Sou pássaro velho, com asas sem penas,
Perderam-se no último voo, a caminho de ti
Ou regressando de ti, já não sei dizer como foi.
Se foram oferecidas, se foram roubadas,
Se voaram sozinhas, se te ficaram agarradas.
Sou pássaro perdido, sem as penas que perdi,
Me perdi com elas no tempo do voo perdido
Sou pássaro ferido, e por não mais voar,
Troquei minhas penas por penas que são minhas
Ainda me lembro de tempos vividos a voar
O mundo era meu, entre tudo o que era nosso
Essa distância que nos ligava, em cada voo
Em cada lançada de abraços para enamorar
Hoje sou pássaro sem ninho,
Pássaro de asas sem penas,
Pássaro com muitas penas
por não poder voar, mas vou.
Vou por elas, continuar
o caminho até ao ninho
a andar
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quinta-feira, março 14, 2019
sexta-feira, março 08, 2019
O teu eu [poema 204]
Vou a marte, não sei se fica longe
E volto aqui, ao teu colo
Para te dizer que te amo com o tamanho da distância
Que nos separa
Vou e volto, depois volto de novo
para lá
Aguardarei que chegues
Num coche, a galope de quatro
cavalos com asas.
Saberei que és tu pelo perfume
E pela melodia dos cascos
No teclado, e ao final uma rúbrica
Serei eu o teu eu
E volto aqui, ao teu colo
Para te dizer que te amo com o tamanho da distância
Que nos separa
Vou e volto, depois volto de novo
para lá
Aguardarei que chegues
Num coche, a galope de quatro
cavalos com asas.
Saberei que és tu pelo perfume
E pela melodia dos cascos
No teclado, e ao final uma rúbrica
Serei eu o teu eu
sábado, fevereiro 23, 2019
os sapatos de pedra [poema 203]
Despediu-se, descalçou-se e colocou pedras nos sapatos
Encheu-os, não as contou para não parecerem muitas
Para não parecerem pedra
Melhor era descalçar-se de tudo e desnudar-se
Deixar a roupa que usara a vida inteira e deixar-se
Na praia, à beira-água, para a maré levar, ao passar
Viverá como pedra a esperar, como sapato a vaguear
Solitário, pesado, robusto, apressado e lento, mas a
andar
Encheu-os, não as contou para não parecerem muitas
Para não parecerem pedra
Melhor era descalçar-se de tudo e desnudar-se
Deixar a roupa que usara a vida inteira e deixar-se
Na praia, à beira-água, para a maré levar, ao passar
Viverá como pedra a esperar, como sapato a vaguear
Solitário, pesado, robusto, apressado e lento, mas a
andar
quarta-feira, fevereiro 20, 2019
coração [poema 202]
O meu coração bate, bate mesmo,
Bate-me por dentro
E irrompe pela pele
Ora sim ora não, como se numa hora fosse
e na outra não
Como se morresse
num segundo
Dentro do meu mundo
E voltasse depois à vida, a bater
Que regressasse para me abater
Bate-me por dentro
E irrompe pela pele
Ora sim ora não, como se numa hora fosse
e na outra não
Como se morresse
num segundo
Dentro do meu mundo
E voltasse depois à vida, a bater
Que regressasse para me abater
sábado, janeiro 19, 2019
desAparição [poema 201]
Quando medrar quero morrer numa praia
Com o sol baixo, pequenino, espelhado no mar,
Crescendo por entre o brilho da água ao entardecer
Quando for grande quero morrer sob o luar.
Entre o sol e a lua, entre o ir e ficar, entre o ser e não ser,
entre o ir e não voltar, entre o ser e o voltar a ser
Quero morrer com asas, para poder voar,
Para não parar e mais que o mundo voltar a ver.
Quero ser um coração com asas sem poder falar
para dizer adeus a quem não deixarei de sentir
de ver, de contemplar, de percorrer e de amar...
Quando morrer, tenho a certeza, vou continuar
Entre o tudo e o nada, a esvoaçar
Com o sol baixo, pequenino, espelhado no mar,
Crescendo por entre o brilho da água ao entardecer
Quando for grande quero morrer sob o luar.
Entre o sol e a lua, entre o ir e ficar, entre o ser e não ser,
entre o ir e não voltar, entre o ser e o voltar a ser
Quero morrer com asas, para poder voar,
Para não parar e mais que o mundo voltar a ver.
Quero ser um coração com asas sem poder falar
para dizer adeus a quem não deixarei de sentir
de ver, de contemplar, de percorrer e de amar...
Quando morrer, tenho a certeza, vou continuar
Entre o tudo e o nada, a esvoaçar
segunda-feira, janeiro 07, 2019
ser o mar [poema 200]
Apetecia-me abraçar as ondas
Com as minhas penas
de pássaro sem asas,
Penas carregadas,
molhadas,
sem mar
Apetecia-me mergulhar
nas ondas, e voltar
à praia, com elas regressar
Ao fundo do mar
Como elas, ser
o mar
Com as minhas penas
de pássaro sem asas,
Penas carregadas,
molhadas,
sem mar
Apetecia-me mergulhar
nas ondas, e voltar
à praia, com elas regressar
Ao fundo do mar
Como elas, ser
o mar
sábado, dezembro 29, 2018
a folha [poema 199]
A folha caíra no pedaço de terra batida
e no empedrado do granito cinza da vida
Chegara ao seu outono, nunca mais volvida
a pintar de esperança o autor, o castanheiro
Soltara-se de súbito, sozinha e desfalecida
Perdera a sorte de morrer num canteiro
Mas o vento soprou sobre ela e ela veio a mim
Peguei-lhe ao colo como uma criança a nascer
Embalei-a nos braços, embrulhei-a em cetim
No livro de uma vida que há-de renascer...
no fim
e no empedrado do granito cinza da vida
Chegara ao seu outono, nunca mais volvida
a pintar de esperança o autor, o castanheiro
Soltara-se de súbito, sozinha e desfalecida
Perdera a sorte de morrer num canteiro
Mas o vento soprou sobre ela e ela veio a mim
Peguei-lhe ao colo como uma criança a nascer
Embalei-a nos braços, embrulhei-a em cetim
No livro de uma vida que há-de renascer...
no fim
segunda-feira, dezembro 17, 2018
papel [poema 198]
Pareciam passos, mas eram folhas de àrvore
a cair à beira da minha janela de papel
Mergulhei nelas como pude, de roupas vestido,
Tapando a cabeça do frio que mendigava na rua
Nadei, por dentro delas, até me sufocar
Eram demasiado envelhecidas, caídas e amarelas
Passara o tempo verde, mas continuavam a ser elas
Mais uma vez voei sem me levantar do chão.
A árvore estava viva e os passos que eram folhas
Vinham até mim, de mansinho, e eras tu
no papel
a cair à beira da minha janela de papel
Mergulhei nelas como pude, de roupas vestido,
Tapando a cabeça do frio que mendigava na rua
Nadei, por dentro delas, até me sufocar
Eram demasiado envelhecidas, caídas e amarelas
Passara o tempo verde, mas continuavam a ser elas
Mais uma vez voei sem me levantar do chão.
A árvore estava viva e os passos que eram folhas
Vinham até mim, de mansinho, e eras tu
no papel
quinta-feira, novembro 29, 2018
O beijo do Pai [poema 197]
Fechei os olhos para guardar o seu beijo
Fechei os olhos para vir a noite
E adormecer naquele enfático beijo
tatuado na minha pele, pelo lado de dentro
Como sombra enrolada no meu coração
Hoje sou o beijo que recolhi.
Fechei os olhos para vir a noite
E adormecer naquele enfático beijo
tatuado na minha pele, pelo lado de dentro
Como sombra enrolada no meu coração
Hoje sou o beijo que recolhi.
quarta-feira, novembro 14, 2018
o ninho do coração [poema 196]
Percorri o seu o rosto com a mão, como um caminho
Com os dedos atravessei cada face enrugada, à procura
Ao acaricia-lo, a pele entrava por mim adentro, sem corpo
Sulcos gastos pelo relógio do tempo, não foram em vão
Regressei com as mãos, depois do voo, ao meu ninho
Foi assim até lhe chegar ao coração
Com os dedos atravessei cada face enrugada, à procura
Ao acaricia-lo, a pele entrava por mim adentro, sem corpo
Sulcos gastos pelo relógio do tempo, não foram em vão
Regressei com as mãos, depois do voo, ao meu ninho
Foi assim até lhe chegar ao coração
quarta-feira, outubro 24, 2018
sábado, outubro 20, 2018
as minhas aves [poema 194]
Amanhã é um novo dia, para dar de beber às aves, sentadas em meu regaço,
Comprei literalmente, por um vintém que não sei, um fontanário para elas
Em troca, doei a vida para que a água se debicasse, se bebesse, se afogasse
As aves esvoaçaram até à fonte, detiveram-se à minha beira, no beirado,
Como um beirado de uma casa que não têm, ali pousaram em desassossego.
Encharquei a mão de água, imensa água em acanhada mão, com mágoa
A água desapareceu entre os dedos, e ali quedaram pequenas lágrimas,
Afinal a àgua da fonte são as minhas lágrimas, e as aves vão e voltam
São minhas como beirado, pousam no meu regaço que é um regato
em lágrimas que nasceram na fonte que é água a viver um dia sem fim...
em lágrimas que nasceram na fonte que é água a viver um dia sem fim...
quinta-feira, setembro 06, 2018
uma cruz deu à costa [poema 193]
Deu à praia um mastro que era uma cruz ou forma de cruz
Contando a história do barqueiro que desaparecera no mar
Desembarcara a meio da viagem, perto do fim, como o fim
Sem desfraldar as velas, sem proa, sem leme, sem tripulação
Deu à praia como história verdadeira, ou memória verdadeira
Deixando para trás as lendas que falavam dele, em cruz
Contando a história do barqueiro que desaparecera no mar
Desembarcara a meio da viagem, perto do fim, como o fim
Sem desfraldar as velas, sem proa, sem leme, sem tripulação
Deu à praia como história verdadeira, ou memória verdadeira
Deixando para trás as lendas que falavam dele, em cruz
quarta-feira, agosto 22, 2018
venho e vou [poema 192]
Ligaram, não estou para ninguém
Estou num comboio antigo que atravessa o mar
Sou companheiro de algas que são flores
E sereias que são pessoas a nadar
Ligaram, não quero estar senão no mar
Num comboio a vapor, vou visitar quem me amou
Quem me deu a vida e me criou
Vou ao fundo de mim, a vapor.
Vou e venho, venho e vou
Sou
Como uma onda no mar
Estou num comboio antigo que atravessa o mar
Sou companheiro de algas que são flores
E sereias que são pessoas a nadar
Ligaram, não quero estar senão no mar
Num comboio a vapor, vou visitar quem me amou
Quem me deu a vida e me criou
Vou ao fundo de mim, a vapor.
Vou e venho, venho e vou
Sou
Como uma onda no mar
sexta-feira, agosto 10, 2018
fogo sem Deus [poema 191]
Esse fogo que se permite no meio de vidas que ardem
Em frente ao écran se assiste,
e insiste, não viste?
Ponho as mãos naqueles e também por eles
Ainda são meus, no coração, ainda são
São muito mais teus, são o que és o que são
Leva-os para onde ande o mar
Onde o calor não ande nem possa chegar
e a vida volte a navegar... a andar
Esse fogo que se permite no meio de vidas que ardem
Em frente ao écran se assiste,
e insiste, não viste?
Ponho as mãos naqueles e também por eles
Ainda são meus, no coração, ainda são
São muito mais teus, são o que és o que são
Leva-os para onde ande o mar
Onde o calor não ande nem possa chegar
e a vida volte a navegar... a andar
Esse fogo que se permite no meio de vidas que ardem
quinta-feira, julho 26, 2018
carta [poema 190]
Reescrevo-te hoje como testamento
Em papel de carta para me enviar a ti
Penso-te como poema de minha carne ou sangue
Filho de um encontro em lençois que não tive
Deixo-te este coração, sem vida, a palpitar
Bebo de ti quando fecho o envelope
E coloco o teu nome e o sê-lo daqui
Reescrevo-te como acto de tornar a escrever
Como acto de te escrever de novo em mim
Ou no beijo que quedou da última oração
Em papel de carta para me enviar a ti
Penso-te como poema de minha carne ou sangue
Filho de um encontro em lençois que não tive
Deixo-te este coração, sem vida, a palpitar
Bebo de ti quando fecho o envelope
E coloco o teu nome e o sê-lo daqui
Reescrevo-te como acto de tornar a escrever
Como acto de te escrever de novo em mim
Ou no beijo que quedou da última oração
segunda-feira, julho 23, 2018
novelo de lã [poema 189]
Era um novelo de lã pequenino, a nascer
Um fio a querer ser muito mais, no coração
Enrolava-se e desenrolava-se,
às vezes dobava-se
Nalguma mão calejada,
nalgumas mãos de fada
Deixava pontas soltas, para outros nós, a crescer
Era novelo a viver, às vezes sobreviver,
ou repousar
Ia e vinha, como onda de espuma a fazer-se mar
Encontrava-se e perdia-se
no meio dos seus irmãos
Era um novelo, enfim, que um dia Deus fez
Vestido de lã, nas suas próprias mãos
Um fio a querer ser muito mais, no coração
Enrolava-se e desenrolava-se,
às vezes dobava-se
Nalguma mão calejada,
nalgumas mãos de fada
Deixava pontas soltas, para outros nós, a crescer
Era novelo a viver, às vezes sobreviver,
ou repousar
Ia e vinha, como onda de espuma a fazer-se mar
Encontrava-se e perdia-se
no meio dos seus irmãos
Era um novelo, enfim, que um dia Deus fez
Vestido de lã, nas suas próprias mãos
quinta-feira, julho 05, 2018
poemas de Deus [poema 188]
...e começo este poema, como se viesse de trás
A correr, com muitas outras letras e palavras,
Com um passado a querer ser presente, alado
Como se um poema nunca fosse só, fosse memória
E muitas letras que se conjugam juntas para ser
Assim fossem as palavras que Deus solta em nós,
Poemas vivos de ontem, num hoje que vai Ser
A correr, com muitas outras letras e palavras,
Com um passado a querer ser presente, alado
Como se um poema nunca fosse só, fosse memória
E muitas letras que se conjugam juntas para ser
Assim fossem as palavras que Deus solta em nós,
Poemas vivos de ontem, num hoje que vai Ser
quarta-feira, maio 30, 2018
eu [poema 187]
Vou pernoitar no cimo da montanha,
junto a Deus
Ou dentro da terra, dentro de Deus
Vou olhar-me ao espelho e dizer morri
Ou morreu o meu outro eu, eu o vi
Através de um espelho antigo, numa moldura.
A partir desse dia ficou parado como fotografia,
Como pedra dura
E eu fui para Deus, ou o meu outro eu.
No meu espelho morreu
onde renasci
junto a Deus
Ou dentro da terra, dentro de Deus
Vou olhar-me ao espelho e dizer morri
Ou morreu o meu outro eu, eu o vi
Através de um espelho antigo, numa moldura.
A partir desse dia ficou parado como fotografia,
Como pedra dura
E eu fui para Deus, ou o meu outro eu.
No meu espelho morreu
onde renasci
terça-feira, maio 22, 2018
águias e serpentes [poema 186]
Era uma águia com uma serpente nas garras
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que não gosta de serpentes
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que levou para longe a serpente
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que não podia com serpentes
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que voou com uma serpente,
Morta, mas que era uma serpente.
Era uma vez uma águia com uma serpente
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que não gosta de serpentes
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que levou para longe a serpente
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que não podia com serpentes
Era uma serpente morta à beira da estrada
Era uma águia que voou com uma serpente,
Morta, mas que era uma serpente.
Era uma vez uma águia com uma serpente
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