O Natal vem aí. E como está a chegar o tempo de escrever cartas ao “pai natal”, a mãe do Miguelito, que tem quatro anos, achou oportuno oferecer-lhe o livro que tem por título “Querido Papa” e contém respostas do Papa Francisco a cartas escritas por crianças de todo o mundo. Também achou que seria uma boa ideia propor-lhe redigirem uma carta ao Papa. O Miguelito, depois de ver o livro e porque não sabe ler, procurou-lhe Mamã, quem é o Papa? E ela respondeu dizendo que o Papa era o representante de Jesus na terra. Seguiram-se uns momentos de silêncio. Ele olhava o livro e depois olhava a mãe. Olhava de novo o livro e voltava a olhar de novo a mãe. À terceira não hesitou perguntar. Olha, mamã, o Papa Francisco também vai morrer na Cruz? A mãe, admirada pela associação que o filho fizera em tão tenra idade, respondeu-lhe imediatamente dizendo que Não, meu Filho. E a seguir ouviu o coração bom do Miguelito nas palavras: Se não, podíamos trazê-lo cá para casa para o proteger.
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quarta-feira, dezembro 02, 2020
sexta-feira, novembro 27, 2020
Hóstias falsas
Contou-me uma paroquiana que ouvira um menino, todo pimpão, dizer que ia comer hóstias falsas. E que lhe contara como era o fato que ia vestir na festa da Primeira Comunhão. A senhora entendera a genuína alegria dele e porque falava nesta linguagem. Estava feliz o pimpão. E tinha motivos para tal. A festa que vamos realizar, com imensos cuidados por causa da pandemia, é motivo de sobra para a sua felicidade. E ao falar nas hóstias falsas, estava a falar, na sua linguagem, da experiência que vamos fazer com eles, para aprenderem como se comunga e o significado da hóstia consagrada versus o pedaço de farinha que vão hoje experimentar.
No entanto, a expressão usada e a forma carinhosa, mas preocupada, com que esta paroquiana me contou a ocorrência, fez-me pensar, mais uma vez, na importância e valor que a comunhão tem ou não tem para nós. E consequentemente, na banalização que em determinadas ocasiões, se faz dela. Ou porque se comunga por comungar, como também se faz outra coisa qualquer. Ou porque não se comunga, como também não se faz uma série de coisas.
Não sei até que ponto, mesmo nós cristãos adultos, percebemos o alcance enorme que é comungar o Senhor, recebê-lo dentro de nós, acolher esta partilha de um Deus que se faz banquete para nós.
Mas nem tudo o que vamos ouvindo e lendo sobre o assunto é mau. Ainda há pouco tive a oportunidade de ler o testemunho de um famoso jurado do programa de culinária MasterChef em Espanha, vencedor de duas estrelas Michelin e dono de dois restaurantes, José “Pepe” Rodríguez Rey, dizer numa entrevista assim, tal e qual como escrevo, mas na sua língua castelhana: “Comungar é o que mais me alimenta”.
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segunda-feira, novembro 23, 2020
As missas e a azeitona
Este domingo duas das minhas igrejas estavam a meia ocupação, mesmo descontando a meia ocupação da pandemia. Tal como eu já adivinhava, porque esta região vive rodeada de olivais. As pessoas têm de apanhar a azeitona, dê por onde der, seja em que dia for. Não é só a missa que faz parte das suas vidas. Também a azeitona faz. E por isso há épocas do ano, tal como a época das vindimas, em que as igrejas desta região se despovoam um pouco. Assim, no final das missas que ali celebrei, rezando também por aqueles que estavam na “apanha”, desejei boa azeitona, expressão típica de quem sabe o que é “andar à azeitona”.
Já no regresso a casa, veio-me à memória um colega que, há uns anos, embora poucos, numa dessas celebrações um pouco mais vazias, por causa da azeitona, passara grande parte da homilia, zangado e a esbracejar, criticando quem tinha ido à azeitona. A parte da homilia que ainda hoje me custa mais a engolir, foi aquela parte em que ele deixou no ar o desejo de que alguns caíssem de alguma oliveira e partissem uma perna, para aprenderem que não deveriam ter faltado à missa. Ainda hoje não entendo como é possível fazer afirmações deste tipo, mesmo que nos custe presidir a uma celebração para meia dúzia de pessoas. Como se a bondade de Deus só devesse existir para com os que vão à missa. No que a mim diz respeito, eu rezo para que não caiam das oliveiras e possam voltar rapidamente à missa.
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quinta-feira, novembro 19, 2020
Tratar dos pobres
Curvado pela idade, com a ajuda de uma bengala, o senhor José bateu à porta do senhor prior. Estava na hora do almoço, mas era dia mundial dos pobres e o senhor José tinha pressas de fazer o bem. Trazia um envelope no bolso para o senhor prior dar aos pobres. Quando o pároco lhe abriu a porta, achou estranha a hora deste amigo que admira muito. A missa tinha acabado há poucos minutos. Ó senhor José, tinha tempo. Não era preciso ter vindo agora. Mas o senhor José tinha a tensão muito alta e não baixava. Já tomara duas vezes a medicação e a tensão não baixava. Tinha de ir ao centro de saúde. Mas não queria ir sem antes deixar o envelope. Ó senhor José, tinha tempo. Teria sido mais prudente em ir primeiro ao centro de saúde. Ai, senhor José, reclamava o padre, um pouco preocupado.
Mas o senhor José, antes de tratar de si, tinha de tratar dos pobres da paróquia.
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segunda-feira, novembro 16, 2020
Doer sem tempo para doer
Morre-se mal nestes tempos. Muito mal. Nos funerais em tempo de pandemia morre-se por fora e por dentro. Um pedaço enorme de nós seca. Seca curiosamente diante das despedidas reduzidas a lágrimas. Sim, na maior parte dos funerais, a despedida é feita quase exclusivamente de lágrimas. Que nos secam por dentro.
E hoje sei na primeira pessoa que assim é. Quando não foi possível despedir-me como queria do meu cunhado mais velho. Ou seja, do meu irmão mais velho. Sem o ver. Quase sem tempo de velório. Na ansiedade de autopsias e testes covid, porque assim tem de ser para quem morre na via pública. Cinco dias disto. Cinco dias a segurar lágrimas às escondidas da minha irmã. Pois que as suas eram mais abundantes e mais constantes. Na verdade, serviu para amadurecer a dor. Para escolher bem as leituras e a homilia. Graças a Deus que foi possível celebrar a missa com a família, porque em muitos casos e zonas nem é possível. Nem a missa nem o velório. Tudo se reduz a uns quinze minutos no cemitério com poucas presenças. Vem-me constantemente à ideia as centenas de amigos que ficaram sem se despedir, porque não cabiam na despedida.
A nossa despedida foi muito digna. Foi uma festa linda. Entregámos tudo a Deus e respondemos à dor com a fé. É o que resta. É o que vale. Senti, porém, que estes funerais são como uma ferida que tem de sarar por si mesma, numa imunidade forçada sem remédios. Uma dor sem tratamento. As perdas deixam cicatrizes. Sem tempo para a despedida, para o luto da despedida, a ferida fica escondida. E dói mais. É quase como doer sem tempo para doer.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Levar com alegria o sofrimento?"
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quarta-feira, novembro 11, 2020
parece que nos estamos a despedir de criminosos
Há vários dias consecutivos que um colega tem feito funerais de pessoas que foram vítimas do novo coronavírus. Ao momento que redijo este pequeno texto, já lá vão uns cinco. E amanhã vai outro a sepultar. E contava. As minhas celebrações exequiais – que são no cemitério, recordo - estavam a durar apenas uns quinze minutos. Agora não chegam a dez! Tenho pena desta gente. Às vezes parece que nos estamos a despedir de criminosos. Completava, depois, com muita mágoa nas palavras. Deus nos ajude a ser instrumentos de esperança e conforto na dor de quem chora.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Funerais a fugir"
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segunda-feira, novembro 09, 2020
A santidade dos que não são santos
O dia de Todos os Santos tem destas coisas. Faz-nos pensar na santidade. E toda a gente gosta deste dia. Primeiro, por ser feriado. Mas depois porque a piedade popular gosta de santos, devoções, ermidas e coisas ligadas aos santos das suas devoções. O que é bom. Muito bom. Mas que, nalgumas ocasiões precisa de uma certa purificação. Digo-o porque me parece que muitos dos nossos cristãos pedem muita interceção aos santos canonizados e pouca a Deus, mesmo que através desses mesmos santos. E também o refiro porque sei, pela teologia, o magistério da Igreja e, sobretudo, pelo meu próprio entendimento da fé, que a santidade é a nossa vocação universal. Não a santidade dos santinhos. Mas a santidade do dia-a-dia.
Os santos dos altares são estímulos para a nossa santidade. Mas também eles viveram como nós, na fragilidade dos dias. A santidade não é nem uma conquista nem um prémio. Não é uma conquista que fazemos, nem um prémio pelos nossos méritos. Não é uma moeda de troca com Deus. É caminho para Ele. É comunhão com Ele. É a busca de nos configurarmos com Cristo. Como dizemos na Eucaristia, é a vida que procura viver “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Por isso não é privilégio de alguns, mas um dever de todos os seus discípulos. Ser santo é, aliás, na minha maneira de ver, a única maneira de ser verdadeiramente cristão.
A solenidade de Todos os Santos serve para honrar e recordar todos os santos. Mas serve, acima de tudo, para nos recordar que todos somos chamados à santidade.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Carlos que é meu sacristão"
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sexta-feira, novembro 06, 2020
A morte como um fim
Celebrámos há dias o Dia dos Fieis Defuntos ou, como é conhecido em muitos lados, o Dia dos Finados. Sim, o dia daqueles que supostamente, como a palavra indica, findaram, chegaram ao fim. E este ano, apesar de não ter sido possível realizar romagens comunitárias, passei por todos os cemitérios a rezar pelos que já partiram e, de certo modo, são também meus, porque estão sepultados nos cemitérios das minhas comunidades paroquiais.
Num desses cemitérios, chamou-me a atenção uma senhora que colocava umas rosas na campa do marido que fora a sepultar neste tempo de pandemia. Nem a máscara impedia que as lágrimas caíssem sobre as rosas. Para as regar. Conversámos um pouco entre alguns soluços partilhados. E às tantas ela usou a palavra do “fim”. Que o seu marido chegara ao fim. E que a sua vida estava também a chegar ao fim.
Aquelas palavras chegaram ao âmago do que penso sobre a morte e a ressurreição. E aquele momento ajudou-me a fazer a homilia desse dia, ao entardecer. Entre outras coisas, falei da morte como um fim. Sim, como um fim. Mas não o tal fim da senhora do cemitério. Não falei da morte como um fim onde se coloca um ponto final. Falei desse fim como uma finalidade. Falei da morte com um fim de finalidade, de propósito, de objectivo. Afinal todos morremos com o objectivo de podermos chegar à comunhão plena com o amor do mesmo Deus que nos deu a vida.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre, será que o meu marido está no céu?!"
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quinta-feira, outubro 22, 2020
A pandemia descristianizante
Há dias, um cardeal, o cardeal Jean-Claude Hollerich, disse, numa entrevista, que a pandemia tinha acelerado a descristianização da Europa e que muita gente que ia à missa só por um hábito cultural deixaria de ir. E acrescentava que a pandemia só adiantara um processo que, na sua opinião, apenas tinha sido adiantado uns dez anos. E é capaz de ter alguma razão este cardeal.
Iniciámos a catequese da paróquia nestes dias. De entre as festas da catequese que ficaram por fazer no ano pastoral passado, quisemos começar pelo sacramento da Eucaristia, a festa da Primeira Comunhão. Vamos realizá-la em breve, assim Deus e as circunstâncias o permitam. Para a preparar, reunimos os pais, obviamente que com os cuidados necessários derivados da pandemia. E ali estavam três dezenas de rostos que há muito não vejo na igreja. Graças a Deus que estavam ali. Mas, infelizmente, não os tenho visto nas celebrações da comunidade.
Na verdade, a pandemia veio hipotecar um certo trabalho que esta minha comunidade cristã vinha fazendo com os pais dos nossos catequisandos e com o qual se vinha aumentando o número de pais e crianças na eucaristia dominical. Mas agora não têm ido. Independentemente das razões, dos medos, das inseguranças de cada um, o cardeal é bem capaz de ter alguma razão. Esta pandemia não tem ajudado a alimentar a fé comunitária. Pelo menos essa. Ou pelo menos a dimensão comunitária da fé, que tão importante é para alimentar a verdade de uma fé que vive o “nisto conhecerão que sois meus discípulos; se vos amardes uns aos outros”.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queres ficar à missa?"
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terça-feira, outubro 20, 2020
O paroquiano que reza pelo seu pároco
O senhor Manuel, que é um bom homem e é meu paroquiano, dizia-me que todos os dias rezava por mim. Como eu achava aquilo fantástico, gostava de o ouvir. Creio que ele também gostava de o repetir. E um dia destes, num dos nossos diálogos, regressámos ao assunto. A sério? Mas reza mesmo todos os dias por mim? Agora fora de brincadeiras, reza todos os dias por mim? Insistia eu. A resposta não se fez esperar. Mas não foi propriamente a que eu estava habituado a ouvir. Sim, senhor padre. Eu também rezo todos os dias pelos pecadores.
Não sei se lhe saiu assim, se respondeu sem pensar, se respondeu com maldade, ou com intenção natural de nos rirmos. Mas que me ri, ri.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O burro do Alfredo"
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sexta-feira, outubro 16, 2020
Gostar das pessoas
Foi num país africano que ocorreu o que vou contar. Era, na altura, um país onde os missionários ad gentes andavam de terra em terra, ou de missão em missão, como diziam, para cuidar das almas daqueles convertidos. O padre João fazia parte deste grupo de missionários. Tinha fama de zeloso e de realizar bons trabalhos de evangelização. Prova disso era o tempo que despendia a escutar as pessoas. Durasse o tempo que durasse. Como aconteceu num determinado dia, data que interessa pouco porque fazia parte de um dia normal e os dias normais a gente não sabe datar. O que interessa é que o padre João, nesse dia, estivera três horas a escutar um velhinho. O professor lá da terra que, de longe, tomara conta desta acção do padre João, no dia seguinte foi ter com ele para lhe dizer, com agrado, que já tinha percebido que o padre João gostava muito deles. Que gostava muito desta gente lá da terra. Como o nosso amigo padre não percebera onde fizera essa descoberta, perguntou-lhe porque fazia tal afirmação. E o professor respondeu. Só quem gosta muito de nós pode estar três horas a ouvir um velhinho.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Que esse Jesus não era um gajo fixe"
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sábado, outubro 10, 2020
Uma fé que quer Deus sem esforço
A Olívia é uma jovem mãe com duas filhas em idade de crescimento e andam na catequese. Tem olhos de quem Deus lhe diz alguma coisa. Tem expressões que me parecem do mesmo som das de Deus. Ressoa um pouco de Deus. Mas não vai à missa, esse acto relacional da comunidade a que chamamos, e bem, sacramento da eucaristia. Tem as suas ideias. Gosta de Deus. Quer que Ele esteja presente na sua vida, sobretudo agora que está doente. Mas não quer esforçar-se por Ele.
Eu não posso afirmar que a Olívia não esteja a fazer um caminho de fé interior. Mas, às vezes, de tão interior que a fé se torna, ela passa ao plano do privado e esquece que a própria intimidade com Deus é uma relação de afecto que precisa de aprender-se no afecto com o outro ou os outros. Ela não quer esforçar-se ou não sabe que precisa de se esforçar por Deus. Como no namoro ou no matrimónio, quem ama precisa esforçar-se pelo amado. Ao menos para explorar o profundo desse sentimento relacional. Quem ama não pode contentar-se com o sentimento que nutre pelo amado. Precisa esforçar-se por ele! Torná-lo fecundo.
É um pouco assim que eu vejo a fé de muitas outras olívias pelo mundo fora, que até são coerentes e autênticas num certo sentimento que têm com Deus, mas não se querem esforçar para além desse sentimento, fruto de uma sociedade sem compromisso, responsabilidade e sacrifício, uma sociedade líquida à qual basta a superficialidade das relações, mesmo que sejam verdadeiras.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queria saber como posso ter fé"
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quinta-feira, outubro 01, 2020
Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência
Dizem por aí que as pessoas se confessam cada vez menos. Ou que há menos pessoas a confessar-se. Assim como também há cada vez menos padres a disponibilizar tempos e espaços de confissão. Há uma grande probabilidade de tudo isto ser verdade. E isso, de certo modo, fala da imaturidade da fé ou espiritualidade dos nossos cristãos.
Contudo, também podemos falar daqueloutro grupo de pessoas que, dentro do grupo dos que ainda se confessam, o fazem para cumprir. E dizem coisas que já não lembram a ninguém. Não mato e não roubo, senhor padre. E fica-se por aí. Não gosto deste tipo de confissões como máquina de relatar pecados em série, que afinal são não pecados. Uma vez por ano tenho de confessar-me. Não interessa como. Não interessa porquê. Nem para quê. Interessa que cumpra. Se o padre sugere uma Celebração Penitencial, que é isso? Perguntam. Não faz sentido. O meu sentido é aquilo a que me habituei. E faz-lhes sentido que assim seja.
E depois temos pessoas que se confessam a dizer o que não fizeram. Ou as virtudes que fizeram. Ou então resumem o seu pecado a pormenores que não entram dentro do coração ou da vida da própria pessoa. As pessoas nem fazem exame de consciência. Que é isso, senhor padre? Já para não referir o número de pessoas que se ajoelha e diz: Senhor padre, não sei o que confessar. Pergunte-me lá. Porque se habituaram a que o padre indicasse quais eram os seus pecados. Tipo pergunta-resposta, ou teste de cruzinhas.
Às vezes infantilizamos o sacramento da penitência.
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sábado, setembro 26, 2020
A sociedade irritada V
Hoje usamos as redes sociais porque, para além de ser moda, é o foco da nossa personalização ou identidade, o local onde, como os adolescentes em tempos de emancipação, se procura manifestar uma personalidade. Ou melhor, para se dizer que se existe. Como se isso fosse a personalidade de uma pessoa ou a identificasse! Por isso as redes sociais se tornaram o mundo das opiniões, dos comentadores de bancada, dos julgamentos sem juiz. Por isso se tornaram o álbum favorito das nossas pequenas demonstrações do que visitamos, do que vestimos, do que comemos, das pessoas que nos acompanham, do que fazemos… mesmo que isso diga apenas uma muito ínfima parte de quem somos. Mas o importante é mostrarmos que somos! Por isso somos cada vez mais virtuais e a nossa personalidade é cada vez mais bipolar.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I", "A sociedade irritada II", "A sociedade irritada III" e "A sociedade irritada IV"
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sexta-feira, setembro 18, 2020
A oração como saída de nós mesmos
Quando ela me disse que não ouvia Deus na oração, que não lhe eram atendidos os pedidos que fazia, que não costumava sentir nada de especial na oração, senti-me obrigado a explicar-lhe onde estava o seu pequeno erro na forma como orava.
A verdadeira oração vai ao encontro. Não é um monólogo. Não são palavras sem sentido. Mesmo quando são repetições ou fórmulas. A verdadeira oração é relação. Abertura a Deus. A Oração é encontro com o outro, um diálogo aberto do homem com o Tu absoluto.
Por isso não podemos fazer dela apenas um recurso psicológico para resolver os nossos problemas, ou um recurso narcisista para nos sentirmos bem. Por isso não podemos fazer dela o constante pedido de favores ou uma busca desesperada de nos sentirmos bem. A verdadeira oração faz-nos sair de nós mesmos e do nosso egocentrismo. Ela deveria ser espaço de relação, de saída e de abandono na direcção de Deus.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é a minha arma"
sexta-feira, setembro 04, 2020
Os abusos da caridade
Ligavam e pediam. E a Manuela, minha paroquiana, dava. Ligavam e pediam. E a Manuela dava. Continuavam a ligar e a pedir, e a Manuela dava, mesmo sem o marido saber. Mesmo sem conhecer muito bem a instituição do outro lado da linha do telefone. Mas podia dar. E dava. Aprendera que a caridade é dar sem saber a quem. Mas, como nem tudo parece o que é, ou é o que parece, no último ano, tornaram a ligar, e a Manuela, porque o seu marido acabara de falecer, porque achava que não era oportuno, porque estava sem vontade anímica para nada, explicou humildemente que o momento não era muito bom, que compreendesse, pois o marido falecera há pouco, que talvez noutra ocasião. E então ouviu do outro lado da linha algo que lhe perfurou o coração através dos ouvidos. Porque é que me está a mentir? A senhora está a mentir, só para não dar. Padre, foi como se tivesse bebido água ardente a pensar que era água natural. Nem consegui desligar o telefone. Foi a menina do outro lado que o desligou. A menina também não precisava dizer mais nada. Agora a Manuela percebera tudo. Finalmente.
Há pedidos de caridade estranhos. Esquisitos. Ou melhor, fora da caridade. Verdadeiros abusos para quem vive a caridade e da verdadeira caridade.
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sábado, agosto 29, 2020
Agulhas, camelos e ricos
O padre relia e actualizava, na homilia, aquela passagem que fala de agulhas, camelos e ricos. Com certeza se recordam de Jesus ter dito que era mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. O padre ufanava-se para esclarecer a passagem. Entusiasmado, esbracejava. Agarrava-se ao micro. A homilia estava ao rubro quando, por engano, acabou dizendo que era mais fácil entrar uma agulha pelo fundo do camelo, do que um rico. Toda a assembleia sorriu sem ruído. Ou seja, para dentro. Mas nisto, um senhor lá do meio da assembleia, um daqueles senhores bem-dispostos, interessados e castiços, exclamou. Com jeitinho, até é capaz! E aí toda a gente se escangalhou de vez. Até o padre.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "De rabo para o ar"
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quinta-feira, agosto 20, 2020
Os sucessos pastorais não são nossos
A vida de um padre não depende dos sucessos pastorais ou apostólicos. Não depende do que fazemos nem do que conseguimos alcançar com o que fazemos. Não depende de momentos entusiastas em que a nossa existência e missão parecem fazer sentido. A vida de um padre depende exclusivamente de Deus.
O padre não é padre porque seja perfeito. Ou porque seja impecável. Ou porque possua muitas capacidades. Ou ainda porque seja místico ou santo. O padre é padre porque um dia Deus quis que ele fosse padre. Que deixasse Deus actuar de uma forma especial através dele. Por isso a vida de um padre também não se deve deter nas fragilidades que o apoquentam, mas na força de Deus. Dizia S. Paulo que nas fragilidades se fazia forte. Dizia que era através das suas fragilidades que a força de Deus se manifestava. Os frutos do trabalho do apóstolo eram os frutos do trabalho de Deus.
Os frutos, os sucessos, as vitórias da nossa missão apostólica, são os passos que Deus vai dando através de nós.
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As flores que valem vidas"
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domingo, julho 26, 2020
Abandono em tempos de pandemia
No país que mora ao lado do nosso, Espanha, segundo um estudo que me pareceu fidedigno, o número de católicos diminuiu cinco pontos percentuais em dois meses, de abril a junho, isto é, em dois meses de pandemia e confinamento. É uma observação um pouco estranha, na medida em que dois meses não são dois anos, e as pessoas não mudam o seu entendimento da vida e da fé em tão pouco tempo. Ou se calhar mudam. Não sei. O que sei é que a assiduidade à eucaristia, sobretudo nas paróquias urbanas, tem diminuído. Pelo menos parece-me, do que vou ouvindo e vendo.
Jesus não falou de templos ou igrejas, é verdade. Também não organizou propriamente uma religião. A fé, acima de tudo, vive-se. Mas também se alimenta nas celebrações. Precisa de se alimentar. Estes tempos frágeis e de abandono dos templos poderiam ter o lado positivo de se religar a fé ao Evangelho, mais que aos sacramentos. Temo, porém, que, dentro da sociedade líquida, pluralista e pos-secularista em que vivemos, o abandono seja mais a consequência do modo social de ver a fé e a igreja ou a religião.
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domingo, julho 19, 2020
Padres ou cabeleireiros
A alegria daqueles idosos que me receberam no lar para a eucaristia não tem como contar-se. A directora técnica lembrara-se de me propor, com todos os cuidados e mais algum, que passasse por lá a rezar com eles, a celebrar com eles. Estavam radiantes e, apesar de usar máscara e viseira, protecção dos sapatos, álcool gel constante, e de nunca me ter aproximado deles, também eu lhes senti o pulsar. Por isso partilhei esse sentimento com uma pessoa responsável de outro lar nas minhas comunidades, dispondo-me a fazer o mesmo, caso achassem oportuno e assegurassem os cuidados e normas imprescindíveis.
Assim que essa pessoa teve oportunidade de conversar com alguns utentes, e como quem não quer a coisa, contou que o senhor padre fora celebrar missa a um outro lar e perguntava se não seria boa ideia ele vir cá também. E a resposta do senhor José não se fez esperar. O melhor mesmo era vir cá a cabeleireira!
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Américo faltou à missa"
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