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quinta-feira, junho 06, 2019

A vida vestida de branco

Tem seguramente mais de nove décadas de vida. Estava paramentado, com o terço na mão, enquanto esperava o início da Eucaristia. De tudo o que ele era e eu via, o que mais se salientava era o branco. O branco da alva com a estola em cima. O branco dos cabelos. O branco do rosto. Talvez fosse mais pálido que branco. Mas o meu olhar achou que era branco. Branco como o tempo quando está vivo. As suas palavras arrastavam-se. Arrastavam-se como os pés e o tempo. Quando rezávamos em conjunto, ele fazia o eco. A sua voz acabava ecoando no meio das outras. Até o terço que passava era branco. A cabeça pendia para si mesmo. Ou para a oração do terço. Permaneci uns pequenos cinco minutos a olhá-lo. A olhar este padre já reformado e doente. Não foram cinco minutos largos como quando a gente tem pressa de sair, de deixar de estar, de deixar de ouvir. Foram cinco minutos que passaram muito rápidos. Olhei-o com compaixão. Não foi com pena, não senhor. Foi mesmo com a ternura de quem ama. E talvez com o sonho de quem acha que a vida deveria ser sempre branca, mesmo quando tudo se vai tornando escuro. Levantei-me, dirigi-me na sua direcção, abracei-o sem vergonha dos olhares reprovadores ou das murmurações dos colegas que estavam no mesmo local. O abraço demorou mais cinco minutos longos. Quando levantei o olhar, eu ainda estava sentado na mesma cadeira, resignado. Afinal o abraço ficara só na vontade. Não foi a vergonha que me impediu de me levantar e, com verdade, o abraçar. Foi mesmo olhar nele o que me fez olhar a mim. O abraço que lhe queria dar, dei-o a quem estava mais perto. A mim mesmo. Um dia vou vestir a minha vida de branco.

quarta-feira, maio 29, 2019

Burnout significa literalmente queimar-se

Li há dias que a análise de uma pesquisa realizada em Pádua a 450 padres, dos quais responderam 319, deu conta de várias tipologias relacionadas com a síndrome de burnout. Havia alguns que respondiam indicando que estava tudo bem. Outros para quem tudo estava mal e precisavam de apoio explícito. Havia ainda os insatisfeitos, os cansados, os que conseguem manter a eficiência, mas com sofrimento à mistura, pois vivem o desconforto da situação, os que se defendem por detrás do cumprimento de uma função, como gestores de serviços religiosos. E dizia que os padres em maior risco de burnout eram os que se situavam entre os 25 e os 29 anos, e depois os que estavam acima dos 70. Entre os padres com vinte anos de ministério crescia o número dos que se dedicavam à burocracia, ao burocrático, cada vez mais gestores do religioso. E as causas para a proximidade com o burnout eram o excessivo peso das expectativas, pessoais e dos outros, a desqualificação ou ausência de uma vida espiritual, os encargos demasiado pesados, o medo dos juízos dos outros, o viverem emocionalmente expostos a situações humanas sempre muito duras, quando não extremas, a pouca solidariedade dos padres entre si, a incapacidade de comunicar com os seus pares, e os superiores muito distantes que não sabiam escutar verdadeiramente. Mais não digo, pois não sei o que dizer.

terça-feira, maio 14, 2019

Aos olhos de Deus somos todos iguais

O senhor não diga que é indigno do amor de Deus. Ele até pode ficar triste. Foi assim que a Maria se dirigiu a mim a propósito de umas coisas que dissera sobre o não ser digno de tanto amor de Deus. Deixem-me referir que gosto muito deste nome, Maria, e tenho vontade de o usar muitas vezes, embora não seja o verdadeiro nome desta minha paroquiana amiga. Eu chamo-a de Maria porque nela se realça o lado materno, protector, interessado, atento, próprio das mães. Pelos vistos, tinha ficado um pouco triste por eu dizer essas coisas. Ela mesmo mo referia. Não diga essas coisas, senhor padre. O senhor tem muita sabedoria. Deus tem de gostar muito de si. Eu sou leiga e o senhor é padre. O senhor está acima de mim. Deus ama-o, de certeza, muito mais que a mim. 
E foram as suas últimas frases que me estremeceram por dentro. Não, Maria, eu não estou acima de ninguém. Posso ter mais formação teológica, mas isso não me habilita senão para aprofundar ainda mais Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Deus não me ama mais por eu ser padre. Se Deus me amasse mais por eu ser padre, Ele não amava gratuita, desinteressada e livremente. Seria um elitista. E os elitistas não amam assim. No coração de Deus cada um ocupa, independentemente de quem é ou como é, o lugar mais especial.

terça-feira, novembro 27, 2018

Acabar o dia entre quatro paredes

O que fazem os padres quando chegam ao final do dia, a casa, e ficam sozinhos? Foi esta a pergunta curiosa da Sofia que surgiu no imaginário do meu pensamento. Pelos vistos, a Sofia andava a questionar-se, tal como eu, sobre a vocação consagrada, em particular a dos sacerdotes, sobre o que era viverem sós, entre quatro paredes. Como seria? E eu gostava de pintar o filme de outra cor, menos sépia, menos branco e negro, menos cinzento. Gostava de dizer que, ao chegarmos a casa, o mais natural é ajoelhar aos pés do Senhor e agradecer-lhe o dom desse dia, pedir-lhe compreensão pelas nossas faltas, falhas e cansaços. Gostava de lhe dizer que era a oportunidade para nos sentarmos ao seu colo e esperarmos o calor do seu amor. Mas não sei se é essa a realidade. Algumas vezes será. Mas outras, acabamos o dia fechados em quatro paredes, geralmente sozinhos. Mas o pior é que nos fechamos, não apenas nas paredes da casa onde moramos, mas em nós próprios. Ficamos sozinhos, com oportunidade para nos abrirmos ao mestre da vida, para sentirmos que na nossa solidão há uma cadeira à nossa mesa, à beira da nossa cama, que é ocupada por Ele. Mas geralmente ficamos fechados na nossa solidão, voltados sobre nós mesmos. Não há pior solidão que aquela em que nos fechamos sobre nós mesmos. Como uma casa que se encerra convencida que assim evita os assaltos dos ladrões. Faz lembrar um filme que vi em tempos. Um casal fechara-se, barricara-se em casa com medo dos ladrões. O que aquele homem e aquela mulher não sabiam era que o ladrão já lá estava em casa e tinham acabado de se fechar com ele dentro.

sexta-feira, novembro 23, 2018

Os coitados

O território da paróquia tem poucos habitantes. A paróquia tem ainda menos. A maior parte tem debandado em busca de novas oportunidades. As poucas crianças e os jovens aparecem muito pouco. O pouco é sempre o que mais habita aquela terra e aquela paróquia. Mas naquele dia a Igreja estava quase cheia, e na frente destacavam-se dois adolescentes. Um no início da sua adolescência e outro no final dela. O primeiro era um rapaz, e o segundo uma rapariga. Por sinal sua prima. A meio da homilia, que vinha a propósito das vocações e que se adaptava perfeitamente à Semana dos Seminários, pois a missa ocorria nesse período, dirigi-me ao primeiro adolescente. Dirigi-lhe também as minhas palavras. Tu. E apontei para ele, que estranhando a direcção do meu dedo e das minhas palavras, se mexeu no banco. Tu é que podias ir para o Seminário. Tu é que podias ser padre. Na verdade, fui aprendendo com a vida que o convite tu a tu é o mais oportuno. No entanto, a prima agarrou-o com força, e disse. Coitado. Porque fora audível, sorrimos todos. A população em geral. Os que estavam mais ao fundo da Igreja e os que estavam mais junto do altar. O rapaz. Ela própria. E eu. 
E foi assim que percebi que os padres são tidos, afinal, como coitados. Fazemos parte daquele grupo de pessoas que é olhado com pena. Como se o destino tivesse destruído os seus sonhos. Tivesse destruído a possibilidade da felicidade.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Um chamamento que não sei

Já lá vão muitos anos. Andava na escola primária quando escutei, pela primeira vez, que o Senhor chamava alguns a ser sacerdote. Na altura a palavra soava-me a algo estranho. Como poderia saber o que era o sacerdócio! Era mais fácil traduzi-la por “padre”. Recordo que ouvi, pela primeira vez, numa aula, um jovem seminarista que, por sinal, hoje é bispo, dizer que o Senhor podia chamar alguns de nós para padre. Continuo a lembrar que a palavra padre só me fazia lembrar o padre da minha paróquia. Aquele senhor de uma certa idade que celebrava as missas. Achei engraçada a ideia de poder ser chamado. E um dia achei que o Senhor me chamava mesmo. Era uma criança. O significado desse chamamento só uns anos mais tarde, depois de fazer muitas perguntas, me foi possível ir entendendo. Mas ainda hoje não sei porque o Senhor me chamou. O que viu em mim. O que vê em mim. Lembro alguns acontecimentos marcantes dessa época da minha meninice. Lembro quando o tal padre da minha paróquia me disse que eu bem podia ser padre. Lembro quando, um dia, corajosamente, me abeirei do altar e me deixei ficar ali, como se fosse esse o meu lugar. O lugar que o Senhor queria que eu ocupasse. Mas ainda hoje não sei porquê. Ainda hoje pergunto ao Senhor porquê. Porquê eu, de tantos outros meninos, a maioria muito melhores que eu. Se me perguntassem se eu gosto de ser padre, não sei bem se a resposta seria positiva. Há um misto e muitos paradoxos nas respostas que poderia dar. Só há uma coisa certa. Estou aqui. Como sou. E Ele está por aqui, por não sei bem donde. Vamos tratando-nos, cada vez, mais por tu. De vez em quando sinto que nos abraçamos. Outras vezes berramos um com o outro. Não me sinto digno do seu amor. Mas Ele teima em querer amar-me assim. Por isso, vou-me sentindo esse indigno amigo que é amado por Alguém que teima em me amar… assim.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Tenho-te dito

Estava aqui a remexer papeis onde, por ocasião dos meus retiros, anoto alguns pensamentos, ou momentos que, de me tocarem, me levam a escrever. Num desses papéis encontrei um desabafo que escrevi num desses momentos. Já lá vão uns cinco anos. Escrevia assim. 
Estou de retiro. Ou devia estar. Venho, por meus pés, olhar-te na hóstia que depuseram na custódia. Faz sentido que cumpra os horários do retiro. Por isso estou aqui por meus pés, que é como quem diz, por minha própria vontade, embora esta vontade tenha surgido do horário. Há um silêncio à minha volta. Não o há dentro de mim. Queria ter alguma coisa para te falar. Uma conversa. Mas estou vazío. Alguém um dia disse que era preciso uma pessoa esvaziar-se para falar contigo. Contudo, para ser sincero, o meu vazío não me deixa espaço para conversas. Insisto que quero falar contigo, mas não consigo. Será isto um falar-te? Ocorre-me rezar o Pai Nosso, para facilitar as coisas. Mas fico nas duas primeiras palavras. As outras não me saem. Levanto os olhos do papel para te olhar de longe. Estás mesmo aí? O meu ar desconfiado, que não quer sê-lo, está aqui. Penso nos meus paroquianos, porque acho que tenho de pensar em alguma coisa. Quer-me parecer que, por mais que insista, hoje não consigo dizer-te senão que não consigo. 
Tenho-te dito.

sábado, outubro 13, 2018

O frade dorminhoco

São seis horas da madrugada. Depois da liturgia das horas, das laudes, entregamo-nos, numa hora, à meditação. Tem sido assim todos os dias, tanto de manhã como ao findar da tarde. E um dos frades mais velhos que está na comunidade do mosteiro, mal se apagam a maioria das luzes, senta-se num pequeno banco, de joelhos, e o sono cai sobre ele. É engraçado que pende sempre para o seu lado direito. Sempre para o mesmo lado. Como se esse lado o segurasse no tempo. 
A princípio, chamou-me a atenção pelo caricato da situação. Sorria com alguma pena, evitando que, ao meu redor, se apercebessem. Depois fui intuindo que, se calhar, seria uma doença. Deixei de sorrir, mas não deixei de alimentar a pena. Só aos poucos, com o tempo, fui descobrindo que aquele estar poderia muito bem falar da sua intimidade com Deus. Fui descobrindo que aquele frade dorminhoco aproveitava, em cada meditação, para dormir no colo de Deus. Deixava-se embalar nos braços de Deus, como a criança se entrega ao colo da mãe. É no colo da mãe que uma criança mais se sente confortável, segura, confiante, feliz. Não existe maior amor de filho do que aquele que se entrega ao amor de alguém que nos dá a vida, faz viver, ajuda a caminhar, e nos enche de amor. E assim percebi que o frade dorminhoco se entregava a Deus, na sua meditação, muito mais que eu. Eu ainda não aprendera a adormecer no colo de Deus.

quarta-feira, outubro 10, 2018

Noite escura

Desengane-se quem pensa que o recolhimento de um retiro serve a necessidade de paz e tranquilidade. É isso que muitos de nós buscamos num retiro espiritual, num encontro de oração, numa celebração comunitária da fé. Desengane-se quem pensa que uma experiência de encontro com Deus nos traz a paz que ansiamos diariamente e que parece longe de alcançar nas correrias diárias da vida. Um verdadeiro encontro com Deus faz-nos encontrar connosco próprios, com a nossa essência e, portanto, com as nossas misérias, ansiedades, erros e pecados, o que S. João da Cruz chama de “noite escura”. 
O que pode fazer esse encontro com Deus é garantir que Deus nos ama. A experiência de encontro com Deus o que pode operar em nós é o sentirmo-nos amados por Deus. Quando alguém ama e se encontra com a pessoa amada, não deixa de ser quem é, não deixa as suas fragilidades de lado. Ama com tudo o que é. Mas é nesse amor que ganha as forças para viver.

sábado, outubro 06, 2018

Esse amor maior que não se consegue dizer

Habita-me, Senhor. Habita-me, Senhor. Foi a repetir esta frase que passei grande parte da minha hora de contemplação esta tarde. Havia um ponto de luz na capela, voltado para um ícone da Santíssima Trindade. Não havia mais luz. Estávamos naquele silêncio umas doze pessoas, entre frades, sacerdotes e leigos. 
Sentara-me numa cadeira pouco confortável, com os pés descalços, e as mãos abertas, repousadas sobre as pernas e voltadas para cima, na esperança de acolher o que viesse do céu. De vez em quando fazia como vira os judeus fazer diante do muro das lamentações, numa peregrinação à Terra Santa. Com eles aprendi que, para não me distrair, podia balancear meu corpo. Nunca experimentara este modo de orar, mas esta tarde fi-lo, na esperança que afastasse de mim as distrações. Todo eu esperava que o Senhor se manifestasse durante aquela hora de íntima oração. Não senti nada de especial. Não houve nenhum êxtase. Não houve nenhuma levitação. Não houve estrelinhas a sobressair por entre as minhas pálpebras. Eu pedia insistentemente a Deus que me habitasse, que eu fosse seu habitáculo, que se fizesse sentir como o sangue a correr-me nas veias. Não sei bem o que senti. Muito menos explicar. O que sei é que aquela hora me pareceu muito pequenina. Prolongava-a com vontade por mais uns largos minutos. Não consigo, de todo, definir o que sentia. Creio que as palavras humanas, para se dizerem, se socorrem de símbolos, de coisas que conseguimos descrever. Mas há momentos que não se conseguem dizer, e este foi um deles. O que posso afirmar é que me apetecia ficar por ali, a descobrir esse amor maior em mim.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Antes de me recolher neste retiro

Antes de me ausentar, disse aos meus paroquianos, no final da missa, que ia recolher-me num mosteiro, para me encontrar com Deus. Eu bem sei que Deus está em todo o lado, ao nosso alcance, mas precisava de um espaço para me encontrar com Ele. O mosteiro recebeu-me de braços abertos. Era escuro quando cheguei e tudo me pareceu enorme. Enorme demais para mim. As pedras contavam histórias de quem já por aqui passara com os mesmos desejos e vontades que eu. São pedras gastas de histórias. O meu quarto tem apenas o essencial para que eu possa estar nele. Não há rede fixa ou móvel. Não há senão a sensação de que não há nada para além de mim. Mesmo quando ouço um ruído na floresta em redor. Ou no quarto alguma mola da cama se remexe. Ou num quarto ao lado se ouvem passos que desconheço. 
Eu dissera aos meus paroquianos que precisava encontrar-me com Deus. E agora, no meio de uma gargalhada, apercebi-me do erro das minhas palavras. Deus já lá está. Ele já está comigo há muito tempo. Desde que me desejou, ainda antes do seio de minha mãe. Ele está comigo. Ele vai comigo para todo o lado. Nós é que nem sempre damos conta disso, porque demasiado ocupados em nós mesmos. O que nos falta é a consciência desse seu estar. E só tomamos consciência disso quando entramos em nós, no mais profundo de nós. Naquilo que muitos chamam alma e eu prefiro chamar de mim mesmo. Aquele íntimo que diz mais do que parecemos, que diz o perfume do que somos feitos, a beleza que se esconde por detrás da aparência, a certeza de que se existe por algo maior. Afinal, encontrar-me com Deus é entrar na minha intimidade. É lá que a consciência da sua presença se define.

terça-feira, outubro 02, 2018

escrever sobre o início do meu retiro

Sinto o vento a bater forte contra as árvores, empurrando-as para eu ouvir os seus gemidos. Sinto a água a correr na fonte, aqui ao lado da janela onde me encontro, num quarto do meu tamanho, pequeno, como se fosse um regato do rio a calcorrear caminhos, batendo nas rochas ou pequenas pedras de uma matéria que não sei. É um som métrico, ritmado, Vai entrando no meu coração sem eu me aperceber. Ouve-se um que outro pássaro por entre o som da água e do vento. Espreito lá para fora. Está tudo igual ao dia. Ao dia do vai e vem da vida. Mas é tudo diferente. Tudo fala de forma diferente. Tudo é sol, mesmo que tenha descido a temperatura. Tudo parece entrar por mim a dentro de uma forma medida, serena, consciente. Nada parece correr por mim a dentro. Nada parece correr como quando, à minha secretária, repito pensamentos sobre os meus afazeres, sobre as minhas preocupações, sobre as minhas dores, sobre os pesos que a vida vai trazendo, pequenos ou grandes, e a correr me sufocam. Hoje essas coisas acalmaram. Estão lá. Não desapareceram. Continuam a ocupar os mesmos espaços da minha vida e do meu ser. Mas hoje o vento é mais forte, a água é mais intensa, o silêncio, que me começa a habitar, fala mais para mim. Hoje é tempo de me deixar encontrar por Deus.

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

sábado, setembro 01, 2018

A Adrenalina do senhor prior

Estava sentado ao seu lado. A distância não alimentava muito desconforto. Mas ela não parava de fazer piropos ao senhor prior. Estávamos no meio de uma festa de aniversário, uma daquelas festas para as quais o pároco ainda vai sendo convidado. Assim como ela. Não era mulher que fizesse incómodo libidinal ao senhor prior. Era apenas uma senhora castiça que usava todas as conversas para meter picante. Por isso o padre, que era eu, ria-se e divertia-se. E às tantas entrou na brincadeira. 
Na noite anterior estivera até tarde a assistir a um concerto, que achara maravilhoso. Cantara imenso, batera palmas, saltara, dançara. Por isso, ao deitar-se, teve dificuldade em adormecer. Estava, como se costuma dizer, com adrenalina. Por isso, em tom de brincadeira, disparou para a vizinha do lado. Esta noite deitei-me cá com uma adrenalina! E fez com a mão um sinal de exclamação e excitação. Mas a exclamação e excitação da senhora ainda foram maiores. Dormiu com quem, senhor prior? Com a Adre…quê? Com uma Adelina, ou Adrelina? Eu bem digo, os padres são cá uma peça! Mas faz bem, senhor prior, os padres são homens como os outros.

quinta-feira, junho 14, 2018

Não é fácil encontrar vocações sacerdotais por aí

Nunca houve tão poucos jovens. As percentagens apontam para uma desproporção entre mortes e nacimentos. O nosso país, bem como toda a Europa, está a envelhecer. Também por isso não admira que a maioria das pessoas que frequenta as nossas Igrejas seja maioritariamente envelhecida. Nunca houve tão poucos jovens católicos praticantes. Digamos que a maioria recebeu o baptismo, mas não recebeu a fé. Nunca a juventude esteve tão indiferente e despreocupada com o seu futuro. Quando se lhes pergunta o que gostariam de fazer ou o que querem para o futuro, as respostas são similares ao Nim. Não sei bem, Ainda não pensei nisso, Isto não está fácil. Também é do senso comum que esta malta hoje está cada vez mais individualista, egoísta, descomprometida, sem capacidade de fazer sacrifício. Mesmo as famílias crentes não têm tempo ou formação suficiente para educar estes jovens ou fazê-los crescer na fé. Os religiosos são pouco visíveis, pouco conhecidos, convive-se pouco com eles. É fácil perceber que o seu tempo para estar com as pessoas acaba por se tornar escasso. E muitas vezes quando se ouve falar deles não é por bons motivos Os meios de comunicação social são pródigos em falar dos elementos da hierarquia católica quando um deles se destaca pela negativa. A sociedade não valoriza, e até despreza, a vida religiosa. Vivemos numa época bastante pragmática, pouco idealista. Os jovens regem-se por experiências e por “coisas” efémeras, rápidas e sem consequências. Parece-me ainda que a vida que nós padres vamos levando não suscita grandes encantos. Vivemos a correr, com várias paróquias quase minúsculas, a cumprir preceitos, numa vivência solitária de vida humana, cheios de pequenos conflitos interiores e exteriores. E por tudo isto, e por muito mais que se poderia acrescentar, como será possível termos mais vocações sacerdotais?

segunda-feira, maio 14, 2018

A síndrome de Burnout e os padres

Tenho andado a ler umas coisas sobre a síndrome de Burnout nos padres, porque me foi sugerida a leitura de uma notícia que dava conta do suicídio de alguns sacerdotes com esta síndrome. Os textos falavam que o grau de exigência da Igreja é muito grande. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Ora imaginem se isso fosse assim tão fácil, quantas canonizações de padres teríamos hora a hora. 
Eu diria que mais do que esperar de um padre, se lhe exige. Exige-se-lhe a perfeição. Que esteja em todo o lado. Que tenha um sorriso constante, a amabilidade, o bom acolhimento, a pobreza e o desprendimento próprios da vocação, a sabedoria para todas as respostas, o celibato que é imensas vezes castrador, as certezas absolutas da fé. Que seja impecável. Que não peque nem seja frágil. Que não cometa erros. Ou seja, que tenha superpoderes. 
Uma pesquisa de 2008 da Isma Brasil, organização de pesquisa e tratamento do stresse, apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais stressantes. Naquele ano, quatrocentos e quarenta e oito entre mil e seiscentos padres e freiras entrevistados sentiam-se "emocionalmente exaustos". A psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou o estudo, afirmava que "um dos fatores mais stressantes da vida religiosa é a falta de privacidade. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, os padres têm de estar à disposição dos fiéis vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana". Vou continuar estas leituras.

terça-feira, abril 10, 2018

E se os padres fizessem greve?

Li há tempos que um pároco em Itália afixara um cartaz na porta da Igreja a dizer algo mais ou menos do tipo "A missa foi suspensa por falta de fiéis. Padre tal estará disponível quando for chamado". A informação foi publicada num jornal e alvo de muita conversa, sobretudo nas redes sociais. 
Pessoalmente não me parece que a sua opção tenha sido a mais indicada. Um padre, à partida e como servo de Deus, deveria também ter a disponibilidade de coração para qualquer necessidade do foro da fé, mesmo quando à sua frente está um número reduzido de fiéis. No entanto, com a carência de sacerdotes, com as notícias que nos vão dando conta da sua debandada, das depressões ou similares na vida de tantos sacerdotes, o assunto merece a atenção de todos aqueles que se interessam pela Igreja.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova. 
Qualquer dia é bem possível que também os padres comecem a fazer greve para exigir que a vocação que abraçaram volte a ser a vocação sacerdotal.

terça-feira, janeiro 30, 2018

A Igreja precisa de padres?

Dava um bom título para um dos nossos pasquins mediáticos. Assim como dava um bom artigo de teologia numa revista especializada. Mas a pergunta surgiu numa reunião de padres que se queixavam a propósito de uma notícia badalada na comunicação social e que percorreu as redes sociais. 
O padre ainda é preciso para fazer funerais, as festas bonitas de alguns sacramentos e as festas populares com procissões e romarias que terminam com bailaricos, cantores famosos e muita bebida. Nalgumas paróquias servem ainda para as reclamações de missas, sobretudo as de sétimo dia ou de notícia, aquelas missas com intenções, em determinados aniversários de defuntos. 
São, a meu ver, necessidades autênticas e que a Igreja deve valorizar. Mas a pergunta, para mim, é muito mais profunda. A pergunta mexe com a razão verdadeira da existência dos sacerdotes, a própria existência da Igreja Católica, Apostólica e Romana, e que hoje já é costume chamar de ICAR (não gosto nada que lhe chamem assim, como se fosse o nome de uma instituição que se designa pelas suas iniciais e não pela sua razão de ser, o mandato de Cristo).
Precisa a Igreja dos padres, quando o seu número tem tendência a diminuir drasticamente e já não se conseguem manter as comunidades cristãs como no tempo da cristandade? O futuro dir-nos-á da necessidade dos padres, mas di-lo-á na procura daquilo que é a sua missão específica. Com o tempo creio que a Igreja assentará sobretudo no Povo de Deus que é constituído maioritariamente por leigos. Em breve serão eles a tomar conta das comunidades cristas, com um sacerdote que vai passando a celebrar missa de vez em quando. O próprio tempo fará com que deixemos de querer manter o de sempre. Talvez nessa altura descubramos que a Igreja é de Deus e não ao contrário, que a Igreja tem um deus. Na verdade, não é Cristo que precisa da Igreja, mas a Igreja que precisa de Cristo. 
Talvez nesse tempo sejamos obrigados a dar conta que os padres só são necessários porque Cristo é necessário.

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Os padres impecáveis

Há tempos trocávamos aqui palavras sobre os seres perfeitos dos padres. Agora apetece-me falar dos mesmos, mas trocando os adjectivos. Falarei dos padres impecáveis, desses que, porventura, vivem para mostrar o Deus impecável que lhes dá poder, através da ordenação, de serem impecáveis. Esse Deus que não os habita, porque eles devem precisar pouco dele, dado que são impecáveis. 
Não sei quem são nem onde existem esses padres. Nem sei se existem. Por mim cá continuarei como S. Paulo, a professar que Deus entra na nossa fragilidade para lhe darmos espaço, a Ele e à sua força. E para que tudo o que façamos seja expressão dele e da sua força de amor, e não da nossa suposta impecabilidade. 
Como disse em tempos um grande amigo, uma coisa é fazer as coisas bem, e outras fazê-las brilhar!

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Uma confissão banal

Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final. 
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim. 
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.