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sábado, março 17, 2018

Sabemos pouco da vida

Sabemos muito pouco da vida. O destino precede-nos como a sombra que caminha à nossa frente. O mundo domina-nos. Não somos nem o seu dono nem o patrão que lhe paga o salário. Somos o seu empregado. Dizemos que nos entregamos nas mãos de Deus, mas não lhe conhecemos o tamanho, a cor, as rugas, os calos e o calor que delas imana. Dizemo-lo porque a vida nos ultrapassa e não sabemos como a dominar. Vamos vivendo como se não morrêssemos. Como se estar aqui fosse habitar uma selva onde se sobrevive a pensar na hora em que somos apanhados numa armadilha. 
E alguém é capaz de perguntar se também os padres não sabem da vida quando têm uma ligação especial ao outro lado da vida. Não sei se têm ou não uma ligação especial com esse lado. Se têm explicações da fé para a vida. Apenas posso falar por mim. O que me parece é que pouco perguntamos da vida e pouco sabemos dela. Vivemos. Uns de forma mais consciente ou consistente, e outros vão andando sem saber porquê. Pessoalmente gostava de entrar nas entranhas mais profundas de Deus para perceber esse porquê. Para entender o que não entendo da vida. Também eu me entrego nas suas mãos. Mas preferia entregar-me ao seu coração.

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Beijar o menino Jesus

A senhora, que é minha paroquiana de uma das sete anexas que estão ao meu cuidado, para além das sete paróquias que fazem actualmente parte da minha missão como pároco, veio ao meu encalço antes de uma das eucaristias que, mais ou menos, duas vezes por mês, celebro nessa comunidade anexa. Passara pouco tempo da época natalícia, e ela demonstrava a sua insatisfação pelo facto de eu não ter lá ido proporcionar-lhes, como ela disse, a possibilidade de “beijar o menino”. 
Primeiro respondi-lhe, em tom acolhedor, que me era impossível, por mais que quisesse, aceder a todo esse tipo de pedidos numa ocasião como o Natal. Bem compreendia, e repito que compreendo cada vez mais e melhor como é importante para as pessoas determinadas tradições que acabam por fazer parte da nossa tradição católica. Cada vez sinto mais que devemos esforçar-nos por manter coisas que, no fundo, nos caracterizam. O “beijar o menino”, apesar de ter muito que se lhe diga em termos eclesiais, higiénicos e sociais, parece-me que faz parte desse conjunto de coisas a manter. No entanto, como já não é possível fazer o que se fazia há uns anos, quando um padre tinha a seu cargo poucas comunidades, também não seria possível celebrar mais missas do que as que celebrei pelo Natal. Nem foi possível celebrar eucaristia em todas as paróquias. Claro que poderia ter lá ido posteriormente. Acabou por me ser impossível. Afinal, também lhes tinha proporcionado celebrar festivamente a alegria de um Deus que nos ama no dia 23 de dezembro, um sábado bem perto do Natal. 
Mas todas essas explicações não foram suficientes para ela, que começou, numa expressão tipicamente portuguesa, por “desbaratinar”. Eu quase “desbaratinava” também. Mesmo assim, deu-me a oportunidade para, no final da eucaristia, recordar algumas coisas que me pareceram importantes, como por exemplo, que já não é possível fazer o “de sempre” e que, mais cedo do que pensamos, até o que temos vai ser difícil assegurar. Ou que é sempre possível deslocar-se à paróquia mais perto para esses fins. Mas não. Nada disso foi suficiente para a senhora que, assim que saiu da Igreja, começou com impropérios. O que mais custa é que ainda haja quem reduza a sua fé a coisas como “beijar o menino”.

terça-feira, janeiro 30, 2018

A Igreja precisa de padres?

Dava um bom título para um dos nossos pasquins mediáticos. Assim como dava um bom artigo de teologia numa revista especializada. Mas a pergunta surgiu numa reunião de padres que se queixavam a propósito de uma notícia badalada na comunicação social e que percorreu as redes sociais. 
O padre ainda é preciso para fazer funerais, as festas bonitas de alguns sacramentos e as festas populares com procissões e romarias que terminam com bailaricos, cantores famosos e muita bebida. Nalgumas paróquias servem ainda para as reclamações de missas, sobretudo as de sétimo dia ou de notícia, aquelas missas com intenções, em determinados aniversários de defuntos. 
São, a meu ver, necessidades autênticas e que a Igreja deve valorizar. Mas a pergunta, para mim, é muito mais profunda. A pergunta mexe com a razão verdadeira da existência dos sacerdotes, a própria existência da Igreja Católica, Apostólica e Romana, e que hoje já é costume chamar de ICAR (não gosto nada que lhe chamem assim, como se fosse o nome de uma instituição que se designa pelas suas iniciais e não pela sua razão de ser, o mandato de Cristo).
Precisa a Igreja dos padres, quando o seu número tem tendência a diminuir drasticamente e já não se conseguem manter as comunidades cristãs como no tempo da cristandade? O futuro dir-nos-á da necessidade dos padres, mas di-lo-á na procura daquilo que é a sua missão específica. Com o tempo creio que a Igreja assentará sobretudo no Povo de Deus que é constituído maioritariamente por leigos. Em breve serão eles a tomar conta das comunidades cristas, com um sacerdote que vai passando a celebrar missa de vez em quando. O próprio tempo fará com que deixemos de querer manter o de sempre. Talvez nessa altura descubramos que a Igreja é de Deus e não ao contrário, que a Igreja tem um deus. Na verdade, não é Cristo que precisa da Igreja, mas a Igreja que precisa de Cristo. 
Talvez nesse tempo sejamos obrigados a dar conta que os padres só são necessários porque Cristo é necessário.

sexta-feira, setembro 01, 2017

Fiquei sem as minhas irmãs

Fiquei sem elas. Aliás, não fui só eu quem ficou sem elas. Foi toda uma comunidade paroquial. Ficámos sem as irmãs consagradas que há várias décadas aqui haviam construído uma comunidade religiosa, uma presença espiritual. Sim, muito mais espiritual que pastoral, embora se notasse particularmente a sua presença na pastoral da paróquia. Como não têm tido vocações, a sua provincial vê-se obrigada a fechar, pouco a pouco, algumas casas onde estão pequenas comunidades religiosas. Quando anunciámos o encerramento desta casa e desta pequena comunidade de três irmãs, embora com umas lágrimas a deslizar pelo sulco da face, a voz do agradecimento foi mais forte. Nesta hora, dizia eu ao microfone da Igreja paroquial, não podemos prender-nos à lamentação da perda, mas ao agradecimento dos vários dons que cada um recebeu com a sua presença. É isso mesmo que penso. Mais do que lamentar-nos da sua ausência, devemos agradecer a sua presença. 
Foi tudo rápido e agora já cá não estão. Não quero desistir de procurar uma outra congregação ou Instituto de vida Consagrada para aqui estabelecer uma comunidade religiosa. Mas a coisa não está fácil. As respostas ao nosso convite vão chegando com a descrição de dificuldades similares. A maioria delas diz que também estão a fechar casas e comunidades. 
A realidade está ao alcance dos nossos olhos. E nós teimamos em fazer como se nada estivesse ocorrendo na Igreja. Vamos fazendo o mesmo de sempre, com menos vocações consagradas, menos cristãos, menos recursos, numa pastoral de manutenção que não tem mais lugar num mundo em que a fé conta cada vez menos.

segunda-feira, agosto 21, 2017

Uma católica que não pratica muito

Padre, eu não vou à missa, mas acredito. Sou católica mas não pratico muito, disse ela enquanto jantávamos à mesma mesa. E depois de lhe perguntar que significava para ela acreditar, foi asseverando que de vez em quando rezava e que para ela Deus existia e acabava por ser importante. Fez-me recordar aqueles meio-católicos que aprendem a sê-lo como religião de vontades extemporâneas. Essa religião que é fruto da educação, mas que não implica senão uma filiação numa instituição que se chama Igreja católica. 
A Ana está prestes a casar. Por isso lhe perguntei se o facto de ela acreditar no noivo, acreditar que ele existe ou que é importante para ela, ligar-lhe de vez em quando, sobretudo quando se lembra ou precisa de alguma coisa dele, lhe bastava. Sorriu para mim e respondeu que não. E que acharia se apenas de vez em quando tivesse oportunidade de tomar as refeições com ele, mesmo depois de casados. Ó padre, isso seria muito mau. 
Pois passa-se o mesmo com a fé. Não basta acreditar que Deus existe, lembrar-se dele algumas vezes, achar que ele é importante no sentido de ser coisa grande. É preciso que a gente viva partilhando com ele, confiando nele, querendo-o, vivendo com ele e nele, amando-o. É preciso tomar a refeição com ele. É preciso vê-lo como alguém importante, melhor ainda, imprescindível, para que a minha vida faça sentido. É isso que é ter fé. É isso que é ser católico.

sábado, julho 29, 2017

As respostas que não se dão porque não se têm

Quando alguém me interpela, como ainda ontem a pequena Tânia, uma paroquiana adolescente que conheço bastante bem, dizendo que não entende muito a Deus, ou a Igreja, ou estas coisas da vida, eu sinto-me um pouco impotente. Foi assim que olhei a Tânia e com naturalidade lhe disse que também não entendia tudo. Creio que é muito melhor sermos honestos com Deus, com os outros e connosco, do que fazermo-nos donos e senhores daquilo que nos ultrapassa. A Tânia esperava que eu lhe desse a resposta que precisava, mas eu não a tinha. Além disso, ela tinha de procurar a resposta dentro dela. Como eu também a procuro dentro de mim. Isto não é ser frágil. É ser o que somos, e assumi-lo com naturalidade. Não dei muitos conselhos à Tânia. Não usei a doutrina ou as verdades inquestionáveis da fé. Usei apenas a sinceridade do meu coração e da minha fé. E foi isso que a Tânia levou. 
Mas foi com a certeza de que afinal não estava mal diante de Deus. Estava tão só como é.

terça-feira, junho 20, 2017

Uma profissão de fé com pouca fé

Eu sei que isto parece mais uma das minhas queixas. Mas queixo-me só para ti, Senhor, baixinho, para que ninguém ouça o meu coração de padre a palpitar. Entrego-te estes miúdos que andam na catequese e que vão fazer a festa da profissão de fé. Entrego-te em especial aqueles que não voltaram a confessar-se desde a primeira comunhão, há três anos. E aqueles que não sabiam o acto de contrição para se confessar. E aqueles que pouco mais voltaram à missa e que, envergonhados, diziam que costumavam ir algumas vezes, que é o mesmo que dizer poucas, ou muito poucas. E aqueles que já nem sabem a oração do Pai-Nosso. Sim, essa oração que cada cristão deveria ter na ponta da língua, e que, pelo menos, este miudos tinham aprendido há quatro anos quando, na catequese, fizeram a festa do Pai-Nosso. 
Senhor, peço-te por eles, e pela Igreja dos tempos actuais que vive desta forma desprendida daquela que é a verdade da fé. Peço-te, em último lugar, por mim, para que não esmoreça a vontade de ser um verdadeiro modelo de fé, um verdadeiro testemunho do Evangelho, e não deixe de cumprir, em cada tarefa eclesial ou sacerdotal, o mandato que deixaste aos teus apóstolos de anunciar a Boa Nova, isto é, evangelizar.

quarta-feira, maio 10, 2017

Fui assim criada e assim hei-de morrer

Senhora Maria, diga-me porque tem fé. Fui assim criada e assim hei-de morrer. Ou assim hei-de ser até que o Senhor me leve. Podia ser deste modo o início de uma conversa com a senhora Maria ou com muitas das senhoras que, às vezes nas nossas comunidades, mais vão à missa ou mais dispõem as mãos para a oração. Seria, quase de certeza, uma conversa curta, pequena, sem discussão, encerrada em respostas breves e cerradas no Sempre foi assim. 
Não digo que a forma como essas pessoas receberam a fé é má ou desajustada. Quem sou eu para a questionar! Era recebida de pais para filhos, como se recebia tudo o resto. Ora isso é bom. Eu mesmo sou fruto dessa transmissão geracional. Dessa herança de fé. O menos bom é que isso, muitas vezes, ficava por ali. Por receber-se. Por ficar infantilizada. 
Também acho de uma enorme coragem, nos dias conturbado de hoje, que hajam pessoas a fazer convictamente a afirmação de que sempre terão esta fé que receberam. Assim como penso que não seria justo e correcto afirmar que essas pessoas não têm fé. Têm, com certeza. 
Contudo, tenho alguma dificuldade em aceitar que se tenham contentado com uma fé infantil. Muitas vezes descomprometida da vida, presa ao passado e ao culto. Uma fé que é mais uma religião ou uma forma religiosa de viver.

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

quarta-feira, abril 26, 2017

As hóstias bentas

Ocorreu bem longe daqui, numa paróquia que um amigo assumiu há pouco tempo. Contou ele que numa ocasião, durante a comunhão, se apercebera que as hóstias não eram suficientes. Começou, por isso, a parti-las de modo que chegassem para todos os que estavam na fila da comunhão. Nisto uma das catequistas, ao ver a dificuldade do padre, e com muita solicitude, correu à sacristia e trouxe de lá uma píxide improvisada com hóstias por consagrar. Abeirou-se do padre e sussurrou-lhe ao ouvido. Benza-as que assim já chega para todos. 
A situação é caricata apenas para quem sabe que não é o mesmo uma hóstia consagrada que uma hóstia por consagrar, e que não é o mesmo uma consagração que uma bênção. Termos simples e básicos, digo eu, para quem possui a mínima formação de fé. Pelos vistos a solícita catequista, pese embora a sua genuína generosidade, não a tinha. Claro que ninguém é obrigado a saber tudo. E, como costumo dizer, não sou ninguém para julgar a fé dos outros. 
Porém o problema vai muito para além do facto da senhora catequista não saber estas coisas. O problema é que uns dias antes o tal padre convidara os catequistas para uma formação e a resposta que obteve foi um claro Não. Que não precisavam mais formação.

quarta-feira, abril 12, 2017

ter uma fé pequenina

Creio que o comum dos cristãos gostaria de possuir uma grande fé. Dou conta, porém, que pessoalmente, cada dia e cada vez mais, tenho vontade em possuir uma fé pequena. Uma fé tão pequena que pudesse chamar-se, carinhosamente, de pequenina. Uma fé que, por ser pequenina, sempre tivesse vontade de crescer. Uma fé que fosse sempre caminho. Uma fé livre, que não se agarrasse a nada prévio e buscasse sempre em Deus. 
Creio que a fé das grandes certezas é a fé humana, essa fé que busca em si as respostas e não as busca em Deus. E eu não quero ter esse tipo de fé cheia de certezas e num patamar que não precise de crescer. 
Creio que a fé pequenina é a fé dos que não se fecham na certeza da sua fé…

sábado, março 11, 2017

Quaresma despojada de cristãos

Éramos dez pessoas. Ou em tom jocoso, como alguém poderia dizer, eram nove pessoas e um padre. Eu mais nove pessoas. Despojados de tudo para iniciarmos a Quaresma. Repito De tudo mesmo. Despojados até de pessoas. Claro que a Quaresma não vale pelo número dos que participam na missa de quarta-feira de cinzas ou na cerimónia da Imposição dessas cinzas. Mas fez-me impressão começar a Quaresma deste modo. Que o meu primeiro acto celebrativo ocorresse com um tão reduzido número de cristãos. Não meço a fé ou o cristianismo por números. Esse assunto daria linha para muita renda. Contudo, a minha sensação foi ter começado a Quaresma num total despojamento. E isso fez-me pensar muito.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Um Tomé que é cientista

O nome do Tomé não é Tomé. Chamo-o assim em homenagem ao Tomé que necessitava ver para crer. Estudava ciências bioquímicas, e não lhe era fácil compaginar a fé com aquilo que a ciência lhe oferece. Não é que a ciência seja adversa à fé, ou vice-versa. Mas joga com dados provados ou para provar, com matemáticas definidas, com cálculos medidos, com o empirismo que só resulta com as certezas que oferece. O que às vezes esquecemos é que há muitas coisas que a ciência não consegue explicar. Sobram sempre os porquês e os para quês. Mas eu entendo o Tomé. Queria acreditar com fórmulas e com raciocínios. E isso é impossível. Tal como é impossível amar alguém com fórmulas e raciocínios. 
Ah, mas a minha namorada é alguém que eu vejo e toco. A deus, disse ele com letra minúscula, não o vejo nem toco. Ao que acrescentei Só amas a tua namorada quando a vês e tocas? Creio que se calou porque a ama, mesmo quando não a vê ou toca. Mas também sei que o argumento não lhe parecera cem por cento válido, porque reagiu com descontentamento. 
Como a mãe morreu faz anos, perguntei-lhe então se ainda amava sua mãe não obstante não a ver. E respondeu que sim, mas que a vira enquanto estivera com ele, e a deus nunca vira. O Tomé é persistente. Creio que é honesto na sua persistência. 
E num monte de perguntas, insisti. Nunca sentiste que há algo em ti que te ultrapassa e não explicas, mas sentes que é verdade? E porque decidiste amar aquela tua namorada? Donde partiu esse teu desejo que provavelmente não consegues explicar empiricamente? E porque continuas a amar tua mãe sem ver? E como demonstras teu amor sem explicação? Será que a tua pergunta não é fruto dessas coisas que não consegues explicar, mas surgem em ti sem explicação? 
Li em tempos, já não sei onde, que um grande cientista chegara à conclusão de que sempre haveria muitas respostas que a ciência não conseguia dar e que essas só poderiam ser dadas muito para além de nós, do humano e do mundano. O Tomé calou-se, talvez porque quisesse pensar aquelas perguntas. No íntimo acho que vai continuar a duvidar. Contudo, pode ser que um dia perceba que a ciência não explica o que nos move e faz viver.

terça-feira, janeiro 31, 2017

Conversa desajeitada

Conversa de quem quer algo, de forma volátil, numa paróquia que tem à sua frente três padres. Olhe, diz ela para a funcionária do cartório, quando é que posso falar consigo para marcar umas coisitas? A funcionária perguntou de que coisas se trata, e ela respondeu que, como agora há três padres na terra, se podem fazer coisas que antigamente não se faziam. Mas o quê, retorquiu a funcionária. Assim, como batizar o meu neto e o meu genro no mesmo dia. A funcionária esclareceu que isso se poderia, eventualmente, fazer, desde que o genro fizesse catequese. A resposta da senhora foi um Isso é que vai ser mais complicado. Queria fazer-lhe uma surpresa e mandar-lhe a água para a cabeça e um dos teus três padres rezava e pronto. Não dá para fazer assim? Como a senhora não parava quieta e parecia querer escapulir-se da conversa, a funcionária reiterou que tinha que falar com um dos sacerdotes. Um quê? Perguntou. Um dos padres. Ahhh, ok, eu gosto muito daquele dos olhos azuis. Sim, talvez seja. Ficou contente e mudou de caminho em direção a casa com um boa noite e Ainda bem que é o girinho que vai falar comigo. E assim terminou uma conversa profunda de um cristão profundo.

domingo, dezembro 18, 2016

A personagem do presépio que não conta

Nesta época do Natal é hábito a Câmara Municipal juntar os idosos dos lares do concelho para uma festa. A mim costumam convidar-me para celebrar missa com eles, e vou com agrado. Para a celebração deste ano escolhi o evangelho da Missa da Vigília de Natal. Quem foi à missa hoje também deve recordar este texto evangélico, pois era o mesmo. 
A propósito desse texto, comecei a homilia questionando qual era a personagem do presépio a que dávamos mais atenção e importância. A maioria gritou que era o Menino Jesus, embora se ouvissem igualmente algumas vozes proferindo o nome da sua mãe. Concluímos juntos, e ainda bem, que a personagem que mais nos chamava a atenção era Jesus. Depois dele, era Maria. E depois… referiram baixinho o nome de José. Disseram baixinho, como se ele contasse pouco. Ou como se tivessem medo de errar. Disseram a medo o nome de José, esse que às vezes até fica atrás do burrito e da vaquita. Aquele José que Deus adoptou para ser pai do seu filho. Aquele que humildemente aceitou o papel secundário na encarnação de Deus. Aquele de quem tão pouco se fala na Sagrada Escritura. Uma das personagens da Bíblia mais silenciosas, que menos conta, de quem menos nos lembramos. É aquela figura que parece não fazer falta, mas que dá nome ao Messias. Olhem que não é coisa menor dar o nome ao Messias, não senhor. É humildade maior. Digo-vos que por vezes me apetece dizer que José é ainda mais humilde que Maria na aceitação dos planos de Deus a seu respeito. José afinal é aquele que parece não contar muito, mas conta tanto! 
E foi este José que apresentei como modelo àquela plateia. Àquela gente que, muitas vezes, também cuida que não conta, que não é importante, que não faz falta. E para terminar a homilia, aproximei ainda mais o microfone da boca, e fiz a pergunta. Quando pensardes que a vossa vida não é importante, ou que o vosso papel na história, na sociedade, no mundo e na Igreja não conta, quem havemos de lembrar? E todos responderam em coro. José.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O Natal antropocêntrico

Ó meu menino Jesus, porque não entras nas chaminés? Porque é que só entras pelos corações? Porque é que as prendas que nos ofereces geralmente não as conseguimos ver? Já te imaginaste vestido de vermelho vivo e apelativo? Talvez assim no dia do teu aniversário não te esquecessem. Às vezes imagino-te a percorrer os corredores dos centros comerciais com uma bolsa às costas, ou sentado numa poltrona vermelha para as fotografias. Às vezes imagino-me a ouvir as crianças chamar por ti como chamam pelo Pai Natal. As centenas de cartas que te escrevem a pedir presentes: cura a minha mãe, dá forças ao meu pai, dá-me vontade de amar, ajuda-me a ser feliz. 
Ó meu menino Jesus, gostava que o Natal fosse mesmo Natal, mas o homem transformou o teu Natal e fez um outro natal, um natal antropocêntrico que gira à volta da tecnocracia e da economia.
Valha-nos ao menos que as pessoas se juntam em família, ainda que à volta apenas de elas mesmas.

domingo, novembro 27, 2016

Perder o que se não tem

Depois de me cumprimentar com um sorriso, o genro do falecido alterou ligeiramente a tom da voz e a inclinação da cabeça para alegar o seu descontentamento. O funeral do sogro fora presidido pelo diácono, pois eu não estava, e outras dezenas de colegas que haviam contactado também não estavam disponíveis. Tiveram que aceitar o diácono ou o morto ficava por sepultar. Compreenderam, dizia ele, que eu não pudesse, pela distância a que me encontrava. Mas não compreendia onde a Igreja ia parar. Assim tudo acabava. Assim acabava a Igreja e a fé. Como se ambas estivessem dependentes de funerais. Ou como se o diácono não fosse Igreja como os padres e os leigos. E assim o meu amigo dava a entender que perdia ou poderia perder a sua fé, coisa que eu não me lembro de nas celebrações da comunidade ou fora delas ter percebido nele. Mas agora é que perdia o que não tinha. 
Pelos vistos são bastantes os que por causa de não terem o que queriam, dizem ter perdido aquilo que não têm.

segunda-feira, novembro 14, 2016

Padre com fé

A mãe da jovem que morrera faz um ano estava na missa. Bem como o namorado e o pai do namorado que são de outras paróquias. Estava mais uma série de pessoas que lhe eram próximas. No final da missa parei para dar um beijo (chamemos-lhe de força) à mãe. Pressinto que o necessitava. Com o beijo veio uma conversa simples e rápida. 
Mal acabou, o pai do jovem namorado acercou-se do carro. Estendi-lhe a mão para o cumprimentar. Agarrou-ma, com a força típica de quem quer expressar mais que um mero cumprimento. Depois levou-a à boca, beijou-a, e disse Senhor padre, continue sempre com essa fé. 
Pasmei sem palavras. Não sei de onde retirou a conclusão de que eu tinha uma grande fé. A homilia fora mais uma daquelas homilias normais, comuns, banais. Ou então não. Talvez tenha sido a forma como me expressei. Ou como celebrei. Ou não sei. Só sei que pasmei. Mas foi com alegria que recebi aquelas palavras. Mau seria que me dissesse que eu não tinha fé. Mau seria que se percebesse que um padre não tinha fé.

quinta-feira, setembro 01, 2016

Padres que não sabem que caminham

Nós, os padres, às vezes esquecemos que precisamos de fazer caminho. Que caminhar também é para nós. Pensamos que chegada a nossa ordenação sacerdotal, já está o caminho feito. Que tudo nos tem de estar claro a partir daí. Que nada nem ninguém se vai atravessar no nosso caminho. Esquecemos que as estradas têm muitos buracos e que se não os taparmos, pelo menos temos de passar-lhes ao lado, saltá-los, ou cair neles para depois tornar a levantar-nos. 
Chegamos a pensar que a fé que pregamos para os outros é a palavra-chave da nossa vida, quando é uma entre muitas outras. Não há fé de chumbo, como diz um escritor que tenho andado a ler, Tomás Halik. Ou melhor, essa fé de chumbo é uma falácia que nos traz certezas que não o são. Que nos traz seguranças que não existem. 
Não somos mais nem menos que ninguém. Somos apenas caminhantes que caminham como sacerdotes. E como diz o povinho, o caminho faz-se caminhando.

sábado, agosto 27, 2016

O padre não é bom da cabeça

O senhor estava ao telefone a convidar um amigo para a festa do seu filho que ia fazer a primeira comunhão no dia tal. Eu estava numa mesa ao lado à espera que me entregassem o carro após a mudança do vidro que se partira vá-se lá saber como. O senhor esperava também o seu carro por motivo idêntico, quando, para ocupar o tempo, efectuou a chamada que ouvi como se fosse para mim. O que ele não sabia é que eu era padre e que o padre a que se havia de referir o conhecia bastante bem. 
O padre não é bom da cabeça, dizia. Olha que ele exige três anos para fazer a primeira comunhão. São de facto três os anos estipulados pela Conferência episcopal portuguesa e pelo itinerário da Catequese. Para mostrar ainda mais a força da decisão que tomara, queixava-se que o padre, que não é bom da cabeça, dizia que com mais de três faltas o miúdo seria retido na catequese. Onde já se viu! Exclamava. 
O padre é doido por exigir estas coisas. E depois encontrou uma catequista ali ao lado, pareceu-me que numa paróquia bem ao lado, que aceitou o miúdo para fazer a primeira comunhão, e em dois meses vai conseguir fazer catequese de três anos. Grande catequista. E ainda diz o senhor que o filho, afinal, até gosta daquilo, e já sabe tudo. Como se fosse uma questão de saber. 
Estava o filho contente e o pai mais que contente, porque afinal o seu filho querido ia fazer uma festa linda. Aquela festa que provavelmente irá fazer poucas vezes na vida. Porque comungar deveria ser sempre uma festa. E vai ter casa cheia com almoço bem melhorado. 
Tal pai, tal catequista, que nunca devem ter ouvido a Jesus dizer que se o quisessem seguir, até teriam de deixar pai e mãe!