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quinta-feira, março 09, 2006

Sinto-me desumano

Tenho andado a pensar na minha gatita. Minha companhia. Olhos tão azuis e tão meigos. Está naquela época. Não a costumo deixar sair. Até para não ser atropelada. Mas não é simples gostar-se assim de um animal. Há dias perguntaram-me porque não a deixava fazer aquilo. Aquilo o quê? Perguntei. Ir ao gato. E respondi em tom de brincadeira. Já que o dono tem de ser casto, ela também tem de fazer sacrifício. Já me aconselharam algumas coisas, tipo pílula, laqueação, veterinário (não entendi bem quando me aconselharam o veterinário sem explicar o que ele podia fazer! Imagino que fosse a laqueação!) … Mas a que me deram como melhor medida foi mesmo a do gato. Ela precisa, padre. Não se faz isso! Até se torna mais adulta depois de ser mãe. A verdade é que me dói vê-la aqui a gemer. Geme de dor. Vê-la alçar o rabito. Roçar-se. Mas o pior é quando olha para mim, olhos nos olhos, e como que me pede. Como que me implora ajuda, que isto é do outro mundo! Olho-a bem. Faço-lhe umas festas. Peço-lhe para aguentar. E depois. Depois penso em mim… desumano…

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A pensar em si

Tal como na eucaristia, aqui, ao meu encontro, muito discreta. Precisava confessar-me. O normal. O comum. Óculos pretos. Mas bonita. Assim uma beleza normal. Daquelas que não chama a atenção, mas que depois de olhar, concentra a atenção. Rosto bem torneado. Formas na média, que nem costumo olhar! Imagino que sejam. Reparo agora que sim. Mas aquilo que podia concentrar a minha atenção eram, de facto, os olhos verdes. Porque sim. Porque são cor da esperança. Porque gosto.
Recolhemo-nos para um canto, o canto do Confessionário. Havia algum ruído na sacristia. Abstraímo-nos. Diga. Não sei por onde começar. Não tenho certeza de querer confessar. Receio o que possa significar o que quero confessar. Como sempre, deixo que o diálogo flua. Olho nos olhos porque é hábito. Não porque sejam verdes. Ela desvia. Fico desconfiado. Mas não desisto porque estou certo de que o perdão nos aproxima de Deus e nos traz a paz que precisamos interiormente. Está à vontade, minha senhora. Tem poucos mais anos que eu, mas é uma senhora. Masturbei-me. A palavra surgiu seca. Eu não me assustei. Não é palavra que me assuste. Ia falar-lhe do egoísmo desta forma de usar a sexualidade. Do prazer que pode ofuscar coisas mais belas, como o amor. Mas que não fizesse um campo de batalha. Que não se mutilasse por isso. Nem física nem espiritualmente. Que tentasse ser fiel ao primeiro princípio do acto sexual, qualquer que fosse o acto: o Amor… quando fui interrompido por ela. A pensar no senhor. Masturbei-me a pensar em si. Olhou-me nos olhos. Eu desviei-os. Olhei na direcção do chão. Ela levou os olhos dela na mesma direcção, como que a procurar o que eu procurava. No chão. Fiquei no chão, com os olhos e com tudo. Não sabia o que acrescentar à minha conversa. Nem o padre nem o homem sabia o que acrescentar.
Engoli em seco as palavras seguintes. Ela também engoliu. Deus tudo perdoa. Agora diga o Acto de Contrição. Vá em paz e que o Senhor a acompanhe. Havia algum ruído na sacristia...