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segunda-feira, novembro 21, 2016

Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus?

Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus? 
Uma pergunta destas que surge desprovida de contexto e sem se contar com ela, parece algo banal ou sem sentido. Mas não era banal e fazia muito sentido a pergunta da senhora Luísa. Uma senhora que eu tinha e tenho como boa paroquiana e como crente. Aliás, é pergunta que já me ocorreu em noites mais escuras ou em dias mais fechados em mim. 
 Na verdade, quando percebemos e caímos na conta do amor perfeito de Deus, que ama sem limites, sem interesses, em liberdade, sem maquilhagem, e quando isso contrasta com as nossas debilidades, com os nossos interesses, com os nossos medos, com a nossa forma tão medida de amar, a pergunta da senhora Luísa começa a ganhar sentido e uma série de novos contornos. Será possível amá-lo mais? Como poderíamos amá-lo na perfeição? Como podemos amá-lo mais? Que fazer para aumentar esse amor? 
Reconheço que a primeira reação que a senhora Luísa me incitou foi a de lhe responder com alguma doutrina à maneira, com palavras do costume, aquelas frases que nós padres temos muita mania em usar. Mas também não tinha palavras destas em mim. Naquele imediato e como quase sempre, foi o coração que falou sem que eu lhe desse autorização consentida. A melhor forma de amarmos mais a Deus é deixarmos que o seu amor entre mais ainda em nós.

sábado, outubro 29, 2016

Indizível amor

Deus já nos amava antes de sermos. Ele amou-nos desde o seio do seu ser sem tempo que seja antes do que quer que seja. Releio a Palavra de Deus nas Escrituras. Deixo-me encantar com este entendimento. Porém, não entra em mim tamanho amor que consegue amar para além do existir. Nós também conseguimos, de certa forma, amar aqueles que já amávamos e já partiram. Mas não amamos aquilo que não existiu primeiro. Só um amor que não vive sem ser amando consegue amar aquilo que ainda não existe. Como a mãe que ama o filho ainda sem o conceber e sem haver nascido. Isto é tão grande, meu Deus. Pode até ser contestado por quem não quer saber deste seu amor. Mas quem, algum dia, chegou a senti-lo, como não contemplar o excelso, o indizível desse amor!

quarta-feira, outubro 26, 2016

Os filhos que às vezes são esquecidos

Não quero complicar muito. A pequena Rafaela tem poucos anos, mas os suficientes para sentir o seu redor, para se sentir, para que os seus sentimentos puros e desinteressados a façam chorar. Na semana passada dedicou toda uma noite a chorar. Tem dedicado muito tempo às lágrimas. Mais à noite que durante o dia. Os pais separaram-se sem que lhe dessem a certeza que não se amavam. Sem lhe dar as certezas que ela precisava e tanto merecia para viver. Vai-se habituar a viver assim e a pensar o mundo como se descartar fosse o mais normal. Como se fazer sacrifícios não fizessem parte do viver. Como se os problemas se ultrapassassem afastando-se deles. 
Não quero complicar muito. Mas as lágrimas da Rafaela, e o seu rosto envelhecido por estas coisas, amadurecido à força por coisas que não entende, triste pelo amor que deixou de perceber, tocam-me e tornam-me a tocar fundo. 
Eu sei que a vida de muitos casais não é fácil. Mesmo para os casais cristãos que deveriam ter percebido que a cruz é um sinal mais na vida da fé. E não os julgo. Tenho ouvido alguns aos quais as razões válidas ou insuportáveis sobram. Sinto que não é por terem perdido a força e o ânimo que Deus os deixa de amar. Mas quando penso na Rafaela, também a mim me vêm umas lágrimas durante a noite.

terça-feira, agosto 23, 2016

Um casamento que se chama civil

Por obrigações de sangue, participei há poucos dias naquilo que se chama um casamento civil. Uma experiência inolvidável. Uma tentativa de fazer de um contrato uma cerimónia. Foi o que me pareceu e, durante os largos minutos em que a senhora primeira ajudante de conservadora lia os números da lei, o meu coração palpitava de inconformação. Reconheço que desconhecia esses números da lei e desconhecia que apenas utilizavam palavras como contrato, deveres e direitos. Um dos meus cunhados e uma das minhas irmãs, que me observavam, comentaram depois que até parecia que me saía fumo da cabeça, tal seria o meu desconforto. Era o desconforto de quem tem claro que o casamento é um matrimónio, e que mais do que um contrato é uma aliança. Não tenho nada contra o que se chama de casamento civil. E sei que em muitas circunstancias, como era o caso, é a única solução possível para quem quer manifestar o amor como um compromisso para toda a vida. Foi assim que quis entender e viver o momento. Mas não consegui abstrair-me daquilo que é a aliança de amor entre duas pessoas que se amam e dão este passo. Não consegui abstrair-me do facto de a palavra amor não ter sido utilizada em nenhum momento da pretensa cerimónia. Não consegui distanciar-me daquilo que sou, sacerdote. Não consegui, e por isso no final perdi a vergonha e pedi autorização aos noivos, o que me foi concedido, para dizer umas palavras. Peguei no microfone e expressei o que sentia, ao mesmo tempo dizendo que desejava que aquele momento não fosse apenas um contrato, mas uma aliança, e que embora não tivessem podido fazê-lo diante de Deus, que Deus estivesse com eles o resto das suas vidas como creio que estará.

segunda-feira, agosto 01, 2016

Atentados ou sublimados

Um muçulmano diz que precisa meia hora para rezar de manhã e o patrão dá-lhe autorização. Se um católico pede para ir à missa, não pode. Há que cumprir horários. Um muçulmano no hospital pede que não lhe dêem carne e já está. Não come carne. Um católico diz que não quer comer carne na quarta-feira de cinzas, e ou come carne ou não come nada. Se um artista plástico, como aconteceu em Espanha, decide fazer uma obra, a que chamou de arte, com hóstias consagradas roubadas, isso é arte e não tem mal. Mas se alguém propõe que se celebre uma Eucaristia na escola por alturas do Natal, isso não é de permitir, pois atenta contra aqueles que não são católicos. 
O Ocidente quer entrar em ruptura com a sua história, cultura e valores. Não me importuna que o faça. Mas não desta forma aviltante. Não de modo a perder-se, sem solução para se encontrar. 
Os que apregoam e exigem mais tolerância são geralmente os que menos tolerância têm para com a Igreja. De que terão medo? Ou qual a razão para tamanho incómodo? 
Os que apregoam mais liberdade e democracia são os que mais se impõem contra a Igreja e os valores que propõe. Os mesmos valores com que nasceram. Que pretendem afinal? Porque incomoda tanto a Igreja? 
Se há um atentado ao Charlie Hebdo é um atentado contra a liberdade de expressão. Se há um atentado numa discoteca gay, é homofobia. Se há um atentado em Nice, é atentado contra a liberdade, igualdade e fraternidade. Se há um atentado a um pobre homem de 84 anos, sacerdote, no meio da sua missão, é apenas mais um atentado. Assim como os milhares de cristãos, católicos ou não, que têm sido vítimas de violência em zonas fora da Europa. São apenas mais umas mortes. 
Quase apetece pedir ao Senhor Deus que encarne de novo, que venha por isto em ordem, ou que descarregue umas quantas rajadas neste mundo tão líquido. 
Ou então não. Podemos sempre pensar que o cristianismo tem esta capacidade de sublimação! Afinal, a cruz é o nosso sinal mais. O amor é a nossa melhor arma.

terça-feira, julho 19, 2016

O astronauta

Soube há pouco que um astronauta, que era ateu e se havia convertido ao catolicismo, para fazer uma viagem, já não recordo onde, pusera como condição que lhe deixassem levar o Santíssimo Sacramento da Eucaristia para comungar ao menos uma vez por semana, por sua própria mão, enquanto estivesse ausente nos dois meses da viagem. O bispo da sua diocese concedera-lhe a autorização. 
Foi-me contado, como o escrevo. Ou quase. Quem mo contou pretendia louvar a atitude deste cristão, em contraste com a de muitos que não têm qualquer tipo de amor à Eucaristia. Porém, a mim soube-me a estranho. A confusão. 
Em primeiro lugar, parece-me esquisito, para não dizer despropositado, pôr condições a Deus. Vou ali se vieres comigo. Vou ali se te puder comungar. Claro que o astronauta foi um testemunho exemplar do amor a Deus. Mas o amor é tão livre que até na comunhão deveria ser sem condições. 
Em segundo lugar fez-me pensar em tantas outras pessoas sem nome que não têm a possibilidade de comungar por não terem sacerdote, ministro extraordinário da Comunhão ou Eucaristia à mão. Ou aqueles que a hierarquia afasta da comunhão porque as condições assim o não permitem. Não vou explicar de quem me estou a lembrar. 
Nem escrúpulos nem facilidades. O amor é geralmente o termómetro das nossas opções!

sexta-feira, julho 08, 2016

Connosco ao colo

Cada dia acorda com diferentes cores. Ainda ontem estava dourado do sol e hoje cinzento de chuva. Os estados ou ânimos de alma, como os dias, mudam constantemente na nossa humanidade. Mas o amor de Deus é sempre o mesmo. 
Por isso hoje sento-me, com pernas cruzadas ou por cruzar. Sento-me para estar em silêncio. Para respirar. Dou conta das dores que trago no corpo e na alma. Aos poucos a respiração deixa de ofegar e ensina-me que as dores são pequeninas e provam que estamos vivos. A viver. Sento-me comigo mesmo, sozinho, e aos poucos dá-me a sensação de que o banco em que estou sentado não é mais banco. É colo. É colo de Deus. Dou conta de quem sou e que não tenho de ser mais do que o que sou. Dou conta que o mundo não muda porque queira, mas porque Deus pode querer. Que as dores que trago são pequenos nadas que Deus ama e por isso transforma. 
Como é bom quando paramos e deixamos que Deus se sente connosco ao colo!

sábado, junho 25, 2016

A justiça de Deus

Estava em pausa para um delicioso café com uns paroquianos quando da mesa ao lado e em tom de meter-se com o padre, se ouviu um Deus devia ser mais justo. O senhor que proferira a frase explicou depois, dirigindo-se na minha direcção, que achava que Deus deveria ser igual para todos. E que deveria fomentar na terra a igualdade de oportunidades. Porque é que alguns tinham tanto e outros tão pouco! E porque é que os maus eram os que mais sorte tinham na vida! 
A ocasião deu-me a oportunidade de abordar o assunto da forma como o tenho pensado muitas vezes e que agora resumo. Nós estamos embrenhados na justiça dos homens, num tipo de justiça que trata ou quer tratar todos por igual. Basta imaginar o que numa empresa fabril é considerado como igualdade de direitos e de remunerações. Deus não funciona assim. A justiça dos homens também é costume traduzir-se no tratamento por merecimentos, isto é, uma justiça que opera segundo se merece. Deus não funciona assim. A justiça de Deus não é como a justiça dos homens. 
A justiça de Deus não é fazer igual aquilo que não o é, porque completamente distinto e único, nem fazer como se merece. A justiça de Deus é fazer como se precisa. Como cada um precisa. Nem sequer é como cada um quer. É como Deus entende e sabe que cada um precisa. Não é tratar por igual, mas com o mesmo amor. A justiça de Deus é a justiça que ama.

sexta-feira, abril 22, 2016

“Amor amado a corpo inteiro”

Li nos meus devaneios poéticos um verso de Pedro Casaldáliga a propósito da vocação ao sacerdócio que dizia mais ou menos assim: “amor amado a corpo inteiro”. A frase estremeceu em mim e na minha vocação. Arrancou de mim, do meu corpo, a certeza de que não sou digno de tal sentir. Digo-o. Afirmo-o. Raramente amo a corpo inteiro. Digo-lhe muitas vezes expressões como “toma as minhas mãos”, ou “toma meus pés e meu andar”, ou “toma minha boca e minhas palavras”, ou “toma meu coração”, ou “toma meu pensar”, ou “toma meu sofrer” e por aí fora. Na verdade tenho-lhe oferecido partes de mim, mas não o corpo inteiro. 
Perdoa-me, Senhor, pelas vezes que só te entrego parte de mim.

quarta-feira, abril 13, 2016

As partilhas da D. Amélia

A dona Amélia tem um quintal grande. Couves, cenouras, alhos, batatas, salsa e por aí fora. É um quintal onde abundam aquelas pequenas coisas que se fazem grandes nas nossas cozinhas.
Contaram-me que a dona Amélia era muito generosa. Nada que eu não soubesse já e em primeira pessoa. Contaram-me porém ou entretanto que às vezes chegava à casa ou à porta de algumas pessoas e deixava sacos da sua horta. Contaram que muitas dessas pessoas nem a conheciam. E ela dizia que não importava. E deixava o saco com as couves e as batatas. 
A Amélia é mulher de fé. É discreta. Poucos sabem destas coisas que ela faz. Mas faz, e fá-lo a quem quer que seja porque não espera um obrigada. Não espera receber nada em troca. Dá porque quer dar. Dá por amor. Partilha como poucos sabem o verdadeiro significado da palavra. 
Que bom que é ter assim paroquianos!

terça-feira, fevereiro 09, 2016

A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima

A Sónia é uma pequenita da terceira classe. A mãe tem uma das doenças do século, o cancro. ESta tem sofrido imenso, embora sem perder o ânimo de Deus. A Sónia percebe que a mãe sofre. A Sónia gostava de tirar a dor à mãe. A Sónia disfarça, mas sofre com a mãe. Uma vez unidas pelo cordão umbilical, toda a vida unidas. 
Encontrei-as em Fátima numa noite destas. A mãe costuma procurar-me para desabafar e contar da forma como vai lidando com a doença. Por isso aproveitámos a ocasião para uma actualização rápida. Desta vez tinha algo especialmente bonito para contar. Veja, padre, eu que não sou muito destas coisas, hoje decidi dar duas voltas de joelhos à Capelinha. Sabia que era doloroso. Sabia que não é o que mais Deus quer. Ou Nossa Senhora. Mas nesta etapa da minha vida, tento tudo. Não se tratava de uma promessa. Era tão só uma vontade. E pensei fazê-lo sem a pretensão de que Deus me cure. Era mesmo só para que Deus me desse força. E nisto, repare… Fez uma pausa para deixar sua cara sorrir… Imagine que a Sónia não deixou e disse que o faria por mim. Disse-o convictamente e impondo a sua vontade. Fê-lo, padre, com um sorriso a olhar o meu sorriso e as minhas pequenas lágrimas. E depois de dar duas voltas, veio dizer-me. Olha, mãe, dei duas voltas por ti. Agora dou mais três por mim. 
E eu que pensava que sabia o que ia no coração das pessoas que fazem estas coisas! 

vem a propósito este texto que escrevi em tempos: A criança do Santuário

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Vem aí a misericórdia

Vem aí o ano da misericórdia. Por isso toda a gente vai usando a palavra como se de um slogan se tratasse. É agora que a misericórdia vai acontecer. Como se ela não tivesse já ocorrido em Deus para connosco de uma forma que não se repetirá jamais. Éramos nós que precisávamos do seu perdão e foi Ele quem tomou a iniciativa de se aproximar de nós para nos amar. Mas eu também me entusiasmo com este desejo ansioso de que algo de belo, autêntico e transformador aconteça este ano. 
Porém não posso esquecer-me daquela senhora que me contava da sua dificuldade em lidar com umas vizinhas e, por outro lado, manifestava um desejo sincero de fazer umas partilhas com uns pobres da terra. Porque também queria ser misericordiosa no ano da misericórdia. 
Cuido que no plano das relações a dificuldade existe porque geralmente nos colocamos no centro da relação. O outro tem de ser como nós queremos, ajustado à nossa forma de pensar, de sentir e de ser. Mesmo sem querer, os problemas com os outros têm na raiz esta dificuldade em nos relacionarmos com eles como são, a partir do ponto onde estão. Não era assim Jesus. Não é assim Deus que teima em aproximar-se de nós como somos. 
Quero dizer-vos hoje que este olhar o outro a partir de nós poderá também impedir a nossa misericórdia. O Papa bem disse e farta-se de repetir: temos de ir às periferias, temos de ir ao encontro dos outros, sobretudo dos que mais necessitam. Temos, afinal, de sair de nós mesmos. Temos de deixar de ser o centro. Senão o que fizermos ao outro não será por ele, mas por nós. Senão o bem que fizermos não será para os outros, mas para nós. Senão os outros não serão sujeito, mas objecto. Nós seremos apenas um deus sem saber que o somos, centrados nesse poder de podermos ser deus. 
No ano da misericórdia se não sairmos de nós ao encontro do outro, poderemos até praticar as obras da misericórdia, mas não seremos misericordiosos. Seremos apenas condescendentes.

sábado, novembro 14, 2015

Quando é que sentiu mesmo que tinha de ser padre?

Para quem não sabe, está a decorrer aqui em Portugal a Semana dos Seminários. É uma semana que pede aos cristãos mais consciência da necessidade de vocações ao sacerdócio, mais oração e partilha para com os Seminários. Aqui na minha paróquia maior, os catequistas têm-se esforçado junto dos miúdos para essa tomada de consciência.
Ora ontem um miúdo do quinto ano veio ter comigo à sacristia antes da missa. Saíra da catequese com o propósito de tirar algumas coisas a limpo. A catequista propusera-lhes averiguar das razões pelas quais alguém vai para o Seminário ou para o Sacerdócio. De caderno e lápis na mão, como o melhor jornalista da paróquia, explicou ao que vinha, e começou a fazer perguntas. Senhor padre, diga-me quando é que sentiu que a sua vocação era ser padre. Informei-o que entrei no Seminário com menos idade que ele. Que entrara com muitas vontades e certezas, e que as fora alimentando ao longo dos anos, junto com muitas dúvidas, sacrifício, dificuldades. Era normal, porque o Seminário existe para se fazer discernimento vocacional. Não é para fabricar padres. É para ajudar os seminaristas a crescer nas tais vontades e certezas dentro de um discernimento são.
Escreveu duas ou três linhas, e voltou à carga. Mas quando é que sentiu mesmo que tinha de ser padre? Com esta pergunta relembrei aquele momento da minha vida que não mais vou esquecer e que recordo sempre que preciso de força para a vocação que Deus me deu. Aquele dia em que, diante do sacrário, me questionava sobre as razões para ser padre e descobri que Deus me amava de uma forma que não conseguia explicar. O miúdo parou de escrever. Não compreendera bem. Então o senhor padre foi para padre por causa de amar muito a Deus? Olhei-o, toquei-lhe no ombro, e disse. Não. Não fui para padre por amar muito a Deus, mas porque Deus me ama muito.

quarta-feira, outubro 07, 2015

Para estar ao teu lado

O dia de hoje acordou como os outros. Escuro, cinzento, frio. Acordou para que nascesse e se tornasse claro, colorido, caloroso. A meio da manhã já o sol dizia bom dia e nos convidava a viver. 
Cada dia que passa é sempre ocasião para darmos graças a Deus pela vida que nos dá e pelo sentido que lhe dá, e porque nos quer oferecer uma vida ainda melhor. Cada dia que passa, afinal, escuro ou claro, cinzento ou colorido, frio ou caloroso, é um dia para caminharmos em direcção à Vida que o Pai nos teima em oferecer, aquela vida que só atingimos em pleno no céu, o céu de Deus. 
Em cada dia que nasce, nasce também a certeza de que este caminho é o Caminho. 
Mas hoje esta certeza veio a mim logo ao acordar, e teima em fazer-me rever cada passo que faço nessa direcção. E és tu, mãe, que mo lembras, porque o dia 7 de Outubro é, em todos os anos do calendário depois de 2001, o dia em que me apetece dizer ao Pai que quero muito ir para esse seu Céu, só que mais não seja para estar ao teu lado. 
Não queria que este dia voltasse. Porém, na verdade, é neste tipo de dias que melhor nos apercebemos que aqui estamos só de passagem, como caminhantes, para esse lado onde já estás.

sexta-feira, maio 15, 2015

Falar de Deus e com Deus

Parece-me que as nossas liturgias, as nossas pregações, as nossas orações estão cheias de palavras tão feitas, tão clericais, tão eruditas, tão bem compostas, mas tão pouco nossas. Falamos de Deus e com Deus como se não estivesse ao nosso lado como estamos ao lado uns dos outros. Usamos as palavras sem as tornar nossas. Falamos com a boca, às vezes com a inteligência, mas pouco deixamos que fale o coração, que é quem melhor sabe usar as palavras.

segunda-feira, abril 27, 2015

A Olímpia e o milagre da vida

Já em tempos contei como era a dona Olímpia. O seu coração puro via em tudo algo de bom. Uma maneira de ver que eu cuido muito parecida à de Deus.
Hoje a Olímpia vai a sepultar depois de dois ou três anos a sofrer com um cancro e a sofrer por não poder fazer mais pelos outros, como era seu costume, numa simplicidade que fazia questão de sublinhar, Porque eu não sei nada, senhor padre, não sei dizer as coisas, não valho nada, mas amo muito a Deus. Uma dádiva de toda uma vida em favor dos outros. Por isso tomara conta de pessoas em sua casa que não lhe eram de sangue. Gente difícil, gente que precisava de um cuidado tão bonito como o que Olímpia era capaz de por em prática. Foi a primeira pessoa que me abriu as portas de sua casa quando cheguei a estas paróquias. Até se dar o processo da doença, todos os sábados comia em família. Sim, porque me haviam recebido como família. Era assim a Olímpia. Recebia todos no seu coração como se fizessem parte dele e do sangue que ele tinha a palpitar.
No período da doença tivemos oportunidade de conversar bastas vezes. Sempre aprendi com ela como se vive com fé o sofrimento, como se encara a dor com o amor de Deus. Mas numa das últimas vezes foi-me dada a graça de ouvir-lhe algo sobre a morte, que ela encarava de forma sublime e natural, e que não vou mais esquecer. Senhor padre, o maior milagre da vida é a morte!
E a dona Olímpia, que afirmava não saber dizer as coisas, ensinou-me de forma convicta uma verdade teológica que só os doutores da fé conseguem afirmar, que só os santos dizem de forma tão sábia. De facto, quem acredita na ressurreição e no caminho que nos é dado fazer aqui na terra, sabe que a morte é apenas a expressão máxima da vida.
Obrigada, amiga Olímpia, pelo dom tão grande da tua vida. Junto com a minha mãe, olha por nós do céu.

domingo, abril 12, 2015

Amas-me, Senhor?

Amas-me, Senhor? Amas-me como sou, tão pobre, tão frágil, tão pecador? Amas-me sem condições? Sem me exigires que seja santo? Que seja modelo? Sem me obrigares a ser o melhor padre que gostarias que fosse? Sem me exigires uma fé perfeita? Amas-me mesmo quando eu não te amo ou to não sei demonstrar? Amas-me mesmo quando te magoo ou te desiludo? Amas-me quando te volto as costas e quando não quero o teu amor? Amas-me mesmo quando não mereço o teu amor? Amas-me mesmo quando ninguém mais me amar? Amas-me mesmo quando eu já não tiver forças para amar? Amas-me, Senhor, como sou?
Dia da Divina Misericórdia

sábado, abril 04, 2015

Pássaro ferido, mas a voar

Hoje venho aqui porque Tu também vieste. Assim sem nada. Tu mesmo e eu mesmo. Tu vivo e eu a viver. A viver-Te. A senhora Maria dizia há dias que não conseguia perdoar a vizinha dela porque esta tinha dito mal dela. E acabou por viver o que a vizinha dizia dela e não a sua vida, que é muito mais do que o que dizem de nós. O não saber perdoar é como um pássaro sem asas. Um pássaro que não é bem pássaro porque não consegue voar. Tu deste o exemplo do perdão com o sinal mais que é a morte, como se esse despojamento fizesse em ti aquilo que és, as asas por excelência de quem quer voar. As asas para podermos voar na liberdade da Páscoa, na liberdade de estarmos vivos porque nos deste as asas para viver e ser pássaro. Hoje venho aqui sem grandes asas para pedir as Tuas asas. Chegou a hora de aprender a voar. Chegou a hora de aprender com a tua morte que um pássaro só é pássaro porque lhe deste a possibilidade de voar nas Tuas asas. Quero sonhar que estou na Tua cruz, planando alto, num voo cruzado, entre Ti e contigo. Ama-me sempre assim, amigo Senhor. Vem de novo com Tuas asas para que eu seja pássaro ferido, mas a voar.

sábado, março 28, 2015

Os filhos do pecado

Sentou-se à beirinha da cadeira, caso fosse necessário fugir. Ou pela humildade de não ocupar tanto espaço. Penso que a idade lhe ensinou que não se deve ocupar muito espaço, porque o nosso espaço é sempre pequenino. Eu já estava sentado. Pronto para darmos início ao sacramento da penitência. Arregalou os seus olhos pequeninos para dizer que não sabia bem o que dizer. E assentiu resignada: Ó senhor padre, mas todos nós pecamos, pois somos filhos do pecado.
Aquela expressão feriu-me os ouvidos. Ela não pensou no que dissera como eu o imaginei. Mas ser filho do pecado é quase afirmar que somos filhos do Demónio. Por isso emendei-a e pedi-lhe que nunca mais dissesse isso, porque nós somos é filhos de Deus. Sei que ela deve ter aprendido a dizer estas coisas no tempo em que o pecado era aquilo que nos levava para o castigo dos infernos, no tempo em que não havia remédio senão pensar que tínhamos nascido condenados pelo pecado. Era outro tempo, embora os pecados fossem o que são hoje: uma pedra no sapato que dificulta caminhar. Mas é uma pedra que o Senhor Deus aligeira com a sua graça e com o seu amor misericordioso. Às vezes sem pedras no sapato e porque o pé não dói, não percebemos sequer que estamos a caminho. E além disso a pedra não é senão uma pedra, e o caminho é setenta vezes sete vezes maior que a pedra.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Maria e o Faça-se em mim

Há ruídos lá fora. Ouça carros a passar e vozes misturadas. Mas não as consigo definir. Parecem apenas melodias da realidade. Eu estou aqui dentro com Maria. Sim, com Maria na passagem que diz “Faça-se em mim a Tua vontade”. Parei nela. Estacionei ali. Por isso estou em silêncio, mas não sem palavras. Não sei como Maria teve essa coragem! Não é apenas um desejo. O desejo de que Deus faça alguma coisa. É abertura. Abertura total para que Deus entre e me preencha todo. Não é vontade de que algo aconteça, com o risco do acontecer que é efémero. Agora acontece e depois deixou de ser no mesmo instante em que deixou de acontecer. É a disponibilidade para que seja, para que Deus seja em mim. Maria tinha essa disponibilidade, que não era apenas para ser instrumento. Era disponibilidade de vida. A minha vida é Tua, como eu quero que a Tua esteja em mim. Por isso este Sim é a fé. Por isso a fé nos faz felizes porque se trata de amor. Por isso quero ser padre. Por isso o silêncio em mim faz mais do que o ruído lá fora.