Estávamos ali. Vivos. A falar como era nosso costume. Da vida. Tu sempre soubeste o que a vida vale, Diana. Sempre soubeste aproveitar cada minuto como se só existisse esse. Tu sim, sabes viver. As jovens da tua idade são, na maioria, fúteis. Porque não tiveram a graça que tu tiveste de sofrer desta forma. Eu sei, padre, e agradeço a Deus. Insisti que tinha mesmo muito a agradecer a Deus. Ela acenou que sim. Aquilo que pareceu, à partida, uma desgraça, acabou por te dar uma graça. Aquilo que nos parece a todos uma desgraça, acabou por te dar a graça de saberes viver e de saberes dar valor à vida que tens em cada segundo que ela exista. Eu sei, disse. E foi um Sei como se fosse o maior Sei. Tu és de Deus. Eu sei, disse. Para mim tu és santa. E apenas sorriu. Agradece o dom da tua vida a Deus. Faço-o todos os dias, respondeu. Na despedida perguntei-lhe como estava. Ela respondeu com os braços a fazer um círculo grande. Mais cheia, quis dizer. Obrigada, padre. Fez círculos grandes até eu sair pela porta de quarto dos paliativos. Voltei para trás e disse. Eu é que agradeço. Eu é que agradeço, repeti. Saí e depois disse baixinho. Obrigada, Senhor, por me teres posto esta tua joia na minha vida.
quinta-feira, maio 17, 2012
Esta é para ti, Diana, parte VI, a vida
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segunda-feira, maio 14, 2012
Esta é para ti, Diana, parte V, o brilho
A Diana estava do outro lado do vidro. A fisioterapeuta estava com ela. Já não consegue fazer muitos movimentos. Já não consegue fazer muitos movimentos, mas a boca e os dentes não param de sorrir. Enquanto me vestia com os apetrechos do hospital próprios para entrar em quartos com cuidados especiais, uma bata, umas touca, uma máscara, reparei como ela sorria para a fisioterapeuta. É normal nela aquele sorriso rasgado e que brota do interior. Faz-me lembrar o sorriso de um Cristo que uma vez vi num filme e não mais esqueci. Um daqueles clássicos antigos que passavam na Páscoa na televisão. Ao meu lado, estavam dois enfermeiros da Diana. Enquanto esperava que a fisioterapeuta acabasse, falei com eles. Todos gostavam dela. Olhe, às vezes andamos à disputa para tomar conta dela. Ela tem um brilho especial. A maioria dos doentes quase nos torna doentes. A Diana não. A Diana faz-nos ter vontade de viver e de ser enfermeiros. Ao pé dela sentimo-nos bem. A mãe da Diana já me dissera aqui há uns tempos que os médicos e os enfermeiros gostavam muito da Diana e andavam sempre de roda dela. Nas quase três horas em que estivemos juntos, lado a lado e ao lado da sua cama, assisti à prova destas coisas que os enfermeiros e a mãe da Diana me haviam dito. Os enfermeiros e as enfermeiras iam passando só para dizer Olá. Acho que não havia um único que não acenasse, pelo menos, do outro lado do vidro. Vês como és especial, Diana. Tens tanto a dar de Deus. Deus deu-te tanto para dar. E apesar do teu sofrimento, aqui estás ainda a dar de ti, da tua vida, da tua alegria, da tua simpatia, do teu brilho, da tua fé, do teu e do nosso Deus.
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sexta-feira, maio 11, 2012
Esta é para ti, Diana, parte IV, os sins
A Diana foi transplantada aos pulmões há mais de um ano. Deitada na cama do hospital, confidenciou-me que na época agradecia a Deus essa pessoa que, ao morrer, lhe tinha doado os pulmões. Não sei quem é, padre. Mas agradeço. Fazia-o ao anoitecer, para agradecer o dia de vida que findou. Porém, ultimamente não tinha agradecido. Os pulmões não estão a responder, padre. Estão a rejeitar. Não consigo respirar. Eles criaram, por si, um vírus estranho sem explicação, mesmo para os médicos. Perguntei-lhe porque deixara de agradecer. Fiquei meio revoltada, meio triste, meio bloqueada. Eu disse que esses sentimentos eram normais. Que Deus a ouvia, a entendia, os aceitava. Mas que não deixasse que isso lhe afectasse o mais importante, que era viver a cem por cento. Ela concordou. Também a cem por cento. E hoje, depois de eu sair, vais de novo agradecer a Deus a pessoa que te doou os pulmões, certo? Mais certo não podia ser, porque ela sorriu e disse sim. Sorri sempre. E os sins dela são dos melhores sins que eu conheço.
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quarta-feira, maio 09, 2012
Esta é para ti, Diana, parte III, a bagagem
O irmão ligou-me há dois dias. Padre, a minha irmã precisa de si. É tão bom que precisem dos padres. É tão bom que precisem de nós. As coisas não estão bem. Nada bem. Explicou porque não estavam bem. Ela disse aos meus pais que gostava de ver duas pessoas. Uma delas é o senhor. É tão bom que o padre, como padre, seja o escolhido. É tão bom sermos escolhidos. Sabemos que lhe é difícil pelo tempo, pela disponibilidade, pela distância. Ela está em Lisboa, no hospital. Respondi que iria ainda esta semana. Ele respondeu que cada dia é sempre só mais um e que não sabia se havia outro. Deus arranjou então um dia. Deus arranjou uma forma de eu estar disponível num dia que, curiosamente, ficou disponível de um dia para o outro. Na bagagem levei-me só a mim. Deixei as dificuldades para trás. E agora que regresso de Lisboa, paro o carro para escrever tudo o que falámos. Venho com a bagagem cheia. Demoro mais de uma hora a escrever palavras, sentimentos, certezas. Tudo o que falámos e me encheu a bagagem. As horas da nossa conversa e do nosso encontro fizeram deste dia um dos melhores dos meus últimos tempos e da minha fé. Obrigado, Diana.
Para entenderem melhor este post devem ler de novo "Esta é para ti, Diana, parte I" e "Esta é para ti, Diana, parte II". Este texto em concreto foi escrito há mais de um mês, ainda no período da Quaresma. Nos próximos tempos, vou aqui colocar vários textos que escrevi nessa ocasião. Aos poucos perceberão porquê e para quê.
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quinta-feira, maio 03, 2012
Tens por hábito rezar o terço...
Depois da sondagem que nos questionava sobre a nossa postura face à Ressurreição de Jesus e face à nossa Resssurreição, vem agora uma outra a propósito do mês de Maio, mês de especial devoção a Maria.
Da anterior sondagem quero ainda realçar as diferenças proporcionais entre as duas questões, pois grande parte acreditava a 100% na Ressurreição de Jesus, mas o número dos que acreditavam 100% na sua própria Ressurreição diminuia bastante. Isto dá que pensar, não dá?!
A nova sondagem começa por "Tens por hábito rezar o terço"... e deves completar a frase com a tua opção.
Podem, como é hábito, expor aqui as razões da vossa resposta ou o que pensam acerca da oração do Terço.
segunda-feira, abril 30, 2012
O diploma da dona Maria da Conceição
A dona Maria da Conceição inscreveu-se para a celebração comunitária da Unção dos doentes. Participou na reunião de preparação. Mas logo me disse que não podia estar. Tinha lá a família em casa. Faltou, portanto. Não fez o sacramento da Unção dos doentes, por conseguinte. Passada que foi uma semana, no final da missa da paróquia, veio ter comigo à sacristia. Queria o diploma da Unção, senhor padre. Mais do que um certificado, o diploma era uma recordação para quem fez o sacramento. A sorrir do caricato e a sorrir com ela, expliquei que o diploma era para quem tinha feito a Unção. Não fazia sentido levá-lo para casa como recordação de nada. Ou como certificação de nada. E o desplante da dona Maria da Conceição não se fez esperar. Dizia que se morresse e não fosse para o céu, a culpa era minha. Mas, independentemente dos motivos, ela é que decidiu faltar ao sacramento. Só podia estar a brincar. Ainda hoje espero que tenha sido uma brincadeira. Só pode. Como se o embrulho da prenda fizesse as vezes da própria prenda. Às vezes é mais fácil entender as coisas de Deus que as coisas dos homens.
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quinta-feira, abril 26, 2012
A senhora de gancho
O gancho no cabelo salientava-se, como se quisesse apanhar alguma coisa
ou alguém. Acabara de chegar para celebrar a Eucaristia quando ela veio ao meu
encalço. Precisava falar comigo. Não tinha muito tempo, a não ser cinco
minutos. Disse-me de chofre que era para me agradecer ter levado Jesus à casa
da mãe acamada no dia de Páscoa. A ironia fez-me recordar que um dia antes da
Páscoa, portanto no Sábado Santo, pelas vinte e três horas, uma outra filha ou
nora da senhora acamada viera pedir-me para levar a Cruz de Jesus à mãe no dia
de Páscoa. Recordo na altura ter-lhe respondido que iria com todo o gosto
visitá-la, confessá-la, providenciar que recebesse a comunhão em casa, mas que
no Domingo de Páscoa era-me impossível. Recordo ainda que nesse dia comecei as
minhas cerimónias antes das nove horas e terminei, com uma pausa de cerca de
uma hora para almoço, pelas dezanove horas. Além de estar estafadíssimo, era-me
de todo humanamente impossível aceder ao pedido. Mas que iria num outro dia. Ao
que me respondeu que não. Que teria de ser nesse dia. Ainda rebusquei no meio
da agenda uma hipótese, por pequena que fosse, dado que a senhora estava
acamada e era dia de Páscoa. Mas ela só queria que eu lhe levasse a cruz como
era costume na sua terra. Afinal o que a senhora queria, porque trazia este
hábito da terra de onde vinha, era a visita pascal, ou como alguns lhe chamam,
as Boas Festas, o Folar, os acompanhamentos. E além de não ter a
disponibilidade que a senhora particularmente queria, também não o ia nem podia
fazer na paróquia. Não era hábito nem oportuno. Mas a senhora insistiu. Eu vou
lá então visitá-la. Não, senhor padre. Tem de levar a Cruz. Só faltava ter de
levar também quem a carregasse, quem levasse a caldeirinha de água benta, quem
levasse a carteira para levantar o folar, e ainda a alva e a estola vestidas.
Expliquei que não podia aceder ao pedido mas que iria, com todo o gosto, um dia
visitá-la. Virou costas porque não era isso que queria. Nem queria confessar-se
ou comungar. Queria a visita da Cruz porque é hábito na sua terra. Queria o
hábito da sua terra. Queria da Igreja o hábito a que estava habituada todas as
páscoas. A senhora do gancho, ironicamente agradecida, depois das mesmas
explicações que fiz à sua irmã ou cunhada, dispondo-me a visitá-la, disse que
não, perguntando se era assim que os padres queriam mais fiéis nas igrejas.
Informou-me, resolutamente, para que eu soubesse, que era católica. E virou
costas. Eu fui para a Igreja celebrar a Eucaristia e ela voltou para o lugar de
onde veio. A rua ou a sua casa, não sei. Na igreja é que não entrou. E são
assim os nossos católicos de hoje. Querem tudo menos o que deviam querer.
Querem hábitos mas não querem a fé.
terça-feira, abril 17, 2012
As aulas da segunda-feira da Carmo
A senhora Carmo é professora do Ensino Básico. É uma óptima paroquiana. É uma cristã que procura sê-lo. Tem alunos do terceiro e quarto anos. Ao redor de uns vinte. Quase todos filhos de casais novos. No meio de uma colher de sopa, em sua casa, contou-me com mágoa que quase todas as segundas-feiras perguntava aos alunos se tinham ido à Missa no Domingo anterior. E um não redondo e em coro se ouvia pela sala. Um miúdo e outro, de vez em quando, contrariavam o não sonoro. A Carmo lastimava-se. Conversava com eles. Explicava-se. Procurava pelas razões. Os pais também não vão. Não querem saber de Deus a não ser nas festas e nos funerais. À porta da igreja, de preferência. Os miúdos podem não faltar à catequese, mas da mesma forma como não faltam ao ballet ou à piscina.
Vinte crianças significam cerca de quarenta pais mais alguns irmãos. Serão cerca de oitenta pessoas que querem pouco ou nada de Deus. São menos oitenta pessoas nas nossas igrejas. São menos pessoas com fé nas nossas terras. São as nossas terras a esvaziar-se de fé. São a fé que desaparece.
Vinte crianças significam cerca de quarenta pais mais alguns irmãos. Serão cerca de oitenta pessoas que querem pouco ou nada de Deus. São menos oitenta pessoas nas nossas igrejas. São menos pessoas com fé nas nossas terras. São as nossas terras a esvaziar-se de fé. São a fé que desaparece.
quarta-feira, abril 11, 2012
O padre Tiago diz que anda cansado
Quero chamar-lhe Tiago. Porque em Grego é uma dádiva de Deus. O padre Tiago diz que anda cansado. Chega a casa e só lhe apetece ver televisão. Ou ouvir televisão. Diz que gosta de ouvir diálogos. E se for para a cama cedo ainda tem muita conversa a por em dia com os seus pensamentos. Não gosta destas conversas. O Padre Joaquim e o padre José e o padre Mário estão doentes. Escolhi os nomes ao acaso. Fala-se de uma depressão. Ou quase depressão. São novos. Bastante novos. Têm menos que dez anos de padre. O padre Tiago tem doze. Como ele, outros se manifestam cansados de andar de um lado para o outro. Cinco, seis, sete e mais paróquias. Embora pequenas, multiplicam-se os esforços. Vale mais um esforço grande do que muitos pequenos. Não aparecem às reuniões diocesanas ou outras. Estão cansados deste formato funcional de ser padre. Desta forma ocidental de viver em Igreja à volta de várias paróquias que têm fé à custa de sacramentos desvirtuados da sua essência e colados à sociedade laica. Estava a conversar com o padre Tiago e falávamos de padres novos que não estão a ser felizes. Nisso da felicidade, os padres mais velhos dão passos mais largos. E não se sabe, ou até sabe, porquê. O que precisavam estes padres que andam cansados, doentes, saturados? Perguntou o Tiago. Exigimos tantas coisas aos padres, e deveríamos apenas dizer aquilo que dizemos aos cristãos. Que sejam felizes. O que interessava é que os padres fossem felizes.
terça-feira, abril 03, 2012
Acreditas na tua e na Ressurreição de Jesus?
A Páscoa está à porta. Podemos dizer que a Ressurreição é a base da nossa fé. Porém há quem tenha muitas dificuldades em acreditar na Ressurreição. Mesmo aqueles que dizem ter fé. E ainda existem diferenças de pensar e reagir entre o acreditar na Ressurreição de Jesus e o acreditar na nossa Ressurreição. Por isso hoje surgem estas duas novas sondagens que estão no sidebar:
- Acreditas na Ressurreição de Jesus?
- Acreditas na tua Ressurreição?
Pedia o favor de responderem obrigatoriamente às duas sondagens, para que se possam tirar conclusões fiáveis. Podem igualmente deixar aqui os seus comentários ou opiniões.
E o que vos desejo, nesta Páscoa, é que Jesus esteja vivo no vosso coração!
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