma vida normal, naturalmente. O que a natureza permite. Quando me procura julga que eu a ensino muito. Mas é sobretudo ela que me ensina. Porque vive num limite em que é Deus que comanda e não os homens.
Escusado será dizer que me lembrou as vezes que complicamos a vida, sem necessidade e presos a um passado que nos faz resistir à própria vida. Ela sabe o que é necessário viver. Tenho-a recordado que o importante não é o tempo que vivemos, mas a intensidade com que se vive. Faz uma vida normal, naturalmente. O que a natureza permite. Quando me procura julga que eu a ensino muito. Mas é sobretudo ela que me ensina. Porque vive num limite em que é Deus que comanda e não os homens.
quarta-feira, março 18, 2009
A morfina da ti Maria
Telefonou para o confessionário a filha. Ou a sua lagrimita. Fui lá logo nesse dia. A mãe, que visito regularmente (o que o regular me permite), está de cama há anos. Piorando. Claro. É isso que, doente, na maioria das vezes, se faz na cama e na idade. Estava a dormir. Olhe o senhor padre. Ela sorriu. Tinha levado morfina há poucas horas. A noite anterior tinha sido violenta. Para a mãe, filha e genro. O médico dera a entender. Por isso as lágrimas da filha implorando auxílio. Custa sempre. Caramba. Fiz por mostrar um sorriso também. A ti Maria mal se percebia, mas estava lúcida. Ouvi muito calado. Aprendi. Mulher de fé, de sofrimento, mas de ânimo. Depois disse umas doidices. Já está habituada. Este padre é maluco. Fartámo-nos de rir. Até a filha. Ó Mãe, já há tanto que não rias assim! Ajoelhei-me aos seus pés. Perguntei se precisava algo que eu pudesse fazer. Podia confessar, ou sei lá. Tipo a Unção dos doentes. Disse assim para que não parecesse o fim. Há gente ainda que assimila o sacramento como “extrema unção”. Fiquei pasmado. Que bom! Claro que quero. A filha ficou aliviada. Celebrámos o sacramento. No final ainda ficámos mais um bocadão. Rimos muito. Ai este padre! É o padre mais maluco que conheço… mas se calhar é mais padre que muitos. Fiquei sem palavras. Nem sabia se referir. Mas o que ouvi de seguida deixou-me, não só sem palavras, como sem pensamentos. Deus gosta muito de mim!
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Eram só mais quinze
Foi preciso morrer, para o senhor padre o visitar. Tanta vez que, na doença, o convidei a passar lá por casa. Arranjam-se as maiores desculpas com argumentos, razões, motivos e causas, tempo e falta dele, disponibilidade e falta dela. Quando a vida não nos puxa para ali, inventamos tudo e mais alguma coisa para dizer que a vida tem razão. Mas hoje a campainha cá dentro soou como há muito não soava. Ficou rouca de tanto tocar. Mesmo depois de se retirar o dedo porque tinha de ir embora, continuo a ouvir o som da campainha como se nada mais cá houvesse dentro senão a campainha. Foi preciso ele morrer. A esposa bem me tinha dito para lá passar. Não disse muitas vezes. Mas para ela, porque se cansou de o dizer, foram muitas. Para mim só agora foram muitas. Estava distraído. Distraiu-me o tempo. Distraiu-me a vida. Eram quinze minutos daqueles que costumamos roubar às horas. Eram só mais quinze. Podiam parecer trezentos e quinze. Mas eram só mais quinze. Agora bem posso dizer que estou a gastar mais de quinze a pensar nisso enquanto a campainha ressoa cá dentro.
segunda-feira, junho 26, 2006
Levar com alegria o sofrimento?
Foi um dos meus Ministros Extraordinários que me abordou. Um doente amigo chegara do Hospital, mas não queria comungar sem antes eu passar por lá para lhe dar uma forcinha. Foi mais ou menos assim que falou.
Encontrei-o sentado. Olhos vidrados, no espaço, na dor, na vida. Amarelos, como o resto da face. Pijama vestido. Sofrimento vestido. A olhar para mim com uma alegria estranha, no mínimo, porque o sorriso era distante. No meio da conversa difícil pelos monossílabos constantes, a dor estava sempre presente. Não aguento. Bem peço a Deus, mas não aguento. Que hei-de fazer? Diga-me, padre. Eu respondi, primeiro em silêncio. Depois com coragem. Que hei-de eu dizer? Que se pode dizer? Não tenho muitas palavras. O que pudesse dizer não lhe retiraria as dores. Mas de uma coisa estou convencido, disse. Tudo na vida se leva melhor com alegria. Será mais fácil levar o sofrimento com alegria. Pesa menos. A alegria retira uns quilos de falta de força. Eu costumo dizer que devemos procurar a felicidade com o que temos. A felicidade que se procura com o que queremos ter é mais difícil alcançar. Se Jesus nos quer ver felizes e nos permite sofrer, é porque no meio do sofrimento também podemos ser felizes. Imagino que seja difícil. Mas penso que é possível. Vai tentar? Vou, respondeu, passado um tempinho de reflexão. Ficou melhor? Fiquei. Mais rápido respondeu.
No final, ficou a brincar com um coração de borracha que alguém lhe tinha oferecido.
Encontrei-o sentado. Olhos vidrados, no espaço, na dor, na vida. Amarelos, como o resto da face. Pijama vestido. Sofrimento vestido. A olhar para mim com uma alegria estranha, no mínimo, porque o sorriso era distante. No meio da conversa difícil pelos monossílabos constantes, a dor estava sempre presente. Não aguento. Bem peço a Deus, mas não aguento. Que hei-de fazer? Diga-me, padre. Eu respondi, primeiro em silêncio. Depois com coragem. Que hei-de eu dizer? Que se pode dizer? Não tenho muitas palavras. O que pudesse dizer não lhe retiraria as dores. Mas de uma coisa estou convencido, disse. Tudo na vida se leva melhor com alegria. Será mais fácil levar o sofrimento com alegria. Pesa menos. A alegria retira uns quilos de falta de força. Eu costumo dizer que devemos procurar a felicidade com o que temos. A felicidade que se procura com o que queremos ter é mais difícil alcançar. Se Jesus nos quer ver felizes e nos permite sofrer, é porque no meio do sofrimento também podemos ser felizes. Imagino que seja difícil. Mas penso que é possível. Vai tentar? Vou, respondeu, passado um tempinho de reflexão. Ficou melhor? Fiquei. Mais rápido respondeu.
No final, ficou a brincar com um coração de borracha que alguém lhe tinha oferecido.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Se a desligam, vai
Mais ou menos onze horas da noite. Umas horas tardias, mas as adequadas para quem precisa de falar. Bateram três vezes, descompassadamente, com pouca força, como que a pedir com licença, peço desculpa. A sala estava fria. A conversa também não demorou. Quer dizer, não dei conta que demorasse. Que hei-de dizer àquela família, padre? Venho agora do hospital. E foi contando a história clínica da amiga. Quarenta anos. Tumor nos ossos. Fase Terminal. Estou a tentar resumir, que ela também tentou. Uma família bem cristã, se é possível chamar-lhe assim. Ela está, estava consciente do seu estado. Pedira ao marido para morrer em casa. Queria muito morrer no seu aconchego, no da casa e no dos seus. Tinha piorado rapidamente. Levaram-na para o hospital. A família não media meios. Tudo tentar para lhe salvar a vida. Tudo tentar para a ter o maior tempo possível aqui. Quem não faria o mesmo?!, perguntava-me. Ela era tão boa, padre! Depois que chegou ao hospital não demorou mais que uma hora a entrar em coma. Está ligada às máquinas. Se a desligam, vai. Os pulmões não funcionam. Não tem consciência. Não reage. O tumor atingiu proporções elevadas. Pulmões, como já disse, fígado e não sei que mais. O médico disse que se a desligassem das máquinas morria em questão de segundos. Que para o fazerem a família tinha de assinar um termo de responsabilidade. Não conseguiram, pelo menos ainda. Estão a sofrer há duas semanas. Sofrem por vê-la assim. Sofrem por não saber que fazer. Sofrem porque queriam que ela estivesse em casa a morrer, mas querem fazer tudo o que estiver ao alcance. Sofrem porque são cristãos e não sabem que ética ter. Julgo que neste caso quem menos sofre é ela. E perguntaram-me, como amiga da casa e como cristã, o que haviam de fazer, padre. E eu não sei que lhes hei-de dizer. Ajude-me.
Tudo isto, em poucos segundos, me fez lembrar a minha mãe, o que ela sofrera, os últimos dias, os momentos em que desejei que ela partisse rápido, os momentos em que chorei de saudades com ela ainda viva. Mas enchi os pulmões de ar e de coragem. Ela já está em fase vegetativa? Não percebia e expliquei. Ela respondeu que sim mais ou menos. Falei então da distanásia. Que era prolongar a todo o custo, com todos os meios possíveis, a vida a uma pessoa que está já em fase vegetativa, atrasar o mais possível uma morte eminente ou inevitável. A Igreja diz que não devemos abusar do meios extraordinários para estes casos. É necessário distinguir entre meios ordinários ou extraordinários. Melhor se calhar, entre meios proporcionados e meios desproporcionados. E Terminei dizendo: se a deixarem partir em paz não creio que haja eutanásia. Devem sossegar a consciência e a fé. Devem estar a sofrer muito, e quanto mais tempo, mais vão sofrer. São sofrimentos diferentes, mas um é mais sossegado que outro.
Ela saiu. Beijou-me e pediu forças. Reze por nós, padre, e para que eu saiba dizer o que for melhor.
Ao deitar-me rezei por eles, por ela e por mim, que fiquei assustado!
Tudo isto, em poucos segundos, me fez lembrar a minha mãe, o que ela sofrera, os últimos dias, os momentos em que desejei que ela partisse rápido, os momentos em que chorei de saudades com ela ainda viva. Mas enchi os pulmões de ar e de coragem. Ela já está em fase vegetativa? Não percebia e expliquei. Ela respondeu que sim mais ou menos. Falei então da distanásia. Que era prolongar a todo o custo, com todos os meios possíveis, a vida a uma pessoa que está já em fase vegetativa, atrasar o mais possível uma morte eminente ou inevitável. A Igreja diz que não devemos abusar do meios extraordinários para estes casos. É necessário distinguir entre meios ordinários ou extraordinários. Melhor se calhar, entre meios proporcionados e meios desproporcionados. E Terminei dizendo: se a deixarem partir em paz não creio que haja eutanásia. Devem sossegar a consciência e a fé. Devem estar a sofrer muito, e quanto mais tempo, mais vão sofrer. São sofrimentos diferentes, mas um é mais sossegado que outro.
Ela saiu. Beijou-me e pediu forças. Reze por nós, padre, e para que eu saiba dizer o que for melhor.
Ao deitar-me rezei por eles, por ela e por mim, que fiquei assustado!
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Volte mais vezes, senhor padre
Vieram ter comigo após a eucaristia. Quatro filhos. Casados. Com filhos. Foi o médico, senhor padre. Disse para nos prepararmos. Se pudesse passar lá por casa. Extrema Unção. No meio da dor e do sofrimento, ainda emendei. Unção dos Doentes. Ou como seja, disseram. Penso que já nem sabiam o que pediam. Certo que a idade era avançada. Mas a mãe deles estava para partir. Dói sempre. Ainda me lembro bem da minha. Como se fosse hoje.
Então fui. Pela tarde. Uma tarde cinzenta, que está frio. Estavam uma série de netos com ela. Sempre bem rodeada, que isto do amor transparece e chama. Um quarto apertado. As filhas fora do quarto a chorarem. Entrei a sorrir. Que contraste! Mas é assim que devemos encarar. É assim que devemos animar. Entrei no quarto. Oh que alegria, senhor padre. Não tenho podido ir à Igreja. Ajoelhei-me. Era mais fácil para falar. Para escutar. Para estar próximo das suas palavras e do seu coração. Não foi propriamente para rezar ou me armar em santinho. Sorrio. A cara está mirrada. Clara. Amarelecida. Mas ela sorri. Depois de umas conversas animadas, perguntei: quer receber a Unção. Claro que quero. Saíram todos para ela se confessar. Não que fosse necessário. Mas era para falarmos à vontade. Longos minutos. Foi tão bom para mim! O que ela me disse. Melhor, o que ela insinuou da fé, da vida, da alegria, do amor. Estou aqui à espera. Dói um pouquito. Mas é quando Ele quiser. Falou de Deus. Que já não conseguia comungar. Só um pedacito. Que mal engolia. Comia pouco. Ou nada quase. E sorria. Se sorria. Beijava-me. Eu também. Contava das suas histórias de quando ia à Igreja. Que não conseguia andar. As pernas, malandras, não queriam. Que tinha ali as suas alegrias, os filhos e os netos. Já tenho bisnetos, senhor padre. E que rezava por mim. Cumpria uma promessa antiga. Tanta coisa bonita que os minutos passaram a correr.
No final, depois de tudo, depois de conversar com os filhos e netos para lhes explicar o que faz a fé, o que ajuda nestes caso, despedi-me dela. Volte mais vezes, senhor padre. Ela pedia, e eu é que saía dali cheio de Deus. Voltei lá logo passados quatro dias.
Então fui. Pela tarde. Uma tarde cinzenta, que está frio. Estavam uma série de netos com ela. Sempre bem rodeada, que isto do amor transparece e chama. Um quarto apertado. As filhas fora do quarto a chorarem. Entrei a sorrir. Que contraste! Mas é assim que devemos encarar. É assim que devemos animar. Entrei no quarto. Oh que alegria, senhor padre. Não tenho podido ir à Igreja. Ajoelhei-me. Era mais fácil para falar. Para escutar. Para estar próximo das suas palavras e do seu coração. Não foi propriamente para rezar ou me armar em santinho. Sorrio. A cara está mirrada. Clara. Amarelecida. Mas ela sorri. Depois de umas conversas animadas, perguntei: quer receber a Unção. Claro que quero. Saíram todos para ela se confessar. Não que fosse necessário. Mas era para falarmos à vontade. Longos minutos. Foi tão bom para mim! O que ela me disse. Melhor, o que ela insinuou da fé, da vida, da alegria, do amor. Estou aqui à espera. Dói um pouquito. Mas é quando Ele quiser. Falou de Deus. Que já não conseguia comungar. Só um pedacito. Que mal engolia. Comia pouco. Ou nada quase. E sorria. Se sorria. Beijava-me. Eu também. Contava das suas histórias de quando ia à Igreja. Que não conseguia andar. As pernas, malandras, não queriam. Que tinha ali as suas alegrias, os filhos e os netos. Já tenho bisnetos, senhor padre. E que rezava por mim. Cumpria uma promessa antiga. Tanta coisa bonita que os minutos passaram a correr.
No final, depois de tudo, depois de conversar com os filhos e netos para lhes explicar o que faz a fé, o que ajuda nestes caso, despedi-me dela. Volte mais vezes, senhor padre. Ela pedia, e eu é que saía dali cheio de Deus. Voltei lá logo passados quatro dias.
terça-feira, janeiro 10, 2006
Uma grande bactéria
Tinha dentro de si uma bactéria desconhecida. Os médicos não a conheciam. Estava inconsciente há duas semanas. Vinte e quatro anos. Tudo num repente. Dores esquisitas. Urgências. Médico. Medicamentos. Médicos de novo. Urgência para Coimbra. Coma. Afinal duas bactérias desconhecidas. Ligada a máquinas. Não podemos desistir. Nem de esperar nem de chorar. Liguei para o pai. Disse duas ou três palavras. Insisti que não sabia que dizer. Não me reconhecia o direito de saber o que dizer. Temia a revolta contra Deus. É que o pai era, por assim dizer, um afastado. Um que deixara Deus só para os casamentos, baptizados e funerais. Por isso nem falei em desígnio de Deus. Disse apenas que ia rezar. E do outro lado, as lágrimas disfarçadas. O mesmo pai afastado, dorido, sofrido, respondeu. É Deus que me deve estar a dar um abanão. Deve querer dizer-me qualquer coisa. Tenho pensado muito Nele ultimamente. Tudo depende Dele.
Eu sorri disfarçadamente. Por detrás do auscultador. Um misto de dor e alegria.
Eu sorri disfarçadamente. Por detrás do auscultador. Um misto de dor e alegria.
P.S. Já passaram quatro semanas e ela já foi desligada das máquinas. Dois pontos a favor de Deus.
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