Mostrar mensagens com a etiqueta na terceira pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta na terceira pessoa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 23, 2021

em parte sim e em parte não

Um colega padre queixou-se publicamente da proliferação de transmissões digitais da Eucaristia Dominical, nomeadamente no Facebook e no Youtube. Dizia que bastavam as eucaristias transmitidas pela televisão, e que estas, sim, deveriam ser mais valorizadas. Que andar a celebrar missas em cada capelinha, quase como se fosse à la carte, para já não falar na busca de likes e seguidores, era um contrassenso com a “comunhão” que tanto se ouve nas bocas dos “pastores” e com o sentido da Igreja que dizemos ser “católica”. 
Mas, se por um lado, ele tinha razão, por outro, também era capaz de não a ter. Foi assim que um outro colega começou a falar perante o raciocínio que o primeiro expôs. Em parte tem razão e em parte não, comentou. Se assim fosse também não precisaríamos de ter 4.000 paróquias. Bastava Fátima. Ou 5.000 dioceses. Bastava Roma. Ou 400.000 padres. Bastava o papa. A igreja é, e sempre foi, uma comunidade de pequenas comunidades. E nem Jesus queria que as multidões andassem atrás dele: “Vai para casa, para junto dos teus, e conta-lhes o que Deus fez por ti!”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "As missas ou missinhas"

domingo, fevereiro 21, 2021

tanta falta nos faz a missa

Liguei, que ela não sabe ler mensagens. Por isso não tinha lido a mensagem que eu enviara. Como enviara para muitos outros paroquianos neste domingo, dia do Senhor, dia em que, se pudéssemos, nos reuníamos em comunidade a rezar e a celebrar a nossa fé. Ficou quase engasgada pela lembrança. Pelo telefonema. Agradecia e repetia insistentemente que a aldeia, sem o senhor padre, parece uma aldeia fantasma. Depois dizia que nos domingos era uma tristeza. A missa na televisão não é a mesma coisa. Faz-nos falta o nosso padre. Ai ora eu, ora eu. O que nos havia de calhar. E tanta falta nos faz a missa. Tanta falta, senhor padre.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

lugar do essencial

Iniciámos há poucos dias o caminho de quarenta dias para o coração da fé que é a Páscoa. Todo o cristão sabe que, neste período litúrgico, deve intensificar a oração, a esmola e o jejum. E alguns tentam fazer ou viver alguma diferença. Talvez rezem um pouco mais, façam alguma renúncia, sobretudo de carne à sexta-feira, e deitem um pouco mais no peditório para o que designamos como “renúncia quaresmal”. O que eu me pergunto é se esses hábitos não são apenas pequenas exterioridades, quando a oportunidade da Quaresma é o trabalho interior do nosso coração no deserto das nossas vidas. 
Nós sabemos que o deserto é um espaço geográfico árido, coberto de areia, quase sem vegetação e com pouca vida. Mas na Sagrada Escritura, ele designa também um tempo de provação, de silêncio e de auto-conhecimento. É considerado um tempo de tentação, no qual as pessoas põem à prova as suas certezas e seguranças. Pode parecer um paradoxo, mas é nesse mesmo sentido que o deserto é um lugar privilegiado de encontro com Deus. É que no deserto, desprovidos de tudo ou quase tudo, longe da balbúrdia que nos rodeia, sem as nossas seguranças e rotinas, apenas com o essencial que somos nós, mais facilmente nos encontramos connosco mesmos e com a intimidade de Deus. 
No meio de tantas palavras vazias, é-nos cada vez mais difícil distinguir a voz do Senhor que nos fala. O deserto é o tempo para renunciar a palavras inúteis. É ausência de muitas palavras para dar espaço a uma outra Palavra, a Palavra com maiúscula, a Palavra de Deus. É o tempo do silêncio para falarmos a sós com o Senhor Deus que está dentro de nós e nos ama como somos. 
O deserto é, como disse um dia o Papa Francisco, “o lugar do essencial”. Rodeados de tantas coisas inúteis que nos prendem a atenção, tantas correrias, tantas pressas, tantas preocupações, tanto stress, iria fazer-nos bem libertarmo-nos de tantas realidades supérfluas, para redescobrir aquilo que conta. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ai, senhor padre, comi carne na sexta-feira"

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

as vacinas do poder

Segundo informações de um jornal da praça pública, mais de 800 padres em Portugal foram vacinados na primeira vaga de vacinas anti-covid que eram destinadas para os prioritários dos prioritários. Os dados fizeram-me pensar, embora o jornal em causa seja um órgão de comunicação social pouco credível e eu deseje crer que, se calhar, muitos desses padres apenas se deixaram levar na onda da vacinação que estava ao virar da esquina e à mão de semear, na IPSS que dirigem ou que algum amigo dirige ou que frequentam sistematicamente. Quero crer que não foram vacinados por chico-espertismo. E por isso evito julgar cada caso, porque cada caso será um caso. Mas quero pensar na generalidade. E a situação, a meu ver, tem no plano eclesiológico, ao nível hierárquico, ao menos, duas frentes de observação. 
Em primeiro lugar, a facilidade com que uma situação destas ocorre, realça que, para além de vivermos num tipo de sociedade que se alimenta de aproveitamentos e cunhas, é uma sociedade em que isso se tornou tão banal e natural que, pelos vistos, nem o clero lhe parece imune, mesmo que ética e moralmente tivesse um certo dever de lhe ser imune.
Por outro lado, esta vacinação menos devida ou claramente indevida, parece também demonstrar como ainda existe dentro do clero quem use o lugar que ocupa, não como um serviço, mas como um poder. Não digo que seja radicalmente aquele tipo de poder que gosta de mandar em tudo. Mas aquele tipo de poder que se acha no direito de poder. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O padre é o 'tem de'"

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Os papas infalíveis

Quando Pio IX declarou a infabilidade papal não adivinhava que, passados cerca de cento e cinquenta anos, os últimos papas, de certo modo, deixassem no ar a dúvida dessa infalibilidade. É certo que ela se refere às ocasiões em que o papa fala “ex cathedra”, ou seja, quando exerce o cargo de “supremo” Pastor e Doutor de todos os cristãos e, em virtude do seu “supremo poder” Apostólico, define uma doutrina sobre a fé e os costumes, como li algures, mas sem quaisquer aspas. Por palavras menos piedosas, mas ainda assim, clericais, são as ocasiões em que, através do seu magistério, explica a fé da Igreja, na fidelidade ao depósito da Revelação (Escritura e tradição da Igreja). 
Quando, no Concílio Vaticano I, em 1870, a infalibilidade papal foi solenemente proclamada como dogma, é bom recordar que se estava num contexto polémico, pois as forças políticas europeias procuravam limitar o poder do Papa e a instituição eclesiástica era posta em causa. Pode-se dizer que pareceu importante aos bispos reafirmar, desta forma, o papel singular do Papa. 
O problema é que muitos cristãos idealizam a infalibilidade como a inexistência de fragilidade. Imaginam-na como a qualidade de quem nunca erra. Como se o Papa não fosse humano. Como se a sua humanidade estivesse de tal modo impregnada de divindade, que ele tivesse uma ligação tão profunda com Deus, que até soubesse os seus desígnios mais íntimos e fosse impedido pelo próprio Deus de ser um humano como os outros. Mas não é assim, e os últimos papas foram sinal de que são seres humanos e não possuem nenhum super poder. 
João Paulo II, por exemplo, pediu uma série de desculpas. Como a Galileu Galilei, aos condenados pela Inquisição, a muçulmanos mortos nas Cruzadas e a africanos escravizados com a ajuda da Igreja. Bento XVI continuou na mesma linha, emitindo, entre outros, aquele que na época foi definido como um pedido de desculpas histórico às vítimas de abuso sexual cometido por padres católicos na Irlanda. Mas o pontífice alemão não se desculpou apenas pelos fracassos institucionais da Igreja. Pediu desculpas pelos seus próprios. E deixou o pontificado. O Papa Francisco já pediu inúmeras desculpas e sugeriu a necessidade de cada um fazê-lo mais vezes. Diante daquela senhora a quem deu uma palmada na mão porque o agarrou exageradamente, pediu desculpa dizendo que até ele, às vezes, perdia a paciência. 
Eu acredito que os papas são um dom de Deus para a Igreja. São a pedra sobre a qual se edifica a Igreja. Mas, como Simão Pedro e como todos os apóstolos e discípulos de todo o tempo, não são deuses. São cristãos a caminho. São íntimos de Deus, mas não são Deus. São inspirados por obra e graça do Espírito Santo, mas não deixam de ser humanos. Eu gosto de fazer parte de uma Igreja que é frágil, para que seja Deus a força dela. Eu gosto de pensar que aquele que guia a Igreja é tão santo na sua infalibilidade como na sua humildade! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

sábado, fevereiro 06, 2021

A Betinha e a Senhora

A avó ofereceu à Betinha uma Nossa Senhora de Fátima. É uma imagem muito branquinha. Fica bem com o rosto níveo e pequenino da Betinha que fez há pouco tempo cinco aninhos. 
A ‘Senhora’, como a trata habitualmente, está na sua mesinha predilecta. Elogia-lhe a coroa e ai de quem lha tirar. Ninguém lhe pode mexer. Mesmo quando a mãe vai limpar o pó, não se livra de ouvir os cuidados que deve ter com a ‘Senhora’. Passa horas a conversar com ela. Neste tempo da pandemia conversa seriamente com ela sobre o que vai ouvindo a propósito do coronavírus que tem levado os velhinhos todos para o céu. Ela sabe que Jesus está lá no céu, mas era melhor a ‘Senhora’ ajudar as pessoas. 
Embora menos, às vezes também a trata por ‘Maria’. Sabes, Maria, eu vejo pessoas sem máscara, velhinhos e novos também. Eles são teimosos. Diz ao Jesus para lhes dizer que não estão a fazer bem. Eu sou pequenina e ponho. O bicho não se vê. Sopra-lhes ao ouvido. E, depois deste diálogo, reza sempre uma Ave-maria.
Nos dias mais frios coloca a ‘Senhora’ por detrás da foto dela, que também está na mesinha, e diz que assim a ‘Senhora’ não se constipa. Mais curioso é que, quando estão a rezar lá por casa e a irmã de três anitos diz que não quer ouvir, a Betinha diz “ai se a ‘Senhora’ sabe fica triste... Tu só fazes isso porque ainda não foste batizada e não descobriste que tens uma pessoa, que não vês, que te adora”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Chama-se Jesus"

terça-feira, fevereiro 02, 2021

paróquias com seguidores

Esta pandemia causada pelo novo coronavírus tem feito aumentar a presença das comunidades cristãs nas redes sociais. Com tudo o que isso possa trazer de bom e de questionável. Eu sou de opinião que é uma presença credível e oportuna. Em muitos casos poderá ser o modo mais viável de os agentes pastorais dessas comunidades prosseguirem a sua acção junto dos restantes elementos da comunidade. Poderá ser um modo excelente de alimento da fé. E embora a celebração da eucaristia na web seja mais uma transmissão que uma celebração, não discordo completamente de que possa ser momento de oração e de uma certa celebração. Portanto, a presença das paróquias ou unidades pastorais nas redes sociais torna-se cada vez mais uma oportunidade. Eu mesmo faço uso desta ferramenta. 
Contudo, algo no meio desta situação me tem intrigado. Sobretudo porque tenho recebido vários convites para seguir páginas de facebook de paróquias e comunidades cristãs que desconheço. Que não têm nenhum tipo de proximidade comigo para além da fé que nos une. Não sei porque os recebo. Mesmo tendo em conta que as partilhas possam ser úteis, que conhecer e acolher outras realidades é sempre positivo, e que a comunhão da Igreja está muito para além das minhas comunidades ou das comunidades que me são próximas. Fiquei a pensar se não seria, mais uma vez, aquela obsessão típica destes tempos em que vivemos, aquele modo de viver que se gasta a procurar seguidores, visualizações e likes. 
 

quarta-feira, janeiro 27, 2021

O amor que salva

O marido não ia à missa. Era bom homem. Como ela me confidenciava, nunca se queixava nem nunca dizia mal de quem quer que fosse. Estava sempre tudo bem. E dizem-me as outras pessoas que privavam com ele que tinha sempre uma palavra de alento. Uma palavra e uma atenção. Não era mau homem, senhor padre. Não era. Mesmo sem ir à missa, senhor padre. Não era mau homem. 
A viúva do senhor António é uma mulher de grande fé. Nunca falta à missa dominical. Mas não é por isso que acho que tem uma grande fé. Nas acções do dia a dia, na forma como vive as adversidades, que são muitas, no modo como encara a vida e o próximo. Em quase tudo da vida da viúva do senhor António vejo o esforço por se configurar com Cristo. Ama-o muito, como me diz. E é n’Ele que descansa as dificuldades. Mas agora perdeu quem mais amava, o seu mais que tudo, a outra face da sua vida. Era um casal com pouco mais de quarenta anos de matrimónio. Ainda tem uns bons anos pela frente até se reformar. E agora sente-se perdida. Sabe que Deus amava muito o seu marido, mas queria sossegar-se e por isso me perguntava se eu achava que o seu marido já estava no céu. Porque ele não ia à missa, mas era bom homem. Ela também sabia que não bastava ser bom para ter fé. Há muita gente sem fé que é imensamente bondosa. Mas ela queria que ele se salvasse e queria saber da minha boca que ele se salvava. 
Fui para casa pensar nestas coisas. O que lhe respondi na hora foi que o amor salvava. Disse-o de uma forma muito consciente, porque estou convicto de que é o Amor de Deus que nos salva. Que nós não compramos a salvação. Tal como o amor de Deus não tem medida, também estou convencido de que uma fé cheia de amor salva. Estou profundamente convencido que o amor e fé daquela mulher valem pelos dois, por ela e pelo marido. E fiquei a pensar nisto… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre, será que o meu marido está no céu?

sexta-feira, janeiro 22, 2021

ser bom ou fazer o que tem de ser

Veio ter comigo porque estava muito incomodada desde há uns três ou quatro dias a esta parte. Tinha dito a uma pessoa amiga um Não que lhe custara dizer. Que lhe custara dar. Estava habituada a dar-lhe sempre um Sim, mesmo quando ela não o merecia muito. Abria as suas portas e as portas da sua casa sempre que a outra amiga precisava. Fazia-o com amor, por amor, e mesmo que ela não o merecesse. Dizia-me isso porque esta vinha muitas vezes para sua casa, com familiares incluídos, onde dormia e comia sem problemas, e há umas duas dezenas de anos que não a retribuía com um convite a visitá-la em sua casa. Morava longe. Mas tão longe como ela da sua casa. A mesma distância. 
E agora, dizia-me, teve necessidade de pernoitar na terra onde ela morava. Precisara mesmo, senão não lhe tinha endereçado nenhum pedido. E sabe qual foi a resposta, senhor padre? Sabe? Não tenho cama para ti. Fosse como fosse, até porque lhe bastava um chão com uns cobertores. Não precisava senão ter onde ficar, para não ficar ao relento ou não ter de pagar um hotel ou pensão. E a amiga fechara-lhe a porta que já há anos não lhe abria. Custou-lhe. Não porque se sentisse traída na sua bondade. Ficara apenas sentida com o modo como a amiga tinha sido ingrata, sem grandes explicações. 
Mas passaram poucos dias, mesmo muito poucos, senhor padre, e a amiga pedira-lhe, novamente, asilo. O marido até se tinha zangado. E ela disse que não. Que desta vez não podia. Mas isso incomodava-a, até porque tinha para si, na sua forma de ser cristã, a meta da bondade sem interesse. 
Não lhe respondi para a sossegar. O que lhe disse, disse-o porque o penso assim. Uma coisa é ser bom. Outra coisa é fazer o que tem de ser, o mais correcto. Devemos sempre fazer o bem. Mesmo quando nos fazem mal ou não nos fazem bem. Devemos fazer o bem, como diz o ditado, sem saber a quem. Mas, às vezes, há coisas que temos de fazer porque têm de ser feitas, por bem. A amiga dela precisava de uma lição. Não podemos confundir ser bom com ser condescendente. Aquela sua amiga precisava de aprender a ser boa também. Ensinar alguém a fazer o bem é um grande gesto de bondade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Carlos que é meu sacristão"

domingo, janeiro 10, 2021

Um senhor que morreu e nasceu de novo

Na catequese do primeiro ano, a catequista, para ambientar o que era a catequese, perguntou ao seu pequeno grupo o que é que eles sabiam de Jesus, se já tinham ouvido falar dele e, nesse caso, o que tinham ouvido. Alguns ficaram calados. Era a primeira vez que estavam com a catequista e provavelmente não se sentiram à vontade para falar. O Afonsito, porém, que é uma criança com uma doença rara, mas com o entusiasmo de leão, como ele diz, quando chegou a sua vez, disse que sabia que ele era um senhor que tinha morrido e que tinha nascido de novo. 
Assim, tal e qual. Em três ou quatro palavras simples, resumiu o que a teologia demora muito em dizer e sintetizou o anúncio da Boa Nova. Claro que estou a brincar com o assunto, pois não há verdadeira comparação. Mas gostei imenso de ouvir esta resposta que diz tanto e diz na maneira pura e simples das crianças. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Chama-se Jesus"

sábado, dezembro 19, 2020

Não é uma porta fechada que fecha uma igreja.

Parou em frente da porta da Igreja. Avistei-o da janela quando passava por ela. Apreciei os gestos, a inclinação da cabeça, a idade visível nos cabelos brancos que desprendera da boina que segurava na mão esquerda. A direita tocou ao de leve na porta fechada da igreja. Depois, passados uns cinco minutos ou o que me pareceu ser esse tempo, levou essa mão à fronte e benzeu-se. Inclinou-se, em gesto que me pareceu de despedida, e seguiu o seu passeio. Deixei de o ver em pouco tempo. E fiquei ali preso à janela, a olhar a porta e a imaginar Deus lá de dentro a sorrir. Não é uma porta fechada que fecha uma igreja. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A menina que era para ficar à porta"

sábado, dezembro 12, 2020

Esta coisa dos dogmas da Igreja

Não é muito costume os leigos fazerem este tipo de perguntas. Embora tenhamos vindo a assistir nos leigos um progressivo afastamento da passividade eclesial, a verdade é que, até pela falta de formação religiosa que muitos têm, não costumam surpreender-nos com este tipo de perguntas. Mas a Deolinda é uma mulher culta, que lê muito e gosta que lhe expliquem as coisas de Deus e da Igreja que desconhece. E esta coisa dos dogmas, como ela disse, não as entendo muito bem. Afinal, o que são os dogmas, padre? 
Os dogmas são verdades de fé que a Igreja ensina como reveladas por Deus. Se quiser pode conferir isto no catecismo da Igreja Católica, ora deixe-me cá confirmar, entre os números setenta e quatro e noventa e cinco. São pontos firmes da nossa crença, deixe passar a expressão. Quase todos eles foram reconhecidos, como tal, em concílios, embora como resposta a heresias. E comecei a desfilar dogmas mais ou menos da seguinte forma. Os principais dogmas são: Deus é Uno e Trino; o Pai é o criador de todas as coisas; Jesus, seu Filho, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, encarnado, morto e ressuscitado pela nossa salvação; o Espírito Santo é Deus; a Igreja é una, como o Batismo é uno. E ainda: o perdão dos pecados; a ressurreição dos mortos; a existência do Paraíso, do Inferno e do Purgatório; a transubstanciação; a maternidade divina de Maria, a sua virgindade, concepção imaculada e Assunção. 
As caras que a Deolinda fazia a escutar-me denotavam o seu estado de espirito, o que acabou de revelar quando acabei. Fiquei quase na mesma, padre. Entendo que assim tenha de ser, mas não sei porque é assim. Sabe, padre, a mim os dogmas não me fazem ter nem mais nem menos fé. Nem sei bem para que é que eles servem, afinal. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "As desavenças entre a Senhora de Fátima e a Imaculada"

quarta-feira, dezembro 02, 2020

O Miguelito e o Papa

O Natal vem aí. E como está a chegar o tempo de escrever cartas ao “pai natal”, a mãe do Miguelito, que tem quatro anos, achou oportuno oferecer-lhe o livro que tem por título “Querido Papa” e contém respostas do Papa Francisco a cartas escritas por crianças de todo o mundo. Também achou que seria uma boa ideia propor-lhe redigirem uma carta ao Papa. O Miguelito, depois de ver o livro e porque não sabe ler, procurou-lhe Mamã, quem é o Papa? E ela respondeu dizendo que o Papa era o representante de Jesus na terra. Seguiram-se uns momentos de silêncio. Ele olhava o livro e depois olhava a mãe. Olhava de novo o livro e voltava a olhar de novo a mãe. À terceira não hesitou perguntar. Olha, mamã, o Papa Francisco também vai morrer na Cruz? A mãe, admirada pela associação que o filho fizera em tão tenra idade, respondeu-lhe imediatamente dizendo que Não, meu Filho. E a seguir ouviu o coração bom do Miguelito nas palavras: Se não, podíamos trazê-lo cá para casa para o proteger.

sexta-feira, novembro 27, 2020

Hóstias falsas

Contou-me uma paroquiana que ouvira um menino, todo pimpão, dizer que ia comer hóstias falsas. E que lhe contara como era o fato que ia vestir na festa da Primeira Comunhão. A senhora entendera a genuína alegria dele e porque falava nesta linguagem. Estava feliz o pimpão. E tinha motivos para tal. A festa que vamos realizar, com imensos cuidados por causa da pandemia, é motivo de sobra para a sua felicidade. E ao falar nas hóstias falsas, estava a falar, na sua linguagem, da experiência que vamos fazer com eles, para aprenderem como se comunga e o significado da hóstia consagrada versus o pedaço de farinha que vão hoje experimentar. 
No entanto, a expressão usada e a forma carinhosa, mas preocupada, com que esta paroquiana me contou a ocorrência, fez-me pensar, mais uma vez, na importância e valor que a comunhão tem ou não tem para nós. E consequentemente, na banalização que em determinadas ocasiões, se faz dela. Ou porque se comunga por comungar, como também se faz outra coisa qualquer. Ou porque não se comunga, como também não se faz uma série de coisas. 
Não sei até que ponto, mesmo nós cristãos adultos, percebemos o alcance enorme que é comungar o Senhor, recebê-lo dentro de nós, acolher esta partilha de um Deus que se faz banquete para nós. 
Mas nem tudo o que vamos ouvindo e lendo sobre o assunto é mau. Ainda há pouco tive a oportunidade de ler o testemunho de um famoso jurado do programa de culinária MasterChef em Espanha, vencedor de duas estrelas Michelin e dono de dois restaurantes, José “Pepe” Rodríguez Rey, dizer numa entrevista assim, tal e qual como escrevo, mas na sua língua castelhana: “Comungar é o que mais me alimenta”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Os Paulitos de hoje"

segunda-feira, novembro 23, 2020

As missas e a azeitona

Este domingo duas das minhas igrejas estavam a meia ocupação, mesmo descontando a meia ocupação da pandemia. Tal como eu já adivinhava, porque esta região vive rodeada de olivais. As pessoas têm de apanhar a azeitona, dê por onde der, seja em que dia for. Não é só a missa que faz parte das suas vidas. Também a azeitona faz. E por isso há épocas do ano, tal como a época das vindimas, em que as igrejas desta região se despovoam um pouco. Assim, no final das missas que ali celebrei, rezando também por aqueles que estavam na “apanha”, desejei boa azeitona, expressão típica de quem sabe o que é “andar à azeitona”. 
Já no regresso a casa, veio-me à memória um colega que, há uns anos, embora poucos, numa dessas celebrações um pouco mais vazias, por causa da azeitona, passara grande parte da homilia, zangado e a esbracejar, criticando quem tinha ido à azeitona. A parte da homilia que ainda hoje me custa mais a engolir, foi aquela parte em que ele deixou no ar o desejo de que alguns caíssem de alguma oliveira e partissem uma perna, para aprenderem que não deveriam ter faltado à missa. Ainda hoje não entendo como é possível fazer afirmações deste tipo, mesmo que nos custe presidir a uma celebração para meia dúzia de pessoas. Como se a bondade de Deus só devesse existir para com os que vão à missa. No que a mim diz respeito, eu rezo para que não caiam das oliveiras e possam voltar rapidamente à missa.

quinta-feira, novembro 19, 2020

Tratar dos pobres

Curvado pela idade, com a ajuda de uma bengala, o senhor José bateu à porta do senhor prior. Estava na hora do almoço, mas era dia mundial dos pobres e o senhor José tinha pressas de fazer o bem. Trazia um envelope no bolso para o senhor prior dar aos pobres. Quando o pároco lhe abriu a porta, achou estranha a hora deste amigo que admira muito. A missa tinha acabado há poucos minutos. Ó senhor José, tinha tempo. Não era preciso ter vindo agora. Mas o senhor José tinha a tensão muito alta e não baixava. Já tomara duas vezes a medicação e a tensão não baixava. Tinha de ir ao centro de saúde. Mas não queria ir sem antes deixar o envelope. Ó senhor José, tinha tempo. Teria sido mais prudente em ir primeiro ao centro de saúde. Ai, senhor José, reclamava o padre, um pouco preocupado. 
Mas o senhor José, antes de tratar de si, tinha de tratar dos pobres da paróquia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A Rosária"

segunda-feira, novembro 16, 2020

Doer sem tempo para doer

Morre-se mal nestes tempos. Muito mal. Nos funerais em tempo de pandemia morre-se por fora e por dentro. Um pedaço enorme de nós seca. Seca curiosamente diante das despedidas reduzidas a lágrimas. Sim, na maior parte dos funerais, a despedida é feita quase exclusivamente de lágrimas. Que nos secam por dentro. 
E hoje sei na primeira pessoa que assim é. Quando não foi possível despedir-me como queria do meu cunhado mais velho. Ou seja, do meu irmão mais velho. Sem o ver. Quase sem tempo de velório. Na ansiedade de autopsias e testes covid, porque assim tem de ser para quem morre na via pública. Cinco dias disto. Cinco dias a segurar lágrimas às escondidas da minha irmã. Pois que as suas eram mais abundantes e mais constantes. Na verdade, serviu para amadurecer a dor. Para escolher bem as leituras e a homilia. Graças a Deus que foi possível celebrar a missa com a família, porque em muitos casos e zonas nem é possível. Nem a missa nem o velório. Tudo se reduz a uns quinze minutos no cemitério com poucas presenças. Vem-me constantemente à ideia as centenas de amigos que ficaram sem se despedir, porque não cabiam na despedida. 
A nossa despedida foi muito digna. Foi uma festa linda. Entregámos tudo a Deus e respondemos à dor com a fé. É o que resta. É o que vale. Senti, porém, que estes funerais são como uma ferida que tem de sarar por si mesma, numa imunidade forçada sem remédios. Uma dor sem tratamento. As perdas deixam cicatrizes. Sem tempo para a despedida, para o luto da despedida, a ferida fica escondida. E dói mais. É quase como doer sem tempo para doer. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Levar com alegria o sofrimento?"

quarta-feira, novembro 11, 2020

parece que nos estamos a despedir de criminosos

Há vários dias consecutivos que um colega tem feito funerais de pessoas que foram vítimas do novo coronavírus. Ao momento que redijo este pequeno texto, já lá vão uns cinco. E amanhã vai outro a sepultar. E contava. As minhas celebrações exequiais – que são no cemitério, recordo - estavam a durar apenas uns quinze minutos. Agora não chegam a dez! Tenho pena desta gente. Às vezes parece que nos estamos a despedir de criminosos. Completava, depois, com muita mágoa nas palavras. Deus nos ajude a ser instrumentos de esperança e conforto na dor de quem chora. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Funerais a fugir"

segunda-feira, novembro 09, 2020

A santidade dos que não são santos

O dia de Todos os Santos tem destas coisas. Faz-nos pensar na santidade. E toda a gente gosta deste dia. Primeiro, por ser feriado. Mas depois porque a piedade popular gosta de santos, devoções, ermidas e coisas ligadas aos santos das suas devoções. O que é bom. Muito bom. Mas que, nalgumas ocasiões precisa de uma certa purificação. Digo-o porque me parece que muitos dos nossos cristãos pedem muita interceção aos santos canonizados e pouca a Deus, mesmo que através desses mesmos santos. E também o refiro porque sei, pela teologia, o magistério da Igreja e, sobretudo, pelo meu próprio entendimento da fé, que a santidade é a nossa vocação universal. Não a santidade dos santinhos. Mas a santidade do dia-a-dia. 
Os santos dos altares são estímulos para a nossa santidade. Mas também eles viveram como nós, na fragilidade dos dias. A santidade não é nem uma conquista nem um prémio. Não é uma conquista que fazemos, nem um prémio pelos nossos méritos. Não é uma moeda de troca com Deus. É caminho para Ele. É comunhão com Ele. É a busca de nos configurarmos com Cristo. Como dizemos na Eucaristia, é a vida que procura viver “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Por isso não é privilégio de alguns, mas um dever de todos os seus discípulos. Ser santo é, aliás, na minha maneira de ver, a única maneira de ser verdadeiramente cristão. 
A solenidade de Todos os Santos serve para honrar e recordar todos os santos. Mas serve, acima de tudo, para nos recordar que todos somos chamados à santidade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Carlos que é meu sacristão"

sexta-feira, novembro 06, 2020

A morte como um fim

Celebrámos há dias o Dia dos Fieis Defuntos ou, como é conhecido em muitos lados, o Dia dos Finados. Sim, o dia daqueles que supostamente, como a palavra indica, findaram, chegaram ao fim. E este ano, apesar de não ter sido possível realizar romagens comunitárias, passei por todos os cemitérios a rezar pelos que já partiram e, de certo modo, são também meus, porque estão sepultados nos cemitérios das minhas comunidades paroquiais. 
Num desses cemitérios, chamou-me a atenção uma senhora que colocava umas rosas na campa do marido que fora a sepultar neste tempo de pandemia. Nem a máscara impedia que as lágrimas caíssem sobre as rosas. Para as regar. Conversámos um pouco entre alguns soluços partilhados. E às tantas ela usou a palavra do “fim”. Que o seu marido chegara ao fim. E que a sua vida estava também a chegar ao fim. 
Aquelas palavras chegaram ao âmago do que penso sobre a morte e a ressurreição. E aquele momento ajudou-me a fazer a homilia desse dia, ao entardecer. Entre outras coisas, falei da morte como um fim. Sim, como um fim. Mas não o tal fim da senhora do cemitério. Não falei da morte como um fim onde se coloca um ponto final. Falei desse fim como uma finalidade. Falei da morte com um fim de finalidade, de propósito, de objectivo. Afinal todos morremos com o objectivo de podermos chegar à comunhão plena com o amor do mesmo Deus que nos deu a vida.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre, será que o meu marido está no céu?!"