Vou a marte, não sei se fica longe
E volto aqui, ao teu colo
Para te dizer que te amo com o tamanho da distância
Que nos separa
Vou e volto, depois volto de novo
para lá
Aguardarei que chegues
Num coche, a galope
de quatro
cavalos com asas.
Saberei que és tu pelo perfume
E pela melodia dos cascos
No teclado, e ao final uma rúbrica
Serei eu o teu eu
sexta-feira, março 08, 2019
domingo, março 03, 2019
A roupa suja
As casas pegam uma com a outra e são separadas apenas por um quintal. Simples, com umas couves misturadas com flores meio selvagens. O quintal é da vizinha Beatriz. Tem virado para lá uma das janelas da vizinha Eduarda. São muito amigas. Amigas sobretudo da conversa alheia. Encontram-se no muro do quintal, e dão um pé-de-meia de conversa fiada. O tempo, o sol, o frio, as batatas, e as outras vizinhas, como é óbvio. Não é por mal. É por hábito. Não é por mal. É para ter que dizer.
O que a vizinha Beatriz não sabe é que a vizinha Eduarda a costuma vigiar da janela que dá para o quintal. Raramente a abre. Contudo, por entre o cortinado, lá vai dando uma espreitadela. Por isso, e já o comentou com uma das vizinhas do fundo da rua, descobriu que a vizinha Beatriz não é lá muito asseada. Atão não é que lava mal a roupa. Ou o detergente que usa presta pouco. Pois que, quando ela, por acaso, sempre por acaso, olha para a roupa da vizinha Beatriz estendida no quintal, as roupas estão, assim, a modos que, pouco limpas, para não dizer cheias de nódoas. Mas fica só entre nós. Repetia. Fica só entre nós.
Há dias, porém, o marido da vizinha Eduarda, que gosta de tudo muito asseado e arrumadinho, chegou a casa mais cedo e foi fumar um cigarrito à janela que dá para o quintal. Mas quando ia para abrir a janela, reparou que esta já há uma boa temporada que não devia ver uma pano e um detergente, de tão suja que estava. Ó Eduarda, a ver se dás um jeito nesta janela, pois quase não dá para se ver através dela.
Afinal, não eram as roupas lavadas da vizinha que permaneciam sujas. A sua janela é que estava mal lavada. E assim se descobriu quem era, na verdade, a vizinha pouco asseada!
Lá dizia o outro: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”
Afinal, não eram as roupas lavadas da vizinha que permaneciam sujas. A sua janela é que estava mal lavada. E assim se descobriu quem era, na verdade, a vizinha pouco asseada!
Lá dizia o outro: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”
quinta-feira, fevereiro 28, 2019
A importância do karaté na catequese
Num diálogo amistoso com a mãe de uma criança que frequenta a catequese, falávamos sobre o que era necessário ou não, o que era importante ou não na catequese. Eu dizia que era a "fé". Que se devia educar para a fé. A mãe dizia que era o "caracter". Que era formar o carácter. Que este era ainda mais importante que ir à missa, pois o que as crianças precisavam era de caracter.
Nisto, o filho, um petiz que frequenta o segundo ano da catequese, estando ao nosso lado e escutando-nos com entusiasmo, interrompeu-nos e disse. Eu tenho. Eu tenho isso, mãe. Todas as semanas. Eu tenho karaté todas as semanas.
Nisto, o filho, um petiz que frequenta o segundo ano da catequese, estando ao nosso lado e escutando-nos com entusiasmo, interrompeu-nos e disse. Eu tenho. Eu tenho isso, mãe. Todas as semanas. Eu tenho karaté todas as semanas.
segunda-feira, fevereiro 25, 2019
A morte que não se espera
Numa semana uma média de um funeral por dia. Neste mês de Fevereiro, só no concelho onde estou já faleceram mais de trinta pessoas, e ainda não terminou o mês. Estes dias tem falecido muita gente por estas bandas. Agora que o digo é que o penso. Gosto mais do verbo falecer que do verbo morrer. Este último é mais cru. Mas talvez estas coisas sejam mesmo cruas. E nuas. Ou seja, despem-nos de todos os embrulhos que a nossa vida possa ter.
Vivemos como se a vida aqui na terra não tivesse fim. Vivemos fazendo de conta que a morte não está ao virar da esquina. E quando ela passa da esquina para a rua onde moramos, deixamos que a morte tome conta de nós como se nunca mais houvesse amanhã. Dói. A morte dói. A morte entra-nos no coração para doer. E como dói, vivemos como se sobrevivêssemos. Esperando que cada doença e cada situação mais dramática não nos toque à porta, não entre na nossa casa, não nos faça sentir que a vida entre os mortais é só isto.
Vou deitar-me com esta dor de vida, a pensar no funeral de amanhã. Mais um. Mais um não saber já que dizer na homilia. Mais uma dor de alma. Mais um pedir a Deus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.
sábado, fevereiro 23, 2019
os sapatos de pedra [poema 203]
Despediu-se, descalçou-se e colocou pedras nos sapatos
Encheu-os, não as contou para não parecerem muitas
Para não parecerem pedra
Melhor era descalçar-se de tudo e desnudar-se
Deixar a roupa que usara a vida inteira e deixar-se
Na praia, à beira-água, para a maré levar, ao passar
Viverá como pedra a esperar, como sapato a vaguear
Solitário, pesado, robusto, apressado e lento, mas a
andar
Encheu-os, não as contou para não parecerem muitas
Para não parecerem pedra
Melhor era descalçar-se de tudo e desnudar-se
Deixar a roupa que usara a vida inteira e deixar-se
Na praia, à beira-água, para a maré levar, ao passar
Viverá como pedra a esperar, como sapato a vaguear
Solitário, pesado, robusto, apressado e lento, mas a
andar
quarta-feira, fevereiro 20, 2019
coração [poema 202]
O meu coração bate, bate mesmo,
Bate-me por dentro
E irrompe pela pele
Ora sim ora não, como se numa hora fosse
e na outra não
Como se morresse
num segundo
Dentro do meu mundo
E voltasse depois à vida, a bater
Que regressasse para me abater
Bate-me por dentro
E irrompe pela pele
Ora sim ora não, como se numa hora fosse
e na outra não
Como se morresse
num segundo
Dentro do meu mundo
E voltasse depois à vida, a bater
Que regressasse para me abater
sábado, fevereiro 16, 2019
O último José
O último José a quem fui dar a Unção dos Doentes fez-me pensar para além de mim, para além da vida, para além da missão sacerdotal. Quando me deparei com ele, nos Cuidados Continuados, em primeiro lugar, recordo, esbocei um abraço. Só isso. Apertei-lhe, depois, a mão. Só isso. Falei com ele como se não estivesse onde estava. Aquela cama articulada onde o José permanecia com os olhos abertos, mas sem olhares, e com a boca entreaberta, mas sem palavras. Esbocei um abraço e apertei-lhe a mão como se fosse o outro dia em que nos saudámos com um aperto de mãos e trocámos duas ou três palavras sem jeito, com pouco nexo. O nexo das conversas triviais. O perguntar-se como se está e o dizer que se vai indo. Quando já era visível que o José não andava bem. Quando ao perto já se manifestava a sua doença e a debilidade.
Creio que quem sofre sabe que está num estado diferente de quem o visita no sofrimento. Mesmo quando não expressam qualquer sinal de entendimento. E creio que só quando nos fazemos companheiros do caminho, sócios da jornada, quem sofre perceberá que não está só. Doeu-me aquele diálogo surdo de dois companheiros de uma viagem. Dois companheiros que não têm muito para dizer senão estarem juntos a fazer o caminho. Mas também não sei se ocorreu tal e qual. Talvez o tenha imaginado assim depois que presidi ao funeral deste amigo José.
segunda-feira, fevereiro 11, 2019
A carta de um filho ao seu pai que partiu.
Chorei. Chorei porque as palavras me tocaram naquela parte de nós mesmos que chora, aquela parte íntima que não tem como se dizer. E depois chorei, ao pensar que na minha partida, os meus filhos não se vão despedir de mim, não me farão cartas bonitas destas.
Era uma carta de despedida de um filho ao pai que partira por causa daquela maldita doença do cancro. A mesma que seis meses antes lhe levara a mãe. Gente com idade pouco acima dos cinquenta. Tudo ocorreu demasiado rápido, para que pudesse assimilar tanto sofrimento. Por isso descarregava na sua carta de despedida o que sentia. Passados três meses da mãe partir com muito sofrimento, os médicos haviam dito que o pai não tinha escapatória. Mas o filho tivera a oportunidade de dizer adeus ao pai naquela hora em que lhe apertou a mão e partiu. Fui tudo, apesar de doloroso, muito bonito. A beleza das coisas que nos ultrapassam no mistério. Vinham do médico e faziam uma série de quilómetros para chegar a casa. O pai estava, obviamente, esgotado e à base de morfina. Como dormia, não pararam na estação de serviço, como tinham previsto. O pai dera conta e pediu que parassem na seguinte. Esperou uns bons cinquenta quilómetros, e quando pararam, enfim, para descansar, o pai chamou os dois filhos que iam no carro, e disse o adeus mais bonito, ao agradecer o que eles tinham sido para ele. E partiu. No final da carta, o filho dizia, como testemunho de quem sofreu tanto em tão pouco tempo: “Não se zanguem. Não odeiem. Perdoem. Sorriam. Dêem. Partilhem. Digam que gostam. Abracem mais. Amem mais”.
Grande filho que presta uma homenagem tão bela aos pais. Chorei. Por eles. Por tantos como eles. E por mim, porque gostaria de que um dia, alguém como um filho, me homenageasse de igual modo.
quarta-feira, fevereiro 06, 2019
Deus grande e insignificante, ao mesmo tempo
O filho da Alexandra teve um acidente. Não foi tão grave como podia ter sido. Foi assim que a Alexandra falou para as amigas. Já não sei se ouvi a conversa, se me foi contada. A Alexandra estava a falar com as amigas dizendo que podia ter sido muito pior, mas que o filho estava bem. Tem algumas escoriações no corpo, mas podia ser pior. Por isso agradecia a Deus, dizendo que Deus era grande e nunca lhe falhava. Misturava Deus e Nossa Senhora. Obrigado Meu Deus e obrigada minha Nossa Senhora de Fátima por protegerem o meu menino.
Dei por mim a dar graças a Deus pelas palavras da Alexandra. De facto, como é bom quando reconhecemos a grandeza de Deus e da sua mãe. Como é bom reconhecermos a sua protecção. Como é bom reconhecermos que Deus nunca falta. Estava nestes pensamentos quando me lembrei que a Alexandra aparece pouco na comunidade. É daquelas mães que, se puder, leva o filho a outra paróquia para se crismar, porque não se importa que ele não tenha catequese. É daquelas pessoas que quase só aparece nos dias de funerais, festas, casamentos e baptizados. Não é má mãe. Nem posso ajuizar que seja má cristã ou que tenha uma fé muito insipiente. Contudo, ao pensar nas suas palavras e ao recordar a sua pouca vivência celebrativa da fé, não pude deixar de pensar, com pena, que, às vezes, só nos recordamos da grandeza, força e presença de Deus quando surgem aquelas ocasiões fatídicas na nossa vida. Como se Deus só existisse para nós quando precisamos d’Ele. Como se fizesse parte daquele grupo de amigos que apenas buscamos quando nos apercebemos que não nos bastamos. Não é mal dar conta de que acima de nós, só Deus nos pode sustentar. Mas é uma pena que, fora desses momentos frágeis, a nossa vida se centre em nós próprios, como se Deus não existisse. É uma pena só darmos conta que Deus existe nessas horas quando ele está em todas as nossas horas.
É caso para dizer: será que Deus é tão grande que não cabe nas nossas vidas diárias?!
sexta-feira, fevereiro 01, 2019
sondagem "best post" 2018
Depois de ler as vossas opiniões e adicionar-lhe a minha opinião, vamos colocar à votação os textos/prosa que parecem os melhores 10. Foi muito difícil fazer essa escolha. Agora, através da sondagem afixada, conto convosco para apurarmos, como em anos anteriores, os melhores três. Se quiserem lê-los de novo, têm o link respectivo abaixo da sondagem. Também podem justificar as vossas opções.
Apresentamos ainda as conclusões da anterior sondagem que perguntava: "Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?" e onde se destacou a "Abertura da Igreja aos recasados", seguido do "Chumbo da legalização da Eutanásia" e o "Sínodo dos bispos sobre os jovens".
Subscrever:
Mensagens (Atom)
