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domingo, maio 20, 2012

Esta é para ti, Diana, parte VII, o livro

A Diana nasceu em 1991 com uma doença hereditária que faz com que certas glândulas produzam certas secreções anormais, com sintomas que afectam sobretudo o tubo digestivo e os pulmões. Por isso está sempre magra, rejeita comida, não faz bem a digestão de alguns alimentos e não pode comer de tudo. Por isso tem dificuldades para respirar e já andou muito tempo com oxigênio às costas. Por isso foi transplantada. E por isso agora está agarrada a máquinas. Com a vida presa por tubos. O tempo ensinou-me a dar nome a esta doença. Fibrose Quística. Escrevo com letra maiúscula, porque sinto que é maior que a minha compreensão. Como a forma de viver da Diana ultrapassa a minha compreensão. Só a entendo à luz da fé e de Deus. Há uns meses, ainda antes de dar entrada no hospital para se agarrar aos tubos, A Diana foi visitar-me e levar-me uma prenda. O embrulho fazia adivinhar um livro. Padre, assim que comecei a ler este livro pensei em si. Acho que vai gostar. Na dedicatória deixou escrito Acredito que este livro seja uma de muitas formas de conseguir encontrar a Força e a Coragem que precisamos em alguns momentos da vida. Por algum motivo escreveu Força e Coragem com letra maiúscula. A seguir vinha um smile, que os jovens gostam destas coisas e a Diana tem apenas vinte anos. O livro tem a capa amarela com um toque de laranja. Pelos vistos foram vendidos dois milhões de exemplares em seis meses. Chama-se “O Céu existe mesmo”, e conta a história real de um menino que esteve no Céu e trouxe de lá uma mensagem. Antes da minha visita ao hospital já o tinha lido todo. Faz pensar. “O Céu existe mesmo”. E ela lembrou-se de mim ao lê-lo. Porque as nossas conversas sobre o céu são certezas nossas, dos dois. Também falámos disso na visita do hospital. Sorrimos e chorámos. Contámos as nossas vidas. Enfim, estivemos ali os dois, um ao lado do outro, como se fosse o momento para se estar vivo. Como se fosse o momento de ser feliz como Deus quer. Esquecemo-nos das horas. Da hora de comer. O importante, quando se está com quem se aumenta a intensidade e a vontade de viver, vale por tudo o resto. Pequena joia de Deus, o teu lugar é em todo o lado. De certeza o será também no Céu.

quinta-feira, maio 17, 2012

Esta é para ti, Diana, parte VI, a vida

Estávamos ali. Vivos. A falar como era nosso costume. Da vida. Tu sempre soubeste o que a vida vale, Diana. Sempre soubeste aproveitar cada minuto como se só existisse esse. Tu sim, sabes viver. As jovens da tua idade são, na maioria, fúteis. Porque não tiveram a graça que tu tiveste de sofrer desta forma. Eu sei, padre, e agradeço a Deus. Insisti que tinha mesmo muito a agradecer a Deus. Ela acenou que sim. Aquilo que pareceu, à partida, uma desgraça, acabou por te dar uma graça. Aquilo que nos parece a todos uma desgraça, acabou por te dar a graça de saberes viver e de saberes dar valor à vida que tens em cada segundo que ela exista. Eu sei, disse. E foi um Sei como se fosse o maior Sei. Tu és de Deus. Eu sei, disse. Para mim tu és santa. E apenas sorriu. Agradece o dom da tua vida a Deus. Faço-o todos os dias, respondeu. Na despedida perguntei-lhe como estava. Ela respondeu com os braços a fazer um círculo grande. Mais cheia, quis dizer. Obrigada, padre. Fez círculos grandes até eu sair pela porta de quarto dos paliativos. Voltei para trás e disse. Eu é que agradeço. Eu é que agradeço, repeti. Saí e depois disse baixinho. Obrigada, Senhor, por me teres posto esta tua joia na minha vida.

segunda-feira, maio 14, 2012

Esta é para ti, Diana, parte V, o brilho

A Diana estava do outro lado do vidro. A fisioterapeuta estava com ela. Já não consegue fazer muitos movimentos. Já não consegue fazer muitos movimentos, mas a boca e os dentes não param de sorrir. Enquanto me vestia com os apetrechos do hospital próprios para entrar em quartos com cuidados especiais, uma bata, umas touca, uma máscara, reparei como ela sorria para a fisioterapeuta. É normal nela aquele sorriso rasgado e que brota do interior. Faz-me lembrar o sorriso de um Cristo que uma vez vi num filme e não mais esqueci. Um daqueles clássicos antigos que passavam na Páscoa na televisão. Ao meu lado, estavam dois enfermeiros da Diana. Enquanto esperava que a fisioterapeuta acabasse, falei com eles. Todos gostavam dela. Olhe, às vezes andamos à disputa para tomar conta dela. Ela tem um brilho especial. A maioria dos doentes quase nos torna doentes. A Diana não. A Diana faz-nos ter vontade de viver e de ser enfermeiros. Ao pé dela sentimo-nos bem. A mãe da Diana já me dissera aqui há uns tempos que os médicos e os enfermeiros gostavam muito da Diana e andavam sempre de roda dela. Nas quase três horas em que estivemos juntos, lado a lado e ao lado da sua cama, assisti à prova destas coisas que os enfermeiros e a mãe da Diana me haviam dito. Os enfermeiros e as enfermeiras iam passando só para dizer Olá. Acho que não havia um único que não acenasse, pelo menos, do outro lado do vidro. Vês como és especial, Diana. Tens tanto a dar de Deus. Deus deu-te tanto para dar. E apesar do teu sofrimento, aqui estás ainda a dar de ti, da tua vida, da tua alegria, da tua simpatia, do teu brilho, da tua fé, do teu e do nosso Deus.

sexta-feira, maio 11, 2012

Esta é para ti, Diana, parte IV, os sins

A Diana foi transplantada aos pulmões há mais de um ano. Deitada na cama do hospital, confidenciou-me que na época agradecia a Deus essa pessoa que, ao morrer, lhe tinha doado os pulmões. Não sei quem é, padre. Mas agradeço. Fazia-o ao anoitecer, para agradecer o dia de vida que findou. Porém, ultimamente não tinha agradecido. Os pulmões não estão a responder, padre. Estão a rejeitar. Não consigo respirar. Eles criaram, por si, um vírus estranho sem explicação, mesmo para os médicos. Perguntei-lhe porque deixara de agradecer. Fiquei meio revoltada, meio triste, meio bloqueada. Eu disse que esses sentimentos eram normais. Que Deus a ouvia, a entendia, os aceitava. Mas que não deixasse que isso lhe afectasse o mais importante, que era viver a cem por cento. Ela concordou. Também a cem por cento. E hoje, depois de eu sair, vais de novo agradecer a Deus a pessoa que te doou os pulmões, certo? Mais certo não podia ser, porque ela sorriu e disse sim. Sorri sempre. E os sins dela são dos melhores sins que eu conheço.

quarta-feira, maio 09, 2012

Esta é para ti, Diana, parte III, a bagagem

O irmão ligou-me há dois dias. Padre, a minha irmã precisa de si. É tão bom que precisem dos padres. É tão bom que precisem de nós. As coisas não estão bem. Nada bem. Explicou porque não estavam bem. Ela disse aos meus pais que gostava de ver duas pessoas. Uma delas é o senhor. É tão bom que o padre, como padre, seja o escolhido. É tão bom sermos escolhidos. Sabemos que lhe é difícil pelo tempo, pela disponibilidade, pela distância. Ela está em Lisboa, no hospital. Respondi que iria ainda esta semana. Ele respondeu que cada dia é sempre só mais um e que não sabia se havia outro. Deus arranjou então um dia. Deus arranjou uma forma de eu estar disponível num dia que, curiosamente, ficou disponível de um dia para o outro. Na bagagem levei-me só a mim. Deixei as dificuldades para trás. E agora que regresso de Lisboa, paro o carro para escrever tudo o que falámos. Venho com a bagagem cheia. Demoro mais de uma hora a escrever palavras, sentimentos, certezas. Tudo o que falámos e me encheu a bagagem. As horas da nossa conversa e do nosso encontro fizeram deste dia um dos melhores dos meus últimos tempos e da minha fé. Obrigado, Diana.

Para entenderem melhor este post devem ler de novo "Esta é para ti, Diana, parte I" e "Esta é para ti, Diana, parte II". Este texto em concreto foi escrito há mais de um mês, ainda no período da Quaresma. Nos próximos tempos, vou aqui colocar vários textos que escrevi nessa ocasião. Aos poucos perceberão porquê e para quê.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

O céu e o inferno, parte III


A reunião demorou muito mais que o previsto. Quando eu esperava que o resto dos presentes virassem olhares e caras, cruzassem as pernas duas e três vezes ora para um lado ora para outro, abrissem a boca por detrás da cova da mão, fizessem ruídos da forma como pudessem, afinal o silêncio recortava-se apenas pela minha voz e pela do pai do Diogo. Ora um ora outro. Reconheço que a minha se fazia ouvir mais. Não porque eu berrasse, mas porque demorava mais tempo e usava mais palavras. Geralmente as respostas são mais longas que as perguntas quando as perguntas são perguntas de vida. Quando são apenas de coisas supérfluas, pode bastar um sim, um não ou um talvez.
Mas porque é que uns vão para o céu e outros não? Qual o critério de Deus?
O problema está em pensarmos Deus como um juiz à maneira humana. Ele não julga, premiando ou castigando. Ele acolhe quem O quer e acolhe de maneira diferente quem não O quer. Por isso o céu e o inferno não são negociáveis. Deus deixa-nos livres nas nossas opções. Se O abandonarmos, se prescindirmos Dele, se nos afastarmos Dele, Ele não impedirá que o façamos. Deus criou-nos livres. Ele não te abandonou nem abandona. Ele deixa que decidas se O queres amar. Fazem assim os pais verdadeiros. Ele é pai verdadeiro. Se o abandonaste, terás de viver com esse abandono. Depois é uma questão de sentires ou não sentires o Seu amor. Isso será a forma de se ter céu ou inferno.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O céu e o inferno, parte II

E continuou. Isso não explica que o céu seja uma coisa e o inferno seja outra. Nem explica a necessidade dos dois. O pai do Diogo era inteligente. Há muito não via tamanha inteligência interessada e participativa num encontro de preparação de qualquer sacramento que fosse. Geralmente as pessoas questionam pouco, poucas dúvidas lançam, porque assim a reunião é mais curta, porque têm receio de dizer algo que os coloque mal, porque quase sempre não estão seguros das suas convicções ou ciências, porque os outros podem olhar de lado, porque o padre se pode chatear e a igreja não gosta que se façam perguntas. Mas o pai do Diogo tem a inteligência à flor da pele. Por isso pergunta e por isso eu deixo que a forma como sinto o céu e o inferno sejam transpiradas para aquela reunião, mesmo que alguma parte dessa forma de sentir possa ser contra o Magistério da Igreja.
Para mim tudo tem a ver com a proximidade (continuo a dizer que não é física) que temos com Deus. Quem estiver mais perto, ficará mais satisfeito. Quem estiver mais longe não consegue senti-l’O tão bem e fica muito insatisfeito. Esta insatisfação leva ao desalento e à dor. Aliás, o facto de estarmos lá mas não estarmos perto é que torna tudo mais difícil. Porque se lá não estivéssemos não ia custar tanto. Se não sentíssemos esse afastamento não ia custar tanto. Tudo tem a ver com aquilo que se sente ou não se sente. O afastamento é o inferno e a proximidade o céu.

domingo, dezembro 07, 2008

O céu e o inferno, parte I

Num encontro para preparar baptismos, e quando explicava a forma como Deus queria salvar todos e como não fazia grande sentido esperar que o Baptismo fosse o nosso bilhete para a salvação, mas sim a prova de que nós queremos a salvação, o pai do Diogo pediu-me licença para perguntar e perguntou. Para que é que Deus nos quer salvar? Como faz para nos salvar?
Sem parar os raciocínios que ia fazendo, fui respondendo com o Reino de Deus, a Ressurreição e afins. Claro que as palavras que utilizei estavam demasiado gastas pelo magistério da Igreja e não me fazia propriamente entender. Dei conta porque ele pediu nova licença para perguntar e perguntou. Pode dizer-me o que é essa história do céu e do inferno?
Quando estudava teologia no Seminário havia muitas definições ou teorias que achava difíceis de compreender. Mais ainda de explicar. Sem dúvida que uma delas é a do céu e o inferno. A sua existência. A sua forma.
Que ninguém pense que o inferno é um lugar de muitas chamas e muita sede e que o céu é um jardim paradisíaco, fui dizendo. Já na altura dos meus estudos ficara claro que não eram espaços, que não os podíamos imaginar ou recriar como um espaço físico para onde se vai depois de morrer. Por isso não podemos confundir o céu azul e bonito que vemos por cima de nós com o céu de Deus. Mas se não são locais para onde se vai, porque se diz que se vai para lá?
Sabia que não era fácil explicar-me, mas avancei que Não é o espaço que nos faz estar, mas nós, a nossa pessoa. O ir para lá é uma forma de lá estar. Eu posso estar num sítio estando noutro deveras, porque o meu sentir está noutro lado. Também posso estar com alguém sem estar ao seu lado. Posso estar com Deus, a seu lado, sem ser um estado físico, mas um estado de sentir. É apenas uma forma de estar. E de certeza que estaremos com Deus depois da nossa morte, no céu ou no inferno…

quinta-feira, novembro 20, 2008

Será que os animais vão para o céu?

Irmão Sol. Irmã Lua. Irmã árvore. Irmão pintassilgo. Irmão cão. Faz sentido gostar do que Deus criou, como faz muito sentido gostar e tratar bem dos animais. Um amigo meu gosta do que habitualmente dizemos ser o melhor amigo do homem, os cães. Digo-o sem segundos sentidos. Relaciona-se bem com eles. Eu também me relaciono bem com eles, mas apenas quando estão presos. Fora disso é só uma espécie de respeito. Eu gosto de lhe chamar respeito. Porém, o meu amigo gosta tanto deles que um dia, numa conversa daquelas em que costumamos reflectir assuntos ou passar algum tempo à procura de assuntos para reflectir, saiu-se com esta. Será que os animais vão para o céu? Fiquei de pernas e mãos atadas no sentido mais intelectual da expressão. Nunca se me havia deparado semelhante questão. Não imaginei sequer que um dia pudesse ser questão. Comecei por dizer aquilo que era mais fácil, o Olha pró que te deu. Não me podia desarmar e por isso passei para o Ora bem, eu penso que. E depois de pedir ajuda a Deus, se é que Ele pudesse estar interessado em ajudar-me, fui raciocinando em voz alta. Ora bem, eu penso que eles são capazes de se relacionar, mas não são capazes de amar no verdadeiro sentido da palavra, porque amar é algo gratuito, desinteressado. Os animais amam quando recebem algo, quando se habituam. Há pessoas assim, mas isso não interessa para esta nossa discussão, disse para amenizar ou aliviar o diálogo. Por este motivo não devem conseguir estabelecer relação de amor com Deus, não achas? Ora bem, eu penso que se não estabelecem relação de amor com Deus, não tem sentido pensar que eles possam ir para o céu. Disse mais umas três ou quatro vezes palavras parecidas com pensar e possam e ora bem eu penso que, porque não sabia o que dizer mais. Mas para mim o céu, apesar dessa ideia fenomenal de ser um paraíso, não precisa de tanta criatura bela. Só de imaginar que podia haver cães no céu à solta…