quarta-feira, abril 13, 2016

As partilhas da D. Amélia

A dona Amélia tem um quintal grande. Couves, cenouras, alhos, batatas, salsa e por aí fora. É um quintal onde abundam aquelas pequenas coisas que se fazem grandes nas nossas cozinhas.
Contaram-me que a dona Amélia era muito generosa. Nada que eu não soubesse já e em primeira pessoa. Contaram-me porém ou entretanto que às vezes chegava à casa ou à porta de algumas pessoas e deixava sacos da sua horta. Contaram que muitas dessas pessoas nem a conheciam. E ela dizia que não importava. E deixava o saco com as couves e as batatas. 
A Amélia é mulher de fé. É discreta. Poucos sabem destas coisas que ela faz. Mas faz, e fá-lo a quem quer que seja porque não espera um obrigada. Não espera receber nada em troca. Dá porque quer dar. Dá por amor. Partilha como poucos sabem o verdadeiro significado da palavra. 
Que bom que é ter assim paroquianos!

domingo, abril 10, 2016

Hoje para sempre [poema 102]

Hoje não me apetece ser feliz
O êxtase da secura apoderou-me
As pedras da calçada tomaram corpo
As águas fizeram-se oceano em terra
O fogo deixou de ser paixão e queima
No mais ínfimo de mim esgotei-me
Em nadas que eram um tudo de nada
quimeras de um mundo privado em mim

Hoje apetece apenas ser-me eu
Que incorpora e é para além de coisas
Cruz e dor para ser em plenitude

sexta-feira, abril 08, 2016

As não respostas que são resposta

A mãe gostara da homilia que eu fizera no funeral da sua filha. Porventura havia respondido às suas inquietações naquele momento indisível, que não se podia dizer porque seria o meu dizer e não o seu. Mas pelos vistos assimilou em si o que eu dissera na inocência da minha vontade de deixar Deus falar em mim. E o curioso é que não dissera quase nada. Ou melhor, não utilizara frases cliché ou dogmas que enfatizamos muitas vezes nas homilias para consolar ou para orientar o nosso olhar à Ressurreição. Simplesmente deixara quase tudo em aberto.
Recordo que apresentara algumas propostas de entendimento da morte, mas que deixara no ar afirmações de que não sabia tudo, pois que a forma de eu receber o mistério de Deus era diferente do contexto de qualquer outra pessoa. Não fiz o papel de quem não sabia que dizer, o que ocorre também muitas vezes no nada com que nos deparamos em funerais. Eu sabia o que estava a dizer. Só não queria apresentá-lo como encerrado numa doutrina sobre o mistério da morte.
Assumir em nós a incompreensão da morte é também assumir um Deus que se faz presente mesmo quando parece que nos faltam as palavras. Pelo menos foi o que pensei depois do comentário agradável daquela mãe. Espero que não tenha sido apenas complacente, mas aberta ao dom da morte que é tão incompreensível.

terça-feira, abril 05, 2016

Não estar agarrado ao meu sacerdócio

Tem dias que me penso sem ser padre. Como se fosse um simples leigo. Penso que nos acontece a todos pensarmo-nos, de vez em quando, como não sendo aquilo que somos, ou não fazendo aquilo que fazemos. 
E é altamente curioso que durante esses dias e pensamentos a sensação seja de uma certa paz. Digamos uma paz estranha, para assinalar que se trata de uma forma de estar que não sei muito bem dizer, mas que não me desassossega. Uma forma de pensar que não me faz desejar não pensar. 
Imagino-me sentado nos bancos da Igreja como qualquer leigo, e dou por mim a rezar como rezo, a caminhar como caminho, a viver a fé como vivo. Talvez não me fosse dispensado tanto tempo para o Senhor ou não fosse obrigado a ter tempo para o Senhor. Ou fosse um tempo de Deus que não precisasse dizê-lo ou pensá-lo. Mas eu seria na mesma Dele. Porventura até seria mais capaz Dele, porque mais livre de me obrigar a coisas Dele. 
Imagino-me a dar catequese como os meus catequistas, pois gosto muito de ensinar e partilhar, e a cantar no coro, pois gosto muito de cantar. Imagino-me a animar um grupo de jovens, pois gosto muito de vê-los crescer para Deus. Imagino-me ministro a levar a comunhão aos doentes, a visitar quem precisasse, a participar nos retiros ou nas formações da paróquia. Pode parecer pretensioso da minha parte, mas quase me imagino melhor leigo que padre. 
Penso agora que isso me pode ajudar a falar aos outros como eles, a partir de Deus e não a partir de mim. Falando e pregando a pensar neles. Naqueles que não são padres mas podem ser tão ou mais crentes que eles. E fico em paz, porque todos estes pensamentos me trazem a certeza de que não precisava ser padre para ser de Deus. Isso dá-me a certeza de que Deus é mais importante que o meu sacerdócio. Isso dá-me consciência de que não devo estar agarrado ao meu sacerdócio, mas a Deus.

domingo, abril 03, 2016

Santo sepulcro [poema 101]

Trouxe-Te aqui todos os que me deste
Toma-os, são tão teus como quiseste

Carrega-os nestas ruelas estreitas,
feitas de vidas
Calcadas e amarrotadas
em fugas e refugas da morte
Estreitas e apertadas,
que apertam num passo,
Não sei se passo

Mas posso
Trazer-Tos e entregar-Tos aqui
Neste sepulcro que revolvi

Como um pedaço de mim
Recebido sem ter fim

sexta-feira, abril 01, 2016

Tão claro como ser dia 1 de Abril

Pelo menos em Portugal, que eu saiba, o dia 1 de Abril é um dia em que se pode mentir. É um dia em que não se levam a mal determinadas mentiras. É um dia em que uma verdade pode ser interpretada como mentira. E apetece-me dizer que é apenas mais um dia. Se calhar mais um dia de mentiras e verdades misturadas num saco a que chamamos azul, de luvas brancas, de batom nos lábios e manicura escondida. É um dia como tantos outros, em que a humanidade vive o seu mundo centrada sobre o seu ego, sobre os seus interesses, sobre o seu desejo de dominar. Uma humanidade alicerçada num antropocentrismo deísta, numa individualidade excluente, numa sociedade pluralista que tudo aceita mas que nada tolera. Uma certa forma globalizada de viver sem Deus. 
Claro que tudo isto é mentira e eu estou a brincar ao dia 1 de Abril. Claro que não me identifico com esta sociedade ou humanidade. Nem a Igreja se identifica. Nada se identifica aqui e agora desta forma. Claro que só precisamos viver um dia de cada vez e que todos sejam dia 1 de Abril. E isto é tão claro como ser dia 1 de Abril.

sexta-feira, março 25, 2016

morte que não é [poema 100]

Veio sem nuvens para morrer,
E fazer da morte um renascer

Veio para nos levar na mão
Ao mais íntimo do seu Ser,

Veio para morar na vida
E nunca mais dela sair

... e
A morte não é mais morte
Não é mais nada que ir

Nota: Desejo a todos uma Páscoa certa da Vida!

quinta-feira, março 24, 2016

Mãos na obra [poema 99]

Era meio dia nos meus braços
E nos joelhos descansaram as horas
Aquietou-se o silêncio do tempo
Amanhã será o dia de por as mãos
Na obra. Mãos à obra

terça-feira, março 22, 2016

Mais do que ser bons

Um colega, padre e amigo meu, disse um dia algo que já citei algumas vezes, referindo-se ao resumo de cada uma e de todas as homilias. Dizia que quase bastaria dizer um “Sede bons”. E reafirmava que isso bastaria. Tenho este colega em sincera admiração. As homilias dele nunca se resumiam a um “Sede bons”. Aprendi imenso com ele a actualizar a Palavra de Deus na homilia. 
Mas há dias, quando uma mãe sofrida pelo facto de os seus filhos não lhe seguirem os passos da fé, e perante a indicação que eu dera a propósito do melhor meio de evangelização que constituía o testemunho, ela respondeu-me simplesmente que tentava ser boa a todo o custo. Essa resposta deixou-me em aberto as possibilidades reais da evangelização. 
Na verdade não me parece que baste ser bom. Isso qualquer um pode e deve ser, independentemente da sua fé ou do seu credo. Um não cristão pode ser muito melhor pessoa que um cristão. A fé é mais que isso. Trata-se da configuração com uma pessoa que é Cristo. É um modo de vida a que nem sempre o “ser bom” bastará. É toda uma forma de viver, de amar, de sofrer e de pensar cada coisa para além de si mesma, centrado no caminho para Deus. Um caminho, que afinal, vai para além da bondade.

domingo, março 20, 2016

em saída [poema 98]

Sai a alma a passear
Na primavera

Sai entre as nuvens
No céu

Sai com os anjos
A passear

E hoje na terra deseja sair
A passear