segunda-feira, dezembro 20, 2010

Faltam personagens no presépio da paróquia _ sondagem

Na paróquia estão a faltar algumas personagens para o Presépio deste ano. Como não sabemos quem há-de fazer esses papeis, decidimos pedir-te auxílio. Destas figuras públicas que seleccionei sem grandes motivos de relevância, tentando apenas destacar alguns dos que se destacaram em 2010, ou que se destacam nas suas áreas de representação, a saber, Desporto, Música, Política, Igreja Católica, Cinema/teatro, Comunicação Social, Economia, mundo Vip, quais convidarias para fazer parte do nosso Presépio? Todos são portugueses, porque a língua que se vai usar no presépio é mesmo o português. Queres dar-nos ajuda? Então vota nas duas sondagens que encontras no sidebar, e indica-nos quem poderia ou deveria ser o "Menino Jesus" e o "Rei Herodes".
Claro que esta é uma brincadeira que não pretende ter consequências nocivas ou nefastas. Nem queremos denegrir a imagem destas figuras públicas. Muito menos ainda confundir coisas sérias. É tão só uma forma de sorrir!
Se acaso acharem que outras figuras públicas portuguesas deveriam constar nesta lista, façam favor de indicar num comentário. Nunca se sabe se ainda iremos precisar mais alguma personagem. Ouvi dizer que José estava tão ocupado na carpintaria que não tinha a certeza de poder ir. A estrela disse que também estava com frio. Só Maria garantiu que ia. Ela não podia faltar mesmo. Por isso, amigos, digam lá qualquer coisinha que o Natal está á porta.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

A terapia dos pobres

Numa hora estive com uma dezena de pessoas, mulheres de cabelo branco ou tapado com o escuro de véu à antiga. Gente cheia de problemas. Os problemas da idade e da vida que não teve oportunidade de ter mais oportunidades. Na sua maioria viveram toda uma vida na mesma terra, na mesma casa, com os mesmos vizinhos e familiares, com o mesmo quintal. Nem a televisão deixou passar outras vidas ou outras formas de vida. Mas precisam falar. Precisam mais falar que confessar-se. E falaram. Falaram. Tanta história cruzada com nomes que eu nunca iria fixar. A sua história numa conversa. Os seus conflitos interiores e exteriores. Os pequenos ou grandes problemas. As suas depressões, se é que sabem o que são ou que as têm. E depois de uma dezena de pessoas que só precisavam falar e sentir que tinham alguém que as escutasse, eu pensei para comigo. Será este o consultório de Deus, a terapia clínica dos pobres?

domingo, dezembro 12, 2010

Os padres também erram

Estou sentado, mas já remexi a cadeira umas poucas de vezes. Parece que não consigo estar nesta posição. Levantei-me três vezes e fui à janela. Fui procurar uma resposta para a minha atitude. Fui procurar a senhora no meio daquela nuvem escura que avisto daqui. Eu tinha o portão aberto. Estava com umas pessoas debaixo do telheiro, na entrada da porta que dá para o quintal. O quintal da casa paroquial é grande e rodeado por um muro alto. A altura que possa trazer alguma discrição ao padre. Não tenho nada semeado. Não tenho tempo nem jeito. A conversa estava interessante e, repito, o portão do quintal estava aberto. Seriam umas dezoito horas, as suficientes para que o escuro impedisse a boa visibilidade, mas permitisse que nos apercebêssemos do vulto que entrou pelo quintal adentro e estagnou diante das paredes do muro que ficavam no sentido inverso ao portão. Ninguém percebeu o que se passava, nem de quem se tratava. A conversa parou. Uma das pessoas ainda falou em receio ou medo. Não me lembro que termos utilizou e para quê. Recordo que pensei. Deve ter receio do que podem querer ali àquela hora. Mas agora penso que poderia querer referir-se a outra coisa. Ao receio do que podia acontecer ao vulto estranho do muro do quintal. Levantei a voz para que o vulto me ouvisse e nada. Não reagiu. Tive de aproximar-me. Era uma senhora de cabelo branco. Não consegui ver melhor e não a reconheci. Lembrei que podia ser do lar e estar perdida. Só podia. Lembro que me mostrou umas coisas e que disse que andava às flores. Àquela hora! Ela não estava boa. Agora é que penso nisso. Perguntei se estava no lar e disse que sim. Foi a única coisa que fez sentido na conversa. Por isso encaminhei-a para o portão e indiquei-lhe a direcção do lar que fica a uns vinte metros à direita. Tinha missa dali a instantes e tinha alguma pressa. Convenci-me que ela tomaria a direita. Nem confirmei a direcção. Fui à minha vida. Mas passada uma hora e meia soube que tinham encontrado uma senhora no cimo de vila, na estrada, perdida. Se porventura não a tivessem reconduzido ao lar, não se sabe o que teria sucedido. Pedi que me explicassem melhor a história e como era a senhora. E expliquei o que sucedera comigo. Bati no peito e contei repetidamente. Contei para as senhoras que estavam na sacristia. Mas acho que era sobretudo para eu me ouvir. Bati no peito. Ainda agora bato. Eu devia não penas tê-la conduzido ao portão, mas ao lar. Devia certificar-me de que ela lá chegava. Eu devia muitas coisas, mas não o fiz. E agora estou para aqui à procura da senhora e de mim. Os padres também erram. Se erram.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

A maior dificuldade da catequese hoje é _ resultados

Ultimamente não costumo postar as sondagens. Porém, achei oportuno postar esta, pois estou convicto que ela pode ajudar-nos a reflectir mais. Para mim a Catequese é o coração de uma paróquia. Do seu palpitar resulta a vida de toda a comunidade.

  1. a crise de fé na família: 70 (32%)
  2. a falta de formação dos catequistas 59 (27%)
  3. os pais não acompanham a catequese: 23 (10%)
  4. a catequese está desactualizada: 17 (7%)
  5. o esquema da catequese não funciona: 15 (6%)
  6. o comportamento dos miúdos: 8 (3%)
  7. são muitos anos de catequese: 7 (3%)
  8. os conteúdos são enfadonhos: 4 (1%)
  9. os miudos precisam mais incentivos: 4 (1%)
  10. é difícil arranjar catequistas: 3 (1%)
  11. excesso de actividades extra-curriculares: 2 (0%)
  12. outra: 2 (0%)
  13. os horários da catequese inadequados: 1 (0%)
  14. os catecismos não são apelativos: 1 (0%)
Considerações
  1. As opções mais destacadas são a crise de fé na família e a falta de formação dos catequistas. Isto demonstra como a formação dos cristãos é uma das maiores carências da nossa Igreja.
  2. A primeira opção (a crise de fé na família) e a terceira (os pais não acompanham a catequese ) mostram igualmente como o papel da família é sempre fundamental. Daí que muitas das apostas pastorais devam iniciar-se na família.
  3. A quarta (a catequese está desactualizada) e a quinta opções (o esquema da catequese não funciona) mostram como há ainda muito a reelaborar e a inculturar nos esquemas e nos conteúdos da catequese. Nos últimos anos, apesar de se terem renovado quase todos os catecismos, denota-se que há ainda muito a fazer nesta área.
  4. Partindo dos resultados obtidos, parece-me que as restantes opções são apenas circunstanciais. Umas mais que outras. Umas a terem-se mais em atenção que outras. Porém, não parecem ser fulcrais para o bom funcionamento ou bons resultados na catequese hodierna.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

A lição da São

A São, diminutivo de Purificação, é daquelas mulheres normais que numa paróquia tentam levar a fé a sério. Não falta a uma celebração, a uma oração do terço, a uma responsabilidade. Assume tudo como boa cristã. Eu penso que até é daquelas pessoas que tem sempre uma palavra a dizer e a ser ouvida. Levam-na a sério tantas vezes quantas a acham inoportuna. Poderá ser fruto da postura ou do incómodo. Mas acontece. E no dia dez veio a minha casa com a lágrima no canto do olho. Olhe, senhor padre, preciso desabafar. E desabafou. Começou numa história e cruzou-a com milhares de histórias. Já pelo final que tive de engendrar porque as histórias eram muitas, abordou-me sobre outra senhora que a tinha feito sofrer. Ela apresentava as suas razões. Eu ouvia. Ela falava. Eu escutava. Percebi que procurava respostas no meu rosto. Só percebi quais quando foi direita ao assunto. Ela fez-lhe queixinhas de mim, padre? É óbvio que, tivesse ou não feito, eu não iria revelar. Não é meu hábito, nem seria bom hábito para um padre, cuido. Não lhe respondi e ela insistiu. Já tinha a porta aberta quando ela quase afirmou que não saia sem eu lhe dizer. E foi nessa altura que aproveitei para dar uma lição de vida e de fé. Sabe, tal como eu nunca direi a ninguém o que a senhora me contou, também nunca direi a si o que outras pessoas me possam contar. Afinal, não é assim que um padre deve ser?

sexta-feira, novembro 26, 2010

A fissura do braço de Cristo

Ande cá, senhor padre, que lhe quero mostrar uma coisa. A Cidália não é mulher de intrigas. Por isso não fiquei intrigado. Somente curioso. Levou-me pela porta lateral da igreja. A porta costuma estar aberta para que o Senhor possa ser visitado pelos seus amigos. A Cidália tem uma hora certa para fazer a sua visita. A seguir ao almoço, que é uma hora de pausa na sua vida, mas não na sua forma de viver com Deus. Entrámos. Depois das devidas vénias em silêncio, encaminhou o meu olhar para a cruz que está num pedestal de granito. Repare no braço, senhor padre. O braço esquerdo de Jesus tinha uma fissura que ainda não dava para colocar um dedo que fosse. Mas era perceptível para quem estivesse mais que um minuto a contemplá-lo. Ficámos assim os dois. Pensei que a Cidália me queria chamar a atenção para o braço que necessitava uma conservação. Mas ela olhou para mim e disse Não lhe parece que Jesus quer desprender este braço? Diga-me, padre, se vê o mesmo que eu. Prendi-me, primeiro, na fissura. Depois no braço que, de facto, parecia querer deslocar-se. Por fim no rosto de Jesus que esboçava um sorriso e, ao mesmo tempo, um ar para o triste. E falei assim como quem está apenas a tentar raciocinar. Vejo um Cristo que se quer solidarizar com as vidas partidas das pessoas. E mais, padre, e mais. Insistiu. O mais da sua insistência e da repetição fez-me pensar que Jesus me ama, por mais que eu não queira prestar-lhe atenção. Ficámos mais dois minutos a olhar. Eu diria, a contemplar. Sabe, padre, a mim parece-me que este Jesus quer desprender o Seu braço para poder tocar-nos. Para afagar-nos. Para abraçar-nos. Para que sintamos que está vivo. Retirei o meu olhar do braço e pousei-o na Cidália. Ó Cidália, só os que amam podem dar conta do Amor de Cristo. Deixe-o ficar assim, respondeu-me. Não o mande arranjar. Eu preciso de sentir que este braço é para mim.
Coloquei o meu braço à volta do seu pescoço e pensei. Há tantos Cristos que não devíamos arranjar!

domingo, novembro 21, 2010

preservativo _ sondagem

Hoje acordei com uma notícia-sensação. Pelos vistos, o Papa vai dizer ou disse, pela primeira vez, que o preservativo pode ser um mal menor. Transcrevo:

Pela primeira vez um papa, Bento XVI, admitiu a utilização "em certos casos" do preservativo "para reduzir os riscos de contaminação" do vírus da SIDA, segundo um livro de entrevistas que será publicado terça-feira.
Segundo a AFP, à questão "A Igreja Católica não é fundamentalmente contra a utilização de preservativos?", o líder da Igreja Católica respondeu: "Em alguns casos, quando a intenção é de reduzir o risco de contaminação, isso poderá ser um primeiro passo para preparar o caminho para uma sexualidade mais humana".
(DN)

Pensei que a notícia trazia alguma novidade. Mas a novidade que a notícia me trouxe foi a comunicação social achar que era uma novidade. De facto a doutrina moral da Igreja tem dito, através dos seus "catedráticos", que o "preservativo" pode ser algo necessário numa relação matrimonial onde o bem maior da saúde de um dos parceiros esteja em causa. Recordo-me de o ouvir no meu tempo de estudante. Já lá vai algum tempo. Porém, quando o assunto vem à baila, há sempre quem destaque o aspecto negativo das afirmações ou não queira reflectir o essencial das mesmas. Por isso, achei interessante saber a opinião dos meus "penitentes". O que pensamos nós disto? Desta vez, coloco a reflexão em duas questões:
1. "Para ti, o preservativo é..."
2. "Para ti, o preservativo tem a ver com..."
A primeira pergunta serve para tratar o assunto em geral, e a segunda em particular.
Podem expor aqui as vossas opiniões, razões, argumentos, acrescentos ou emendas.

terça-feira, novembro 16, 2010

As histórias que são anedota

O padre faz parte das notícias que correm, de boca em boca, nas nossas terras. É um assunto que vende. Vende palavras, escritas ou faladas. Vende histórias. Vende anedotas. E há histórias que são verdadeiras anedotas. Anedotas no sentido em que não podem existir. Como quando dizes a alguém Tu és uma anedota. E no sentido do riso mais rasgado. Como quando não consegues suster a respiração e de tanto rir ficas com dores de costas ou de cabeça. A última trouxe-me essas dores. Da cabeça às costas, e chegou-me aos rins. Foram necessários os rins para a ouvir. O colega que a contou também teve a sua dose de dores de rins.
Sabes, dizia, incomoda-me que as pessoas deixem bancos vazios á frente da igreja durante a missa. O povo tem tendência a ocupar os últimos lugares e ponto final. Por isso, no início da Eucaristia, insisto e torno a insistir para se chegarem à frente. Digo-te que já o fiz umas quatro vezes. E algumas pessoas lá aceitam o meu pedido. Sobretudo mulheres. Pois são elas que mais vão à missa. Pois são elas que aceitam com mais facilidade estas coisas. E o que me chegou aos ouvidos nem ao menino Jesus lembra. Vê lá do que se lembraram para justificar a minha insistência. Então não é que agora comentam que o padre chama para a frente as pessoas para ver melhor as mulheres.
Ele há cada uma. Ele há cada argumento. Ele há cada anedota.

terça-feira, novembro 09, 2010

A estatura do verdadeiro amor

O senhor Emanuel anda na casa dos sessenta. Mas nos últimos tempos o rosto tem traçado anos atrás de anos, como se cada minuto fosse uma semana de vida e cada segundo lhe desenhasse uma ruga. Quem olha para aquele homem de pequena estatura, sem querer concentra-se apenas no rosto. Um rosto que anda na casa dos setenta.
A esposa tem estado fora, lá para os lados da capital, numa clínica. A saúde dela exige cuidados que o senhor Emanuel já não possui para dar. Aguentou enquanto as forças físicas o permitiram. Hoje restam-lhe as forças anímicas ou afectivas. A doença de Alzheimer faz destas coisas. Tira muita coisa a quem padece dela. Mas tira outras tantas a quem está próximo dela. Eu sei que o senhor Emanuel tornou-se incapaz de fazer mais do que sentir. E andava mais triste ainda porque ela estava longe.
Há dias encontrámo-nos no meio do acaso da rua e no meio da sorte de Deus. Correu para me contar. Padre, ela já está aqui no lar da paróquia vizinha. O sorriso era grande, e contrastava com o rosto que lhe conheço dos últimos tempos. Por isso lhe perguntei porque estava feliz. O sorriso alargou-se e respondeu que agora podia ir todos os dias vê-la. Fiquei contente pelo sorriso. Mas, como sabia que ela estava num já quase estado de inconsciência, a curiosidade levou-me a perguntar se ela ainda o reconhecia. O senhor Emanuel baixou a cabeça e abanou-a, respondendo que não. As rugas voltaram. A minha curiosidade aumentou e, por isso, insisti. Então se ela já não sabe bem quem é o seu marido, porque está tão feliz, senhor Emanuel? Não acha que, com tanta visita, ainda sofre mais? Ao que ele respondeu, levantando de novo a cabeça e o sorriso. Ela pode já não saber quem eu sou. Mas eu sei quem ela é.
Abraçámo-nos com verdade e eu fiquei a saber que o senhor Emanuel é um homem que, de pequeno, só tem a estatura.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Água benta

Ó padre, deixei cair o meu frasquinho de água benta e agora preciso que me dê alguma. Pedia com lágrimas nos olhos e o rosto envolvido pelas minhas mãos. Para que precisa dela? Perguntei. Olhe que não é para bruxarias. É que já me caiu um pedaço da chaminé e eu não queria que caísse mais. Ande lá, senhor prior. Preciso dessa aguinha em minha casa para Deus me abençoar o lar. A senhora Carma, que é viúva há quase trinta anos e mora sozinha no cimo da paróquia, fez-me lembrar a Carina. A Carina era uma jovem que tinha muitas dores de barriga e se queixava imenso delas. A gente dava-lhe um copo com açúcar dissolvido. E a coisa passava.