segunda-feira, julho 11, 2016

Confessei-me há uns minutos

Confessei-me há uns minutos atrás. Depois de um largo exame de consciência, abeirei-me de um colega para sentir, através do seu olhar, o perdão de Deus. Após a enumeração das faltas e pecados que sentia pesarem-me na consciência, o colega falou amável e delicadamente da nossa condição humana frágil. 
Porque me deu tempo para me por no seu lugar de confessor, apercebi-me que a maioria das minhas faltas estavam intimamente relacionadas com o meu antro ou auto-centrismo. Com a tentação de nos olharmos como centro da nossa vida. Como aquele que busca em si compensações, sucessos, satisfações. Acabou por ser muito bom dar conta em mim que o pecado é exactamente a ausência de Deus porque nos colocamos no centro de tudo. Foi bom experimentar na pele o que tenho ensinado teologicamente a outros. Foi bom, no final, perceber que a gratificação da vida nos vem de Deus e não de nós. Paradoxalmente, é Deus que nos dá a satisfação ou alegria plena da vida, e somos nós que nos entregamos à insatisfação do nosso ser. 
Curiosamente, o colega sugeriu-me que recordasse aquele momento da nossa ordenação em que nos prostramos no chão, colados ao pó do tapete à frente do altar. Afinal é essa a condição e postura que nos habilitam para sermos autenticamente sacerdotes.

sexta-feira, julho 08, 2016

Connosco ao colo

Cada dia acorda com diferentes cores. Ainda ontem estava dourado do sol e hoje cinzento de chuva. Os estados ou ânimos de alma, como os dias, mudam constantemente na nossa humanidade. Mas o amor de Deus é sempre o mesmo. 
Por isso hoje sento-me, com pernas cruzadas ou por cruzar. Sento-me para estar em silêncio. Para respirar. Dou conta das dores que trago no corpo e na alma. Aos poucos a respiração deixa de ofegar e ensina-me que as dores são pequeninas e provam que estamos vivos. A viver. Sento-me comigo mesmo, sozinho, e aos poucos dá-me a sensação de que o banco em que estou sentado não é mais banco. É colo. É colo de Deus. Dou conta de quem sou e que não tenho de ser mais do que o que sou. Dou conta que o mundo não muda porque queira, mas porque Deus pode querer. Que as dores que trago são pequenos nadas que Deus ama e por isso transforma. 
Como é bom quando paramos e deixamos que Deus se sente connosco ao colo!

quarta-feira, julho 06, 2016

A pedra [poema 111]

Há uma pedra no caminho para casa
Junto ao rio que vai desaguar ao mar
Em cada regresso, nela tropeço.

Podia lança-la ao rio, acobertar
Cabe em duas mãos, é pequenita
Mas não deixa de me pesar.

Ainda hoje vou vê-la, vou desfrui-la
Vou ali sentar e descansar da faina
Vou ali trepar e divisar o mar

 Porque a pedra é pedra, não é caminho

segunda-feira, julho 04, 2016

Não quero as tuas cruzes

Hoje sento-me sem cruzar as pernas. Não quero cruzar nada. Não quero cruzes. Não quero nada que possa recordar-me ou identificar uma cruz. 
Sento-me no tempo. Sento-me e não quero levantar-me. Deixa-me dormir sentado, preso às tristezas que as adversidades trazem. É cansativo ter adversidades na vida quando prometes a felicidade. Porque será que paramos no tempo da cruz e o tempo da ressurreição teima em tardar? É cansativo ter adversidades quando elas nos vêm no caminho pela tua mão, ou à mão do teu que fazer. Já me bastavam as cruzes pessoais. Não quero as cruzes vocacionais. Essas que a missão sacerdotal insiste em trazer. Aquelas cruzes que aparecem porque quero ser tão teu como no dia da minha ordenação.
Às vezes também cuido que dormes quando as adversidades acordam em nós. Às vezes também me apetece gritar um Basta. 
Resigno-me, como tu no jardim das Oliveiras. E espero. Espero a ressurreição do meu sacerdócio. Creio que quando ela vier, a cruzes não terão mais peso.

quinta-feira, junho 30, 2016

Cumpre-se hoje parte de uma vida

O tempo passa vorazmente. Os segundos não param, e arrastam os minutos, as horas, os dias e os anos. Não param porque assim é a vida. Não pára. É quase como um jogo em que lançamos os dados constantemente para chegar à meta. 
Hoje cumpro duas dezenas de anos do meu sacerdócio. Faço por recordar a frescura do meu sim jovem, seguro, cheio de ânimo. Faço presente, neste momento, diante do altar, a promessa que quis fazer na minha primeira missa solene. Que todos os dias acordasse sacerdote e que todos os dias desejasse ser sacerdote com a mesma vontade. 
Já lá vai muito tempo. O tempo suficiente para necessitar de um esforço de modo a recordar. Houveram dias que, confesso, esqueci ou quis esquecer meu sacerdócio. Mas também houveram dias que fizeram valer cada segundo destes vinte anos de sacerdócio. 
A esta altura da vida já se vai olhando menos para a frente. Parece que as horas passaram a ser segundos. O ânimo de outrora cimentou-se. Já não é ânimo. É apenas querer viver. A missão e vocação ganharam maturidade. Já não são paixão. São vida em forma de entrega. São entrega em forma de amor. Os que nos foram sendo entregues para cuidar eclesialmente já não são somente os que Deus nos deu para cuidar. São agora aqueles com quem caminhamos. Já não conseguimos ser donos de sonhos e aventuras. Fazemos parte deles e delas. Já não somos propriamente jovens que vão mudar o mundo e Igreja. Somos apenas Igreja e fazemos parte, muito pequenina por sinal, deste mundo. 
Não quero pensar mais em mim. Hoje não é dia de pensar em mim. Hoje não é dia de pensar na minha vida. Se aqui cheguei e aqui estou, não é por mim, mas pelo Senhor. Por isso hoje é dia de pensar tão somente Nele. Todos estes anos só fazem sentido por causa de quem me chamou e me amou como sou. Graças por ti, senhor, por existires e me amares. 

29 de Junho de 2016

sábado, junho 25, 2016

A justiça de Deus

Estava em pausa para um delicioso café com uns paroquianos quando da mesa ao lado e em tom de meter-se com o padre, se ouviu um Deus devia ser mais justo. O senhor que proferira a frase explicou depois, dirigindo-se na minha direcção, que achava que Deus deveria ser igual para todos. E que deveria fomentar na terra a igualdade de oportunidades. Porque é que alguns tinham tanto e outros tão pouco! E porque é que os maus eram os que mais sorte tinham na vida! 
A ocasião deu-me a oportunidade de abordar o assunto da forma como o tenho pensado muitas vezes e que agora resumo. Nós estamos embrenhados na justiça dos homens, num tipo de justiça que trata ou quer tratar todos por igual. Basta imaginar o que numa empresa fabril é considerado como igualdade de direitos e de remunerações. Deus não funciona assim. A justiça dos homens também é costume traduzir-se no tratamento por merecimentos, isto é, uma justiça que opera segundo se merece. Deus não funciona assim. A justiça de Deus não é como a justiça dos homens. 
A justiça de Deus não é fazer igual aquilo que não o é, porque completamente distinto e único, nem fazer como se merece. A justiça de Deus é fazer como se precisa. Como cada um precisa. Nem sequer é como cada um quer. É como Deus entende e sabe que cada um precisa. Não é tratar por igual, mas com o mesmo amor. A justiça de Deus é a justiça que ama.

sábado, junho 18, 2016

as janelas parede [poema 110]

Trepa as paredes brancas pintadas de fresco
A primeira janela está cerrada e a segunda,
As restantes não se abrem, mesmo de dentro
As mãos de tinta escorregam e não há pincel
Não há mais nada para além de paredes e janelas
E um homem que trepa as paredes em busca
De janelas abertas para um mundo que não sabe

Aos poucos o peito amalgama-se com as paredes
Deixa de ser peito para ser parede em busca de janelas
O corpo humano fica todo ele da cor dessa procura
Às tantas desaparece no meio das paredes níveas
Ninguém o vê, ninguém o descobre, mas ele está
No meio das janelas que já não precisa abertas,

As janelas que são parede

quinta-feira, junho 16, 2016

aceitação [poema 109]

Aceitar que a árvore é árvore e não floresta
Que a floresta está na terra e não no mar
Que o mar tem peixes e não pássaros
Que os pássaros debicam e não mordem
Que as pessoas não devem morder a árvore
Que a árvore, a floresta, o mar e os pássaros
Não são pessoas de um conto de Andersen
É ser-se assim como se é e assim aceitar
Para além do que é aceitar em mim ou em nós
Longe do que se pode simplesmente aceitar

sábado, junho 11, 2016

A Igreja da senhora Matilde ou não

A senhora Matilde teve a coragem de me dizer que não precisava da Igreja para nada. A mesma Matilde que marcara reunião com o pároco, isto é, comigo, por causa de um baptizado que queria da Igreja. Faz parte, por conseguinte, daqueles meio cristãos que se dizem inteiramente cristãos e que vão em busca da Igreja quando sentem necessidade, cultural ou festiva, específica da Igreja. Uma necessidade que lhes vem dos seus antepassados e não provavelmente de Deus. Continuava a senhora Matilde a conversa, olhando o relógio do telemóvel, porventura com medo que o tempo corresse atrás de si, dizendo que acreditava em Deus e isso bastava. 
Perguntei-lhe então se tinha fé, e repetiu o que afirmara antes, que acreditava em Deus. Com três ou quatro observações desconstruí e desarmei as afirmações da senhora, mas a ocasião fez a reflexão, e da reflexão vieram as perguntas sobre quem fez a Igreja ou quem a fundou, e qual a sua necessidade verídica. Essa reflexão acabei por fazê-la em casa, no meio dos meus papéis. 
Jesus não fez uma Igreja. Não encarnou para fundar uma Igreja. A Igreja é de Cristo. Mas o que fez a Igreja foi o impacto que Ele teve nas pessoas. Podemos dizer que houve dois impactos. 
O primeiro tratava-se do impacto que a pessoa fascinante de Jesus provocava. Uma pessoa, como alguém dizia, com uma harmonia, equilíbrio e personalidade fora do mundo habitado. Foi este impacto que originou os discípulos, isto é, aqueles que seguiam Jesus como um mestre. 
Depois veio o impacto da ressurreição que provocou nos discípulos a necessidade de serem missionários, isto é, de partilhar a graça que haviam testemunhado. Este foi o impacto genuíno da fé. O impacto que originou aquilo que hoje chamamos fé. Foi ele que, com o tempo, gerou a Igreja, o conjunto dos discípulos missionários que não podiam mais calar a vida que os habitara após o encontro com Cristo. Foi esse impacto, a que a Igreja dá o nome de Espírito Santo, que, embora não fundando propriamente, gerou no coração dos discípulos a necessidade prática da Igreja como instrumento para continuar a missão do próprio Jesus. 
Que pena que tantas vezes pareça ainda não termos tido esse impacto em nossas vidas e que pena ainda confundirmos a Igreja de Cristo, que é humana, com uma instituição meramente de homens.

quinta-feira, junho 02, 2016

A que deve hoje a Igreja dar mais importância?

Depois da última sondagem que perguntava sobre as obras espirituais de misericórdia que mais praticávamos, e na qual se obtiveram os resultados a seguir anexados, vem agora nova sondagem.

Desta vez a pergunta surge diante das diversas missões ou funções que a Igreja presta ou deve prestar de forma singular: A que deve hoje a Igreja dar mais importância? 
Insistimos que a ideia é realçar aquela que deveria ser a sua prioridade, embora sabendo que, de certo modo, todas são importantes. Já sabem que podem/devem deixar vossas opiniões comentadas!