sexta-feira, outubro 26, 2012

A senhora, de nome que não interessa

Há uma senhora, de nome que não interessa, que, já reparei, gosta de reparar na vida dos outros e falar dela, a vida dos outros.
Em cada terra, em cada paróquia, há sempre senhoras, de nome que não interessa, que vivem a sua vida a reparar na vida dos outros. Nas mais pequenas, sentam-se ao cimo do balcão e fazem uso da sua língua, geralmente má, para desfazer novelos e criar novelas da vizinha, da amiga da vizinha, e das amigas das amigas da vizinha. As que moram em terras ou paróquias maiores sentam-se à mesa do café para que o chá seja bem regadinho com a história que ouviram falar.
A senhora, de nome que não interessa, gosta de andar atrás do padre e assim como fala das vizinhas, aproveita e fala do padre, que esse dá uma novela de maior audiência. Por azar da vida, veio contar-me duas ou três coisas a respeito de duas ou três senhoras que colaboram na Igreja. Não gosto de dar importância a conversas destas, mas, como é hábito, escutei-a porque o meu dever é escutar. A meio da conversa pedi-lhe para falar coisas boas dessas senhoras e ela não conseguia. Foi quando se calou. Aproveitei para ensinar que dos outros só devemos falar bem, e que devemos ter atenção se não recalcamos nos outros aquilo que está dentro de nós. Terminámos assim a conversa e quero pensar que ela vai melhorar. Mas depois de ela sair porta fora, lembrei um dito senhor da televisão, de nome que não interessa, que há dias se saiu com esta à frente do écran. Aqueles que passam o dia a falar da vida dos outros que arranjem uma vida. De facto, quem está de bem com a sua vida, não gasta tempo a falar, geralmente mal, da vida dos outros.

quarta-feira, outubro 24, 2012

A que objectos de escritório associas mais a figura de Jesus?

Continuando a ideia que propus na anterior sondagem, com o objectivo de reflectir sobre a forma como vemos, pensamos e sentimos Deus, sugiro desta vez que pensemos na figura de Jesus partindo de objectos de um escritório. Pode parecer uma proposta estranha, quase inadequada. Porém, pessoalmente, gosto de procurar o mais além, aquilo que possa parecer absurdo, para encontrar um sentido e uma busca maior, mais profunda e muito pouco absurda. Assim, desta vez, olhei à minha volta, ou melhor, à volta da minha secretária, e procurei objectos para reflectir qual ou quais associaria à figura de Jesus. Já sabem que esta sondagem, como a anterior, terá mais sentido se justificarem a vossa escolha. Por isso, proponho que o façam nos comentários.
A pergunta é: A que objectos de escritório associas mais a figura de Jesus?

segunda-feira, outubro 15, 2012

O Ano da Fé que bem precisamos

Andavam na vindima, e nas vindimas há tempo para todas as conversas. Uma senhora querida, que vai sempre à missa e até canta no coro, aproveitou a ocasião para evangelizar, que é assim que os cristãos deveriam fazer. Mas foi em vão, contou-me ela. Só faltou ser enxovalhada. Estava lá um senhor de bigode, aqui da terra, que nunca vai à missa, que me disse assim. Vossemecê julga que por ir à missa, e cantar na missa, vai para o céu?! Vai tanto como eu, porque não há céu. E ela que lhe respondeu com outra pergunta. Então se não há céu, que foste fazer à missa do funeral do teu irmão? E quando pensava que o desarmava ou o ia fazer pensar no que acabara de dizer, este virou costas e disse. Tem razão. Olhe que não fui lá fazer nada. E depois é o que se vê, disse-me ela no fim de uma missa. Eu contei as pessoas que vieram hoje à missa. Eu também contara. Fora fácil contar as oito pessoas que lá estavam. O senhor padre falou, na missa, do Ano da Fé que aí vem. Bem precisamos dele. E repetiu. Bem precisamos dele.

sexta-feira, outubro 12, 2012

Os padres também amam

Necessito amar. Mas cortam-me as pernas do amor, para que o amor não ande. Digo-o com todas as primeiras e segundas intenções. Digo-o, porque neste exacto momento tenho uma mão aberta, com os dedos afastados. Fecho-a, e apesar de fechada, tudo me foge da mão, por entre os dedos. E fica apenas o punho fechado. Sai-me da boca e da vontade sem querer. Deus criou-nos assim, com esta vontade infinita de amar. Afinal, é o amor que nos traz a felicidade e Deus quer-nos felizes. Saímos do seminário com esta certeza de que temos de amar a todos, mesmo que isso implique não amar ninguém. E vamos fazendo assim o nosso sacerdócio. Convenhamos que alguns constroem essa casa com uma série de janelas abertas. E não aponto nenhum dedo, pois tenho a mão fechada. Aproveito e fecho também as cortinas. Dizem-nos que para o sacerdócio só há esta porta. E eu acredito nisso, em sentido figurado. Mas todos necessitamos amar, em sentido real. Faz parte da nossa essência de seres finitos que procuram o infinito numa entrega, numa partilha, numa forma de se não ser sozinho no mundo. E tu que fazes, Senhor? Dás-nos uma família. Mas precisamos mais. Dás-nos uma irmandade a que chamas presbitério. Mas é uma virtualidade do amor. Dás-nos uns amigos, como eu costumo dizer, do peito. Mas também esses a vida nos afasta. Porque mudamos de poiso e nada é eterno senão Tu. Porque a vida é simplesmente assim. O que eu acho bonito no meio disto tudo, é que o amor, para ser valioso, tal como tudo o que tem valor, tem de ser procurado. Mas estou para aqui há um ano, e sinto falta desses amigos do peito. Não os perdi. Só estão longe. E é assim quem, em nome de Deus, tem de ou devia ser perfeito.

terça-feira, outubro 09, 2012

Estava capaz de gritar

Estava capaz de gritar. Estava capaz de gritar em plena missa, anteontem, Domingo, dia de Nossa Senhora do Rosário, faz onze anos que a minha mãe faleceu. Era um Domingo, tal como anteontem. Era um final de tarde, seriam umas seis horas. Anteontem, seriam umas sete, a família, junta por outros motivos, acabou por ir, igualmente junta, à missa que também se celebrava pela mãe. Desta vez fiquei do lado de lá. Fiquei do lado de lá do altar. Estava cansado. E não só. De vez em quando acho bom rezar do lado de lá, do lado diferente, do lado que me é mais estranho. Para quebrar a monotonia. E para experimentar o que é ser simplesmente leigo. Cada um deve celebrar a missa com o seu ministério ou função. Concordo. Mas de vez em quando, onde nem nos conhecem, sabe bem estarmos no meio da multidão, a sentir como a multidão sente. Reconheço agora que a maior parte dos sentimentos que tive durante a missa não eram os da multidão. Eram os meus. Eram a minha mãe. No início da missa o padre enganou-se e não leu o nome correcto da mãe ao anunciar a intenção. Sei como são estas coisas e não me importei. Mas a partir daquele momento, o meu pensamento voou na tua direcção, mãe, e a missa foi um quase só pensar em ti. Por isso estava capaz de gritar. Houve ali um momento, enquanto o padre falava e falava, em que me apeteceu interrompe-lo para gritar. Que a minha mãe morreu faz onze anos e queria tê-la por cá. Depois perguntava porque é que se tem de morrer numa idade imprevista. Constatava como são imprevistas as doenças e com o arrastar do tempo elas aparecem mais frequentes e são mais prováveis. Parece que estão latentes no subconsciente de alguém e saltam para fora para morrer. Depois falava do cancro da mãe para dizer que ela não se queixava, porque tinha fé e amava o Deus que lhe tinha dado a vida. Essa vida. Gritava o mais que pudesse para dizer que aquela mulher que é santa, que é de Deus, e que soube aguentar firme na dor e na vida, era a minha mãe. Queria exibi-la com orgulho, como se os outros quisessem saber alguma coisa disso. Não me zango com Deus. Também não adiantava, porque a vida e a morte vão continuar a ser como são. Fogem do nosso controle. Por isso é que Deus é Deus e nós não. Sei que o tempo que vai entre o início da vida e o início da morte é apenas o projecto de Deus para cada um, e que cumpri-lo seria o objectivo maior do nosso existir, sob pena de a nossa vida não valer de nada e para nada. Mas anteontem estava capaz de gritar, porque nem sempre nos apetece fazer a vontade de Deus, ou cumpri-la, ou aceitá-la. E a minha mãe estava ali bem presente, na minha missa. E pouca gente deu conta disso.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Que cor associas mais a Deus?

Depois da última sondagem, achei oportuno termos uma série de sondagens que nos levassem a reflectir sobre a forma como vemos, pensamos e sentimos Deus. Vou, por isso, nos próximos tempos, propor algumas sondagens  com este espírito. Hoje a pergunta é: Que cor associas mais a Deus?
Esta sondagem terá maior sentido se justificarem a vossa escolha. Por isso, proponho que o façam nos comentários.

sábado, setembro 29, 2012

Às vezes sinto que não escolhi o meu destino

Às vezes sinto que não escolhi o meu destino. E nessas ocasiões baixo os braços. Fico desarmado e entrego-me à vida. Deixo que ela conduza cada dia da minha vida. E passam os anos e sinto que a vida envelhece e que o que faço não foi escolhido por mim. Queria sentir-me dono de todas as minhas opções. Mas sou apenas dono daquilo que tenho de fazer. E sento-me no sofá a olhar para anteontem, desejando que as coisas pudessem ter sido uma escolha sempre minha. Desculpo-me com Deus. Quero ter a certeza que foi Deus que assim quis. Mas continuo a achar que são os homens que escolhem por mim. A paróquia. A pastoral. As pessoas ao meu cuidado. As igrejas. A Igreja. Os sacramentos que me pedem. Todos donos de mim. Todos donos da minha vida e das minhas opções. Tento encontrar o dedo de Deus em tudo, porque acredito que Ele está no cerne de tudo. Ele é tudo. E aceito que assim seja, porque quero ao menos ter a certeza de que essa opção é minha.

sábado, setembro 22, 2012

Sempre foi assim toda a vida

A capela tem um telheiro em frente, forrado a madeira de carvalho bonita. O Telheiro tem duas entradas laterais com dois degraus que, de tão suaves, quase não se sentem. Na delimitação do telheiro está um pequeno muro, com mais de meio metro de altura, que serve o descanso das pessoas que ali se sentam. O espaço é agradável. Muito agradável. Ontem foi festa e, como festa popular que é, lá se deu uma voltinha com o andor de Nossa Senhora pelo recinto. A procissão é curta, como eu gosto. Foi muito digna com oração e silêncios. Gostei. Porém, quando estávamos a entrar para debaixo do telheiro, por uma das laterais, alguém se lembrou de puxar o andor, juntamente com as senhoras que o carregavam, de forma que o mesmo entrasse pelo lado oposto à entrada da capela, isto é, por uma zona onde não há escadas e as pessoas podem magoar-se ou cair no muro que perfaz, como já disse, mais de meio metro, e onde o telheiro obriga a grandes manobras para que a imagem não seja degolada. As senhoras que carregavam o andor iam mesmo caindo, e eu, que estava logo atrás, disse que era melhor ter entrado por uma das laterais, ao que o senhor que puxara o andor me respondeu, com cara de poucos amigos e sem olhar para mim sequer, Sempre foi assim toda a vida. Uma das senhoras que carregava o andor olhou-me a sorrir e repetiu a frase do homem, como que a dizer O que temos de aturar, padre! Desta vez não me zanguei nem um pouco. Antes me diverti. Soltei uma gargalhada sem som. Sempre foi assim toda a vida, como se a vida de sempre fosse apenas um pedaço de tempo, uns anos. Assim como também sempre andámos de burro e agora andamos de carro. Mas sempre foi assim toda a vida, repetem. Vou-vos contar. Hoje nem me pareceu tratar-se de uma situação de falta de fé orientada. Antes me pareceu uma falta de orientação lógica, já para não dizer em palavras mais portuguesas e numa só, uma estupidez. Há tanta gente que… sempre foi assim toda a vida.

sexta-feira, setembro 14, 2012

Promessa é promessa

Param a procissão com uma conversa de meia idade que começa numa discussão e acaba em berros. Não conheço as senhoras nem propriamente a procissão. Contaram-me que o peso do andor ronda várias toneladas carregadas por quatro homens possantes que a procissão é longa e o peso pesa. As senhoras fazem parte de um grupo de cerca de dez que fizeram promessa de carregar o andor. Não são possantes, mas fizeram promessa. São mais que quatro, mas fizeram promessa. E não há quem as demova. O padre que lá está há vários anos já nem liga. Promessa é promessa. E as senhoras berravam uma com a outra parando a procissão. Porque eu fiz uma promessa. E eu também. Mas eu fiz já lá vão dez anos. E eu já lá vão uns vinte. Só faltou a estalada. Uma puxa pela ponta do andor. A outra puxa pela manga do casaco da outra. Tudo a olhar como se o espetáculo aprimorasse a procissão. Quer-me parecer que a promessa é mais uma forma de as pessoas se mostrarem devotas do que por serem devotas. Quer-me parecer que a promessa é mais para os outros verem do que para ser vivida. Mas quando é que esta gente promete ser boa e fazer o bem?

sexta-feira, setembro 07, 2012

Quem canta, seu mal espanta

A senhora Emília é a cantora mor numa das minhas comunidades. Inicia e orienta os cantos da liturgia. É muito prestável, mas já não é a primeira vez que na hora do pós-comunhão fica em silêncio. Pelos vistos estavam assim habituados. E não vem mal ao mundo que a acção de graças seja feita na intimidade própria do silêncio. Porém, como gosto de cantar, insisto que se cante. No último Sábado assim aconteceu. Como ela estava perto da cátedra onde me sento, insisti baixinho, mas de forma audível, para que cantassem. Nada. Fez-se ainda mais silêncio. Mas nisto alguém resolveu cantar do lado de fora da porta da capela. Estávamos nós no tal silêncio profundo quando se ouviu, como se fosse ali juntinho à porta, o senhor burro a zurrar. Gargalhada geral na capela. Mais sonora que o zurro do senhor burro. E o senhor padre não resistiu a comentar do altar. Ora, eu tenho dito para cantarem. Mas hoje alguém me ouviu, e já que não cantamos nós, que haja quem cante por nós. E saímos da eucaristia todos bem-dispostos, pois que, deixem passar a expressão, quem canta seu mal espanta.