Tem dias que me penso sem ser padre. Como se fosse um simples leigo. Penso que nos acontece a todos pensarmo-nos, de vez em quando, como não sendo aquilo que somos, ou não fazendo aquilo que fazemos.
E é altamente curioso que durante esses dias e pensamentos a sensação seja de uma certa paz. Digamos uma paz estranha, para assinalar que se trata de uma forma de estar que não sei muito bem dizer, mas que não me desassossega. Uma forma de pensar que não me faz desejar não pensar.
Imagino-me sentado nos bancos da Igreja como qualquer leigo, e dou por mim a rezar como rezo, a caminhar como caminho, a viver a fé como vivo. Talvez não me fosse dispensado tanto tempo para o Senhor ou não fosse obrigado a ter tempo para o Senhor. Ou fosse um tempo de Deus que não precisasse dizê-lo ou pensá-lo. Mas eu seria na mesma Dele. Porventura até seria mais capaz Dele, porque mais livre de me obrigar a coisas Dele.
Imagino-me a dar catequese como os meus catequistas, pois gosto muito de ensinar e partilhar, e a cantar no coro, pois gosto muito de cantar. Imagino-me a animar um grupo de jovens, pois gosto muito de vê-los crescer para Deus. Imagino-me ministro a levar a comunhão aos doentes, a visitar quem precisasse, a participar nos retiros ou nas formações da paróquia. Pode parecer pretensioso da minha parte, mas quase me imagino melhor leigo que padre.
Penso agora que isso me pode ajudar a falar aos outros como eles, a partir de Deus e não a partir de mim. Falando e pregando a pensar neles. Naqueles que não são padres mas podem ser tão ou mais crentes que eles.
E fico em paz, porque todos estes pensamentos me trazem a certeza de que não precisava ser padre para ser de Deus. Isso dá-me a certeza de que Deus é mais importante que o meu sacerdócio. Isso dá-me consciência de que não devo estar agarrado ao meu sacerdócio, mas a Deus.