sábado, junho 05, 2010

Na tua opinião, o celibato dos padres...

Nova sondagem. Relacionado com o post anterior, surge a hipótese de continuarmos a reflexão, dando-lhe uma outra vertente. Será oportuno ou não o celibato dos padres? Será imprescindível ou não o celibato dos padres? Radicará ou não na sua vocação ministerial?

Podes comentar aqui as tuas respostas ou as votações que forem surgindo, depois de responderes na sondagem do sidebar!

sexta-feira, maio 28, 2010

As mulheres que se apaixonam pelos padres.

Padre, não sei que sinto, mas sei que sinto algo pelo padre da minha paróquia. Por mais que me esforce em ver nele o sacerdote, não consigo deixar de pensar nele como homem. Já tentei afastar-me, mas procuro-o na confissão, na Eucaristia, nas palavras que diz e nos apertos de mão que faz. Vejo em cada um dos seus apertos de mão um aperto no meu coração. Pior que isso é imaginar que em cada aperto está um beijo discreto. Ele cuida a distância com o aperto de mãos. Mas sentir a sua mão na minha, no meu tacto, pesa mais que um beijo na face, porque este passa mais rápido e não me demora nos pensamentos. O senhor é padre. Sabe, de certeza como pensam os padres, como sentem, como amam, como se apaixonam, como são fiéis ou não, como conseguem ou não viver o celibato. Diga-me. Será que ele me pode amar um dia. Será que devo deixar crescer em mim este desejo? Eu não quero afastá-lo de Deus. Mas também não queria que Deus o afastasse de mim.
A conversa aconteceu por email, num anonimato que entendo. Da mesma forma respondi, não tanto pensando no padre que se pode apaixonar ou no padre que pode discordar do seu celibato. Antes no padre que quer ser fiel nesta forma de entrega a Deus. No padre que não quer pensar em viver de outra forma. No padre que está distraído e não deu conta que a sua vocação está atraindo alguém de forma mais intensa que a intensidade de Deus. Não sei se fui correcto, porque a vontade de Deus é que todos sejamos felizes, quer nas nossas opções, quer na nossa forma de deixar que a vida aconteça. Mas depois de carregar na palavra “enviar”, não consegui deixar de me questionar. As mulheres que se apaixonam pelos padres sentem-se atraídas pela pessoa ou pelo padre? O que as seduz é o gesto do padre ou o carinho do homem? O padre ou o homem que está dentro do padre? E caso os padres correspondam, fá-lo-ão pelo vazio que têm ou pelo amor que têm? Para viver a sua afectividade ou para a sossegar?

quinta-feira, maio 20, 2010

O senhor que agradece tudo

O Francisco mora numa quinta ao lado da paróquia. Era pastor. Agora está reformado. Reformou-se do trabalho, das forças, das vidas. Passa a maior parte do tempo sentado, pois as pernas não ajudam. Usa muletas. Estas deviam servir para andar, mas servem mais para suportar o peso. Por isso tem dificuldade em ir à missa. Demora mais de uma hora para lá chegar. Já não tem dentes. Mas isso não impede de sorrir, de me sorrir, e de acenar com a cabeça várias vezes durante a homilia. Há dias saiu-se com É assim mesmo. E ria. É daqueles com quem o diálogo acontece com mais frequência nas homilias, porque está atento e não se coíbe de responder, mesmo que eu não tenho feito perguntas. Então quando temos um dos evangelhos que fala do Bom Pastor é que é vê-lo dizer Sim, senhor. É mesmo assim. Digamos que é uma pessoa cansada, sofrida, doente. Mas para quem a vida tem sempre um paladar especial.
Há dias cruzámo-nos à entrada da Igreja. Eu apressado. Ele com a calma das muletas. Perguntei-lhe como estava. Abriu a boca sem dentes e sorriu. Muito bem, senhor padre. Eu tenho sempre muito que agradecer. Digamos que passo a vida a agradecer. Acredite, padre, agradeço-lhe tudo. E eu, pela idade avançada e pelas limitações, pensei que se referia á vida que tivera. Por isso perguntei-lhe se agradecia a vida que tivera. Ó, padre, agradeço a vida que tenho. Agradeço tudo, tudo. E não se cansava de repetir. Tudo. Tudo

sexta-feira, maio 14, 2010

Que achaste da vinda do Papa a Portugal?

Nova sondagem. Nova reflexão. O objectivo é pensar quer nas consequências quer nas possibilidades que esta viagem trouxe ou vai trazer a Portugal. A ideia é deixar que o nosso coração se explique, que a nossa fé fale, que a nossa comunhão transpareça.
Como classificarias a viagem do Papa a Portugal?
Podes comentar aqui as tuas respostas ou as votações que forem surgindo!

terça-feira, maio 11, 2010

Se eu fosse Papa

Não me perguntem se a pergunta tem alguma pretensão, porque não tem. O barro com que se fazem os Papas não é de certeza o barro de prato onde como ou onde comi. Não me perguntem se é uma pergunta, pois pode ser apenas uma afirmação.
Quando era pequeno, aí com os meus oito anos, imaginava que os Papas e os bispos não podiam senão ser santos. Hoje sei que é a missão de cada cristão. Imaginava-os sem limitações, defeitos ou pecados. Hoje sei que não há ninguém no mundo que não os tenha. Há apenas aqueles que se esforçam mais para alcançar a santidade, aqueles que não estão para aí voltados, aqueles que não se esforçam e aqueles que se esforçam, mas não conseguem. Sem dúvida que faço parte do último grupo. Vale-nos o Amor de Deus que será bem maior que a nossa vida. Quero crer que os bispos e os papas fazem parte do primeiro grupo. Mesmo que, muitas vezes, pense diferente do que creio ou quero. Mas isso é a Igreja de Cristo, santa e pecadora, feita de humanidade. Mas isso somos todos nós, homens que não somos deuses. Mas isso faz parte do sonho de Deus que nos ama acima de tudo nas limitações e fragilidades. Mas isso faz parte das afirmações de Jesus que disse vir para os pecadores.
Por tudo isto sei que os Papas são como os outros seres humanos. Por isso sei que os bispos são como os outros seres humanos. Por isso sei que os padres são como os outros seres humanos. Por isso sei que somos Igreja. Por isso sei que os Papas não são mais do que eles próprios. O que os faz diferentes não é a vida, mas a missão. O que nos faz diferentes não é a vida, mas a missão. O que nos faz de Cristo não somos nós, mas é Cristo. O que nos faz cristãos é Cristo.
Por isso se fosse Papa, era apenas eu.

sexta-feira, maio 07, 2010

Hoje não faz escuro aqui, mas cinzento

Tinha saído de casa porque não estava lá muito bem. O dia estava frio. Eu também. Era daqueles dias em que vejo muita televisão. Quer dizer, olho muita televisão. E mudo de canais. São quatro. Mas parecem-me vinte e um. Não sei o que está a passar. Olhos fixos nos pontinhos do écran. Tenho o casaco comprido vestido porque não o despi. E o cachecol. Era um desses dias. Daqueles em que vejo muita televisão porque não vejo mais nada. Na rua fazia um escuro danado. Não o distinguia. Como se houvesse um lado de lá e um lado de cá e ambos estivessem pintados com a mesma cor, o escuro. Não havia ninguém àquela hora. Mesmo que houvesse, acho que não ia dar por isso. Percorria a rua do cemitério, a pé, quando me pareceu, Não. Não pareceu. Era mesmo a sonhar. Estava ali sozinho.
Entro na Igreja. Entro no confessionário. São 03 horas da manhã. Está apertado e sinto-me sufocar. Hoje não faz escuro aqui, mas cinzento. Nublado. É um daqueles dias em que me sinto sozinho. E nem tenho vontade de falar comigo. Os padres têm dias assim. Se calhar todos temos dias assim. Por isso, volto-me para Deus e murmuro: “Estás a ouvir-Me!”

sexta-feira, abril 30, 2010

o chocolate

Depois de desfiar um sem número de conflitos interiores, de infelicidades, de situações e problemas, acabou por dizer que a sua vida não tinha sentido algum. Que era completamente infeliz. Já não acreditava nas minhas palavras da homilia do outro dia, quando eu afirmei que Deus nos queria felizes e que a salvação prometida não era outra coisa senão a felicidade. Então porque Deus não interfere nas nossas vidas a fim de nos fazer felizes, padre? Se Ele nos quer felizes, porque permite que não o sejamos? Enquanto falava, remexia os dedos uns nos outros, revirava os olhos para a porta, como se tivesse medo desta se abrir e trazer mais um problema. Apesar de zangada com deus, como ela afirmava, no fundo, esperava Dele, através de mim, uma resposta, um sinal, uma forma de descobrir o que é isso da felicidade.
Expliquei que devemos viver felizes com o que temos e não com o que não temos. Mas isso não chegou. Ela era demasiado jovem para aceitar aquilo que tem, quando ainda deseja tanto da vida. Por isso acrescentei. Não há gente feliz e gente infeliz. Não há felizes e infelizes. Há é quem consiga olhar as coisas, mesmo as adversas, com olhos de quem quer encontrar a felicidade. E há quem só veja infelicidade nas coisas. Há quem fique preso nas adversidades que acontecem, impedindo que o seu coração perceba a quantidade e a qualidade das coisas belas que acontecem nesse mesmo tempo. Assim nunca há espaço para ser feliz. Olha a vida como quem quer ser feliz e não como quem quer a felicidade dada. A felicidade existe em si, mas tem de procurar-se.
Tudo depende da forma como olhamos as coisas. Nunca ouviste dizer que o sabor do chocolate depende da pessoa que o saboreia? O chocolate só é chocolate porque alguém o saboreia. E pode haver mesmo quem não goste de chocolate. Ou pelo menos deste chocolate. Ou daquele. Ao que ela, trocista, como que delambendo os lábios, disse. Nunca tinha pensado nisso, padre. Tem por ai um chocolate para mim?
Meti as mãos ao bolso. Fiz o gesto de retirar algo. Levantei o braço com a mão fechada. Aproximei a mão dos olhos dela. Abri. O sorriso trocista passou a sorriso de expectativa. E o meu, de expectativa, passou a malandrice. A mão não trazia nada. Estava vazia. Olhou para mim e eu disse Consegues olhar para este chocolate e saber-lhe o sabor?

domingo, abril 25, 2010

As flores que valem vidas

Tenho na minha mão direita dois ramos de flores. Na esquerda outro. Não me perguntem que flores são. São flores. Sei-lhes a cor. Amarelo e branco. Laranja. Assim meio lilás e meio amarelo. Sei-lhes o cheiro. Mas não sei dizê-lo. Sei-lhes o tamanho, que é maior que o seu tamanho real. Sei-lhes a alma, porque, dizem, ela fica no fundo de cada um e faz cada um ser o que é. Sei que cada flor costuma ter um significado, mas para mim estas flores de cores variadas significam o mesmo. Afinal não sou apenas o pastor que carrega as ovelhas, que vive a vida a curar-lhes mazelas, a gritar-lhes para que o ouçam. Sou o seu pastor. Não sei quem os lembrou, ou se calhar sei. Mas quero pensar que foi a verdade e o coração que lembraram os meus paroquianos, no seu conjunto, hoje, dia do Bom Pastor, da importância do seu pastor, isto é, eu.
Longe da minha imaginação e do meu ram-ram, a meio da eucaristia, numas paróquias a seguir à homilia, como quem diz Agora que o ouvimos, ouça-nos; noutras, no momento da acção de graças, que é como quem diz Temos muito a agradecer. Em cada uma delas eu tive a mesma sensação de não saber que dizer ou fazer. Deixar-me apenas encantar. Aqui tens, nosso pastor, estas flores, para te recordar como és importante para nós. Queremos ser o teu rebanho. As palavras não foram bem estas, mas estou a resumir as folhas que leram. Pareciam mesmo combinados. Na primeira eucaristia tive de esconder o meu rosto por entre o ramo das flores, respirar fundo, e cortar a força das lágrimas. Nas outras, apesar da surpresa ter sido igual, reconheço que a força foi mais forte e a emoção mais controlada. Fiquei sempre sem palavras em segundos. Depois falei, falei. Deixei que a minha alma falasse. Nalgumas paróquias as flores deram lugar a outras recordações. Tiveram o mesmo sabor e cor das flores.
Nesta hora, uma hora em que acontece a celebração do sacerdócio e no mesmo minuto acontece a sua acusação desmesurada, vale a pena sentir que somos importantes para alguém. Apesar das nossas fragilidades, dos nossos pecados, das nossas limitações, Deus pode usar-nos e usa-nos para se encontrar com os seus.
Ó meu único e eterno Bom Pastor, hoje senti que valia a pena ser pastor destes rebanhos que me entregaste. Deste teu rebanho. Deste meu rebanho. Estas flores valem tanto!
Amanhã vou levá-las à minha mãe. Ela entende-as tanto como eu. Ela sabe se eu as mereço ou não. E pela mesma razão, eu sei que ela também as merece.

sexta-feira, abril 23, 2010

Vais participar na visita do Papa?

Está é a nova sondagem do Confessionário. E aqui podes comentar as tuas respostas ou as votações que forem surgindo! Aproveita para reflectir sobre a importância do Papa na Igreja, na sociedade portuguesa e na tua vida.

terça-feira, abril 13, 2010

O Américo

O Américo é um homem discreto. Veste discreto. Vive discreto. Na missa senta-se nos primeiros bancos, de preferência na ponta virada para o corredor. Tem quase sempre o rosto levantado na direcção do que se passa. Os seus olhos acompanham os meus movimentos. Pode dizer-se que arregala todas as minhas palavras. Mas é discreto.
Há dias fez-se peregrino para Fátima, juntamente com outros paroquianos e paróquias e eu. Eu integrei-me, com o meu ministério, nas celebrações. Ele, com o ministério dele. Às páginas tantas somos convidados e encaminhados em procissão da capelinha das Aparições para a Igreja da Santíssima Trindade. Padres em fila, por dentro. Restantes fiéis, por fora, a acompanhar. Os padres eram o centro das atenções, logo a seguir à imagem da Senhora. Só o branco dela se impunha sobre o branco das nossas alvas e estolas.
Qual não é o meu espanto, quando, no meio de todo aquele cortejo, o Américo se aproxima de mim. Agacha-se para pegar nas bainhas das minhas calças, que entretanto se haviam descosido e estavam agora debaixo do sapato, a arrastar e a descompor a minha bela compostura. Pega nelas para as compor. Eu estático, a olhar para ele. Envergonhado. Dizia-lhe que estávamos a interromper o cortejo. Que toda a gente olhava para nós. Ele impávido, apenas afirmou. O senhor estava desarranjado e era o que me faltava que o nosso padre não andasse arranjado. Compôs a bainha e saiu da fila. Continuámos os dois, eu na minha e ele na dele. Entrei na Santíssima Trindade a sorrir. Se antes escondia o rosto com vergonha, agora levantava-o com orgulho nos meus. Afinal na paróquia somos comunidade. Uns para os outros.