A pergunta não era pergunta. Era uma provocação. Na cabeça dela uma constatação, mas no coração uma provocação. E tudo porque o padre não estava tão bem disposto como ela pretendia. Não era propriamente normal vê-lo de caras avessas, roborizar, virar costas, dizer que não queria falar ou mostrar a sua face menos bonita. Aquela cheia de rugas na fronte. Olhos grandes para não deixar a razão ocupar muito espaço na cabeça. Dentes cerrados a ver-se. Isto é que é um padre?
Digamos que a senhora até podia ter razão. A sua. Podia estar num dia menos agradável. Mais cinzento. E toca de desembuchar os nervos para cima do padre. A cara bonita sem contornos. Sobem alguns decibéis. O padre vai aguentando. Vai tentando sorrir sem vontade. Vai tentado compreender, sem entender. Vai tentando estar ali, sem estar. Recorda outras passagens idênticas. De outras pessoas, provavelmente. Mas o padre também acordou menos bem. O padre, que é uma pessoa. Primeiro pensa Que estou eu a fazer aqui? Depois pergunta-se Valerá a pena responder? Ainda guarda um tempo para Não vale a pena falar agora. Falarei mais tarde e com mais calma. Estou a passar-me. No final decide Não querem ver a minha cara feia, pois não? Ela até já não estava bonita. Mas a decisão estava tomada Preciso de sair daqui antes que estoire. É que hoje não dá mesmo.
E volta as costas quando ouve Isto é que é um padre?
A pessoa pode ter nervos, mas o padre não. Padre é pessoa. Os padres deviam ter capacidade para aguentar quase tudo. Mas só quase. Deviam ter vinte e quatro horas para ouvir sem estoirar. Deviam estar sempre disponíveis e a sorrir. Deviam ser simpáticos. Mesmo para quem não é. Deviam responder a tudo que sim ou pelo menos um não de forma agradável, que mais pareça um sim. Deviam calar pura e simplesmente muitos dos seus pensamentos menos porreiros. Deviam saber encaixar as provocações todas, sobretudo as mais directas. Deviam ser perfeitos, mas como os outros para que não se sintam superiores. Deviam ser Deus. Mas, feliz ou infelizmente, não são.
Digamos que a senhora até podia ter razão. A sua. Podia estar num dia menos agradável. Mais cinzento. E toca de desembuchar os nervos para cima do padre. A cara bonita sem contornos. Sobem alguns decibéis. O padre vai aguentando. Vai tentando sorrir sem vontade. Vai tentado compreender, sem entender. Vai tentando estar ali, sem estar. Recorda outras passagens idênticas. De outras pessoas, provavelmente. Mas o padre também acordou menos bem. O padre, que é uma pessoa. Primeiro pensa Que estou eu a fazer aqui? Depois pergunta-se Valerá a pena responder? Ainda guarda um tempo para Não vale a pena falar agora. Falarei mais tarde e com mais calma. Estou a passar-me. No final decide Não querem ver a minha cara feia, pois não? Ela até já não estava bonita. Mas a decisão estava tomada Preciso de sair daqui antes que estoire. É que hoje não dá mesmo.
E volta as costas quando ouve Isto é que é um padre?
A pessoa pode ter nervos, mas o padre não. Padre é pessoa. Os padres deviam ter capacidade para aguentar quase tudo. Mas só quase. Deviam ter vinte e quatro horas para ouvir sem estoirar. Deviam estar sempre disponíveis e a sorrir. Deviam ser simpáticos. Mesmo para quem não é. Deviam responder a tudo que sim ou pelo menos um não de forma agradável, que mais pareça um sim. Deviam calar pura e simplesmente muitos dos seus pensamentos menos porreiros. Deviam saber encaixar as provocações todas, sobretudo as mais directas. Deviam ser perfeitos, mas como os outros para que não se sintam superiores. Deviam ser Deus. Mas, feliz ou infelizmente, não são.