sexta-feira, novembro 11, 2011

Queria uma missa no dia tal

Entrou despachada com uma amiga. Na sala de atendimento da nova paróquia estava uma funcionária que perguntou o que desejava. Eu entrei entretanto. Ela queria uma missa no dia tal. E a amiga três dias depois. A funcionária informou que ainda não sabia que missas havia por essas datas, porque o senhor padre entrara há pouco na paróquia e ainda estava a organizar as coisas e as datas. Ela insistiu que queria uma missa no dia tal e que a amiga queria três dias depois, dado que fazia anos que alguém importante para elas tinha falecido. Interrompi para explicar que já não era possível celebrar em todas as datas que as pessoas quisessem porque os padres eram cada vez menos e as vidas paroquiais tinham de se organizar. Mais ainda, que teria de marcar em data aproximada na qual houvesse missa na paróquia. A funcionária apresentou-me dizendo que era o novo pároco. Não conhecia ainda. Não sabia. Não imaginava. Olhou para mim com espanto e com ar desconfiado. Não discutiu muito, embora torcesse o nariz. De qualquer maneira perguntou como é que poderia ela saber a data da celebração da missa. Expliquei, com alguma matreirice, que essas informações eram dadas na Missa da paróquia. E tão pronto como expliquei, ela explicou também. Eu não vou à missa e reticências, que não quis dizer mais nada que isso. Sorriu engasgada com a minha matreirice, mas não ficou incomodada. Pronto, está bem, disse. E saiu, tão despachada como entrou.

segunda-feira, novembro 07, 2011

cinco Instante: o Víctor

Veio dar-me um abraço. O último abraço. O senhor Víctor é um reformado que já experimentou a vida. É um homem que, quando fala, diz o que a vida lhe ensinou. É estudado. Tem património. Tem uma vida preenchida. E aprendeu a ser cristão, disse-me, com a minha presença. A face encheu-se de um rubor que parecia timidez. Mas não. Era a face de quem gostaria de vociferar ao mundo. O senhor libertou a nossa paróquia de pecados que não cometemos. Olhei para ele com ar espantado, e perguntei que queria dizer. Quero dizer o que disse. O senhor libertou-nos. O senhor mostrou-nos quem era verdadeiramente Deus. Mostrou que Deus nos ama como somos. Que não nos oprime. O senhor mostrou-nos que a fé não se vive com proibições, mas com caminhos. Que a fé não se vive com medos ou com coisas negativas, mas com a alegria de pertencer a Deus. Até hoje os padres ensinavam-nos um Deus que julga e que manda, um Deus que está à espreita para nos levar para o inferno. E o senhor ensinou-nos que Deus, que é pai, tudo faz para nos levar para o céu. Obrigado, senhor padre. Dê cá um outro último abraço.

quinta-feira, novembro 03, 2011

quatro Instante: a Helena

Ligou-me a medo. Não quero incomodar, senhor padre. A Helena nunca faltava à missa, mesmo da semana, porque entrava na missa com olhos tristes e saía com os olhos a sorrir. Ao longo destes anos não teve para comigo grandes manifestações do que quer que fosse. Apenas sorria quando a olhava por entre os bancos da Igreja. Recordo-me de um dia me dizer que me devia a força de vontade de continuar a vida com a sua doença e os seus problemas. Mas era discreta. Tão discreta que no dia da despedida, não se despediu. Andava já há dias para ligar-lhe, senhor padre, mas não queria incomodar. E se agora estou a incomodar, diga que eu ligo outra hora. Respondi que todas as horas eram boas para receber telefonemas e mensagens daqueles que aprendi a amar nas paróquias e que isso até me dava ânimo para a nova missão. Sossegou então. E foi dizendo que tinha saudades. Que a sua vida não mais era a mesma. Que a vida da paróquia não mais era a mesma, embora o novo padre até fosse bom padre. E que gostava de me ver, mas que, dada a idade avançada, isso não devia acontecer. Mas enfim, é a vida. E fomos assim dialogando sobre tudo e nada. Já no final do telefonema, disse porque ligara. Senhor padre, eu só liguei mesmo porque não tive nem tempo nem coragem para o fazer antes. E queria agradecer-lhe pela fé que me ensinou. Hoje sei que tenho fé. Antes não sabia. A chamada caiu, porque desligámos o telefone. Eu caí em mim, e disse. Estes telefonemas fazem-me ter vontade de ser padre onde Deus quiser que o seja.

segunda-feira, outubro 31, 2011

O buraco

Não tenho palavras. Quero encontrar adjectivos para este meu estar, mas não encontro. Quero usar adjectivos suaves ou que me tranquilizem, mas não encontro. Nem sei se me encontro a mim mesmo. Sei apenas que aqui estou, neste meu novo estar. Sinto-me cigano da minha vida, sem casa e sem alimento, sem amigos em quem confiar, a percorrer quilómetros de carro para caminhos que desconheço. Vou e venho, como se ser padre fosse um ir e vir. Como se ser padre fosse um fazer coisas, porque têm de ser feitas. A estrada tem um buraco. Vejo os carros passar-lhe ao lado, como o levita e o sacerdote ao ver a doença prostrada no chão. Também a mim me apetece passar de lado. Mas tenho de tapar o buraco da estrada para ela se tornar aquilo que é, uma estrada. Queria dar um nome à estrada. Mas não sei que nome dar-lhe. Espero, Senhor, nesta minha oração, que me ouças e me dês a pá que preciso para tapar este buraco. Um buraco na minha missão, um buraco na minha vida que não quero que seja da minha fé.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Chegou a hora!

(In)completa 2
Autoria Elsa Sequeira


Seriam umas dez da manhã. Estava sentado à secretária, descalço. De manhã ando descalço dos pés. Às vezes ando descalço da vida. Não era o caso. Rezava as Laudes. Mas quando a campainha tocou, senti-me mais descalço ainda. Desprevenido. O toque fora muito subtil, mas sonoro o suficiente. O tempo de me calçar foi insuficiente para pensar quem estará à porta. Não me penteei, que estava penteado. Não são horas de direcção espiritual, desabafos ou parecido. Enquanto atravessei o corredor, pensei nalguma santa com um saco de pêssegos. Encostei a mão à chave e a cabeça à porta. Abri com um sorriso de acolhimento. Depressa se transformou em sorriso de admiração e surpresa. Ou constrangimento. O meu bispo.
Era o meu bispo que estava ali. O assunto é sério, ia eu pensando. Ninguém aparece a estas horas se não for coisa séria, que se passa? Demorei tanto tempo nos pensamentos, que ele teve que me perguntar se não o convidava a entrar. E rimos, como que para desanuviar o ambiente.
Deu-me então a conhecer a razão da sua vinda: Padre x, chegou a hora de partires, para outras gentes, vais para outra paróquia, vai ser bom… O meu bispo continuou a falar, penso eu, mas eu deixei de o ouvir. Um turbilhão de sentimentos inundou-me. O silêncio fez-se presente. Agarrei-me à cadeira, como que não querendo ir, mas, no mesmo instante levantei-me e com firmeza disse: Senhor estou aqui, envia-me.

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E aqui está a minha escolha. Os motivos fui buscá-los mais àquilo que estou a viver que àquilo que gostaria mesmo de ver escrito. Gostei muito do final. E peço a Deus que continue a dar-me essa firmeza. De entre os textos que conduzistes para esta perspectiva da saída de uma paróquia achei este o mais directo, e gostei dele por não ter grandes rodeios e por usar claramente uma linguagem escrita parecida à minha. No que se refere aos textos que conduziram o sentido do conteúdo para o blogue, posso garantir-vos que adorei. Se não estivesse de mudança de missão paroquial, quase de certeza que a minha opção iria para esses textos. Pena também pelo último texto que aparece sem autor e sem título, pois achei-lhe imensa piada.
Abraço amigo a todos os que contribuíram para a (In)completa 2

quinta-feira, outubro 13, 2011

três Instante: a Lurdes

A Lurdes teve um cancro e, diz ela, foi o senhor padre que me mostrou que não devia desistir de viver. Foi o sorriso do senhor padre que me ajudou a sorrir. Por isso a Lurdes não se queria despedir de mim. E quando se foi despedir, disse-me que não se queria despedir do meu sorriso. E que chorara várias semanas seguidas. E que rezara para que eu não partisse. E que até houve refeições em que não conseguiu comer. Não entendia. Não queria entender. Mas ontem, senhor padre, fiquei mais serena. Ela nem sabe dizer serena. Disse qualquer coisa parecida, mas entendi-a. Os anos na paróquia ajudam a entender o que as pessoas querem dizer, mesmo sem o dizerem. Fiquei mais serena, senhor padre. E sabe porquê? Porque entendi que na paróquia para onde o senhor vai deve haver também muitas outras pessoas que precisam do seu sorriso. Limpou duas lágrimas. Deu-me um beijo suave na mão. Despediu-se. Limpei duas lágrimas. Aconcheguei-lhe a mão que agarrara a minha e, simplesmente, sorri.

terça-feira, outubro 11, 2011

dois Instante: o João

O João é um petiz de palmo e meio que eu vi nascer e crescer até ser esse petiz que nos entra no coração e não sai. A família é gente boa. Fazem parte da minha gente boa. O João aprendeu com eles a ser bom e quando vai à missa procura discretamente o meu sorriso. Há uns anos, ainda teria uns três, saiu-se com esta para os pais. O Padre é meu amigo. A partir daquela ocasião, tive a certeza que aquele meu paroquiano era meu paroquiano à séria. Os padres devem gostar dos seus paroquianos. Definitivamente, os padres gostam dos seus paroquianos. Eu gosto e gostava. Por isso gostava dos que se chamam João e dos que se chamam Josés ou Manueis ou Marias ou o que seja, desde que sejam meus paroquianos. E todo este meu raciocínio vem à baila, porque apesar de ter deixado de ser pároco de uma série de Josés e Manueis e Marias ou o que seja, eu continuo a gostar deles. Continuo a gostar do João. Este João que, dois dias depois de me ter ouvido anunciar na paróquia que o Senhor precisava de mim noutra missão, a meio do jantar, em sua casa, de forma solene, pediu licença aos pais e ao mano para dizer uma coisa muito importante. Pai, é importante o que eu quero dizer. Diz lá, meu filho, disse o pai do João. Temos de comprar uma casa nova na paróquia X. Abro entre parênteses para dizer que é assim que quero chamar a minha nova paróquia. E continuou o João. Temos de comprar lá uma casa para irmos para ao pé do nosso padre. A mãe contou-me com as lágrimas nos olhos. Eu ouvi com as lágrimas nos olhos. E escrevo com as lágrimas nos olhos. Mas amanhã, quando estiver na paróquia X, vou lembrar-me que há sempre um João em todas as paróquias.

terça-feira, setembro 27, 2011

um Instante

Uma lágrima. Duas lágrimas. Três lágrimas. Conto-as enchendo os olhos. Deixo de as contar enchendo o coração. Enchem-me todo por dentro. Prendem-me. E solto-as em liberdade. Deixo-as ir, rua abaixo. As ruas das minhas paróquias e dos que amo. As ruas dos que me fizeram feliz e dos que me fizeram sentir que vale a pena ser padre. Em dois meses percebi o que foram onze anos. Tudo passa num instante. Mas é o instante de Deus. É a Ele que agradeço tudo. É a Ele que devo tudo. E àqueles que aprendi a amar e a nunca esquecer.
(...)

quinta-feira, setembro 08, 2011

(in)completa 2

Seriam umas dez da manhã. Estava sentado à secretária, descalço. De manhã ando descalço dos pés. Às vezes ando descalço da vida. Não era o caso. Rezava as Laudes. Mas quando a campainha tocou, senti-me mais descalço ainda. Desprevenido. O toque fora muito subtil, mas sonoro o suficiente. O tempo de me calçar foi insuficiente para pensar quem estará à porta. Não me penteei, que estava penteado. Não são horas de direcção espiritual, desabafos ou parecido. Enquanto atravessei o corredor, pensei nalguma santa com um saco de pêssegos. Encostei a mão à chave e a cabeça à porta. Abri com um sorriso de acolhimento. Depressa se transformou em sorriso de admiração e surpresa. Ou constrangimento. O meu bispo. Era o meu bispo...

Se queres ser tu a decidir o rumo desta história, então o "(in)completa 2" é para ti. Tens oportunidade de imaginar o final do texto e seres o seu autor. O melhor final será publicado como post. As regras são simples:
1. Para participar, deves enviar o teu texto como "coment"
2. deves dar um nome ao texto (com maiúsculas)
3. deves repetir a última frase na íntegra, retirando as reticências.
4. deves assinar no final, mesmo que seja com pseudónimo
5. deves esforçar-te por não alongar muito o texto (no máximo 600 caracteres, isto é, cerca de 125 palavras)
6. deves respeitar o espírito e personalidade do "Confessionário dum Padre"
7. se o texto for, de alguma forma, abusivo, não será publicado
8. podes participar com o máximo de 3 textos


N.B. Também poderás comentar nos coments os textos dos participantes; se achares necessária mais alguma regra, informa-me!

sábado, setembro 03, 2011

Entre mim e Deus não há nada.

Entre mim e Deus não há nada. Não há as pessoas que não gostam assim ou assado. Não há o bispo. Não há os colegas. Nem há sequer a família. Eu diria que nem há a Igreja, embora saiba que sem ela não consigo ter algo com Deus. O que eu quero dizer ou sentir com o que estou a dizer é que a minha relação com Deus é minha. Não é de mais ninguém. É um tu a tu. Como devem ser as relações de amor. Eu preciso dos outros para Deus entrar na minha vida. Preciso deles para os amar, porque Deus quer que os ame. Preciso deles porque Deus também quer precisar. Preciso deles para viver solidário e não solitário. Preciso deles para ser Igreja. Preciso deles, porque sem eles não existe Deus na minha vida. Mas entre mim e Deus não há nada. Ou melhor, há o amor que é tudo. O resto é um nada. Ou melhor, o resto é um muito que, comparado com o que existe entre mim e Deus, não é nada. Por isso não quero nada entre mim e Deus.