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segunda-feira, abril 27, 2015

A Olímpia e o milagre da vida

Já em tempos contei como era a dona Olímpia. O seu coração puro via em tudo algo de bom. Uma maneira de ver que eu cuido muito parecida à de Deus.
Hoje a Olímpia vai a sepultar depois de dois ou três anos a sofrer com um cancro e a sofrer por não poder fazer mais pelos outros, como era seu costume, numa simplicidade que fazia questão de sublinhar, Porque eu não sei nada, senhor padre, não sei dizer as coisas, não valho nada, mas amo muito a Deus. Uma dádiva de toda uma vida em favor dos outros. Por isso tomara conta de pessoas em sua casa que não lhe eram de sangue. Gente difícil, gente que precisava de um cuidado tão bonito como o que Olímpia era capaz de por em prática. Foi a primeira pessoa que me abriu as portas de sua casa quando cheguei a estas paróquias. Até se dar o processo da doença, todos os sábados comia em família. Sim, porque me haviam recebido como família. Era assim a Olímpia. Recebia todos no seu coração como se fizessem parte dele e do sangue que ele tinha a palpitar.
No período da doença tivemos oportunidade de conversar bastas vezes. Sempre aprendi com ela como se vive com fé o sofrimento, como se encara a dor com o amor de Deus. Mas numa das últimas vezes foi-me dada a graça de ouvir-lhe algo sobre a morte, que ela encarava de forma sublime e natural, e que não vou mais esquecer. Senhor padre, o maior milagre da vida é a morte!
E a dona Olímpia, que afirmava não saber dizer as coisas, ensinou-me de forma convicta uma verdade teológica que só os doutores da fé conseguem afirmar, que só os santos dizem de forma tão sábia. De facto, quem acredita na ressurreição e no caminho que nos é dado fazer aqui na terra, sabe que a morte é apenas a expressão máxima da vida.
Obrigada, amiga Olímpia, pelo dom tão grande da tua vida. Junto com a minha mãe, olha por nós do céu.

sábado, janeiro 31, 2015

Mais uma vez o Carlos

O Carlos, que é meu sacristão, tem pouca comida em casa. Tem a que lhe oferecem. Mas quando o Pedro vai a sua casa com fome, este senta-se à mesa e come, nem que o Carlos deixe de comer para que o Pedro coma. O Pedro quase não para em casa, tem de tomar uns remédios para sossegar a tensão, mete-se em problemas a toda a hora. É daqueles jovens que quase ninguém quer receber em casa, com medo de que algo de lá desapareça ou que venham complicações atrás dele. Mas o Carlos deixa-o entrar, acolhe-o, dá-lhe espaço à mesa, ouve-o, confia nele quanto baste, mata-lhe a fome com o pouco que tem, e faz do Evangelho vida.

sábado, junho 28, 2014

a solidariedade não se faz de cima para baixo

O Carlos que é meu sacristão, vive no limiar da sociedade que quase não tem dinheiro para viver. Faz parte daquele grupo que precisa de quem lhe estenda a mão. Não tem rendimentos nem segurança social. Tem o que a paróquia e os biscates no campo lhe dão. Por isso, sempre que posso ou sempre que o meu coração pede, abro mão dos dinheiros que trago no bolso, entre outras partilhas maiores ou menores. Preocupo-me com ele, como muitos na paróquia se preocupam com ele, e ele sabe. Preocupo-me que não lhe falte nada, até porque lhe tenho uma admiração de santidade. Ninguém precisa saber destes gestos, mas ele sabe.
Há dias fui convidado a almoçar na casa de uns paroquianos que fizeram questão de acrescentar Traga o seu sacristão. Fiquei imensamente feliz por levá-lo comigo. No final da refeição, já não sei a que propósito, o Carlos manifestou o bem que eu lhe fazia. Ouvi e emendei, na frente de quem ouviu. Carlos, por mais que eu lhe faça bem, isso nunca será tanto como aquilo que me tem feito de bem. O que lhe tenho dado é muito pouco comparado com o que ele me tem dado. Ele calou, mas eu aproveitei para pensar. E pensei que a solidariedade não pode ser olhar o outro com pena, como um coitadinho que eu ajudo. Não. Não é ver o outro como um coitadinho. Não é vê-lo de cima. Mas vê-lo de lado, ou melhor, de frente. Com o Carlos isto é até mais fácil do que com os outros pela admiração de fé que lhe tenho. Mas a solidariedade para ser autêntica não pode ser feita de cima para baixo, mas de frente.

terça-feira, março 18, 2014

A solidariedade cristã

A mãe apanhou-a a tirar dois iogurtes do frigorífico. Era a pequenita que fazia o pequeno-almoço para a escola e o metia na mochila. A mãe andava a estranhar, porque os iogurtes desapareciam num instante. Nunca perguntou. Nunca procurou. Nunca se questionou. Mas há dias viu a sua pequenita ir discretamente ao frigorífico buscar dois iogurtes. Como o hábito antigo era levar apenas um, a mãe perguntou-lhe o motivo pelo qual levava dois e ainda por cima de forma sorrateira, para que ninguém desse conta. Primeiro, a pequenita corou. Depois, como se estivesse a fazer uma confissão, explicou que havia uma colega dela que não tinha nada para comer. Disse o nome da colega, o que agora não interessa para o caso, e pediu desculpa à mãe. Claro que a mãe ficou sem palavras e ela própria ajudou a filha a colocar os dois iogurtes na mochila acompanhados de um longo beijo na testa corada da pequenita. Não tem mal, filha. Podias ser tu a precisar de comer, e eu também ficaria feliz se alguém te levasse um iogurte para comeres.
A história, que me foi contada como verídica pelo pai, em quem confio, prendeu-me e rendeu-me à imagem daquela criança, pequenita, corada, com dois iogurtes na mão, qual Robin dos Bosques, para dar à amiga. Não acho que tirar aos ricos para dar aos pobres seja uma atitude muito cristã. Não deixaria de ser um tirar aos outros. A atitude mais cristã é a de tirar do nosso bolso para por no bolso dos outros, sobretudo dos que mais precisam. É a solidariedade cristã, que tão pouco se vê. Nós gostamos mais daquela solidariedade com a qual apontamos o dedo aos ricos para que eles partilhem com os pobres, sossegando assim a nossa consciência porque, afinal, nós temos a teoria certa. Só não damos conta é que o mais importante não é a teoria, mas a atitude certa. E esta é rara. A não ser naqueles que, como esta criança, teimam em ser livres e simples. A não ser como aqueles que vêm a beleza do mundo nos outros, porque o mundo não sou só eu, mas eu e os outros. A não ser naqueles que vivem a fé a pensar nos outros.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Há-de ser o que Deus quiser

Os oitenta e quatro anos da senhora Lucília usam lenço preto na cabeça coberto com um gorro da mesma cor. Bengala na mão. Botas até aos joelhos que o frio chega ao coração. Veio ao meu encontro falar por entre os poucos dentes. Os olhitos apagados falavam da doença. Custa muito, senhor padre. E no meio do que dizia, acrescentava e repetia. Há-de ser o que Deus quiser. Falava da dor que a solidão lhe trazia, e dizia Há-de ser o que Deus quiser. Contava-me da família que está longe, e dizia Há-de ser o que Deus quiser. Voltava sempre à doença num tom que misturava melancolia com doçura. E dizia Há-de ser o que Deus quiser. Dizia-o de uma maneira que entrava cá dentro como se fosse a certeza mais certa que alguém consegue afirmar. Por mais que a motivasse com palavras bonitas, ela repetia Há-de ser o que Deus quiser, e eu desarmava a beleza das minhas palavras para me encantar com as dela. Não eram palavras soltas ao vento. Não eram palavras ditas por dizer. Não eram palavras resignadas. Eram palavras de quem já se entregara no colo e no aconchego de Deus. A despedida dela foi Há-de ser o que Deus quiser. Retirei as minhas mãos das dela, uma foi-lhe no encalço do rosto e, com a mesma vontade com que ela repetia Há-de ser o que Deus quiser, eu chamei-a de Linda.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

O Papa N

Para o caso, deixem-me primeiro explicar que na Oração dos Fieis, aquela leitura que se faz após o Credo e que coloca pedidos ao Senhor Deus e à qual respondemos qualquer coisa como Ouvi-nos Senhor, aparece de vez em quando uma letra N. Aparece assim como escrevi, em maiúscula, e numa cor que me agrada e não vou agora explicar o motivo de tal agrado, mas é a vermelha. Ora acontece que essa palavra substitui um nome concreto, de uma pessoa ou de uma terra ou não sei mais. Se acaso antes do N em si estiver a expressão O Nosso Bispo, não vamos dizer o Bispo En ou Nê, mas o Bispo António, ou Manuel, ou outro, consoante os nomes dos bispos ou a diocese onde é lida a oração. Se acaso antes do N em si estiver a expressão O Papa, devemos substituir o N pelo nome do actual Papa, e assim por aí fora no mesmo procedimento com Diocese N, Paróquia N, e o que vier.
Toda a minha gente já entendeu, e se não entendeu, convido a perguntar ao seu pároco. O que ele não poderá explicar é o que vou contar a seguir e se passa somente no meu subconsciente. Ou se calhar consciente. Isto é, bem dentro de mim, nos lugares dos pensamentos, mesmo que não consentidos ou previamente induzidos. Passa à frente, que é palavreado a mais. Deixa falar os pensamentos e cala-te. Calo-me então e conto.
No passado Domingo, após uma leitura tal e qual como descrevi onde aparecera o N para o Papa, os meus leitores, todos eles, fosse de que paróquia fossem, não estiveram com meias medidas ou engasgos ou dúvidas e acrescentaram ou substituíram o N pelo Francisco, o Nosso Papa Francisco. Alguém desse lado me dirá que isso não é nada de nada, nada de mais, nada de estranhar, nada do outro mundo. Porém, nos últimos tempos este facto tem-se repetido praticamente sempre que aparece o Papa N. Direis que isso continua a não ser nada de nada. Porém, há um ano e tal e na generalidade, quando o leitor chegava a esse N costumava engasgar, enganar-se no nome, tentar vários nomes, ou mesmo passar à frente como se lá não estivesse nada escrito. Informo que nutri e nutro simpatia e empatia pelo Bento XVI e mais ainda pelo João Paulo II. Mas um facto é um facto.
Não sei bem o que ele quer dizer ou pode significar. Pode dizer pouco e significar ainda menos. Mas cá para as bandas da minha cabecinha algo ficou a cirandar.

quarta-feira, janeiro 29, 2014

As batatas do Carlos que é meu sacristão

Por alturas do Natal passado, a minha despensa viu os baldes de batata esvaziarem-se. Restavam umas três ou quatro batatas que já nem davam para uma sopa em condições. Ora, como o Carlos, que é meu sacristão, conhece e é conhecido por toda a gente aqui na terra, enquanto nos preparávamos para a Eucaristia, ousei perguntar-lhe se conhecia alguém que tivesse lá umas batatitas e não se importasse de as partilhar. Acenou com a cabeça, para cima e para baixo, que quer dizer sim. Ergui os ombros, alcei o pescoço e fiz uma beiça em forma de pergunta e, percebendo que eu lhe perguntara Quem, respondeu-me que ele tinha. E sorriu. Intuí que tivesse vários sacos ou baldes delas na arrecadação. Aqui o ingénuo nestas coisas, que sou eu, não sabia nem sabe que esta não é altura para ter arrobas de batatas em casa. A resposta dele é que mo ensinou. Já tenho poucas, senhor padre. Mas como o conceito de poucas é sempre muito relativo, insisti em saber o que eram essas poucas. Eram apenas um saquito ou dois. É óbvio e lógico que eu não tive coragem de lhe pedir nem uma mão cheia delas. O Carlos faz parte do grupo de pessoas que vive com meia dúzia de euros e com o que o quintal lhe oferece. Mesmo pagando-as, ele ficaria sem elas e eu não queria isso. O assunto encerrou por ali, mas não no coração do Carlos que é meu sacristão. Ao outro dia de manhã, quando saí à rua, tinha uma saca de batatas à porta. O Carlos levantara-se cedo para que não faltassem as batatas para o almoço do senhor padre.
O meu olhar demorou-se nas batatas, e nelas recordei o Evangelho de Lucas e o episódio daquela pobre viúva que deitara duas pequeninas moedas de cobre na caixinha de esmolas. Jesus observava e comentara que ela deitara mais que os ricos que ali haviam deixado fortunas, porque ela dera tudo o que tinha para viver.
É assim o Carlos que é meu sacristão.
 
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segunda-feira, outubro 28, 2013

A irmã Graça

A irmã Graça tem o tamanho que tem. É a irmã mais baixa da comunidade religiosa que a minha paróquia tem. Há dias uma outra irmã da comunidade completou mais um aniversário. Teve direito a surpresas quanto baste. Esta não cabia em si de alegria. Porém, ao olhar para a irmã Graça, o seu rosto de alegria parecia ainda maior. Muito maior que o seu tamanho. Se a irmã aniversariante não cabia em si de alegria, a alegria da irmã Graça não cabia no tamanho da irmã aniversariante. Estava feliz com a felicidade da irmã que, na mesma comunidade, fazia anos. Regressei a casa, encantado pelo tamanho da irmã, tão grande. Assim acontecesse na comunidade cristã com a alegria e o sucesso dos outros cristãos. Assim acontecesse entre o clero, com a alegria e o sucesso dos colegas. E fiquei a meditar com o testemunho cristão da irmã Graça, que de pequena, só deve ter o tamanho.

sábado, julho 27, 2013

O Papa nas Jornadas Mundiais da Juventude

Não tenho acompanhado muito as Jornadas Mundiais da Juventude. Em tempos garantia a minha presença in loco. Este ano foi diferente. E tenho acompanhado apenas o suficiente. Sinto que ainda nem bebi desse espírito que me levava a andar quilómetros e quilómetros para sentir de forma única a alegria de ser de Cristo juntamente com milhares de jovens e outros cristãos. Mas hoje fiquei preso com as fotografias e comentários que tenho visto estes dias na televisão e nas redes sociais. O Papa. Este Papa que se estreia nas presenças mundiais de fé. Um Papa que se senta como os outros. Que se ajeita nas circunstâncias como os outros. Os homens. O comum dos mortais. Que retira o pedestal que o podia afastar das pessoas, tal como Jesus fazia. Gosto deste guia que guia do mesmo patamar da escadaria onde se encontram os outros. Que guia como quem também está a caminho, a caminhar. Que olha a sorrir para todos sem excepção, do fundo e do cimo dos seus castiços óculos. Mas olha em especial os menos olhados. A preferência clara pelos pobres. Genuíno. Autêntico nos gestos e nas palavras. Não esconde quem é. Não estuda quem deve ser. É de Deus e ponto final. Está ali por Deus e com Deus e ponto final. Não há protocolos que lhe sirvam, mesmo correndo riscos. Ainda que eu ache que isso também arrasta consigo problemas e preocupações. Afinal ele também é o Papa. Mas nota-se que vive, desprendido, a felicidade dos simples cristãos, sem pesos de hierarquia, sem preocupações senão a de ser presença de Deus. O homem é um ser a caminho. O cristão é um ser a caminho de Deus. Este Papa Francisco é um cristão autêntico. Não veste senão a capa da fé. E a caminho aponta o caminho. Excelente exemplo de Deus.

quinta-feira, maio 09, 2013

A lenha do Carlos, que é meu sacristão

O Carlos, que é meu sacristão, como já havia dito, andou a trabalhar comigo numa destas manhãs frias de vento e chuva miudinha. Depois foi à vida dele, e encontrámo-nos de novo ao final da tarde que manteve o frio, o vento e a chuva miudinha. Encontrámo-nos na igreja para a missa. Cumprimentos para aqui e acolá, conversas sobre o tempo, e saiu-me sem querer a pergunta sobre o que tinha feito desde a manhã. O Carlos respondeu-me que tinha ido à lenha, pois o frio aperta e não tinha em casa. Pois muito bem, disse eu, então já tem o lume aceso para mais logo. Acenou que não e sorriu. Sabe, padre, quando vinha para casa, com o carro de mão carregado, encontrei uma senhora, daquelas que precisam sempre de uma mãozinha de ajuda, e perguntei-lhe se tinha o lume aceso. Ela respondeu-me que não, e eu ofereci-me para lho acender. Lá fui e lá lhe deixei o molho de lenha. Levara-lhe a lenha que tinha no carro, acendera-lhe o lume e fora em paz para casa. Como há coisas que não cabem facilmente no entendimento da nossa humanidade, e eu faço parte desse grupo que habita o mundo inteiro e que se vai esquecendo que ainda há Deus em muitas pessoas, perguntei-lhe, basicamente, Então e agora? Fora à lenha porque fazia frio, e agora não tinha lenha para emendar o frio. E o senhor Carlos encolheu os ombros e repetiu o Então e agora sem exclamações e interrogações. Agora é o que é. É o que se pode. E um dia se há-de ver no céu, que aí, sim, é que importa. E fez-me três perguntas. Primeira, Não é, senhor padre? Segunda, Então não é assim que temos de ser? Terceira, Somos cristãos ou não? E Mais uma vez o Carlos, que é meu sacristão, me deixou de boca e coração abertos.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Um medo meu

As coisas nas novas paróquias estão a correr bem, escrevia eu há uns meses no meu caderno de ideias ou apontamentos só meus. Relativamente bem, escrevi a seguir. E refiz a frase. O padre é novo. Sabe sorrir. Dizem que sabe falar. Dizem que é dinâmico. Que a paróquia agora não pára. A comunidade parece viva, a viver. Um novo produto vende. A imagem também e a do padre não é má. Quero pensar que sim. Mas a verdade é que a imagem que queremos passar aos outros tem muito a ver com os medos que temos. Um dos maiores medos do mundo, senão o maior, é o medo do que os outros pensam de nós. E paralisa-nos. Chega a atrofiar o que somos, a apagar o que de melhor temos, ou ainda a apagar-nos. Criam em nós um outro eu. Tiram-nos a possibilidade de sermos livres. De sermos autênticos. De sermos. E por isso tenho medo de estar a preservar mais a minha imagem que a imagem de Deus. Tenho medo de não ser imagem de Deus.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

A dona Olímpia e o menino Jesus da cabeleira

A dona Olímpia é tão boa, tão boa, que vê bem em tudo, porque vê com o coração dela que é bom. Já tinha reparado, mas há dias desfizeram-se-me todas as dúvidas. O que vou contar aconteceu numa destas tardes de inverno, depois de ter passado aqui pela paróquia um senhor especialista que veio investigar umas imagens de vestir que andam, ou melhor, estão aqui pelas capelas da paróquia. Uma dessas imagens era um menino Jesus que o meu sacristão deixou de cima de uma arca. Tratava-se de um menino Jesus com roupinha feita pelas senhoras da terra e uma cabeleira comprida, que ele merece. Aliás, não se põe cabelo ao menino se não for para se ver bem ao longe. Por isso que seja comprido. Era uma cabeleira que eu diria mais apropriada para um Senhor Jesus de barba rija, com carreiro ao meio e tudo. Mas pronto. Era, enfim, uma senhora cabeleira. Ora o malvado do padre, que sou eu, resolveu brincar com a cabeleira revirando ou remexendo o cabelo para o lado, isto é, deixando o carreiro ao lado, e fazendo com que a imagem parecesse mais um roqueiro dos modernos que outra coisa. E assim cada vez que alguém passava, o padre perguntava o que achava daquele Jesus moderno. As senhoras com a boca a tapar o riso, compunham de novo a cabeleira. Só que o padre teimava na brincadeira, até que apareceu a dona Olímpia. Vinha para me dar um pequeno recado, mas não se livrou da malvadez do padre e da cabeleira ao lado. Dona Olímpia, como vai a senhora, perguntou o padre sem a deixar dar o recado. E ainda sem receber a resposta foi logo indagando. O que acha deste menino Jesus com este penteado moderno, dona Olímpia. E a dona Olímpia foi logo dizendo. Ai tão lindo que ele está. Foi o senhor padre. Só podia. O senhor padre só faz coisas lindas. Disse-o de forma convicta, que eu sei e já falámos disso. Deu o recado. Saiu. E eu, envergonhado, compus a cabeleira, e pensei para comigo. Aqueles que tudo vêm com um coração sem maldade, não vêm a maldade das coisas.

sexta-feira, outubro 26, 2012

A senhora, de nome que não interessa

Há uma senhora, de nome que não interessa, que, já reparei, gosta de reparar na vida dos outros e falar dela, a vida dos outros.
Em cada terra, em cada paróquia, há sempre senhoras, de nome que não interessa, que vivem a sua vida a reparar na vida dos outros. Nas mais pequenas, sentam-se ao cimo do balcão e fazem uso da sua língua, geralmente má, para desfazer novelos e criar novelas da vizinha, da amiga da vizinha, e das amigas das amigas da vizinha. As que moram em terras ou paróquias maiores sentam-se à mesa do café para que o chá seja bem regadinho com a história que ouviram falar.
A senhora, de nome que não interessa, gosta de andar atrás do padre e assim como fala das vizinhas, aproveita e fala do padre, que esse dá uma novela de maior audiência. Por azar da vida, veio contar-me duas ou três coisas a respeito de duas ou três senhoras que colaboram na Igreja. Não gosto de dar importância a conversas destas, mas, como é hábito, escutei-a porque o meu dever é escutar. A meio da conversa pedi-lhe para falar coisas boas dessas senhoras e ela não conseguia. Foi quando se calou. Aproveitei para ensinar que dos outros só devemos falar bem, e que devemos ter atenção se não recalcamos nos outros aquilo que está dentro de nós. Terminámos assim a conversa e quero pensar que ela vai melhorar. Mas depois de ela sair porta fora, lembrei um dito senhor da televisão, de nome que não interessa, que há dias se saiu com esta à frente do écran. Aqueles que passam o dia a falar da vida dos outros que arranjem uma vida. De facto, quem está de bem com a sua vida, não gasta tempo a falar, geralmente mal, da vida dos outros.

terça-feira, junho 21, 2011

Quem tem pouco acaba por reconhecer que cada pouco é muito

Estamos quase no Verão, mas chove. A trovoada lembra que não somos donos da vida. Que podemos fazer o que quisermos. Que podemos escolher as nossas opções como quisermos. Mas a última palavra não é nossa. O homem desde sempre teve esta vontade de se tornar Deus. Mas depois vem uma chuva que varre a vida, que arrasta consigo o que não tem bases sólidas. E depois é que nos lembramos que afinal a vida não é comandada por nós. E quando devíamos encolher os ombros na humildade de quem descobre que afinal eu só estou aqui para viver e buscar o melhor da felicidade que conseguir, costumamos revoltar-nos contra Deus e contra tudo o que Ele representa. Afinal Ele não está cá. Ou se cá está, porque havia de permitir que a chuva levasse a nossa vida toda em poucos segundos? Graças a deus que aquela senhora que apareceu na televisão com uns trapos, que lhe restaram, na mão, ia dizendo que agradecia a Deus por lhe ter deixado aqueles trapos que bem precisava. É a história conhecida do copo meio cheio ou meio vazio. Uma pessoa que tem muito, quer ter sempre mais. Por isso a Europa está como está. Quem tem pouco, acaba por reconhecer que cada pouco é muito. Eu penso que na nossa sociedade e na nossa Igreja devíamos aprender com quem tem pouco. Pois é esse pouco que dá valor a Tudo.

domingo, dezembro 12, 2010

Os padres também erram

Estou sentado, mas já remexi a cadeira umas poucas de vezes. Parece que não consigo estar nesta posição. Levantei-me três vezes e fui à janela. Fui procurar uma resposta para a minha atitude. Fui procurar a senhora no meio daquela nuvem escura que avisto daqui. Eu tinha o portão aberto. Estava com umas pessoas debaixo do telheiro, na entrada da porta que dá para o quintal. O quintal da casa paroquial é grande e rodeado por um muro alto. A altura que possa trazer alguma discrição ao padre. Não tenho nada semeado. Não tenho tempo nem jeito. A conversa estava interessante e, repito, o portão do quintal estava aberto. Seriam umas dezoito horas, as suficientes para que o escuro impedisse a boa visibilidade, mas permitisse que nos apercebêssemos do vulto que entrou pelo quintal adentro e estagnou diante das paredes do muro que ficavam no sentido inverso ao portão. Ninguém percebeu o que se passava, nem de quem se tratava. A conversa parou. Uma das pessoas ainda falou em receio ou medo. Não me lembro que termos utilizou e para quê. Recordo que pensei. Deve ter receio do que podem querer ali àquela hora. Mas agora penso que poderia querer referir-se a outra coisa. Ao receio do que podia acontecer ao vulto estranho do muro do quintal. Levantei a voz para que o vulto me ouvisse e nada. Não reagiu. Tive de aproximar-me. Era uma senhora de cabelo branco. Não consegui ver melhor e não a reconheci. Lembrei que podia ser do lar e estar perdida. Só podia. Lembro que me mostrou umas coisas e que disse que andava às flores. Àquela hora! Ela não estava boa. Agora é que penso nisso. Perguntei se estava no lar e disse que sim. Foi a única coisa que fez sentido na conversa. Por isso encaminhei-a para o portão e indiquei-lhe a direcção do lar que fica a uns vinte metros à direita. Tinha missa dali a instantes e tinha alguma pressa. Convenci-me que ela tomaria a direita. Nem confirmei a direcção. Fui à minha vida. Mas passada uma hora e meia soube que tinham encontrado uma senhora no cimo de vila, na estrada, perdida. Se porventura não a tivessem reconduzido ao lar, não se sabe o que teria sucedido. Pedi que me explicassem melhor a história e como era a senhora. E expliquei o que sucedera comigo. Bati no peito e contei repetidamente. Contei para as senhoras que estavam na sacristia. Mas acho que era sobretudo para eu me ouvir. Bati no peito. Ainda agora bato. Eu devia não penas tê-la conduzido ao portão, mas ao lar. Devia certificar-me de que ela lá chegava. Eu devia muitas coisas, mas não o fiz. E agora estou para aqui à procura da senhora e de mim. Os padres também erram. Se erram.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

A lição da São

A São, diminutivo de Purificação, é daquelas mulheres normais que numa paróquia tentam levar a fé a sério. Não falta a uma celebração, a uma oração do terço, a uma responsabilidade. Assume tudo como boa cristã. Eu penso que até é daquelas pessoas que tem sempre uma palavra a dizer e a ser ouvida. Levam-na a sério tantas vezes quantas a acham inoportuna. Poderá ser fruto da postura ou do incómodo. Mas acontece. E no dia dez veio a minha casa com a lágrima no canto do olho. Olhe, senhor padre, preciso desabafar. E desabafou. Começou numa história e cruzou-a com milhares de histórias. Já pelo final que tive de engendrar porque as histórias eram muitas, abordou-me sobre outra senhora que a tinha feito sofrer. Ela apresentava as suas razões. Eu ouvia. Ela falava. Eu escutava. Percebi que procurava respostas no meu rosto. Só percebi quais quando foi direita ao assunto. Ela fez-lhe queixinhas de mim, padre? É óbvio que, tivesse ou não feito, eu não iria revelar. Não é meu hábito, nem seria bom hábito para um padre, cuido. Não lhe respondi e ela insistiu. Já tinha a porta aberta quando ela quase afirmou que não saia sem eu lhe dizer. E foi nessa altura que aproveitei para dar uma lição de vida e de fé. Sabe, tal como eu nunca direi a ninguém o que a senhora me contou, também nunca direi a si o que outras pessoas me possam contar. Afinal, não é assim que um padre deve ser?

quinta-feira, maio 20, 2010

O senhor que agradece tudo

O Francisco mora numa quinta ao lado da paróquia. Era pastor. Agora está reformado. Reformou-se do trabalho, das forças, das vidas. Passa a maior parte do tempo sentado, pois as pernas não ajudam. Usa muletas. Estas deviam servir para andar, mas servem mais para suportar o peso. Por isso tem dificuldade em ir à missa. Demora mais de uma hora para lá chegar. Já não tem dentes. Mas isso não impede de sorrir, de me sorrir, e de acenar com a cabeça várias vezes durante a homilia. Há dias saiu-se com É assim mesmo. E ria. É daqueles com quem o diálogo acontece com mais frequência nas homilias, porque está atento e não se coíbe de responder, mesmo que eu não tenho feito perguntas. Então quando temos um dos evangelhos que fala do Bom Pastor é que é vê-lo dizer Sim, senhor. É mesmo assim. Digamos que é uma pessoa cansada, sofrida, doente. Mas para quem a vida tem sempre um paladar especial.
Há dias cruzámo-nos à entrada da Igreja. Eu apressado. Ele com a calma das muletas. Perguntei-lhe como estava. Abriu a boca sem dentes e sorriu. Muito bem, senhor padre. Eu tenho sempre muito que agradecer. Digamos que passo a vida a agradecer. Acredite, padre, agradeço-lhe tudo. E eu, pela idade avançada e pelas limitações, pensei que se referia á vida que tivera. Por isso perguntei-lhe se agradecia a vida que tivera. Ó, padre, agradeço a vida que tenho. Agradeço tudo, tudo. E não se cansava de repetir. Tudo. Tudo

quinta-feira, março 18, 2010

Os bens que se têm ou não

Conheço uma senhora simpática. Bem arranjada. Cabelo sempre pintado e escovado. Mora numa casa grande, de pedra. Granito, para ser mais correcto. Daquele granito que se herda. Daquele granito que guarda as mobílias século dezanove ou quase. Daquele granito que protege as jóias da avó e da bisavó. Uma senhora simpática, bem arranjada, e que participa activamente na comunidade. Uma senhora que não se dedica apenas a ir ao hábito da missa, mas que activamente a vive ou tenta viver, desde o início, passando pela homilia, e continuando depois do fim.
Há dias ralhei na homilia com as pessoas que têm muito. Barafustei umas verdades que Jesus um dia barafustou. Referia-me àqueles que vivem para ter e para ter mais. Expliquei que me referia a esses. Mas a senhora simpática ficou com uma nódoa no seu entendimento, e decidiu que só eu a poderia limpar. Padre, aquilo que falou hoje inquietou-me. E fiquei a pensar que toda a gente estava a olhar para mim. Eu, pelo menos, olhei. O senhor conhece-me. Acha que eu sou dessas pessoas que precisa rever o que tem? A conversa realizou-se na sacristia, mas separada do sacristão e dos habituais amigos das risadas após a missa. Mesmo assim decidi escrever, porque aquilo que se escreve fica guardado na mão e esta pode abrir-se as vezes que quisermos, ao passo que aquilo que se diz nem sempre tem onde ficar guardado. Peguei numa caneta. Rasguei uma folha do meu bloco de apontamentos e escrevi. Não interessa os bens que tens, mas o que fazes com eles. A pessoa de fé vive com o que tem, valoriza o que tem. A pessoa que não tem fé vive com o que lhe falta, valoriza o que os outros têm.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Se foi a direita ou a menos direita

É saboroso acordarmos e avistarmos algo estranho do lado de lá da porta da entrada, abrirmos a porta, abrirmos o saco e darmos de caras com uma prendinha de alguém anónimo, alguém que sabemos ser da paróquia, que sabemos amar-nos, mas que cumpre aquilo do dar sem que saiba a esquerda. Foi assim no dia de Natal. Mais tarde, tal como um ou dois dias antes, outros embrulhos com nome. A Maria, O António, A Dolores, o António outra vez, entre outros. Claro que são nomes fictícios, porque é mais importante o dar com a direita sem que saiba a esquerda. Para mim contam, mas para o caso não contam os nomes. O gesto diz deles o que o amor diz de Deus. E o que me traz aqui estas palavras nem é esta questão. São as questões das prendas. Imaginem que oitenta por cento das prendinhas amigas que recebi dos meus paroquianos foram garrafas e garrafas, bebidas finas, coisa e tal, vinhos do Porto, Whisky, Licores, Vinho de mesa, champanhe. Tenho uma série delas por arrumar em cima da mesa da cozinha. E não percebi o que me quiseram dizer. Precisas de outra cor? Precisas tornar-te um homem? Não sei que hei-de dar, por isso dou algo que os padres devem gostar? Ele junta-se muito com os amigos? Queremos vê-lo alegre? A vida do padre não tem sabor? É uma boa companhia? Não vai precisar de sair de casa para a apanhar? Queremos que ele nos faça as vontades e é meio caminho andado? Ou Somos tão amigos seus que lhe damos o que para nós seria a melhor prenda? Ou ainda, é apenas um gesto, se fosse roupa não tínhamos medidas e certeza de gostos, se fosse biblot não fazia falta, se fosse comida, não é tempo disso, se fosse um livro, deve ter muitos e não sei escolher, se fosse… o que é certo é que tenho gente que me ama, sem que para mim interesse se foi a direita, se há-de ser menos direita a que me mostra o seu amor!

Mesmo assim gostava de saber...

sábado, dezembro 09, 2006

É que me lembrei da esperança

Há muito que não vejo a senhora dos cães. Mais de trinta em sua casa. Sempre perfumada. Arranjada. Pintada. Apesar de tudo, queria parecer uma senhora. Todos os dias frequentava o chá do café com amigas mais ou menos influentes. O marido era professor. Estivera na guerra das antigas colónias portuguesas. Contavam que uma bala o atingira em zona que agora o deixava desprotegido em questões fisiológicas, as mais simples, como reter águas. Nem devia contar estas coisas. Diziam que os alunos se afastavam dele, a não ser quando pretendiam nota mais alta. A vida sorrira muitos anos antes para esta gente. A casa herdada era enorme. Contavam que havia muito dinheiro, ou não fosse o tratamento veterinário no Porto para todos os cães que pernoitavam em casa. Ou para os alimentar.
E hoje, ao rezar este advento, lembrei-me deste casal, e da casa que lhes ardeu, com os animais, com as mobílias, com a mãe da senhora. Foi o caos por lá. Por cá. Não se falou noutra coisa durante tempos. A minha oração partiu deles. É que me lembrei da esperança, e da forma como esta mulher a perdeu. O marido nem sei. Contaram que moravam longe. As amigas tinham-na abandonado. Os amigos influentes, os colegas, a casa, os bens, o dinheiro. Tudo ficara para trás nas suas vidas. Não sei deles. A última notícia que tive não dizia mais do que: andavam meios perdidos. A minha oração de hoje pergunta onde habitualmente depositamos a nossa esperança? No dinheiro, nos nossos bens, nas nossas capacidades, nos nossos amigos, mais ou menos influentes. Tudo coisas que podem deixar de ser. Efémeras. Finitas. Por isso o nosso mundo perdeu a esperança, escondida por detrás de nuvens que criamos e que escondem o sol. Porquê?! Porque não havemos de descobrir a esperança no presépio, com a Vida Daquele que mudou a vida e a morte, Aquele que faz sentir que a vida tem sentido, mesmo quando tudo parece perdido, porque o que nunca perdemos é o Seu Amor e a certeza de quem um dia, quando tudo acabar, começará de novo?