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domingo, janeiro 13, 2019

Deus não nos resolve a vida

Padre, eu bem peço a Deus e Ele não me ouve. Padre, eu bem procuro, mas não consigo encontrar. Padre, onde está Deus, que eu não o vejo? Como posso ver Deus no meu cancro? Onde é que posso ver Deus no abandono do meu marido? Onde é que posso ver Deus na minha vizinha que está sempre a criticar-me nas costas sem que lhe tenha feito mal? Onde está Deus naquela criança que faleceu ontem, como disse a televisão, porque caiu não sei de que andar do apartamento onde vivia? Deus deve andar muito distraído, padre. 
A senhora chorava. Chorava compulsivamente. As palavras saiam da sua boca tão depressa e tão intensas como as lágrimas saíam dos seus olhos. Ela pretendia que Deus lhe resolvesse a vida, lhe resolvesse os problemas, lhe resolvesse o que não entendia, o que lhe escapava, o que não queria, o que a fazia sofrer. Mas Deus não nos resolve assim a vida. Ele dá-nos as ferramentas para nós a resolvermos. Quem tem de incorporar e reaprender a dor, a doença, o sofrimento, as relações, enfim, a vida, somos nós… com a Sua ajuda, com a Sua preciosa presença, com a Sua tão grande força. Assim começou nossa conversa. Tinha vontade de dizer que foi assim que terminou. Mas não. Foi assim que começou…

domingo, agosto 12, 2018

A senhora que ouve muito mal e fala alto na Igreja

A senhora Francisca ouve muito mal. Para não dizer que não ouve nada. Chamo-a de Francisca porque o santo padroeiro dos surdos é S. Francisco de Sales. Não é o nome dela, obviamente. Mesmo que lhe gritem, tem dificuldade em perceber as palavras e o teor das frases. Mas vai quase sempre á missa, provando que estar com Deus nem sempre é escutar palavras dos homens.
Na passada quinta-feira, a senhora Francisca chegou na hora em que a Igreja estava em silêncio. O Santíssimo estava exposto à adoração, e centrava n'Ele todos os olhares e restantes sentidos. Acercou-se da pessoa responsável pela marcação de intenções de missa com o objectivo de marcar uma. Ela não deu conta, mas a sua voz soou como se trouxesse consigo um altifalante ligado à corrente. Começaram então os murmúrios da assembleia presente. A maior parte creio que eram de pena. Não quero pensar que eram de desdém, porque toda a gente vai conhecendo as limitações da senhora Francisca. Eu sorri com vontade de lhe fazer um afago. É verdade que também me distraíra da atenção que depositava no Senhor exposto. Mas a voz dela soara-me a voz de Deus. Era uma voz doce e meiga. Se, por um momento, me distraíra, logo me concentrou em Deus. Não me levantei, nem para a mandar calar nem para lhe fazer o afago que me apetecia fazer-lhe. Mas agradeci a Deus por ela. Viver com as nossas limitações é um dom enorme de Deus.

sábado, março 31, 2018

Amontoado de cruzes

Ontem, quando vinha da cerimónia da tarde, a tarde de sexta-feira santa, tropecei num pequeno pedaço de madeira em forma de cruz. Deve ter sido alguma criança da catequese ou algum dos que fazem parte da encenação da via-sacra que o deixaram cair. Na verdade, apesar de quase ter caído, não foi bem um tropeção. Foi mais um pontapé. Sim, sem querer dei-lhe um pontapé que atirou aquele pedaço de madeira para longe. Olhei-o como se fosse uma pedra preciosa e recolhi-o no bolso. Depois levei-o comigo, para casa, afim de poder perguntar a quem pertencia. Mas ao subir as dezenas de escadas para o local onde moro, o bolso pesava-me. Pensei que eram as chaves, mas depois de as meter na ranhura da fechadura, o peso continuava o mesmo. Só podia ser a cruz que encontrara na rua, que atirara para longe e que recolhera de novo. Chegado ao meu quarto, pousei-a em cima da cama. Vou dormir sobre ela. É que nesta Quaresma e nesta Semana Santa tenho encontrado cruzes por todo o lado, de vários feitios, pesos, medidas, e materiais. Tenho-as amontado na cama. Vou adormecer para acordar com elas, e amanhã vou celebrar o Senhor que está vivo para me carregar estas cruzes. 

Uma Santa Páscoa, com os olhos na Ressurreição, para todos

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Esta dor que não me consome

Hoje não quero saber se me dói alguma parte do corpo ou da alma. Enquanto fumo o último cigarro da noite, à janela que dá para as luzes da igreja, deixo que o tempo apenas passe por mim como o vento numa manhã de praia que avizinha o sol. Geralmente o tabaco ocupa aquela parte da meditação que faço, rabugento com o tempo, para me entregar a ele. Mas hoje quero que ele passe por mim, me cumprimente e se despeça no mesmo instante. É que, às vezes, damos tanta importância ao tempo que nos sobra que não damos conta do sol que desponta cada dia ao amanhecer. Sei que há algo de mim, neste corpo entregue a Deus, que precisa de algo mais do que o tempo. Mas hoje não quero mais pensar nisso. Vou apagar o cigarro, e deixar que as cinzas voem para longe. Lá, onde só eu e Deus daremos as mãos. Sorrio e digo. Bem-haja, Senhor meu Deus, que és tão generoso em mim, mesmo quando permites que uma dor perturbe a nossa amizade. Eu sei que há algo em nós que não se prova mas se sabe, como o sal que não se vê, mas que tempera o que comemos.

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

segunda-feira, março 13, 2017

Via Sacra de um simples discípulo

Senhor, estive a reescrever a tua via-sacra para fazermos a encenação do teu amor aqui na paróquia. Reescrevi cada gesto, cada pedaço da tua vida concentrada nesse calvário de amor. Este ano quis escrever com o coração posto nos teus discípulos. Concentrei-me neles, logo atrás de ti. Concentrei-me em mim logo atrás deles. Revi-me em quase todas as personagens. Doeu-me, Senhor, cada reação da multidão, dos sumos-sacerdotes, dos anciãos, de Pilatos, dos soldados. Doeu especialmente a negação de Pedro, a traição de Judas, todos os que dormiram enquanto agonizavas. Tudo me doeu a reescrever este caminho tão doloroso. Valeu-me o Cireneu, a Verónica, as mulheres que choravam por ti, o criminoso arrependido, a tua mãe. Valeu-me ainda mais aquele momento em que desceste da cruz para nos levares, contigo, em ti, à felicidade que o Pai, desde o início, cuidou para nós!

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Os padres e as paredes

A dor do sofrimento dos padres é muitas vezes partilhada com as paredes. Sim, os padres também são humanos e também sofrem. Não sofrem diferente dos outros. Sofrem apenas com contornos diferentes. Estava eu a querer dizer que a maior parte das vezes que os padres sofrem é a olhar para umas paredes brancas ou para paredes que mudam de cor quando fechamos os olhos e continuam a ser paredes. Fazemo-lo com a vantagem de que elas não se queixam das nossas palavras que não dizemos para fora. É definitivamente uma vantagem. Também não as incomodamos muito. Não as podemos abraçar, e contudo elas abraçam-nos porque estão ao nosso redor e nos fecham dos quatro pontos que formam. 
A esta altura do que escrevo já me estou a imaginar os pensamentos dos que advogam pelo progresso afectivo dentro do clero. Vejo-os a alegar que a vantagem de uma esposa ou de uma família que nos acolhe nos desabafos não se compara à vantagem de uma parede que não fala. Pressinto outrossim a resposta dos que advogam pela conservação da espécie. Estes dirão que o melhor é não haver misturas para fora de si. 
A uns e outros quero hoje dizer que não me ocorreu nada disso. O que hoje senti é que, assim, só com paredes, Deus pode acabar por ser o único que se busca no meio do sofrimento. Atenção que eu não sou daqueles que defendem uma fé privatizada. Mas é verdade que dentro de quatro paredes não precisamos falar para fora porque Ele nos escuta dentro. Tudo na vida tem sempre dois lados. Nem que seja o de fora e o de dentro. Hoje prefiro ver este lado de uma solidão que fica aberta para se encher de Deus

segunda-feira, agosto 01, 2016

Atentados ou sublimados

Um muçulmano diz que precisa meia hora para rezar de manhã e o patrão dá-lhe autorização. Se um católico pede para ir à missa, não pode. Há que cumprir horários. Um muçulmano no hospital pede que não lhe dêem carne e já está. Não come carne. Um católico diz que não quer comer carne na quarta-feira de cinzas, e ou come carne ou não come nada. Se um artista plástico, como aconteceu em Espanha, decide fazer uma obra, a que chamou de arte, com hóstias consagradas roubadas, isso é arte e não tem mal. Mas se alguém propõe que se celebre uma Eucaristia na escola por alturas do Natal, isso não é de permitir, pois atenta contra aqueles que não são católicos. 
O Ocidente quer entrar em ruptura com a sua história, cultura e valores. Não me importuna que o faça. Mas não desta forma aviltante. Não de modo a perder-se, sem solução para se encontrar. 
Os que apregoam e exigem mais tolerância são geralmente os que menos tolerância têm para com a Igreja. De que terão medo? Ou qual a razão para tamanho incómodo? 
Os que apregoam mais liberdade e democracia são os que mais se impõem contra a Igreja e os valores que propõe. Os mesmos valores com que nasceram. Que pretendem afinal? Porque incomoda tanto a Igreja? 
Se há um atentado ao Charlie Hebdo é um atentado contra a liberdade de expressão. Se há um atentado numa discoteca gay, é homofobia. Se há um atentado em Nice, é atentado contra a liberdade, igualdade e fraternidade. Se há um atentado a um pobre homem de 84 anos, sacerdote, no meio da sua missão, é apenas mais um atentado. Assim como os milhares de cristãos, católicos ou não, que têm sido vítimas de violência em zonas fora da Europa. São apenas mais umas mortes. 
Quase apetece pedir ao Senhor Deus que encarne de novo, que venha por isto em ordem, ou que descarregue umas quantas rajadas neste mundo tão líquido. 
Ou então não. Podemos sempre pensar que o cristianismo tem esta capacidade de sublimação! Afinal, a cruz é o nosso sinal mais. O amor é a nossa melhor arma.

terça-feira, março 15, 2016

A propósito e a despropósito

A propósito e a despropósito do filme que agora anda na boca do mundo, e embora eu evite falar do que as bocas do mundo costumam ter em modas, apetece-me partilhar uma simples ideia que me surgiu após ler um artigo e um comentário de um colega. O filme “Spotlight” retrata uma situação verídica ocorrida na diocese de Boston e que pôs a nu a vida de alguns sacerdotes que, pelos vistos, abusavam de crianças. Ainda não o vi, mas já li várias coisas sobre este filme que, como dizia o órgão oficial do Vaticano, não parece nada anticatólico. 
A propósito e a despropósito de algumas dessas leituras que afirmavam e reafirmavam que a Igreja tinha de falar nestes assuntos, gostava de dizer que para mim uma coisa é afrontar, enfrentar, procurar soluções para os problemas, e outra necessitar de falar deles. Dizê-los pode significar que se pretende enfrentá-los, mas não significa necessariamente resolvê-los. Há tantos assuntos que a sociedade se farta de dizer e não os resolve! 
A propósito e a despropósito desta insistência no dever de falar-se, ocorreu-me pensar numa comparação igualmente triste. Não imagino que alguém que tivesse uma mãe ou uma irmã prostituta, embora encarasse a realidade e se esforçasse por dar o contributo à sua resolução, tivesse a mínima vontade em falar disso.

domingo, fevereiro 21, 2016

Deus resolve-nos a vida

Hoje não quero dar nome à pessoa que, em conversa, me disse que não entendia como Deus não nos resolvia os problemas que tínhamos e permitia que houvesse tanto sofrimento, mesmo de pessoas inocentes. Não quero dar-lhe nome, para que cada um possa ali colocar o seu. Porque sei que na nossa vida estas dúvidas aparecem apanhando-nos desprevenidos. A essas pessoas sem nome para dizer, eu hoje quero dizer. 
Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de as resolver. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida, mas interiormente. Basta tão só que O deixemos habitar em nós. Lá dentro Ele dará sentido a todo o nosso exterior.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima

A Sónia é uma pequenita da terceira classe. A mãe tem uma das doenças do século, o cancro. ESta tem sofrido imenso, embora sem perder o ânimo de Deus. A Sónia percebe que a mãe sofre. A Sónia gostava de tirar a dor à mãe. A Sónia disfarça, mas sofre com a mãe. Uma vez unidas pelo cordão umbilical, toda a vida unidas. 
Encontrei-as em Fátima numa noite destas. A mãe costuma procurar-me para desabafar e contar da forma como vai lidando com a doença. Por isso aproveitámos a ocasião para uma actualização rápida. Desta vez tinha algo especialmente bonito para contar. Veja, padre, eu que não sou muito destas coisas, hoje decidi dar duas voltas de joelhos à Capelinha. Sabia que era doloroso. Sabia que não é o que mais Deus quer. Ou Nossa Senhora. Mas nesta etapa da minha vida, tento tudo. Não se tratava de uma promessa. Era tão só uma vontade. E pensei fazê-lo sem a pretensão de que Deus me cure. Era mesmo só para que Deus me desse força. E nisto, repare… Fez uma pausa para deixar sua cara sorrir… Imagine que a Sónia não deixou e disse que o faria por mim. Disse-o convictamente e impondo a sua vontade. Fê-lo, padre, com um sorriso a olhar o meu sorriso e as minhas pequenas lágrimas. E depois de dar duas voltas, veio dizer-me. Olha, mãe, dei duas voltas por ti. Agora dou mais três por mim. 
E eu que pensava que sabia o que ia no coração das pessoas que fazem estas coisas! 

vem a propósito este texto que escrevi em tempos: A criança do Santuário

quarta-feira, outubro 07, 2015

Para estar ao teu lado

O dia de hoje acordou como os outros. Escuro, cinzento, frio. Acordou para que nascesse e se tornasse claro, colorido, caloroso. A meio da manhã já o sol dizia bom dia e nos convidava a viver. 
Cada dia que passa é sempre ocasião para darmos graças a Deus pela vida que nos dá e pelo sentido que lhe dá, e porque nos quer oferecer uma vida ainda melhor. Cada dia que passa, afinal, escuro ou claro, cinzento ou colorido, frio ou caloroso, é um dia para caminharmos em direcção à Vida que o Pai nos teima em oferecer, aquela vida que só atingimos em pleno no céu, o céu de Deus. 
Em cada dia que nasce, nasce também a certeza de que este caminho é o Caminho. 
Mas hoje esta certeza veio a mim logo ao acordar, e teima em fazer-me rever cada passo que faço nessa direcção. E és tu, mãe, que mo lembras, porque o dia 7 de Outubro é, em todos os anos do calendário depois de 2001, o dia em que me apetece dizer ao Pai que quero muito ir para esse seu Céu, só que mais não seja para estar ao teu lado. 
Não queria que este dia voltasse. Porém, na verdade, é neste tipo de dias que melhor nos apercebemos que aqui estamos só de passagem, como caminhantes, para esse lado onde já estás.

sexta-feira, junho 12, 2015

O charlatão do restaurante

O meu cunhado é sócio de um restaurante onde vou de vez em quando visitá-lo e comer. Por lá sabem e comenta-se que ele tem um cunhado padre. Há dois dias fiz uma dessas visitas, e pedi, com fome, uma sopa e um segundo prato. Ainda não acabara a sopa quando um dos empregados me perguntou se o senhor ao balcão se podia sentar na minha mesa para conversar. Respondi que sim e fiz espaço.
O dito senhor apresentou-se como um charlatão de há três meses a esta parte. Advertiu que não acreditava em Deus, mas precisava falar. Enquanto espetava umas garfadas na comida, escutei os últimos três anos da sua vida, que vai nos setenta. A esposa tinha falecido com cancro há três anos e a filha há um com uma doença fulminante. Há três meses tinha-lhe sido diagnosticado um cancro inoperável, pois já não havia nada a fazer de tantas metástases. Não tinha medo da morte, mas precisava falar e eu, porventura, era um bom alvo de conversa. Ouvi sem o interromper muito, até nos fazerem sinal de que tinham de levantar a mesa. No final falei-lhe rapidamente de alguns casos idênticos que acompanhara e aos quais a fé ou a certeza de Deus dera a força que precisavam. Que Deus não nos resolvia os problemas, pois eles fazem parte da nossa vida aqui na terra, mas que dava a força necessária para os viver e para que o sofrimento pudesse ser algo revelador. Não quis concordar muito, mas à despedida, num aperto de mão agradecido, foi dizendo que ia pensar no que lhe disse e quem sabe se não se convertia.
Ao que lhe respondi que por algum motivo escolhera sentar-se ao lado de um padre para que o escutasse, e que eu aceitara exactamente pelo mesmo motivo.

sexta-feira, maio 29, 2015

Conversas com gente de idade

Conversas com gente a que costumamos designar de idade, como se as outras não tivessem qualquer tipo de idade. São aqueles a quem já perdoamos tudo, mas para com os quais temos algo próximo da comiseração, o que não pode ser bom. São aqueles que entregamos à noite da vida, como se já não tivessem luz para iluminar. Mas são esses os que mais sabem da vida, os que mais nos podem ensinar da vida. São os que já viveram.
Olhe, senhor padre, aqui estou sem forças. Olhe, senhor padre, que tenho esta doença. Já não vejo para ler. Já não ouço quase nada. Quando eu era jovem. Enquanto poder, não preciso que me ajudem. Era bem melhor estar na minha casinha. A vida é assim. Os meus filhos não me vêm ver. Vou-me entretendo a rezar. Já não sei que faço aqui. Era melhor o Senhor me chamar. Estas pernas não ajudam nada. Vou outra vez ao médico. Já fui operada oito vezes. Tomo nove comprimidos por dia. Não consigo comer sozinha. Aqui estou como Deus quer. Faça-se a vontade de Deus.
São aqueles que nos ensinam que a vida tem valor até ao fim, mesmo quando parece que já não há vida. São aqueles que vivem de forma diferente, sem correrias, sem pressas. São aqueles que gastam o tempo a viver. Que fazem tudo para viver, mesmo quando lhes apetece morrer. São aqueles que mais facilmente se entregam ao Senhor, porque são aqueles que dão conta que precisam Dele. São aqueles que um dia seremos nós, e com os quais deveríamos aprender a viver, mesmo que nos falte vida.

terça-feira, abril 21, 2015

O António caído

O António estava perdido. Perdera-se, e não conseguia encontrar-se. O António não era má pessoa. Era um de nós. Era um António que caíra. Era um de nós que em cada dia se deixa cair à beira do caminho. Era um António que deixara de caminhar porque não sabia como levantar-se. Era um de nós que no caminho tropeça e não tem forças para se levantar. Era um António que esquecera que o mal não está em cair, mas em não se levantar. Cair acontece mesmo quando não queremos, ou por distracção, pelas circunstâncias, por culpa dos outros, por via da nossa fragilidade. Era um António que esquecera que cair acontece, mas levantar-se depende de nós.

terça-feira, setembro 02, 2014

A burrita da Virgínia

A Virgínia tem idade suficiente para olhar a vida a agradecer tudo a Deus. O marido já faleceu há anos. Não tiveram filhos. Tiveram enteados e pessoas que adoptaram para auxiliar. Não daqueles verdadeiros adoptados do papel e assinaturas. Mas os adoptados que precisavam apenas de alguém por perto. A virgínia é uma pessoa culta, mas isso não lhe tira a solidão, e acha-se uma pessoa sozinha, meio abandonada. Porém, no meio disto tudo, tem um ar de graça. Tem uma forma de ser divertida. Há dias disse-me que pedia muitas vezes uma coisa a Deus. Para satisfazer a minha curiosidade, contou-me o pedido que fazia insistentemente a Deus. Pedia-lhe que a deixasse ser a burrita do presépio. O pedido e o segredo eram sérios, mas os dois rimos a bom rir. E continuou. Ó senhor padre, a burrita ainda carregou com a Nossa Senhora e com o Menino. Eu nem para isso sirvo. De facto, o pedido era mais sério do que parecia à partida. Mas para compor o momento, achei-me no dever de concordar com ela dizendo que se ela pedia para ser a burrita, eu poderia ou deveria pedir para ser a vaquita. Não, não era pelos cornos. Rimos. Era mais pela graça de ali estar ao lado da mãe e do Menino, e eu nem sempre conseguia estar com eles. A rir nos quedámos os dois, mas o assunto era sério.

sábado, agosto 23, 2014

A Laura e os desanimados da vida de hoje

Faz parte do grupo de desanimados da vida de hoje. Cuido que hoje o desânimo faz mais parte da vida das pessoas do que no tempo em que as contrariedades não eram mais que obstáculos da vida. Cuido que hoje as contrariedades da vida se transformam excessivamente em formas de viver sem vontade. A Laura é boa senhora, boa mãe, boa funcionária, boa cristã. Mas ultimamente entrou pela porta larga deste grupo, passou a fazer parte dele. Anda cansada de não ser fácil o emprego, a relação com os seus e com os que não são seus, e com mais uma série de coisas que nem soube enumerar. Ó Laura, quando estamos bem connosco, o problema pode ser grave, mas será sempre pequeno. Quando não estamos bem, o problema pode até ser pequeno, que será sempre grave. Por isso, Laura, antes de te debruçares sobre os teus problemas, debruça-te sobre ti. Encontra-te e encontrarás todas as respostas. Procura estar bem por dentro e tudo será mais fácil por fora. Na verdade os problemas têm sempre duas formas de se encararem. Ou com desânimo. Ou com ânimo. Em ambos os casos os problemas são o mesmo. Mas são vistos e sentidos de forma diferente, assim como têm peso diferente na nossa vida. Um, de tão pesado, deita-nos por terra. O outro tem o peso que tem, mas lança-nos em frente.

domingo, junho 15, 2014

Deus faz tudo perfeito

Um senhor, daqueles senhores carecas e castiços que gostam de dar um ar de graça, querendo meter-se com o senhor padre, contou-me uma pequena história sobre um bispo que fora fazer a visita pastoral a uma determinada paróquia e no meio do sermão repetira umas dez vezes que Deus fazia tudo perfeito. Ora um senhor corcunda que se encontrava no meio da assembleia, no final da missa resolveu ir dar um dedinho de conversa com o tal do senhor bispo que dizia umas coisas que na cabeça dele não faziam lá grande sentido. Era corcunda, mas não era parvo. Era corcunda, mas também era destemido. Por isso, chegado ao pé do tal senhor bispo, resolveu abordá-lo de chofre. O senhor disse umas quantas vezes que Deus fazia tudo perfeito. Interrompeu as palavras com o dedo na direcção da corcunda, e acrescentou. Acha que isto é perfeito? O senhor bispo, sem meias medidas, respondeu prontamente. Olhe que dos corcundas que eu já vi, o senhor é o mais perfeito.
O senhor careca e castiço metera-se comigo. Mas não soube que se metera também com os meus pensamentos. De facto não será uma corcunda que dita a nossa perfeição ou imperfeição. Como a perfeição é algo bastante relativo. A perfeição para a qual Deus nos cria foge muitas vezes ao homem ou ao seu conceito de perfeição. Além de que se nos permite ter algo que identifiquemos como uma deficiência, nos costuma conceder a força ou a capacidade de vivermos com ela ou de vivermos usando-a para alcançarmos a perfeição. Mais ainda, muitas das nossas chamadas imperfeições não são senão fruto das nossas opções em liberdade, a mesma liberdade que nos foi concedida por Deus. Mais ainda, aquilo que a nós nos parece imperfeição, a outro pode parecer uma forma de perfeição ou uma imperfeição que não chega aos calcanhares da sua. Mais ainda, aquilo que para muitos é um mundo imperfeito, para outros não é mais que o mundo perfeito, que foi assim feito com imperfeições para ser perfeito.
Gosto muito de pensar, e por isso o repito, que a perfeição com que Deus cria tudo vai muito para além do conceito de perfeição para o homem. Por isso é que nos faz olhar para além das nossas fragilidades. Por isso é que as Suas grandes obras foram e têm sido feitas no meio de tantas fragilidades.
Feitas as contas, o tal do senhor bispo tinha toda a razão quando disse que Deus faz tudo perfeito.

sexta-feira, maio 23, 2014

Ligou-me do lar

Ligou-me do lar para me dizer que estava no lar. Já lá vai mais de um mês e não gostava de lá estar. Achei piada quando me disse que eram só velhos e velhas, como se ela não se incluísse na designação. Mas a conversa não estava para piadas: A voz embargada da senhora Maria de Fátima não mo permitia. Entre umas palavras mais pronunciadas, surgia uma voz embargada. A filha levara-a para ao pé dela, mas para longe da sua casa e dos seus amigos. Se ao menos tivesse ido para perto do senhor padre, dizia a voz embargada. Já não vou à missa há um mês. Eu frisava-lhe os novos amigos e as pessoas que cuidavam dela. O descanso para a filha, pois que se lhe dava alguma coisa agora tinha quem a socorresse sem demora. Mas ela não gostava. Pertencia às minhas paróquias antigas e já antes ligava bastas vezes insinuando que lhe fazia bem ouvir a minha voz. Era a minha voz e a esperança que lhe infundia e com que lhe respondia. Os lares de terceira idade são o local para onde vão os que já nada têm para dar à sociedade, e quem para lá vai cai nessa realidade. Bem tentei que ela desse a volta ao texto. Que conseguisse descobrir as coisas boas que tinha no novo lar. Mas ela embargava a voz, transparecia o choro e dizia Peça a Deus que me leve. Disse-o duas vezes. O mesmo número de vezes que se me cortou deveras o coração. Prometi que um dia a iria ver. Pedi-lhe que se agarrasse a Deus, que Este não a abandonava. Mas quando desligou o telefone perguntei-me a mim próprio e a Deus porque têm de existir os lares. Porque tinha de ser assim?