As senhoras domingueiras estavam vestidas a rigor. Umas com mais preto. Outras com menos. Mas todas com muita vontade de se confessarem. Tanta vontade que armaram uma rixa para irem na frente umas das outras. As vozes confundiam-se, mas percebiam-se algumas palavras. Invejosas. Falta de educação. Têm a mania que são melhores que as outras. Os bancos eram arrastados com e como as palavras. Restava-me sorrir do caricato. O colega pároco abria os braços. Mas a vontade delas abafava os braços do padre e o meu sorriso. A hora do arrependimento e do exame de consciência deu lugar à hora das confissões e ponto final. O que interessa é confessarmo-nos, que é assim todos os anos. Eu sei que a paciência é um dom difícil de possuir ou alcançar. Sei o que custa esperar. Porém, é-me difícil entender que o perdão possa ser alcançado mais rápido à custa de uma certa forma de pecar.
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segunda-feira, março 26, 2012
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
As asneiras dos cristãos ou apeteceu-me dizer uma asneira
Descobri há dias numa das minhas paróquias que muitos dos meus cristãos não comungam por causa das asneiras que dizem. Aquilo que de forma culta chamamos de palavrão e que brejeiramente chamamos de carvalhadas. Aquilo que nalgumas zonas do nosso país fazem tão parte do habitat como a comida que comem. São as asneiras que saem da boca num qualquer momento mais desavindo. São as palavras deslocadas que saem da nossa boca e que devemos evitar porque denotam uma educação menos acertada. Pergunto se o dizem para magoar alguém, e respondem que não. Pergunto se o dizem com intenção de maltratar Deus, e respondem que não. Mas mesmo assim deixam de comungar, porque os padres antigos carregavam nessa observação. E apesar de continuar a achar que não são as melhores palavras dos momentos desavindos, não entendo como se transformam em pecados tão graves que levam um cristão que se preze a desistir da comunhão. Maior asneira é deixar de aproveitar a partilha de Deus na eucaristia. Maior asneira é andar toda uma vida com uma fé que não deixa ver a simplicidade do Amor de Deus. Garanto-vos que me apeteceu dizer uma asneira.
sexta-feira, março 11, 2011
Falar de pecado
Não gosto muito de falar de pecado. Tenho sempre medo que ele me caia em cima. Que ao dizê-lo ele se torne realidade. Há muita coisa que só se torna real depois de falada. Até lá, ficam no íntimo da nossa ignorância e inconsciência. Mas ontem, quando o Pedro me perguntou o que era o pecado, eu não pude fugir. Acho que hoje, na sociedade dita moderna, não gostamos de falar de pecado. É uma palavra que não se usa. Como eu, outros colegas se inibem de a usar. As pessoas evitam-na. Preferimos falar em fraquezas. Erros. Um dia um amigo saiu-se com esta que eu vou contando quando quero passar a bola para canto ou quando quero rir-me à custa de não ficar sério. O meu pecado é pecado apenas quando os outros o sabem. Enquanto eles não o sabem, são apenas fragilidades.
No entanto, desta vez não consegui contar esta ao Pedro. Ele estava demasiado sério, para eu brincar com o assunto ou com ele. E lembrei a comparação que um dia ouvira a outro colega. Presta atenção. Imagina uma série de espelhos que se vêem uns aos outros. Que estão voltados uns para os outros. Imagina-os numa feira. Ora o pecado acontece quando um desses espelhos decide deixar de ser espelho. Em si, ele espelha o que a luz ou a claridade deixam que espelhe. Sem elas não espelha nada. Querendo ser ele a luz dos outros espelhos, prescinde do sol. Mas assim submerge nas trevas. Deixa de ter luz para mostrar. Deixa de ter utilidade. Deixa de ser o que é. Assim acontece com o homem. O homem querendo, na sua soberba, ocupar o lugar de Deus, tornar-se igual a Ele, acaba por se tornar o seu oposto. Querendo ser a luz, acaba por ser trevas. Daí o escuro. Daí o medo. A tristeza. Não podemos ser luz quando prescindimos da luz. Então não iluminamos nada. Nem a nossa vida. Então perdemos a nossa essência e deixamos de ser aquilo que deveríamos ser, um espelho da luz.
O meu colega não contara assim, e eu próprio não tenho bem a certeza de me ter explicado bem. É que isto de pecado não é lá muito fácil de falar.
No entanto, desta vez não consegui contar esta ao Pedro. Ele estava demasiado sério, para eu brincar com o assunto ou com ele. E lembrei a comparação que um dia ouvira a outro colega. Presta atenção. Imagina uma série de espelhos que se vêem uns aos outros. Que estão voltados uns para os outros. Imagina-os numa feira. Ora o pecado acontece quando um desses espelhos decide deixar de ser espelho. Em si, ele espelha o que a luz ou a claridade deixam que espelhe. Sem elas não espelha nada. Querendo ser ele a luz dos outros espelhos, prescinde do sol. Mas assim submerge nas trevas. Deixa de ter luz para mostrar. Deixa de ter utilidade. Deixa de ser o que é. Assim acontece com o homem. O homem querendo, na sua soberba, ocupar o lugar de Deus, tornar-se igual a Ele, acaba por se tornar o seu oposto. Querendo ser a luz, acaba por ser trevas. Daí o escuro. Daí o medo. A tristeza. Não podemos ser luz quando prescindimos da luz. Então não iluminamos nada. Nem a nossa vida. Então perdemos a nossa essência e deixamos de ser aquilo que deveríamos ser, um espelho da luz.
O meu colega não contara assim, e eu próprio não tenho bem a certeza de me ter explicado bem. É que isto de pecado não é lá muito fácil de falar.
quinta-feira, dezembro 16, 2010
A terapia dos pobres
Numa hora estive com uma dezena de pessoas, mulheres de cabelo branco ou tapado com o escuro de véu à antiga. Gente cheia de problemas. Os problemas da idade e da vida que não teve oportunidade de ter mais oportunidades. Na sua maioria viveram toda uma vida na mesma terra, na mesma casa, com os mesmos vizinhos e familiares, com o mesmo quintal. Nem a televisão deixou passar outras vidas ou outras formas de vida. Mas precisam falar. Precisam mais falar que confessar-se. E falaram. Falaram. Tanta história cruzada com nomes que eu nunca iria fixar. A sua história numa conversa. Os seus conflitos interiores e exteriores. Os pequenos ou grandes problemas. As suas depressões, se é que sabem o que são ou que as têm. E depois de uma dezena de pessoas que só precisavam falar e sentir que tinham alguém que as escutasse, eu pensei para comigo. Será este o consultório de Deus, a terapia clínica dos pobres?
segunda-feira, março 29, 2010
As lágrimas da vida
Há lágrimas que descem do rosto, percorrendo alguns sinais da cara, dos lábios, do queixo. E há aquelas que descem do mesmo rosto, caem na nossa mão, e chegam ao mais íntimo de nós. Há lágrimas que se moldam e nunca as tocamos, por mais que gostemos de quem as deita. E há lágrimas de pessoas que quase nada nos dizem, mas que tocamos como se fossem nossas. Há ainda outros tipos de lágrimas. As que mostram dor. As que escondem emoções. As que são apenas formas de dizer coisas, boas ou más. Há tantos tipos de lágrimas quantas pessoas existem no mundo. E cada lágrima conta uma vida ou uma forma de viver. As lágrimas são a sombra de quem vive. Andam sempre atrás, mais discretas. Têm a mesma silhueta das pessoas. Mas são mais escuras. Só aparecem por detrás do sol ou da luz. Estão sempre lá.
Falo delas porque hoje não as tenho, mas vejo-as. Porque ontem vi-as e fizeram-me pensar na forma como subsistem, como teimam em congelar-se a toda a hora e em desfazer-se nas horas mais partilhadas, nas horas em que se desfazem máscaras de vida, como é o exemplo das horas das confissões, sejam elas da vida ou do sacramento.
As lágrimas mais dolorosas são aquelas que se vêem no rosto de alguém que não a consegue limpar ou de alguém a quem não se consegue limpar. Tenho-me sentido muito tocado com dezenas de lágrimas que não consigo limpar do rosto de muitas pessoas que tenho confessado. Há dias foi-me mais fácil contabilizar as pessoas que as conseguiam suster do que aquelas que não o conseguiram. Senti cada uma delas, impotente, tocando-me o mais próximo possível do coração. Como se me restasse apenas beber cada uma delas, participar delas, e não pudesse secar a fonte de onde elas brotam. Quisera eu ser uma outra fonte ou ser sinal de outra fonte, a Fonte da Vida. Há tanta gente que precisa dela. Porque fizeste as lágrimas, meu Deus?
Falo delas porque hoje não as tenho, mas vejo-as. Porque ontem vi-as e fizeram-me pensar na forma como subsistem, como teimam em congelar-se a toda a hora e em desfazer-se nas horas mais partilhadas, nas horas em que se desfazem máscaras de vida, como é o exemplo das horas das confissões, sejam elas da vida ou do sacramento.
As lágrimas mais dolorosas são aquelas que se vêem no rosto de alguém que não a consegue limpar ou de alguém a quem não se consegue limpar. Tenho-me sentido muito tocado com dezenas de lágrimas que não consigo limpar do rosto de muitas pessoas que tenho confessado. Há dias foi-me mais fácil contabilizar as pessoas que as conseguiam suster do que aquelas que não o conseguiram. Senti cada uma delas, impotente, tocando-me o mais próximo possível do coração. Como se me restasse apenas beber cada uma delas, participar delas, e não pudesse secar a fonte de onde elas brotam. Quisera eu ser uma outra fonte ou ser sinal de outra fonte, a Fonte da Vida. Há tanta gente que precisa dela. Porque fizeste as lágrimas, meu Deus?
terça-feira, março 23, 2010
A faladeira
Falou. Falou. Falou. Ouvi. Acenei que sim. Que não. Sorri. Sorri mais aberto. Concordei que sim ou que não. Quase me limitei a ouvir. E foi assim que aquela confissão começou, se desenvolveu e acabou. Aliás, quase não acabava, porque a sua vontade de falar, contar, explicar, era tanta que se não fosse o adiantado da hora e da espera, ali permaneceríamos, emissor completo e receptor atento. Era o que precisava a senhora de lenço ao pescoço. Doutorada. Culta. Utilizava expressões medidas. Utilizava-as com educação, mas com a mesma vontade dos outros que têm menor educação. Faz parte daquele grupo de pessoas que usam a confissão, não porque tenham pecados para confessar, graça para obter, perdão para alcançar, mas porque não têm com quem falar verdadeiramente de si, sem esconder e mentir, sem resguardar ou esquivar. Faz parte daquele grupo de pessoas que precisam de falar ou de ser ouvidas. Faz parte daquele grupo de pessoas anónimas, que vivem anónimas e não conseguem ser anónimas. Faz parte daquela sociedade que tem tempo para tudo menos para as pessoas. Faz parte daquele grupo enorme de pessoas que aparecem nas nossas igrejas, nas nossas confissões e para as quais a nossa resposta quase nunca consegue ser diferente da resposta da sociedade, porque também nós, padres, fazemos muitas vezes parte desses grupos e dessas sociedades.
Meu Deus, temos tanto para aprender com estas conversas sem tempo e horas!
Meu Deus, temos tanto para aprender com estas conversas sem tempo e horas!
quarta-feira, março 03, 2010
A senhora do xaile
O confessionário era de madeira de carvalho. Uma cortina vermelha separava-me da realidade fria da Igreja. O padre José convidara-me para confessar e acedi com amizade. O que não sabia é que me enviaria para dentro da madeira de carvalho. De cada lado estavam uns buraquinhos para se ouvir a confissão, e pouco mais. Da pessoa que ficava do lado de fora apenas se percebiam escassas formas de rosto. Nem a idade se percebia, a não ser pelo teor da confissão. Confesso que prefiro um cara a cara. Mas a experiência não estava a ser má, até que chegou uma senhora da qual percebi apenas a silhueta de um xaile pela cabeça. Começámos. Mas a senhora falava extremamente alto, de forma que a dez metros seria possível perceber cada palavra que proferia. Pedi três vezes para baixar o volume da voz. Mas a senhora do xaile possuia, supostamente, uma audição fraca ou exígua. Por isso decidi, com toda a amabilidade e caridade possíveis, até para evitar comentários impróprios dos outros penitentes, sair do confessionário e abordar a senhora cara a cara, que é como quem diz, boca a a ouvido. Assim fiz. Dei a volta. Aproximei-me dela. Toquei-lhe no ombro. Ela virou-se. Olhou-me com ar mais zangado que espantado, e prontamente falou num tom de voz ainda mais elevado. Tenha paciência. Espere pela sua vez, que agora estou eu a confessar-me. Ora uma destas!
segunda-feira, março 03, 2008
O fenómeno: confesso 4
A nossa calçada tem uns paralelos fora de lugar. A água da chuva conduziu-os a outros caminhos. Há buracos nesta calçada. Por isso os salto. Por isso os evito. Mas hoje ia tropeçando num. Ia para casa, depois de uma conversa demorada com um colega. A conversa foi demorada, mas não foi longa. Entusiasmamo-nos ao ponto de falarmos a interromper-nos constantemente. Eu assim. Eu fazia. Eu cozido. Eu assado. Já viste isto. E o outro? Aquele de além. Falávamos de padres. Falávamos também de confissões. Falávamos de alguns padres que fazem umas confissões que são fenómenos. Muita gente ali vai. Às vezes romarias. Não gosto dessas confissões colectivas. Ou absolvições. Faço de conta que não me confundem. Mas intrigam-me, a não ser em casos raros de excepção. Romarias de grandes festas. Situações de grandes ajuntamentos e com uma grande Celebração Penitencial. Perigo de morte colectiva. Embora pense sempre que não é a confissão em si que salva, mas o arrependimento de quem se aproxima de Deus e do Seu perdão. Ela tem valor sacramental. Mas não é magia. Eu acho que a pessoa verdadeiramente arrependida precisa de se confrontar. Nunca ouvimos dizer que era no confronto com o tu que o eu crescia? Eu ouvi isso em psicologia. E a pessoa deve assumir. Custa pouco assumir relaxadamente perante um deus que não se pressente. Basta um desejo e já está. É mais frutuoso o assumir perante alguém, outra pessoa, que, inclusive, nos possa ajudar a levantar, a descobrir portas, estradas. E que o faça a mim. Em concreto. Pessoalmente. Não em massa.
Porém, há quem facilite. Porque é mais fácil. E há quem facilite porque lhe dá jeito ir confessar estes seus grandes pecados sem que os tenha de dizer a quem quer que seja, nem que seja um instrumento de Deus. Há quem percorra quilómetros para se confessar numa absolvição colectiva porque assim é mais fácil.
Pior era o outro padre que celebrava a eucaristia. No meio, após as leituras, fazia uma celebração penitencial. Obrigava todos s fazer o acto de contrição. E depois pedia aos padres que fossem pelo meio da assembleia para absolver os que quisessem. Só absolver. Nem era preciso ouvir. Quase como se apenas os que tivessem grandes pecados o devessem fazer.
Porém, há quem facilite. Porque é mais fácil. E há quem facilite porque lhe dá jeito ir confessar estes seus grandes pecados sem que os tenha de dizer a quem quer que seja, nem que seja um instrumento de Deus. Há quem percorra quilómetros para se confessar numa absolvição colectiva porque assim é mais fácil.
Pior era o outro padre que celebrava a eucaristia. No meio, após as leituras, fazia uma celebração penitencial. Obrigava todos s fazer o acto de contrição. E depois pedia aos padres que fossem pelo meio da assembleia para absolver os que quisessem. Só absolver. Nem era preciso ouvir. Quase como se apenas os que tivessem grandes pecados o devessem fazer.
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Os homens: confesso 3
Calquei de novo a calçada a meio da manhã de ontem. Percorre-se a calçada como se percorre a vida. Umas vezes vamos lá para baixo de vila. Outras para cimo de vila. A vida também se percorre assim. Umas vezes caímos. Levantamos. Corremos. Pé ante pé. Arrastamo-nos. È assim a vida. Altos e baixos. Por isso é bom termos ao nosso lado quem nos ajude a levantar e a procurar que o caminho se faça.
Calquei a calçada, desta vez para o meu café a meio da manhã. Entrei como de hábito. A sorrir para o pessoal. Uns já levados do álcool. Outros desempregados. Outros transeuntes como eu. Ó ti António, viro-me para ele. Amanhã é dia de confissão. Não se esqueça de aparecer. Sorrio. Ele também. Já temos este à vontade. Pois, pois, padre. Para que hei-de eu lá ir, se não vou deixar de dizer carvalhadas. Isto são as vulgarmente conhecidas asneiras. Mas ele diz assim e eu escrevo.
Tomo o café a sorrir. Implico com ele a sorrir. Vou para a calçada calcar os paralelos a sorrir por fora e a pensar por dentro.
Porque é que não se confessam estes homens?
A maioria, como o ti António, depois de umas asneiritas, das tais carvalhadas, custa-lhes abeirar-se da confissão. E julgam que não devem porque, logo ao sair do confessionário, já estão naquela porrada de palavras. Não são muito grandes. Mas são muitas. Não percebem que não são propriamente pecado, a não ser que sejam ditas para magoar alguém. São uma falta de respeito, uma falta de educação. Mas quase sempre saem da boca descomandada sem que o coração lhes dê o sentido verdadeiro delas. Imaginem o que seria no norte do país, onde dizer asneiras é um hábito normalíssimo em todos. Até nos padres!
Cá para mim não se confessam porque sempre foi um hábito apenas das mulheres. Ou por um machismo que não assume a sua necessidade. Ou então será uma Igreja feminista a que temos. Ou então nós, padres, ainda não lhes chegámos ao coração, pois que é pelo coração que nos confessamos. Ou então não querem perder tempo a não ser no café. Ou então não sei.
Calquei a calçada, desta vez para o meu café a meio da manhã. Entrei como de hábito. A sorrir para o pessoal. Uns já levados do álcool. Outros desempregados. Outros transeuntes como eu. Ó ti António, viro-me para ele. Amanhã é dia de confissão. Não se esqueça de aparecer. Sorrio. Ele também. Já temos este à vontade. Pois, pois, padre. Para que hei-de eu lá ir, se não vou deixar de dizer carvalhadas. Isto são as vulgarmente conhecidas asneiras. Mas ele diz assim e eu escrevo.
Tomo o café a sorrir. Implico com ele a sorrir. Vou para a calçada calcar os paralelos a sorrir por fora e a pensar por dentro.
Porque é que não se confessam estes homens?
A maioria, como o ti António, depois de umas asneiritas, das tais carvalhadas, custa-lhes abeirar-se da confissão. E julgam que não devem porque, logo ao sair do confessionário, já estão naquela porrada de palavras. Não são muito grandes. Mas são muitas. Não percebem que não são propriamente pecado, a não ser que sejam ditas para magoar alguém. São uma falta de respeito, uma falta de educação. Mas quase sempre saem da boca descomandada sem que o coração lhes dê o sentido verdadeiro delas. Imaginem o que seria no norte do país, onde dizer asneiras é um hábito normalíssimo em todos. Até nos padres!
Cá para mim não se confessam porque sempre foi um hábito apenas das mulheres. Ou por um machismo que não assume a sua necessidade. Ou então será uma Igreja feminista a que temos. Ou então nós, padres, ainda não lhes chegámos ao coração, pois que é pelo coração que nos confessamos. Ou então não querem perder tempo a não ser no café. Ou então não sei.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
O escuro: confesso 2
Hoje não trago botas, mas calco a mesma calçada de sempre. E o meu pensar, que está na calçada, lembra-me o pensar do outro dia. Se fosses uma pessoa, de certeza, não gostarias que te pisassem. Por isso piso devagar. Para que nem eu sinta. Não vou com pressa. Vou até à Igreja estar com Ele um pouquinho.
Entro. Está escuro. Os olhos concentram-se na única luz. A do Santíssimo. Percebem-se, com o tempo, as imagens dos santos, o altar, a cruz, uma pessoa. Acocorada no último banco, escondida. Não faz ruído. Para eu não dar conta. Faço de conta que não dei. Ajoelho-me e rezo um pouco.
Hoje é dia de confissões quaresmais. Peço forças a Deus. Apesar de ser das coisas mais belas que um padre tem na vida, a graça do perdão de Deus passar através de nós, cansa um pouco, desgasta. Sobretudo se exigir respostas, ajudas, palavras de Deus amigas, acolhedoras e cheias de esperança.
Mas não consigo desviar o pensamento do vulto escondido. Pressuponho que está de mal com alguma coisa. Apetece-me correr para lá. Para abrir a misericórdia de Deus. Mas não devo entrar na intimidade das pessoas sem ser convidado. Não se pode abrir uma porta à força. Isso é arrombar. Espero. E na esperança de ser convidado a entrar, os pensamentos voam. Da confissão para o escuro. Do escuro para a confissão.
Penso como gostaria de acender a luz, sentar-me ao pé daquela pessoa, que nem sei se é homem ou mulher. Ouvir. Estender o braço da absolvição. Sorrir. Explicar como é bonito olhar com esperança o que nos corre mal.
Confesso que sou completamente a favor das confissões como um espaço que, além de permitir o perdão dos pecados, possa ser um encontro com o outro, com o próprio Deus numa pessoa concreta. Na pessoa do sacerdote. Por isso sou a favor de que a confissão se faça de cara levantada, de rosto no rosto. Um espaço em que se compreendam os gestos que se fazem, o que significam e o que precisa a pessoa de ouvir. Sou a favor das confissões sem barreiras e buraquinhos. Sou a favor de que a pessoa confessada e a que confessa possam dialogar deveras. Porque o perdão é concreto e não abstracto. Trata-se de um perdão para ti e não apenas para alguém.
Apetecia-me falar com ela, cara a cara. Mas de repente lembrei-me do que me aconteceu há dias, numa daquelas vezes em que andamos de um lado para outro ajudando os colegas nas confissões. O pároco x, da paróquia x, mandou-me para um confessionário antigo, ao fundo da Igreja, bem talhado e trabalhado, um pouco escuro, com aberturas pequeninas do lado esquerdo e do direito, conforme nos sentamos. As luzes de fora também permaneciam apagadas. As pessoas aproximavam-se ora por um lado ora por outro. Dava conta pelo abafar da pouca luz que surgia dum lado. Não se via a pessoa. Pressentia-se. E foi nessa ocasião em que senti as confissões mais me pesarem nos ombros. Quase todas elas de pecados chamados grandes. O perdão de Deus foi enorme.
Por isso não esqueço que a confissão é acima de tudo o sacramento do perdão. Para perdoar. Para se sentir o perdão de Deus.
E agora, ao ver aquele vulto, fico confusamente à espera que Deus me dê a resposta. Porque as pessoas gostam do escuro quando precisam a toda a força estar conTigo?
Entro. Está escuro. Os olhos concentram-se na única luz. A do Santíssimo. Percebem-se, com o tempo, as imagens dos santos, o altar, a cruz, uma pessoa. Acocorada no último banco, escondida. Não faz ruído. Para eu não dar conta. Faço de conta que não dei. Ajoelho-me e rezo um pouco.
Hoje é dia de confissões quaresmais. Peço forças a Deus. Apesar de ser das coisas mais belas que um padre tem na vida, a graça do perdão de Deus passar através de nós, cansa um pouco, desgasta. Sobretudo se exigir respostas, ajudas, palavras de Deus amigas, acolhedoras e cheias de esperança.
Mas não consigo desviar o pensamento do vulto escondido. Pressuponho que está de mal com alguma coisa. Apetece-me correr para lá. Para abrir a misericórdia de Deus. Mas não devo entrar na intimidade das pessoas sem ser convidado. Não se pode abrir uma porta à força. Isso é arrombar. Espero. E na esperança de ser convidado a entrar, os pensamentos voam. Da confissão para o escuro. Do escuro para a confissão.
Penso como gostaria de acender a luz, sentar-me ao pé daquela pessoa, que nem sei se é homem ou mulher. Ouvir. Estender o braço da absolvição. Sorrir. Explicar como é bonito olhar com esperança o que nos corre mal.
Confesso que sou completamente a favor das confissões como um espaço que, além de permitir o perdão dos pecados, possa ser um encontro com o outro, com o próprio Deus numa pessoa concreta. Na pessoa do sacerdote. Por isso sou a favor de que a confissão se faça de cara levantada, de rosto no rosto. Um espaço em que se compreendam os gestos que se fazem, o que significam e o que precisa a pessoa de ouvir. Sou a favor das confissões sem barreiras e buraquinhos. Sou a favor de que a pessoa confessada e a que confessa possam dialogar deveras. Porque o perdão é concreto e não abstracto. Trata-se de um perdão para ti e não apenas para alguém.
Apetecia-me falar com ela, cara a cara. Mas de repente lembrei-me do que me aconteceu há dias, numa daquelas vezes em que andamos de um lado para outro ajudando os colegas nas confissões. O pároco x, da paróquia x, mandou-me para um confessionário antigo, ao fundo da Igreja, bem talhado e trabalhado, um pouco escuro, com aberturas pequeninas do lado esquerdo e do direito, conforme nos sentamos. As luzes de fora também permaneciam apagadas. As pessoas aproximavam-se ora por um lado ora por outro. Dava conta pelo abafar da pouca luz que surgia dum lado. Não se via a pessoa. Pressentia-se. E foi nessa ocasião em que senti as confissões mais me pesarem nos ombros. Quase todas elas de pecados chamados grandes. O perdão de Deus foi enorme.
Por isso não esqueço que a confissão é acima de tudo o sacramento do perdão. Para perdoar. Para se sentir o perdão de Deus.
E agora, ao ver aquele vulto, fico confusamente à espera que Deus me dê a resposta. Porque as pessoas gostam do escuro quando precisam a toda a força estar conTigo?
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
a vergonha: confesso 1
A calçada deixava-se calcar pelas minhas botas. Não se queixava. Bom sinal, pensava eu. Se fosses uma pessoa, de certeza, não gostarias que te pisassem. O meu pensar obrigava-me a olhar as pedras da calçada. O vento ajudava. Apesar do sol, obrigava a abrigar-me da sua fúria com os olhos no chão. Hora do almoço. Por isso o compasso e o pensar eram apressados e pouco sentidos.
Ela estendia a roupa no alto de uma varanda. Ó prior, então quando são as confissões este ano? Olhei para cima. O sol só me deixava ver a silhueta das roupas a esvoaçar. Estou aqui, continuou e afastou umas ceroulas.
Respondi-lhe que era no dia tal. Que era depois da missa. Como facilita a concentração das pessoas e como não sou apenas e propriamente a favor da confissão para se comungar, pois que é para estarmos em graça e aí permanecermos no colo do Seu amor, optei por marcar as confissões quaresmais para depois de uma Eucaristia da semana. Também é cómodo. Mas tem resultado em termos práticos. Eucaristia. As pessoas já lá estão. Pequena Celebração Penitencial. Como já lá estão, não saem. Ficam. Confissões com música ambiente. Esperam em meditação e oração. Nós padres demoramos menos ou não estamos tanto tempo a confessar. Enfim, uma opção discutível.
Ó prior, e este ano não traz cá padres mais velhos? O costume, porque se torna mais fácil o diálogo, a combinação e as marcações, é trazer os colegas mais próximos. Da paróquia e do coração. Por isso relativamente novos. Mas porquê, pergunto eu? A confissão é que conta. E grito-o. Ela responde, depois de uns murmúrios para que eu não percebesse muito bem a resposta. É só um pouco de vergonha.
E assim fiquei a saber que os padres mais novos podem ou provocam vergonha a algumas ou alguns penitentes. Talvez por serem mais arejados. Por serem menos distantes. Por viverem com as pessoas. Por serem mais populares. Por serem mais atraentes. Por ouvirem melhor. Por terem melhor memória. Pelo que podem pensar diferente dos mais velhos. Ou apenas por serem novos.
Ela estendia a roupa no alto de uma varanda. Ó prior, então quando são as confissões este ano? Olhei para cima. O sol só me deixava ver a silhueta das roupas a esvoaçar. Estou aqui, continuou e afastou umas ceroulas.
Respondi-lhe que era no dia tal. Que era depois da missa. Como facilita a concentração das pessoas e como não sou apenas e propriamente a favor da confissão para se comungar, pois que é para estarmos em graça e aí permanecermos no colo do Seu amor, optei por marcar as confissões quaresmais para depois de uma Eucaristia da semana. Também é cómodo. Mas tem resultado em termos práticos. Eucaristia. As pessoas já lá estão. Pequena Celebração Penitencial. Como já lá estão, não saem. Ficam. Confissões com música ambiente. Esperam em meditação e oração. Nós padres demoramos menos ou não estamos tanto tempo a confessar. Enfim, uma opção discutível.
Ó prior, e este ano não traz cá padres mais velhos? O costume, porque se torna mais fácil o diálogo, a combinação e as marcações, é trazer os colegas mais próximos. Da paróquia e do coração. Por isso relativamente novos. Mas porquê, pergunto eu? A confissão é que conta. E grito-o. Ela responde, depois de uns murmúrios para que eu não percebesse muito bem a resposta. É só um pouco de vergonha.
E assim fiquei a saber que os padres mais novos podem ou provocam vergonha a algumas ou alguns penitentes. Talvez por serem mais arejados. Por serem menos distantes. Por viverem com as pessoas. Por serem mais populares. Por serem mais atraentes. Por ouvirem melhor. Por terem melhor memória. Pelo que podem pensar diferente dos mais velhos. Ou apenas por serem novos.
quinta-feira, outubro 11, 2007
Uma Confissão uma lição
Ainda era seminarista, mas não esqueci mais. Foi uma lição.
Estava em Fátima e, como muitos outros, aproveitei para me confessar. Abundam padres em Fátima. Mas isso não vem ao caso. Pelo menos que sirvam para nos encontrarmos de novo com Deus através da Confissão. A sala das confissões tem fila preparada, confessionários preparados. Chegara a minha vez porque a luz verde tinha acendido para mim. Entrei. Ajoelhei. Não olhei o padre, que este é apenas o intermediário. Quem perdoa é Deus. Olhei Deus através do padre e inclinei-me para me recolher e para que os pecados a apresentar fossem mesmo os meus e os que mais me doíam. Feitas as orações prévias, comecei o desenrolar dos pecados. Quase como um desfiar do rosário. Não precisei dizer mais que dois ou três que me perturbavam para que o padre iniciasse um rol de perguntas. E isto? E aquilo? As perguntas eram mesmo daquelas que não se esperavam. Salvo erro, estava no último ano de Seminário e estas coisas já não eram novidade para mim. Porém, não abri mão. Deixei-o perguntar e, com ares de malvadez, respondi afirmativamente às suas perguntas. Que sim. Também tinha feito isto. E mais aquilo que o senhor padre não se lembrou e nem lhe passa pela cabeça.
Pequei. Pequei porque inventei pecados. Dos piores que me vieram à memória. Dos mais escabrosos. Ora digam lá se não tinha razão. Afinal, a pessoa que se confessa, se estiver verdadeiramente arrependida e porque custa assumir o nosso pecado perante outrem, não estará também sofrida? Não precisará que um padre, por melhor que seja a intenção, faça perguntas desmesuradas. Quando muito que as fizesse com medida e com a única intenção de ajudar o penitente.
Não gostei daquela confissão. E já ouvi muito boa gente que também não gostou da confissão a, b ou c, daquele padre que faz ou fez perguntas desmesuradas, exactamente porque desmesuradas, despropositadas e inconsequentes. Não entendo porque um padre precisa de saber mais coisas, quando Deus é que precisa de as sentir arrependidas. Por isso ainda pequei mais. Terminei a confissão dizendo que era sacerdote, o que aumentava – digo eu – a responsabilidade dos pecados, e que não achava justa aquela forma de apresentar a misericórdia de Deus. Levantei-me. Saí e coloquei-me de novo na fila. Quem me visse, diria que eu não estava bom. E não estava mesmo. Não quis ensinar nada àquele sacerdote. Mas não consegui evitar. Não sou propriamente santo.
Eu é que aprendi uma lição. Nunca fazer perguntas durante a confissão, a não ser que a pessoa peça, e restringir-me sempre àquilo que se pode chamar faltas de amor a Deus, ao próximo e a si mesmo.
Estava em Fátima e, como muitos outros, aproveitei para me confessar. Abundam padres em Fátima. Mas isso não vem ao caso. Pelo menos que sirvam para nos encontrarmos de novo com Deus através da Confissão. A sala das confissões tem fila preparada, confessionários preparados. Chegara a minha vez porque a luz verde tinha acendido para mim. Entrei. Ajoelhei. Não olhei o padre, que este é apenas o intermediário. Quem perdoa é Deus. Olhei Deus através do padre e inclinei-me para me recolher e para que os pecados a apresentar fossem mesmo os meus e os que mais me doíam. Feitas as orações prévias, comecei o desenrolar dos pecados. Quase como um desfiar do rosário. Não precisei dizer mais que dois ou três que me perturbavam para que o padre iniciasse um rol de perguntas. E isto? E aquilo? As perguntas eram mesmo daquelas que não se esperavam. Salvo erro, estava no último ano de Seminário e estas coisas já não eram novidade para mim. Porém, não abri mão. Deixei-o perguntar e, com ares de malvadez, respondi afirmativamente às suas perguntas. Que sim. Também tinha feito isto. E mais aquilo que o senhor padre não se lembrou e nem lhe passa pela cabeça.
Pequei. Pequei porque inventei pecados. Dos piores que me vieram à memória. Dos mais escabrosos. Ora digam lá se não tinha razão. Afinal, a pessoa que se confessa, se estiver verdadeiramente arrependida e porque custa assumir o nosso pecado perante outrem, não estará também sofrida? Não precisará que um padre, por melhor que seja a intenção, faça perguntas desmesuradas. Quando muito que as fizesse com medida e com a única intenção de ajudar o penitente.
Não gostei daquela confissão. E já ouvi muito boa gente que também não gostou da confissão a, b ou c, daquele padre que faz ou fez perguntas desmesuradas, exactamente porque desmesuradas, despropositadas e inconsequentes. Não entendo porque um padre precisa de saber mais coisas, quando Deus é que precisa de as sentir arrependidas. Por isso ainda pequei mais. Terminei a confissão dizendo que era sacerdote, o que aumentava – digo eu – a responsabilidade dos pecados, e que não achava justa aquela forma de apresentar a misericórdia de Deus. Levantei-me. Saí e coloquei-me de novo na fila. Quem me visse, diria que eu não estava bom. E não estava mesmo. Não quis ensinar nada àquele sacerdote. Mas não consegui evitar. Não sou propriamente santo.
Eu é que aprendi uma lição. Nunca fazer perguntas durante a confissão, a não ser que a pessoa peça, e restringir-me sempre àquilo que se pode chamar faltas de amor a Deus, ao próximo e a si mesmo.
quarta-feira, abril 04, 2007
Uma confissão bem amiga
Já não se confessava há muito, disse. Um tipo desportivo. Dread. Calças largas e quase ao fundo do dito cujo. Senta-se de forma bem larga. Sorri para tudo. Eu também. E depois um desenrolar normal do sacramento. Diálogo que não transcrevo. Tinha estado fora do país. Achara oportuno confessar-se. Nada de estranho. A mãe tinha dito. Ele achara por bem. Quer dizer, acho. Rosto amigável. Cabelo de gel. Simpático. Mesmo mesmo. Atribuí a penitencia que supus adequada. Costumo indicar algo que tenha a ver com os pecados confessados e para melhorar. Tipo, se murmurou, peço para rezar pelas pessoas com quem ou por quem murmurou. E agora diga o acto de contrição. Não lembro, padre. Não tem mal. Eu ajudo. Balbucio aos poucos e aos arranques e ele repete. No final, elevo a minha mão direita para a absolvição e bênção finais. Ele olha para mim. Sorri. Eu ia fechar os olhos, como costumo fazer, mas hesito. Não fecho. Imaginei que lhe tivesse recordado algo. Como ele vinha da Alemanha pensei até nos gestos hitlerianos. Safa, que não cabe qualquer comparação! Aqui trata do perdão e por lá da falta do mesmo. Mas não. Ele continua com o sorriso amigo, eleva também a mão direita. Vai buscar a minha quase à sua cabeça. Agarra-a. Cumprimenta-a. E a mim. Baixa as duas. Eu aceno que não. Ele insiste. Obrigado por tudo, padre. Sorri. Expliquei com calma. Abriu a boca e deixou que eu o absolvesse. Ficámos ambos descompostos. Ambos com uma para contar, sem malícia nem apimentado. E isto já me aconteceu mais vezes, tipo, uma ou duas por ano. Torna-se engraçada ou formativa a distracção ou falta de formação.
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Aproveito para desejar a todos uma Páscoa cheia de Alegria e de Vida!
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Tão pecado como perdoado
A senhora é daquelas que não se cala facilmente e que não deixa para os outros os critérios que julga dever ter. No final da Eucaristia veio directa ao assunto. Senhor padre, venho colocar-lhe uma questão sobre o aborto. Li no jornal, disse. O pedido de atenção nem me deixou desparamentar. Aproveitei os poucos segundos dessa acção para pensar o meu cansaço desta campanha e destes dias. Cansei dos extremismos e fanatismos que esta questão trouxe consigo. A questão era emotiva, mas foi demasiado emotiva. Houve demasiada fraude, mesquinhice e oportunismo. Houve demasiado ataque de pessoas e instituições e pouca defesa de argumentos. Houve demasiada obsessão e falta de respeito. Fizeram-na demasiado religiosa. E tanto se aproveitaram uns como outros desta forma de sentir. Vivo a minha fé na vida, mas não sinto que a minha fé possa ser um argumento. Será apenas a minha visão da vida. Não gostei da generalidade da Comunicação Social nem de ver tanta gente de Igreja a encher os ecrãs. Não gostei das intenções escondidas por detrás de alguns discursos. Houve gente séria, bons discursos, inteligentes e honestos. Porém, abundou mais a banalização errada da maioria. Estou convencido de haver pessoas que vão votar sem o fazerem em consciência. Se não estivesse convicto e esclarecido, nesta hora desistiria de votar. Desconfiarão agora que não tive tempo de pensar isto tudo enquanto retirava casula, estola e alva. Mas isto passou-me quase num segundo como se fossem todos os minutos dos meus últimos dias.
Acabada a faina e arrumados os paramentos, voltei à senhora. Diga. Padre, é pecado abortar ou não? Engasguei, para ser imparcial. E ela insistiu, porque me ouvira em tempos ensinar que dizer “eu não mato e não roubo” na confissão não era correcto, dado que eram o desfiar de virtudes e deviam dizer o que na consciência os afastara de Deus. Hábitos antigos de desobrigas. Acha normal uma pessoa dizer na confissão que não mata e depois concordar com a morte de um ser que não se pode defender, mas que está provado existir? Aceitar e aprovar e apoiar quem decide matar? Não é tão ladrão o que vai à horta como o que fica à porta?
Respondi-lhe, mais por obrigação de pastor que por vontade de falar no assunto. Sabe, Deus é misericordioso. Acredito que Ele há-de perdoar quem precisar do Seu perdão, independentemente do mal ou do pecado que cometer. Ele sempre condenou o pecado. Mas sempre teve o perdão pronto para usar. O pecado será sempre pecado. Mas quem peca poderá sempre, se quiser e arrependido, usar do Seu perdão. Sempre.
Acabada a faina e arrumados os paramentos, voltei à senhora. Diga. Padre, é pecado abortar ou não? Engasguei, para ser imparcial. E ela insistiu, porque me ouvira em tempos ensinar que dizer “eu não mato e não roubo” na confissão não era correcto, dado que eram o desfiar de virtudes e deviam dizer o que na consciência os afastara de Deus. Hábitos antigos de desobrigas. Acha normal uma pessoa dizer na confissão que não mata e depois concordar com a morte de um ser que não se pode defender, mas que está provado existir? Aceitar e aprovar e apoiar quem decide matar? Não é tão ladrão o que vai à horta como o que fica à porta?
Respondi-lhe, mais por obrigação de pastor que por vontade de falar no assunto. Sabe, Deus é misericordioso. Acredito que Ele há-de perdoar quem precisar do Seu perdão, independentemente do mal ou do pecado que cometer. Ele sempre condenou o pecado. Mas sempre teve o perdão pronto para usar. O pecado será sempre pecado. Mas quem peca poderá sempre, se quiser e arrependido, usar do Seu perdão. Sempre.
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