sexta-feira, março 12, 2010

As cores de Deus

Dispostos uns atrás dos outros, sentados, com o bispo à frente, contava uns trinta padres. O tema da palestra era Fidelidade a Deus. Nada melhor para pensar na minha fidelidade ao Deus que amo. Enquanto o homem falava, eu pensava. Devia pensar no que ele gesticulava. Mas reconheço que pensava apenas no significado das roupas dos padres. Nas cores dos padres. Nas cores de Deus. Estava nos bancos do meio, mais para o fundo que para o cimo. Dava para ter um panorama geral do ambiente e da sua cor. Cinzas, pretos, azuis-escuros, um branco ou outro. Suponho que destoava com o meu vermelho. Desta vez não quis pensar mal dos que vestiam diferente de mim. Afinal eu é que era o diferente. Quis pensar que cada um veste como quer. Quis respeitar as cores diferentes da minha. Quis pensar que cada um deve ser ele próprio. Que devemos viver à nossa maneira. Mas não consegui deixar de me perguntar sobre as cores de Deus. Quais Lhe agradariam. Quais vestiria. A quais daria mais brilho. Quais teria escolhido para serem mais vida, mais alegria, mais amor, mais esperança, mais ressurreição, mais verdade. Imaginei o céu de cor cinza. Não resultava. Preto só à noite. Por isso a noite é noite. Do branco lembrei a Ressurreição. Mas à Sua volta, num céu brilhante, apenas consegui vislumbrar as cores do arco-íris, bem vivas, a sorrirem umas para as outras. E depois apresentamos esse mesmo céu, essa mesma vida, essa mesma Ressurreição, envergados de cores cinzas, pretos, escuros. Ainda desculpei os escuros, porque no meio da cor passam despercebidos e dão lugar à cor mais brilhante. Ainda desculpei os escuros com a humildade, o desprendimento, a austeridade. Mas desculpem-me estas desculpas. O Deus que eu amo pode até ser discreto, mas não se esconde no escuro. Pode ser humilde e desprendido, mas é também aquele que dá a felicidade plena ao homem. Aquele que vive uma eternidade para dar a felicidade ao homem. E não o deve fazer com pouca cor. Se Ele criou tantas cores, porque teremos nós, seus ministros, de as apagar?

terça-feira, março 09, 2010

O olhar ferido

A Manuela é catequista do terceiro ano. Boa catequista e boa mãe. Simples. Tímida. Mas nas coisas da catequese sente-se a fazer algo de Deus e por isso entusiasma-se. Ontem estranhei a sua pressa em falar-me. Preciso desabafar consigo. Imaginei que viria repetir-me aquelas que ultimamente são as reclamações habituais dos meus catequistas. Os miúdos estão insuportáveis. Não querem nada. Não os vemos na missa. Faltam muito. Distraem-se e faltam ao respeito. Usam tudo para implicar connosco. As reclamações dos catequistas estão como o tempo. Frias. Ásperas. Caem como chuva, a desoras e em enxurradas. Mesmo as pequenas tempestades, de abundantes, soam a grandes temporais. Tento pensar que é ocasional. Que a seguir vem lá o sol e que esqueceremos depressa este frio. Por isso dispus-me, com alguma displicência, a ouvir a Manuela. Como estava com as mãos ocupadas, continuei a movimentá-las, seguindo-as com os olhos. Sabe, padre, ontem uma mãe veio ter comigo com um ar muito zangado, e a primeira coisa que me disse foi A senhora feriu o meu filho!
As minhas mãos pararam e eu parei também. Continuei com os olhos nelas. Mas o pensamento voou para a Manuela. Que teria acontecido? Perguntei. Ela respondeu com a pergunta que fez à dita mãe. Como, se eu nem lhe toquei? Ao que se seguiu a resposta da mãe. Feriu-o com o olhar.
Neste momento, os meus olhos e o meu olhar deixaram as mãos e voltaram-se completamente para a Manuela. As mãos ficaram desamparadas. Não sei sequer onde as coloquei, de tão estranha me ter parecido a reclamação daquela mãe. Aos tempos a que chegámos, onde já nem com o olhar podemos fazer educação!
Garanto que a Manuela é boa catequista e não vai desistir de olhar quem quer que seja. Mas são muitas as pessoas que querem fechar os olhos ou mantê-los fechados.

quarta-feira, março 03, 2010

A senhora do xaile

O confessionário era de madeira de carvalho. Uma cortina vermelha separava-me da realidade fria da Igreja. O padre José convidara-me para confessar e acedi com amizade. O que não sabia é que me enviaria para dentro da madeira de carvalho. De cada lado estavam uns buraquinhos para se ouvir a confissão, e pouco mais. Da pessoa que ficava do lado de fora apenas se percebiam escassas formas de rosto. Nem a idade se percebia, a não ser pelo teor da confissão. Confesso que prefiro um cara a cara. Mas a experiência não estava a ser má, até que chegou uma senhora da qual percebi apenas a silhueta de um xaile pela cabeça. Começámos. Mas a senhora falava extremamente alto, de forma que a dez metros seria possível perceber cada palavra que proferia. Pedi três vezes para baixar o volume da voz. Mas a senhora do xaile possuia, supostamente, uma audição fraca ou exígua. Por isso decidi, com toda a amabilidade e caridade possíveis, até para evitar comentários impróprios dos outros penitentes, sair do confessionário e abordar a senhora cara a cara, que é como quem diz, boca a a ouvido. Assim fiz. Dei a volta. Aproximei-me dela. Toquei-lhe no ombro. Ela virou-se. Olhou-me com ar mais zangado que espantado, e prontamente falou num tom de voz ainda mais elevado. Tenha paciência. Espere pela sua vez, que agora estou eu a confessar-me. Ora uma destas!

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Estou vivo

Olá, amigos.
A pedido de alguns, venho apenas dizer que estou vivo. hehehe.
Só não tenho tido a disponibilidade mental e espiritual que escrever neste espaço me exige!
Mas não vou abandonar-vos.
Em breve - o que o breve me exigir - aparecerei em força, a força de Deus!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Estamos nas mãos de Deus

Há dias assim. Dias que nos tocam por dentro. Para o bem ou para o mal. Foi assim hoje, um dia antes do Natal. Acordei com vontade de sorrir e mostrar que o menino que celebramos faz sorrir. Mas ao longo do dia, entre as centenas de mensagens de Natal do telemóvel, chegaram outras que me fizeram sofrer. Ou porque o padre não fez como devia. Ou porque o padre devia ter feito. Ou porque o padre assim. Ou porque o padre assado. A hora da missa. O dia da missa. A celebração tal. A bênção tal. A Elvirinha que está nos cuidados intensivos. Ouvi sempre como se uma agulha me fosse espetada sem razão, motivo ou vontade. E assim foi crescendo em mim uma adversidade às coisas e à vida. Há dias assim.
Mas o Joaquim ligou-me. A sogra já tinha regressado do Hospital. Prometera ir lá a casa visitá-la e confessá-la nesta época. Entretanto, no dia em que me dispunha fazê-lo, dera entrada no hospital. Hoje estava em casa e o genro telefonara a dizer para me informar. Ou para pedir enquanto informava. Fui. Estava na cama com muitas dores. Premeditara sorrir para a vida, para que ela não entendesse as agulhas que tinha espetadas. Mas não aconteceu. O sorriso saiu-me natural porque olhei para ela e isso bastou. Perguntei se tinha muitas dores. Acenou que sim. Mas falou que estava nas mãos de Deus. Abri mais ainda o sorriso. Nada melhor que no dia de Natal estarmos nas mãos de Deus. E falei. Pois tenho a certeza que este vai ser o melhor momento deste meu Natal. Confessei-a. Conversámos. Rimos. Sempre aumentando e abrindo o meu sorriso. De facto, num dia em que se celebra a Vida, o Amor, a Felicidade que Deus nos promete, nos traz, e encarna no Seu Filho, nada melhor do que sentir que estamos nas mãos de Deus. Mesmo que seja a sofrer. No final contei-lhe que tinha sido o melhor momento do meu dia. Ela disse que também para ela o tinha sido. Agora já era Natal. E para mim também. Porque neste Natal descobri mais uma vez que estamos nas mãos de Deus!
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Aproveito para desejar a todos, penitentes, amigos, menos amigos, anónimos, menos anónimos, um Natal nas mãos de Deus!

terça-feira, dezembro 15, 2009

sondagem_ Na tua opinião, o que causa maiores problemas aos párocos de hoje?

Passado que vai muito tempo da última sondagem, e mais de 4.000 votos, chegou a hora de avaliar a sondagem que estava no lado esquerdo, no sidebar e acrescentar uma nova. A pergunta era:
“Na tua opinião, o que causa maiores problemas aos párocos de hoje?”

E os resultados são:
1. sociedade adversa _ 20%
2. apego às tradições _ 20%
3. não acolhimento dos leigos _ 20%
4. fraca espiritualidade _ 20%
5. excesso de afazeres _ 6%
6. celibato _ 6%
7. solidão_ 4%
8. falta de fraternidade sacerdotal_ 3%
9. falta de tempo_ 2%
10. festas religiosas_ 0%
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pequenas considerações:
  1. Desculpas são desculpas e eu não me quero desculpar. Quero antes encontrar uma razão para ter demorado tanto tempo a avaliar esta sondagem. Pela segunda vez achei estranha a vontade de alguns penitentes em fazer vencer a sua opção a todo o custo, o que torna a sondagem menos verdadeira. Houve alturas em que duas ou três opções andavam lado a lado a somar votos. E em pouco tempo, uma das opções mais votadas, aumentou de 200 para 800 votos. Por isso em breve mudarei o sistema de votações. Não o faço agora, porque na bravenet não consegui fazê-lo. Vou passar a utilizar mesmo a blogger. Por tudo isto, vou fazer considerações mais do meu entendimento que do entendimento da sondagem.
  2. A sociedade é adversa aos sacerdotes. Concordo. Aliás, acho que existe sempre uma suspeita e uma desconfiança desmesurada em relação a estes. São notícia apenas quando põem em causa a instituição, seja de que forma for. E quem é que precisa do sacerdote para viver?! Só precisam dele para as festas e para alguns sacramentos ditos sociais
  3. O apego às tradições choca com a fé, porque a fé, tal como o Evangelho, traz sempre novidade. Nós temos dificuldade em desacomodar-nos dos nossos hábitos.
  4. Há leigos que acolhem. Leigos que acolhem quando lhes interessa. Leigos que não sabem o que é ser leigo.
  5. Parece-me que, de facto, existe uma fraca espiritualidade nos padres, sobretudo os mais novos. Desculpas? Os afazeres? A corrida diária? A superficialidade moderna? A verdade é que a oração faz falta para nos alimentar por dentro. Eu preciso de muita mais oração.
  6. Com a diminuição de vocações e do número de sacerdotes, com o aumento de necessidades das pessoas, com a urgência de uma evangelização nova, torna-se cada vez mais difícil que os sacerdotes tenham tempo para além das funções sagradas. E tudo se torna paradoxal. Porque quando mais seria necessário terem tempo para as pessoas, parece que menos têm.
  7. Achei engraçado que as opções do “celibato” e da “solidão” não fossem mais votadas. Cada vez me convenço mais de que, apesar de serem questões marginais, há colegas que as não conseguem superar. Isso preocupa-me. E o não acolhimento dos leigos, isto é, a falta de amizade dos leigos, prejudica a resolução destas questões.
  8. Como explicar que os sacerdotes não sejam fraternos uns com os outros? Dizendo que também neste meio há competição? Dizendo que somos humanos? Ou que somos egoístas? Ou que nãos sabemos amar?
  9. Curiosamente, e talvez não tenham consciência disso, cada vez que um padre tem de presidir a uma festa nas suas paróquias, há quase sempre problema e grandes recuos no seu ministério. Quanto maior for a festa, mais problemas arrasta. Não esperei que esta fosse a opção menos votada. De todo.
  10. Num Ano Sacerdotal, vale a pena pensar nisto!!


    Hoje surge nova sondagem, a propósito da época que atravessamos, a época do Natal. E a pergunta é:
    Que prenda gostarias de pedir ao Menino-Deus neste Natal?

segunda-feira, novembro 23, 2009

A Clara e o amor dos cristãos

A Clara gosta de tudo claro. Coloca questões com frequência. Não se coíbe de apontar dedos e dúvidas. Está numa fase que já pergunta pouco e se conforma mais. Porém, tem este temperamento de querer perceber para ser ainda mais. Por isso, participa nas acções de formação que encontra. Às vezes parece que sai de umas para outras e que existe uma desconformidade dentro do seu coração. A mim parece-me que não. Tomáramos que todos os cristãos fossem inconformados, activos, interventivos, interessados e implicativos.
E assim aconteceu numa dessas formações que a Clara perguntou Afinal como devia amar um cristão. A pergunta parecia despropositada, pois já toda a gente sabe como deve amar, e que Jesus disse que não bastava amar os amigos. Para amarmos os inimigos e para amarmos com todas as nossas forças, inteligência e coração. Que ainda disse para amarmos como se fôssemos nós a pessoa que amamos, ou que pensássemos que estávamos a amar o próprio Jesus, pois o que fizermos ao mais pequenino dos irmãos, disse, é a Ele que o fazemos. E ainda disse mais coisas que aproveitei para referir, em síntese, em argumentação, retiradas da Bíblia.
Porém, enquanto os outros presentes pareciam satisfeitos, ela não. Por isso tornou. Ó padre, amar Jesus é fácil. Amar com tudo de nós também. Assim como fazer aos outros o que queres que te façam a ti. Já o amar o inimigo se torna mais complicado. Mas há ainda algo mais difícil para mim. Diz lá o São João. Agora era a minha vez de escutar. Que Jesus nos diz para amarmos como Ele nos amou, e para amarmos como Ele e o Pai se amam e são um só. E isto é que não é pêra doce, padre. Amar como Deus ama não é fácil de perceber. Muito menos de viver. Que me diz, padre?
Que te hei-de dizer, Clara, que gostas de tudo claro! Que hei-de pensar, Clara! Que me deixaste a pensar? Que te hei-de responder?
Que me deslumbraste com algo que já tinha pensado, mas não a esta distância. Mas não desta forma. Que se aprende quando menos se espera. Que afinal, o cristão deve amar como Deus ama. Que Deus, afinal, é a medida de todo o amor.

terça-feira, novembro 10, 2009

As perguntas que hoje faço

As luzes da noite avistavam-se ao longe. O ambiente fazia pressentir o ruído das pessoas em casa. Estava na varanda, debruçado e preso ao gradeado em forma de cruz. Estava só, e na presença do vento que se ouvia ou do frio que me entrava nos ossos. Ora um ora outro a fazer-me pensar. Lembrei-me de perguntar Porque entrei no Seminário? Mas as respostas não regressavam. Nem sentidas, nem pressentidas. Procurava no passado uma que outra frase, uma que outra motivação. Não recordei senão que um dia senti que devia entrar no Seminário e que havia de mudar o mundo.
O vento e o frio queriam que os meus pensamentos encontrassem então umas desculpas, uns argumentos, novas perguntas. Que se mudassem as perguntas. Para facilitar-me a vida, para ma enganar. Porque vão hoje os miúdos para o Seminário? Mas os pensamentos teimaram nas respostas sem resposta, sem algo que me preenchesse a noite e as luzes da noite, e me deixasse sossegado.
Exigia apenas um pensamento que toldasse a minha vontade. Porém, as perguntas que hoje faço com respostas rápidas, prontas, leves, certeiras e acertadas, são quase sempre as mesmas. O que tenho de fazer amanhã? Falta-me isto, tratar daquilo, preparar o não sei o quê.
E fico preso entre a vontade de ser mais padre e a força dos meus afazeres. Entre o querer saber o que Deus quer de mim e o viver para o que os outros exigem de mim. Queria gritar Já não sou eu que vivo É Cristo que vive em mim, e dou conta que sou apenas eu que existo, a correr atrás de um Cristo que não cabe nas mãos que estão ocupadas pelo meu que fazer. Tento agarrá-lo. Mas as mãos cheias não fecham, e Ele escapa.
Senhor, quando deixarei de ser teu funcionário, para ser apenas Tu em mim e eu em Ti?

segunda-feira, novembro 02, 2009

Vocações sacerdotais, quando?

Não vou falar do que penso. Vou só constatar a realidade. Tal como a constata o meu olhar. Digam que é apenas um olhar, que eu respeito. Mas é um olhar que existe.
O número de paróquias não diminui. Só diminui o número de pessoas em cada paróquia. Por outro lado, o número de sacerdotes diminui substancialmente. Logo, aumenta o número de paróquias e de serviços por sacerdote.
Geram-se novas angústias nos sacerdotes. Cansados. Esgotados em correrias, em faltas de compreensão, em multiplicar de exigências da parte das pessoas. Estigma do funcionário/profissão. Celibato. Falta de tempo para a oração. Para si próprio. O problema acresce porque alguns não aguentam e desistem. Lembro o mais recente colega que já não está ano activo. Estou a pensar noutro que já teve o casamento civil marcado. O problema agrava-se porque diminui o número de sacerdotes e a regressão aumenta. Muda o número de participantes nas eucaristias. As pessoas emigram de diversas formas. Os paroquianos diminuem. Um problema de natalidade, sobretudo. Missas com menos gente. Há-as com 30, 40 pessoas. Não podiam juntar-se?!
Muda muita coisa. Fora e dentro da igreja. Novos confrontos. Novas necessidades. Um evangelho a actualizar. Mas as atitudes dos cristãos continuam as mesmas de há vinte ou dez anos atrás, quando tinham o pároco na paróquia, sem grandes serviços, disponível para ouvir, para presidir a todas as celebrações, litúrgicas ou não, com tempo para inventar festas e procissões, para confessar, para conviver com as pessoas, embora se calhar hoje os padres convivam mais com as pessoas, digo eu. Recorrem ao padre quando precisam, e exigem-lhe, porque se entregou gratuitamente em favor do reino, que esteja na gaveta ao dispor. Abre-se e fecha-se a gaveta consoante as necessidades. Ate aceito. É para as necessidades que ele tem sentido. Mas, se têm celebração da Palavra é porque não deviam ter. Se a procissão foi mais curta o padre faz-nos perder a fé. Se o casamento não é assim ou assado, este padre não presta. Se vai exigir-se uma catequese organizada, coerente e séria, são exigências, e desistimos. Se faz algo formativo, não é para mim, pois também não tenho tempo. Se não faz, não se dedica às pessoas. Não quer saber. Se é obrigado a acabar com alguma coisa, não quer trabalho. Se não possui tempo, não quer saber de nós. Se come com este, tem preferidos. Se não come em casa de ninguém, não é sociável. As atitudes são as mesmas de há vinte anos. E depois a Igreja não evolui.
Sabem de um coisa? De vez em quando, ocorre-me a tentação de desejar ter nascido uns vinte anos antes.

sábado, outubro 24, 2009

tudo na vida se pode ver de diversas formas

Padre, o meu namorado está longe e há três dias que não diz nada. Um dos meus melhores amigos está a morrer. Tem cancro no pâncreas. Também tem 82 anos. Não quer morrer. Luta pela vida. Quero dormir, mas não consigo. Tenho medo de perder a fé por causa destas coisas. Tenho um nó na garganta e até tenho medo de encarar a realidade. Por isso hoje apetece-me falar com alguém que me possa dizer algo que me anestesie para dormir ou para acordar para a vida.
Tinha de facto uns tons avermelhados na parte interior dos olhos, e à sua volta uma cor entre o pálido da pele e o escuro do carvão. Só por isso se notava o esforço que fazia em vão para dormir.
Há ocasiões na vida em que as palavras não podem ser medidas, porque não sabemos porque as usamos. Ou usamo-las como nossas, mas são do Espírito Santo. Pelo menos, assim creio. Dado que o que disse a seguir me veio à cabeça, sem mais nem meio mas, como se já lá estivesse dentro e esperasse a sua hora de saída.
Ó Juliana, tudo na vida se pode ver de diversas formas. Tudo. Mesmo aquilo que nos parece o nada, como é o caso da morte ou da ausência de alguém que amamos. Experimenta ver. A ausência do teu namorado faz-te perceber quão importante ele é para ti. No meio da tua dor, podes descobrir a beleza de um amor que tens por ele. Não te resolve o problema. Mas parece-me que os problemas nunca têm só um lado negativo.
Por outro lado, o teu amigo que já tem muita idade e que se agarra à vida. Pelo que contas, agarra-se a ela com a força que nós, de tão saudáveis, não usamos. Agarra-se tanto a ela como nós não a agarramos. Porque não possuímos a limitação necessária para dar valor ao que temos. Mais. O teu amigo precisa de fé para encarar a morte e tu a dizeres que a podes perder quando é tão importante que lha dês neste momento a ele.
Nas coisas da vida, poderás sempre encontrar outra forma de as veres. Podes não resolvê-las por fora. Mas podes resolvê-las por dentro.