A dor do sofrimento dos padres é muitas vezes partilhada com as paredes. Sim, os padres também são humanos e também sofrem. Não sofrem diferente dos outros. Sofrem apenas com contornos diferentes. Estava eu a querer dizer que a maior parte das vezes que os padres sofrem é a olhar para umas paredes brancas ou para paredes que mudam de cor quando fechamos os olhos e continuam a ser paredes. Fazemo-lo com a vantagem de que elas não se queixam das nossas palavras que não dizemos para fora. É definitivamente uma vantagem. Também não as incomodamos muito. Não as podemos abraçar, e contudo elas abraçam-nos porque estão ao nosso redor e nos fecham dos quatro pontos que formam.
A esta altura do que escrevo já me estou a imaginar os pensamentos dos que advogam pelo progresso afectivo dentro do clero. Vejo-os a alegar que a vantagem de uma esposa ou de uma família que nos acolhe nos desabafos não se compara à vantagem de uma parede que não fala. Pressinto outrossim a resposta dos que advogam pela conservação da espécie. Estes dirão que o melhor é não haver misturas para fora de si.
A uns e outros quero hoje dizer que não me ocorreu nada disso. O que hoje senti é que, assim, só com paredes, Deus pode acabar por ser o único que se busca no meio do sofrimento. Atenção que eu não sou daqueles que defendem uma fé privatizada. Mas é verdade que dentro de quatro paredes não precisamos falar para fora porque Ele nos escuta dentro. Tudo na vida tem sempre dois lados. Nem que seja o de fora e o de dentro. Hoje prefiro ver este lado de uma solidão que fica aberta para se encher de Deus
