segunda-feira, agosto 04, 2008

Um olá bem grande

Olá, amigos.
Devo-vos uma explicação e faço-a agora neste breve texto.
Estive imensamente ocupado, o que me impediu de escrever com a regularidade que pretendia e que, alguns pelo menos, têm pedido. Neste momento, e apesar de ainda não estar em férias, encontro-me em tentativas de descansar um pouco. Por isso e apesar de ter alguma disponibilidade, não tenho nem a inspiração nem a vontade necessárias para fazer partilhas escritas. Também não tenho visto com regularidade o email e respondido às dúvidas, dificuldades, inquietações que por lá abundam. Peço imensas desculpas pelo facto. Espero fazê-lo quando algumas condições se reunirem.
Não. O Confessionário não vai desaparecer. Mas nas próximas semanas vai continuar a ser difícil vir aqui, escrever aqui, sentir-vos aqui, amar-vos aqui...
Desejo-vos umas boas férias (para quem as tem). Mas não esqueçam que de Deus não se faz férias! Até breve.

segunda-feira, junho 30, 2008

Todas as semanas têm um Domingo

Todas as semanas têm um Domingo. Óbvio. Isso significa levantar a trouxa e levar armas e bagagens pelas estradas da zona. Levantar cedito. O suficiente para uma boa higiene, que o dia merece, umas pequenas fatias de qualquer coisa, umas orações rápidas, uma vista de olhos pelo esquema da homilia. Sim, que preparo sempre a homilia. Faço um esquema bem completo. Para evitar fugir do assunto e para atingir bem os fins propostos. Propostos por mim e pelo Evangelho. Sempre com referência neste. Melhor, sempre a beber da fonte que este é. E toca a marchar. Cheio de sono. Olhos semi-abertos. Primeira estação. Já está tudo mais ou menos pronto. Tenho grupos corais muito bons. Por esta banda abundam bandas. E ajuda. Os acólitos. Os Ministros. Entro pelo fundo. Sorrio. É costume meu. Mesmo com sono, sorrio. Nem que seja para disfarçar as olheiras. Saudação. Se possível, faz-se com que todos se sintam bem. Final. Desejo bom Domingo. Segunda estação. Entrei, andei e saí do carro aceleradamente. O senhor padre anda sempre a correr, dizem. Quando há baptizados então. Sim. Só os celebramos na eucaristia, com a comunidade presente, com a comunidade a acolher, a receber. Nessas ocasiões, voo. A homilia já sai melhor. Se é incisiva, saio de encontro pelo meio da assembleia. As histórias só de vez em quando, para não gastar todos os trunfos. Quase não olho para o papel, mas está presente para alguma correcção. Há sempre um ou outro que boceja. Não dormiu bem, justifico para meu bem. Eucaristia arejada. Participação de muitos. De vez em quando os da catequese. Fazem-se sinais interessantes. Um dia destes, a propósito do evangelho da multiplicação, distribuímos um pedaço de pão que foi partilhado por uns e outros. Chegou e sobrou. Só falta a chouriça, disse alguém. O momento da consagração é muito especial para mim. O tom de voz muda. Sem hipocrisia. Muda porque assim o sinto. Não há como celebrar eucaristia! Terceira estação. Sai tudo muito melhor. Só que a intensidade da cerimónia começa a pesar. O pessoal diz que sorrio muito. Se não sorrio, alguma coisa está mal por dentro. De vez em quando o Pai-nosso reza-se de mãos dadas. Uh… que grande novidade. Todos o fazem. Se for necessário há palmas. Acólitos e acólitas. Ministros e Ministras. Leitores organizados. Temos Folha Paroquial em todas as paróquias. Lá estão todos os que têm serviços na semana seguinte. Contém todos os avisos e até as intenções de missa. Um texto de reflexão. Evito perder tempo no final com avisos.
De vez em quando há quarta estação. Um desvio no calvário. Alguma Procissão. Ou reunião. Ou encontro. Ou festa. Ou, sei lá. Geralmente termina ao findar do dia. Todo roto. Amanhã tenho mais ainda que fazer. Não é Domingo, mas é dia de trabalho. Porém celebrar a eucaristia com os meus é bom! Hoje estou aberto a sugestões. Como celebrar ainda melhor?! Quem dá sugestões!?

terça-feira, junho 10, 2008

Como se avalia um padre?

As pessoas falam mal daquele, do outro e daqueloutro padre. Dizem bem deste, do outro e deste outro, pelo menos neste momento. Noutros momentos esquecerão o bem que haviam dito. Geralmente dizem melhor do outro que deste, pelo menos enquanto este estiver por perto. Quando este partir, ou para longe ou para sempre, era um bom padre. Usa-se mais o era que o é, o passado que o presente, para dizer bem de um padre.
Têm tendência a dizer bem dum padre novo, mas enquanto celebra de forma mais alegre ou aberta. Porque se acaso ousa dizer não posso, já não é assim tão bom. Se diz amén a tudo, não tem personalidade, é fraco. Precisamos um mais forte. Se alterar algum hábito, tira-nos a fé. Se apresentar ideia novas, qualquer dia os santos caem do altar. Se entrar num café é dos nossos. Se entrar habitualmente, deixa de ser nosso para ser como os outros. Se fala com as pessoas é simpático, mas anda mal acompanhado. Se passa muito tempo em casa, não faz nada. E se vai à Igreja menos vezes que o padre antigo, só cá está para levar o dinheiro.
Os padres velhos são geralmente bons padres no sentido mais solidário que existe. Uns pobres padres. Já não fazem nada. Estragam tudo. Têm vícios. Há quem os abomine. E há quem os desculpe.
Os padres de meia-idade nem são uma coisa nem são outra. Não costumam ouvir gracejos ou piropos, mas também ninguém lhes dá o benefício da dúvida. São aqueles que aparentam a maturidade que precisamos no nosso padre, mas que já não conseguem engraçar, façam o que fizerem. Já não têm ponta para admirar e começam a cansar. É melhor vir outro antes que este chegue a velho.
Mas o que é um bom padre? Como se avalia?
Avalia-se pela quantidade de coisas que consegue fazer? Pela quantidade de coisas que consegue que outros façam? Pela forma como reza? Pela forma como faz rezar? Pelas vezes que se vê na rua? Pelas vezes que está em casa? Pelas vezes que vai à igreja? Porque bebe connosco? Porque não bebe? Porque tem personalidade? Porque é simples e humilde? Porque é sábio? Porque é culto? Porque é organizado? Pelas palavras que diz? Pela sua voz? Pelos sorrisos que dá? Pela qualidade da missa? Porque demora muito? Porque demora pouco? Pela sua criatividade? Pelas festas que faz? Pelos pulos que dá? Porque veste bem? Porque é bonito? Porque diz palavras sábias? Porque fala bem? Porque escuta melhor? Porque é novo? Velho? De meia-idade? Ou porque já se foi?

quarta-feira, junho 04, 2008

Quem entrasse nos meus pensamentos, ouvia-me berrar

Tinha acabado de escutar uma senhora que ainda usa o véu, cumpre todos os preceitos e sabe todas as orações, mas que não conhece a verdade do amor de Deus. Segundo ela, o amor de Deus existe para se sentir, e não para que seja distribuído por quem não merece. O amor de Deus que eu conheço não é assim. E por mais que lhe explicasse que Jesus perdoou, inclusive, aos que o mataram, ela não quis saber. O senhor padre não percebe nada. Eles maltrataram-me. Perguntava-lhe sobre ela e ela respondia sobre os outros. Perguntava-lhe se no coração já os tinha perdoado e respondia-me que eles não eram bons. Perguntava-lhe se conseguia ter o coração disponível para eles e insistia que eles não eram bons. Informava-a que não precisava de confiar e ela dizia cruz credo. Mas que precisava de perdoar para se sentir bem consigo própria e repetia-me que eles é que não estavam bem. Tentava encontrar algo de bem nela que sobressaísse e a fizesse repensar a vida e ela persistia falando mal dos outros. Afirmei que o mal dos outros não devia fazer espelho em nós, mas ela repetia o palavreado. Ensinava-lhe que era mais fácil amar quem nos ama, mas que o cristão também ama quem nos magoa e ela virava a cara. Eu acrescentava e ela repetia. Acrescentava e ela repetia, até esbracejar por não me ouvir dizer o que desejava ouvir. E cansei. Cansei por ver nesta interminável conversa um coração cristão confundido. Cansei por rever nesta conversa milhares de corações cristãos confundidos. O senhor padre não sabe nada.
Por isso quem entrasse nos meus pensamentos, ouvia-me berrar. Um grito mudo, seco, que me fez cerrar os punhos por debaixo da casula antes de iniciar a eucaristia.
Porquê, meu Deus?! Porque é que as pessoas te confundem com as suas superstições?! Porque é que se dizem cristãos como forma de sossegar a consciência?! Porque não entendem a tua beleza?! Porque não te entendem?! Porque não amam como tu amas?! Porque não sabem perdoar?! Porque apontam o dedo umas às outras, esquecendo os seus próprios erros?! Porque é que juntam as mãos para rezar, mas não as juntam para amar?! Porque é que estendem a mão para receber, mas não a abrem para dar?! Porque é que a nossa forma de nos afirmarmos cristãos não nos faz melhores?

sexta-feira, maio 30, 2008

Não sei o que é não ter emprego

As conversas particulares ou são segredos ou são receios ou são confidências. Às vezes são as três em simultâneo. Por isso entrámos no escritório para uma conversa particular. Eu sentado e ela em pé, como que para fugir na primeira dificuldade sem que eu tivesse oportunidade para agarrá-la, e como se a conversa não pudesse ser demorada.
Os pobres de hoje vivem assim, em pé para fugir, para não perder tempo, para não demorar a sensação das dificuldades, para não assumir que se precisa, para que ninguém possa murmurar a pobreza dos seus. Os pobres de hoje, que aumentaram em número e diminuíram o da classe média baixa, têm vergonha de precisar de ajuda.
O sorriso era forçado. Ter de justificar a sua necessidade precisava de um sorriso. Assim como precisava de sorrir para que os filhos sorrissem. Precisava de ajuda. Eu ouvia sem falar. Às vezes não conseguimos mais que ouvir, porque não sabemos as palavras ou gestos certos. E enquanto ela me falava das dificuldades da vida, lembrei-me de um jovem que, em tempos, decidira entrar no Seminário. Lembrei também as minhas gargalhadas quando me contaram que este, questionado sobre os motivos pelos quais queria ingressar no Seminário, respondera que assim tinha a certeza de arranjar emprego. Nada mais desapropriado, mas nada mais acertado. Emprego garantido. Trabalho sem horários definidos, mas sempre garantido. Remuneração indefinida, mas sempre garantida.
Por isso ao ouvi-la, senti-me atado. Estranhamente atado entre uma vida que escolhi por causa de Deus, mas que me facilita a causa dos homens. Reconheço que perante o meu trabalho, esforço e responsabilidade, a remuneração não é a suficiente. Mas perante a vida, os encargos e os outros, sinto-me um privilegiado. Não tenho nada. Porém, não me falta nada que, de facto, faça falta.
Escondi as mãos nos bolsos porque não sabia onde as colocar. Não fazia sentido ter uma mão aberta ou fechada. Não fazia sentido ter uma mão que não pudesse apertar outra. Era mais fácil escondê-la, atá-la, cerrá-la. Quando nos despedimos, retirei-a do bolso e mais o que lá estava. Mas o que é um peixe num mar imenso?! Sobretudo quando não se tem cana de pesca, rede ou barco?!
Claro que ser padre não é um emprego no verdadeiro sentido da palavra. É uma vocação, algo que se vive inclusive durante o sono. Ser padre define-me. Não é um atributo. Mas hoje, ao olhar aquele sorriso forçado, senti-me um privilegiado porque nunca senti o que é não ter emprego.

segunda-feira, maio 19, 2008

A fé de Portugal

O bom do João foi a Fátima a pé. Fez o percurso com entusiasmo. Contou-me que ia rezando o terço, mesmo quando os outros não queriam. Uma vez por dia rezavam em conjunto. Era um grupo de mais de uma dezena de pessoas. Gente da terra que, uma vez por ano, faz esta viagem. Regressado de Fátima, o João sentia-se incomodado no mais íntimo da sua fé. Tinham conseguido chegar no dia 13, a cerca de meia hora da Eucaristia do recinto. Óptimo, pensou ele e repetiu no diálogo comigo. Mas um dos companheiros de viagem tinha uma promessa para cumprir. Vir da “cruz alta” de joelhos com o filho ao colo e dar duas voltas à Capelinha com o mesmo peso aos ombros. A decisão do grupo fora unânime: acompanhar o colega para que ele conseguisse cumprir o prometido a Nossa Senhora. Não queriam pactuar com a tristeza da “senhora” se ele não o cumprisse.
Não foram à Eucaristia? Perguntei. Por isso vim falar consigo, padre. Não fomos, e eu sinto-me incomodado com isso. Ainda tentei convencer o pessoal, mas eles não me quiseram ouvir, e eu não consegui resistir. Então foram a Fátima com fé em Nossa Senhora, com a devida devoção, mas não quiseram saber da Eucaristia? E não procuraram outra, que em Fátima costumam haver várias? Não, padre. Depois regressámos a casa. Que me diz? Fiz bem ou mal?
O João não teve coragem de mostrar a sua verdadeira fé, aquela que vê na mãe, chamada “de Fátima”, como o meio de chegar melhor ao Seu Filho, como o meio de amar mais o Seu filho Jesus. E é esta a fé de Portugal, que tem uma enorme devoção a Fátima, às promessas e às tradições. Basta pensar nas pessoas que vão a Fátima cheias de fé e de promessas, mas que não vão à missa, nem na paróquia nem no santuário. Basta recordar como tanta gente enche as fileiras das procissões das festas, fora ou dentro delas, e as que vão à missa dominical. Basta pensar naqueles que gastam uns cêntimos numas velas mas não partilham dos mesmos cêntimos com os vizinhos pobres. Basta pensar nos sacrifícios feitos para peregrinar a Fátima e nos sacrifícios que não são feitos para perdoar quem nos magoou. Basta pensar em Portugal, para perceber que esta é a fé dos portugueses, uma fé em Fátima, nas tradições e nas promessas.
Que me diz? Fiz bem ou mal?

quarta-feira, maio 07, 2008

Tinha uma vida cheia de tudo

Enquanto o corpo correspondia, transparecendo formas definidas e esbeltas, era de opinião que não devia ter muitos filhos. Os que não custassem e que servissem para formar família bastavam. Tinha uma vida cheia de tudo. Bom marido. Boas casas, que eram mais que uma. Dinheiro suficiente para que não lhe faltasse a felicidade. Guardara o necessário para fazer uma velhice sem sobressaltos. Inclusive, sabia conviver com a vida e com Deus na sua participação dominical da missa. Era boa mulher e boa mãe. Nunca deixara que os seus dois filhos soubessem o que era não ter mãe. Tinha dois porque um tinha sido descuido. Estivera para abortar. Não tivera coragem dessa vez, mas conseguira tê-la noutra. Agora a mulher que tinha tudo, que era feliz e que não quisera ter o desconforto de ter meia dúzia de filhos, estava ao meu lado, mal sentada porque não conseguia aguentar as dores, e ela própria contava a sua vida de felicidade efémera e de enganos com a vida. Chorava disfarçadamente para que ninguém reparasse, embora toda a gente a soubesse desditosa. A mão não possuía força suficiente para se limpar. Por isso a pintura dos olhos esborratava-se. Pertencia a uma classe um pouco acima da média. Agora a pintura espalhada pelas lágrimas mostrava o que está por de trás de qualquer tipo de classe. E contava que o seu marido morrera e que os últimos anos tinham sido imensamente duros porque tinha cuidado dele sozinha. Desculpava os filhos dizendo que não tinham tempo. Mas agora ainda menos, porque tinham morrido ambos antes do pai. Padre, não tenho quem cuide de mim. Não tenho filhos que me cuidem. Estou muito doente. Sinto-me impotente para resolver o que quer que seja. Gastei os últimos cêntimos com remédios. O que me vai valendo é o Centro. Falava do Centro Paroquial. Se tivesse, ao menos, mais um filho ou dois, padre!
Agarrei-me a ela com força, a força que Deus me dera para ter naquele momento, para também eu ser forte e a fazer forte. Limpei-lhe uma lágrima com um dos meus dedos. Mas não insisti, porque o mesmo dedo parecia querer aproximar-se de um dos meus olhos. Disse três ou quatro palavras que nem lembro porque fiquei a falar por dentro. Sei que ela parou de chorar. As palavras devem ter valido de conforto. Quando se levantou com a minha ajuda e me disse adeus, eu pensei no como tanta gente resiste a ter mais filhos por um qualquer motivo que, vá-se lá a saber, a maioria das vezes não é mais que uma forma de evitar preocupações e problemas, esquecendo que outros problemas e preocupações podem vir atrás dessas opções.

quinta-feira, abril 24, 2008

Os maus é que deviam morrer

Os maus é que deviam morrer. Estava revoltada, dizia-me. Só por dizê-lo eu intuía que não era revolta. Era dificuldade em entender, em aceitar. Já viu, padre. Tinha apenas 32 anos. Tinha duas crianças. Morrer assim de repente. Sem explicação. Os médicos falaram em infecção. Mas nunca justificaram. Foram dois dias. Em dois dias foi. Não é justo, padre. Deus não foi justo. Ela era boa pessoa. Tinha razão neste ultimo comentário. Reconheço que o que conheço dela fazia dela uma pessoa boa. Mas não tinha razão no penúltimo. A justiça de Deus não tem qualquer semelhança com a justiça que usamos os homens. Quem merece ou não o amor de Deus? A quem é justo Deus amar? A quem é justo Deus chamar? Porque havia de chamar apenas os maus? E o mundo ficava a abarrotar dos bons até se tornarem maus?
É maravilhoso Deus amar, não porque se mereça, mas porque quer. É assim o amor no matrimónio também. Ama-se como a pessoa é, independentemente dos seus defeitos ou fraquezas. Ele ama porque ama. Não ama porque tenha de amar. Por isso a sua justiça é diferente da dos homens, que dão consoante o que o outro merece. Que julgam consoante méritos ou deméritos. Será que Deus não poderia ou deveria amar indistintamente? O nosso problema não será a inveja da justiça de Deus, porque não conseguimos amar como Ele? Porque é que só os bons deveriam viver? E porque havemos de fazer distinções numa hora tão bonita como é a entrega total a Deus da nossa vida? Um dia, num funeral duma amiguinha jovem, disse que Deus gosta de ter o seu vaso cheio das flores mais belas. Quando encontra uma quere-la o mais depressa possível. Deus é justo porque nos sabe amar a cada um como cada um precisa. Deus é justo porque na Sua balança pesa a pessoa e mais nada.

quinta-feira, abril 17, 2008

Nem Pai-Nosso nem Ave-maria

Lembro como os meus pais rezavam comigo quando ainda gostava mais da bola que de outra coisa. Lembro como a minha mãe me aconchegava os cobertores e me ajudava a dizer a Jesus que gostava muito Dele. Lembro que ia à missa com ela e, embora não percebesse bem o que por lá se passava, desejava ardentemente que chegasse o Domingo para irmos todos lá de casa à missa. Era uma festa. Lembro que o primeiro dia de catequese foi um grande feito. Já estava na catequese! Lembro que rezávamos o terço em família e até me gabava de o rezar ou de joelhos ou de braços em cruz. Apesar de poder parecer um excesso, eu sentia na altura que era um grande amigo de Jesus porque era capaz de me sacrificar com Ele na oração. Outros tempos. Outra forma de ser família. Outra forma de estar no berço da sociedade e da Igreja que é a família.
A João é catequista do primeiro ano. Tem dez miúdos na catequese. São muito queridos, dizia. Mas, senhor padre, não sabem nem uma oração. Nem Pai-nosso nem Ave-maria nem nada. Fico triste. Tenho passado muito tempo a ensinar-lhes a Ave-maria. Não aprendem. Insisti para pedirem aos pais que rezem com eles. Um miúdo respondeu-me que o pai não tinha tempo. Que quando ia para a cama, estava muito cansado e tinha que levantar-se cedo. Na missa procuro-os e não os encontro. Que hei-de fazer, senhor padre?
Não soube responder. Competia aos pais responderem. Encolhi os ombros. Consegui apenas dizer que não desistisse e que mostrasse como Jesus gostava deles e gostaria que eles conversassem ou brincassem com Ele como falam ou brincam com os amigos.

quarta-feira, abril 09, 2008

a senhora vai à missa

Doente, a senhora Ascensão, não pode caminhar por seus pés. Estes não ajudam a transportar o peso da vida, da idade, da doença, das dores. Antes era capaz de fazer quilómetros para se encontrar com o Senhor na Eucaristia. Em muitos anos não me lembro de faltar à missa de Domingo, senhor padre. Mas agora só vou quando a minha filha me leva de carro. Ela mora longe. Não vai sempre. Não me visita sempre. Não pode sempre. E aqui, como é uma anexa, passam-se várias semanas sem missa. Sabe, já não há padres que cheguem para as encomendas. A paróquia fica a três quilómetros. Não consigo. As pernas não ajudam, as malvadas. Sorria e olhava para elas. Inchadas. Rosadas. Mas olhe que eu vejo a missa na televisão. Interrompi-a para dizer que fazia bem. O importante era o coração que estava disponível para celebrar o dia do Senhor. Que às vezes se podia ir à missa sem celebrar a Eucaristia e sem celebrar o dia do Senhor. Interrompeu-me ela o raciocínio para acrescentar. Mas olhe que faço tudo como se lá estivesse. Levanto-me e sento-me. Ajoelho-me. Respondo. Será que faço bem?
E nesse momento lembrei aqueloutras que me contavam que viam a missa enquanto cozinhavam ou arrumavam a casa. E pensei: faz bem melhor que aqueles que ouvem a missa enquanto fazem outras coisas. Por isso repeti com mais força. O importante é o coração disponível para celebrar o dia do Senhor. A Ascensão celebra com mais verdade que muitos que vão à missa. Saiba que nesta dor de sofrer e de não poder ir à missa, a senhora vai à missa.