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quinta-feira, fevereiro 20, 2020

eu thanatos e eu, padre

Como acompanhar pastoralmente uma pessoa que peça a eutanásia? Como conciliar o princípio da misericórdia com a necessidade de afirmação da doutrina? Fez as perguntas porque, como disse, conhecia casos de pessoas no estrangeiro que pediram a eutanásia e quiseram receber a Santa Unção. E rematou assim: Como procederias numa situação destas? E a esta questão ou conjunto de perguntas que me foram feitas há dias, poderia acrescentar outras tantas, da minha lavra. O que fazer se te pedissem um funeral religioso, com missa incluída, depois do defunto ter sido eutanasiado? Que dizer a um crente que é favorável à eutanásia e que participa activamente na comunidade cristã e/ou tem responsabilidades na mesma? 
Quando as primeiras perguntas me foram dirigidas, não imaginei o que teria de remoer, desculpem o termo, sobre o assunto. Na altura esbocei uma resposta breve e pouco reflectida. Não era uma resposta sem sentido, mas precisava, pelos vistos, ser mais sentida. Tenho-a carregado nos ombros, junto com as outras perguntas que, entretanto, diante da hipotética legalização da eutanásia, me foram inquietando na minha missão e vocação sacerdotal. Perguntas que me obrigaram, pelo menos, a não fazer de conta que não é necessário pensar em possibilidades que não pensava. 
A moral e ética cristã leva a opor-nos a qualquer afronta à vida humana, como dom de Deus, onde se inclui a eutanásia, a distanásia ou o suicídio assistido, porque o afã de dispor das nossas vidas, de certo modo, nos afasta de Deus, o único dono da vida. Mas isso não significa que este mesmo Deus não nos tenha dado a liberdade de sermos donos das nossas opções e de usarmos o livre arbítrio. O mesmo Deus infinitamente misericordioso. 
Tenho pensado muito nisto. Não concordo, de todo, com a eutanásia, distanásia e suicídio assistido. Sou de opinião que o sofrimento faz parte da nossa condição humana e tem muito sentido nas nossas vidas. Não quero assumir responsabilidades diante da morte assistida. Não sou favorável a criteriologias que separam as pessoas em categorias. Não quero fazer parte de uma sociedade da cultura de morte e do descartável, uma sociedade irresponsável e que vive de modas ou de opiniões. Mas também lembrei a minha reação natural perante casos de suicídio, onde sempre evitei julgamentos e acreditei na misericórdia de Deus. Lembrei as dores de quem sofre e precisa de mim, como padre, como amigo e como pessoa. O assunto é deveras difícil, inquietante e fracturante. Quem tenta ser sério a pensar nele, fica incomodado. 
Partilhei com um colega sacerdote as dúvidas e dificuldades nestes meus raciocínios e reflexões, e ele reagiu dizendo-me que continuaria a agir como se não estivesse no direito de julgar ninguém. Depois de o escutar e barafustar um pouco com ele, porque a sua resposta fora demasiado rápida e me parecera irrefectida, ele insistiu repetindo, quase sílaba a sílaba o que acabara de dizer. E, embora me custasse inicialmente, ajudou-me a amadurecer a reflexão. Pois do mesmo modo que nunca julguei nem quis julgar alguém que se suicida, também não devo julgar quem quer que seja pelas suas opções erradas. A mim cabe-me, pertence-me, é minha missão, ajudar as pessoas a fazer as melhores opções. Ajudá-las a pensar para além delas e do seu sofrimento. Fazer os possíveis para dar mais formação aos nossos cristãos, em particular os meus paroquianos. Mas depois, se calhar, devo deixar que Deus faça o seu trabalho. Porque não me pertence julgar. Pertence-me amar! Mesmo que, amando dessa maneira, o meu coração sofra por dentro. Amar é mais importante do que o meu sofrer!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte VIII, preparada"

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Eu thanatos II

Uma amiga, para validar a sua opinião acerca do assunto, mostrou-me uma espécie de carta de um doente com Arthogripose Congénita Dupla, em que este alegava ter direito de pedir a eutanásia e direito a escolher o que fazer com a sua vida. 
Ora, como disse à minha amiga, também eu me comovo com o sofrimento e desespero das pessoas. Mas não me demito de as ajudar a vencer esse sofrimento e desespero. Não obstante isso, ao seu alcance permanece sempre o direito de escolher entre viver ou acabar com a sua vida, através do suicídio, embora, como é natural, eu não concorde com ele. O que a mim sinceramente me custa é que uma responsabilidade pessoal que constitui a tal possibilidade de escolha, se torne uma responsabilidade colectiva, ainda por cima de todo um colectivo que devia fazer tudo para auxiliar as pessoas a viver e não se demitir desse papel com tanta leveza, sem ao menos proporcionar cuidados paliativos, afectivos e solidários! 
Eu também não quero decidir sobre a vida dos outros. Não julgo quem se suicida. Evito julgar o desespero das pessoas. Mas, tanto a eutanásia como o suicídio assistido não podem ser um tratamento médico. Por isso afirmo que a liberdade de escolha dos outros não pode tolher a nossa confiança em médicos que deveriam sempre fazer tudo e o máximo pela defesa da nossa vida. Para isso é que estudaram e para isso fizeram o Juramento de Hipócrates. 
De facto, não é a legalização de uma lei que me vai obrigar a mim ou a quem quer que seja a fazer a opção pela eutanásia. Mas responsabiliza-me, como cidadão, por ela, e eu também tenho a liberdade de não querer essa responsabilidade e que seja respeitado nessa opção!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Especial Diana"

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Eu thanatos

Ontem foi a sepultar uma senhora que viveu os últimos dias a sofrer. Acabara de dar entrada numa unidade de Cuidados Paliativos, a uns bons quilómetros da sua casa, quando faleceu. E antes de fazer a viagem para fazer o funeral, fui visitar o meu pai nos Cuidados Continuados, onde se encontra com leuco-encefalopatia bilateral isquémica, ou seja, irrigando cada vez menos o cérebro. Por sinal, na altura com bastante consciência, ao ponto de chorar compulsivamente quando me viu, coisa que me assustou, por dentro e por fora. Coisa que me levou ao mais fundo de mim em busca dos porquês do sofrimento. E falo destas coisas porque me incomoda a leveza com que se trata de despenalizar a eutanásia ou promover que se possa acabar com o sofrimento acabando com uma vida. Mesmo sabendo que a minha missão de Igreja, como padre ou como leigo, mais do que evitar o decreto dessa lei, é ajudar a entender como incorporar, viver, lidar, aceitar e dar sentido ao sofrimento. 
E a minha homilia, reforçada pela forma como a senhora vivera os últimos dias, pelo que havia sentido na visita ao meu pai e pela viagem que fizera com lágrimas nos olhos, foi sobre o modo como, nós cristãos, encaramos ou devemos encarar o sofrimento. Refiro-me não àqueles cristãos que alguns pseudo-intelectuais gostam de designar como coitados, ignorantes, retrógrados ou submissos religiosos. Mas como aqueles cristãos que, na sua debilidade, sabem ser fortes. 
O sofrimento, afinal, reconhece a nossa condição humana e a nossa necessidade de transcendência. Afasta-nos da autorreferencialidade e autossuficiência. Não, nós não somos autossuficientes. O sofrimento faz-nos pensar para além das nossas capacidades, interesses e bens. É na debilidade que melhor pode sobressair a entre-ajuda, a solidariedade, a caridade. E é o que, provavelmente, melhor nos religa a Deus que também sofreu e morreu na cruz por nosso amor. Nós, os cristãos, sabemos ou devemos saber que o sofrimento tem sentido e aproxima-nos de Deus. Pode parecer que não faz sentido sofrer, mas faz sentido sofrer ou saber sofrer com sentido. 
O sofrimento não é um fatalismo sem saída. Todos nós já passámos por sofrimentos dos quais pensávamos não conseguir sair e nos fizeram pensar que já não valia a pena viver, sem que isso beliscasse a dignidade da nossa vida. O sofrimento, o debilitamento, a perda das capacidades, fazem parte da nossa vida. Como podemos chegar ao ponto de pensar que uma pessoa que perca capacidades, sejam elas físicas, biológicas, psíquicas ou emocionais, já não conta na sociedade e seja tratada como de segunda categoria? Recuso-me a aceitar que haja vidas de primeira e vidas de segunda categoria. Recuso-me a aceitar que se diga que a eutanásia é morrer com dignidade, como alguns argumentam. Não me parece que um soldado enviado para uma batalha e que foge dessa batalha seja mais digno do que aquele que decide enfrentar a batalha. Os grandes heróis não são os que, perante o sofrimento decidem acabar com tudo, mas os que, diante do sofrimento, decidem ser fortes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Dona da minha vida"

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Então já não há extrema-unção?

Esta tarde ligaram-me de um número que não conhecia, com este pedido urgente. Senhor padre, o meu pai quer receber a extrema-unção. Está com alzheimer associado a demência natural. Insiste em falarmos consigo, porque está a morrer e quer receber a extrema-unção. Cada vez que o filho utilizava esta palavra para designar o sacramento da Unção dos Doentes, eu interrompia e dizia: Unção dos doentes. Unção dos doentes ou Santa Unção. Mas podemos ir ter consigo, senhor padre? O meu pai não se cala. Como se fosse apenas para o calar. 
Tinham de fazer uma pequena viagem de carro. Por isso tardaram um pouco. O tempo suficiente para, ao cruzar-me com uma amiga destes amigos, parar para cumprimentar e ouvir. Olhe, senhor padre, já deu a extrema-unção ao senhor tal? O filho anda aflito! Não sabe o que fazer! Unção dos doentes. Insisti. Olhou para mim com olhos de quem pergunta Mas já não há extrema-unção? 
Na verdade, por mais que falemos destas coisas na comunidade cristã, nem sempre estão atentos, ou nem sempre estão. Digamos, portanto, que foi uma oportunidade para explicar o que é este sacramento. O seu porquê. O seu sentido. Que não se pode pensar como um sacramento de mortos. Todos os sacramentos são dos vivos e para os vivos e este é, especificamente, um sacramento para dar força, ânimo e vida. Por isso não se deve esperar, in extremis, pela hora, como se fosse um sacramento dos mortos ou dos que estão quase a morrer, e apenas para que se possam salvar.
Ainda o meu latinório ia a meio, quando ela, com pressa, perguntou: Então já não há extrema-unção?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Vivemos para morrer."

domingo, outubro 20, 2019

Quando nos toca

Toca longe. Toca ao lado. Toca perto. Cada vez mais perto. Um nódulo na mama. Um cancro no intestino. Uma dor estranha. Uma nódoa que não cura. Chama-se melanoma. Ou linfoma. Ou carcinoma. Nomes que há uns anos ninguém conhecia. Nomes que agora se ouvem, mesmo desconhecendo o seu real significado. É apenas mais um caso nos muitos que, diariamente, tocam perto, cada vez mais ao lado. E fica-se assim. Impotente. Há uma coisa chamada fé, que também há dificuldade em definir, que ajuda a aceitar. Há um Deus por detrás disto tudo. Respiro e deixo-me embalar pela respiração. Estou vivo. E há algo com vida que nos vai tocando!

terça-feira, junho 25, 2019

A oração do meu pai

Quando atravesso a porta de entrada do lar onde está meu pai, um frio percorre-me a espinha como se tivesse de atravessar o inverno para o ver. A saudade mistura-se com a ansiedade e o receio de constatar o seu estado de saúde progressivamente mais débil. Quando estou mais que uma semana sem o ver, aperta-se-me a saudade. Quando o tenho de deixar, aperta-se-me o coração. 
Ontem repetiu-se este tipo de episódio. E depois da troca de mimos, como é costume, dirigimo-nos, a passo de caracol, para a capela do lar, onde rezámos, juntos, o que nos apeteceu. Pai-nosso, avé-maria, salvé-rainha, consagração-a-nossa-senhora e por aí fora. 
Numa das pausas desse momento lindo, disse-lhe com simplicidade, Paizinho, tenho sentido tanto a falta da tua oração por mim, que nem imaginas! Ele concordou comigo. Que antigamente rezava muito por mim e agora não. Entre conversas com pouco sentido e conversas com mais sentido, aquela resposta pareceu a mais lúcida do mundo. A sua capacidade mental tem-se alterado. É normal que não se lembre de rezar, coisa que fazia persistentemente. Talvez a sua oração neste momento particular da sua vida seja outra. Mas eu é que sinto falta da certeza e força da sua oração por mim e pela minha vocação. 
Nisto parou um pouco. Não sei se pensativo. Olhou-me e disse. O melhor era rezares tu por mim agora. A frase marcou-me profundamente. Ainda agora lhe sinto a profundidade da marca. Tive de, discretamente, voltar o meu rosto na direcção do sacrário, escondendo a lágrima que percorreu a minha face. Pequenina, mas do tamanho do mar.

sábado, abril 13, 2019

A tradição da procissão de Páscoa

O padre tinha a sua saúde bastante debilitada, A idade avançada também não o auxiliava. Arrastava-se mais que andava. Mas era dia de Páscoa e, como a tradição manda, depois da missa tem de haver procissão. Dizem assim as vozes religiosas que estão habituadas desta maneira. Com as tradições. O padre, no final da missa, que presidiu a um custo notório, fez uma pergunta. Tendo em conta o estado débil em que se encontrava, perguntou a quem o ouvia na assembleia se achavam que devia fazer a procissão ou não. Contou-me quem ficou chocado nesse momento, já lá vão uma série de anos, porque ninguém abriu a boca. Ninguém fora capaz de dizer que, para cuidar da sua saúde, melhor seria não se fazer a procissão. Como ninguém abrira a boca, o padre resignou-se e respondeu por eles. Assim sendo, faz-se a procissão, mesmo que não resista a meio dela. Continuou sem resposta. Fez-se a procissão. O padre, graças a Deus, não caiu. Poucos meses depois o padre faleceu. Não há causa efeito, como é óbvio. Mas há uma Páscoa que não se percebe muito bem se foi Páscoa se foi apenas mais uma tradição.

sábado, fevereiro 16, 2019

O último José

O último José a quem fui dar a Unção dos Doentes fez-me pensar para além de mim, para além da vida, para além da missão sacerdotal. Quando me deparei com ele, nos Cuidados Continuados, em primeiro lugar, recordo, esbocei um abraço. Só isso. Apertei-lhe, depois, a mão. Só isso. Falei com ele como se não estivesse onde estava. Aquela cama articulada onde o José permanecia com os olhos abertos, mas sem olhares, e com a boca entreaberta, mas sem palavras. Esbocei um abraço e apertei-lhe a mão como se fosse o outro dia em que nos saudámos com um aperto de mãos e trocámos duas ou três palavras sem jeito, com pouco nexo. O nexo das conversas triviais. O perguntar-se como se está e o dizer que se vai indo. Quando já era visível que o José não andava bem. Quando ao perto já se manifestava a sua doença e a debilidade. 
Creio que quem sofre sabe que está num estado diferente de quem o visita no sofrimento. Mesmo quando não expressam qualquer sinal de entendimento. E creio que só quando nos fazemos companheiros do caminho, sócios da jornada, quem sofre perceberá que não está só. Doeu-me aquele diálogo surdo de dois companheiros de uma viagem. Dois companheiros que não têm muito para dizer senão estarem juntos a fazer o caminho. Mas também não sei se ocorreu tal e qual. Talvez o tenha imaginado assim depois que presidi ao funeral deste amigo José.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

A carta de um filho ao seu pai que partiu.

Chorei. Chorei porque as palavras me tocaram naquela parte de nós mesmos que chora, aquela parte íntima que não tem como se dizer. E depois chorei, ao pensar que na minha partida, os meus filhos não se vão despedir de mim, não me farão cartas bonitas destas. 
Era uma carta de despedida de um filho ao pai que partira por causa daquela maldita doença do cancro. A mesma que seis meses antes lhe levara a mãe. Gente com idade pouco acima dos cinquenta. Tudo ocorreu demasiado rápido, para que pudesse assimilar tanto sofrimento. Por isso descarregava na sua carta de despedida o que sentia. Passados três meses da mãe partir com muito sofrimento, os médicos haviam dito que o pai não tinha escapatória. Mas o filho tivera a oportunidade de dizer adeus ao pai naquela hora em que lhe apertou a mão e partiu. Fui tudo, apesar de doloroso, muito bonito. A beleza das coisas que nos ultrapassam no mistério. Vinham do médico e faziam uma série de quilómetros para chegar a casa. O pai estava, obviamente, esgotado e à base de morfina. Como dormia, não pararam na estação de serviço, como tinham previsto. O pai dera conta e pediu que parassem na seguinte. Esperou uns bons cinquenta quilómetros, e quando pararam, enfim, para descansar, o pai chamou os dois filhos que iam no carro, e disse o adeus mais bonito, ao agradecer o que eles tinham sido para ele. E partiu. No final da carta, o filho dizia, como testemunho de quem sofreu tanto em tão pouco tempo: “Não se zanguem. Não odeiem. Perdoem. Sorriam. Dêem. Partilhem. Digam que gostam. Abracem mais. Amem mais”. 
Grande filho que presta uma homenagem tão bela aos pais. Chorei. Por eles. Por tantos como eles. E por mim, porque gostaria de que um dia, alguém como um filho, me homenageasse de igual modo.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Deus resolve-nos a vida

Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de fazer por elas. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida interiormente. Basta tão só que deixemos que habite em nós. Que lá de dentro dá sentido a todo o exterior. Que a nossa vida seja uma vida resolvida em Deus.

domingo, janeiro 13, 2019

Deus não nos resolve a vida

Padre, eu bem peço a Deus e Ele não me ouve. Padre, eu bem procuro, mas não consigo encontrar. Padre, onde está Deus, que eu não o vejo? Como posso ver Deus no meu cancro? Onde é que posso ver Deus no abandono do meu marido? Onde é que posso ver Deus na minha vizinha que está sempre a criticar-me nas costas sem que lhe tenha feito mal? Onde está Deus naquela criança que faleceu ontem, como disse a televisão, porque caiu não sei de que andar do apartamento onde vivia? Deus deve andar muito distraído, padre. 
A senhora chorava. Chorava compulsivamente. As palavras saiam da sua boca tão depressa e tão intensas como as lágrimas saíam dos seus olhos. Ela pretendia que Deus lhe resolvesse a vida, lhe resolvesse os problemas, lhe resolvesse o que não entendia, o que lhe escapava, o que não queria, o que a fazia sofrer. Mas Deus não nos resolve assim a vida. Ele dá-nos as ferramentas para nós a resolvermos. Quem tem de incorporar e reaprender a dor, a doença, o sofrimento, as relações, enfim, a vida, somos nós… com a Sua ajuda, com a Sua preciosa presença, com a Sua tão grande força. Assim começou nossa conversa. Tinha vontade de dizer que foi assim que terminou. Mas não. Foi assim que começou…

domingo, outubro 07, 2018

Meu pai e minha mãe

Quando somos crianças, dependemos completamente do amor dos nossos pais. É esse amor que nos cria para a vida, para a educação, para a fé, ou seja, para ser quem somos. É a lei natural da vida e da fé. Com o tempo vamo-nos tornando autónomos e vamos construindo a nossa independência. Vamos conseguindo ser para além do cordão umbilical que temos com os nossos pais. Gosto de pensar que a ligação que temos aos nossos pais nunca corta de modo completo o nosso cordão umbilical. Mas a lei da vida é esta. E com o tempo, os cortes que este cordão vai sofrendo, traz-nos novos modos de sobreviver, de viver e de sentir. 
Hoje faz dezassete anos que a minha mãe faleceu. Não podia esquecer esta data. Muito menos quando a situação de saúde do meu pai está desajustada ao meu desejo. Por mais que eu quisesse que a minha mãe aqui estivesse e o meu pai estivesse completamente bem, isso não é possível. É a lei da vida. Mas a impotência e a dor são tão grandes que, por mais que façamos, continuamos impotentes e a sofrer. É a lei da vida. Repito insistentemente que é a lei da vida para me confortar. É a vida que Deus criou para vivermos. Não há volta a dar. Por isso é que me parece que devíamos gastar a nossa vida com o que ela tem de melhor e mais bonito, com o que ela tem de mais essencial e importante, o amor. 
Hoje vou visitar meu pai e vou amá-lo freneticamente. Hoje vou abraçar minha mãe nos meus pensamentos e vou amá-la freneticamente. Não sei amar meu pai e minha mãe senão deste modo, estejam eles fisicamente aqui ou não, estejam eles fisicamente bem ou não. Que interessa se eles não podem estar! O que interessa é que eu estou… aqui, para os continuar a amar e a religar nosso cordão umbilical.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Quilómetros e quilómetros percorridos

Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, sentado ou deitado no sofá azul da sala. Não era verde porque o azul condizia melhor com a cor que mais gostava. Contudo, neste momento, ele preferia que fosse verde. Preferia que tudo fosse verde e iluminasse de esperança a sua vida. Ou melhor, a vida de quem amava. A cabeça não parava. Mesmo com os olhos fechados. Percorria centenas, senão milhares de quilómetros, a pensar como era, como fora, e como seria. Nunca pensava no como é agora, neste instante. Isso é apenas para sentir-se. Não é para pensar-se. Nós usamos geralmente o pensamento fora do controlo emocional. Por isso anda, corre, voa por todo o lado em busca de um algo que não se encontra. Faz quilómetros sem conta, para trás, para a frente. Faz quilómetros de estradas, de cidade em cidade, de terra em terra, e faz quilómetros de tempo, para o passado e para o futuro. 
Apesar da quietude do espaço, da ausência de ruídos ao redor do meu sofá, eu não páro. Não páro, porque hoje estou muito longe de mim. Estou onde está alguém que amo, alguém a quem tenho uma ligação especial. É uma ligação de sangue e de fé. Meu pai. Meu pai que hoje dá entrada numa nova vida e não consigo deixar de percorrer quilómetros em busca do seu bem-estar. Em busca de uma imagem que me faça pensar que ele está “bem, mas bem”, expressão que costuma usar, e que todo o seu estado actual de saúde não é mais do que uma ficção de Deus.

terça-feira, agosto 07, 2018

Chorar à beira-mar

Experimentem chorar à beira-mar. 
Em primeiro lugar, façam um passeio pela areia, deixando que os pés se molhem com a espuma que as ondas formam. Olhem mais para o mar que para a areia. Olhem para o longe que se esconde atrás do mar. Porém, de vez em quando, olhem para trás, e reparem como o rasto dos vossos pés desaparece depressa. O caminho andado não mais volta atrás. 
Depois disso, sentem-se na areia húmida. E chorem à vontade. Vão ver que as lágrimas se juntarão ao mar sem ninguém se aperceber. Por algum motivo dizem que as lágrimas são salgadas. Talvez seja porque todas vão dar ao mar. Talvez até sejam elas o que salga o mar. 
Podem ainda escrever as vossas mágoas na areia fina. Verão que as ondas levam cada uma delas para o alto mar. É só esperar uma onda ou duas, e lá vão. Afinal as ondas vêm e vão, trazem e levam. Levam tudo o que escrevermos à beira-mar. 
Convido-vos a fazer esta experiência ou exercício de chorar à beira-mar. Talvez assim percebam como as vossas lágrimas nunca estão sozinhas. Nunca serão lágrimas sozinhas. Serão um pequenino impulso do mar. Uma pequenina gota de um infinito mar. 
Foi o que fiz hoje para falar com Deus da dor que carrego por ser filho e amar.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Cuidar de quem nos cuidou

A vida, a nossa vida, tem diversas fases. Em cada uma delas alguém nos cuida ou cuidou. Eu não recordo propriamente como foram os primeiros tempos e primeiros passos da minha vida. Não recordo como foi a primeira fase da minha vida. Não tinha a consciência do que fazer. Alguém a tinha  e teve por mim, e hoje sou muito do que fizeram da minha vida aqueles que dela cuidaram. 
A minha mãe já faleceu e já está onde um dia quero estar, junto de Deus. O meu pai, por seu lado, está agora naquela fase da vida que precisa dos meus cuidados, dos cuidados dos filhos. Está naquela fase em que a consciência da vida já não é o que era. Não interessa aqui o que isso dói. Porque não há como medir a dimensão dessa dor e da impotência perante a situação. Dói simplesmente. Dói como se tivesse uma espinha cravada no coração e constantemente a sangrar. O que interessa é que chegou a hora de cuidar dele. A hora de recompensar tudo o que fez de nós aquilo que somos. Não há comparação para explicar o que recebemos dos nossos pais. Por isso não há medida para os cuidar. Não há medida, ou tempo a medir, ou disponibilidade a avaliar, ou quantidade de amor a realizar. Esta é a oportunidade que Deus nos dá para cuidar quem de nós cuidou, e para ajudar a ser mais quem nos fez ser o muito do que somos.
Escrevo, neste momento, a chorar e a sorrir. A chorar pela impotência e dor. A sorrir pelo dom que Deus me deu de cuidar quem de mim cuidou.

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

quinta-feira, outubro 13, 2016

As picadas estranhas

Não a conhecia e quase de certeza que não a voltarei a ver. Disse-me que estava fora. Percebi que era emigrante. Não pretendia confessar-se. Trazia consigo apenas um pedido. E nem deixou que lhe perguntasse qual era. Dizia que tudo se iniciara há três anos, desde a morte de uma pessoa que agora frequente ou diariamente lhe aparecia e a picava. Mostrou-me os dedos deformados pela idade para me indicar onde a picava. Também a picava na cabeça e não sei mais onde. Nem ela me soube dizer. Disse que não a deixava dormir. Dizia que já tentara tudo. Mesmo tudo. E como lhe perguntei se tomava medicação, contou-me que os médicos e os remédios não faziam nada. Mais me contou que as rezas de um outro padre também não tinham feito nada. Não tinham dado resultado. Talvez o padre não fosse em condições. Por assim dizer que eu poderia ser em condições. Estava disposta a pagar o que fosse necessário. Falámos inclusive de exorcismos, mas essas coisas exigem processos complicados e morosos que os bispos devem presidir. Ela não sabia o que era isso dos exorcismos, mas estava disposta a tudo. Até a ir falar com o bispo. Estava perdida, desesperada, disposta a tudo em troca de uma paz que ela esperava que alguém lha desse. Também eu fiquei meio perdido sem saber que lhe dizer, pois penso que a percebia para além das picadas e das medicações. Mas não queria deixar de a acolher com amor. E acabámos a conversa com a única coisa que penso poder fazer por ela. Rezarei por si, disse. E já o fiz.

segunda-feira, setembro 05, 2016

cancro da mãe à porta

Ligou-me para dizer que o cancro da mãe estava com pressa. Se não reagir ao plasma que lhe vão injectar não terá muitas semanas de vida. Dizia ainda que a médica lhe mandara juntar um núcleo de apoio psicológico, caso precisasse. Cresceu sem pai, e fora a mãe quem a fizera crescer. Agora está a partir e não sabe que fazer. Tem o coração pequenino e pesado. Utilizava expressões que me fizeram pensar num daqueles grandes escritores com alma de sábios. Gostava que ela desse um pontapé no cancro, que escolhesse outra porta, que me acompanhasse mais uns tempos. Mas não dá. Claro que não dá. A vida aceita-se. A chamada telefónica fez-me pensar muito no último mês da minha mãe. Um mês de inquietação cada segundo desse mês. Um mês muito doloroso, mas muito especial. Porque foi o último mês que aproveitei da vida da minha mãe. 
Por isso lhe respondi, como sentia, que com tudo na vida aprendemos a viver, e não propriamente a deixar-nos viver ou a sobreviver. A vida e sofrimento da minha mãe ensinou-me coisas que não aprendia de outra forma. E assim respondi. Eu sei pelo que estás a passar e vai doer. Esta é a realidade. Mas não significa que a dor seja maior que tu!

nota: Escrevi este texto pouco depois da notícia que recebeu do cancro da mãe. 
Hoje publico porque faleceu ontem mesmo! A vida é para se viver!

domingo, fevereiro 21, 2016

Deus resolve-nos a vida

Hoje não quero dar nome à pessoa que, em conversa, me disse que não entendia como Deus não nos resolvia os problemas que tínhamos e permitia que houvesse tanto sofrimento, mesmo de pessoas inocentes. Não quero dar-lhe nome, para que cada um possa ali colocar o seu. Porque sei que na nossa vida estas dúvidas aparecem apanhando-nos desprevenidos. A essas pessoas sem nome para dizer, eu hoje quero dizer. 
Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de as resolver. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida, mas interiormente. Basta tão só que O deixemos habitar em nós. Lá dentro Ele dará sentido a todo o nosso exterior.

terça-feira, junho 30, 2015

um assunto a que não quero dar título

Há padres que se suicidam, e a notícia propaga-se, morbidamente, pelos corredores escuros dos claustros da vida. Nisto a comunicação social não se tem metido, não sei se por respeito aos falecidos ou seus familiares, se por ser uma realidade desconhecida, se porque na verdade o número é exíguo em comparação com aqueles que morrem de morte dita natural.
Mas a gente vai sabendo e, mais do que angustiar-se com a angústia, faz-se pergunta em nós da pergunta mais difícil que há. É a pergunta dos porquês? Fica-se assim a perguntar Porquê, ou porque é que a Fé não faz evitar estas coisas. Sim porque um padre deveria ser um exímio ser de Fé, e ela, que se saiba, responde como ninguém às questões da vida e da morte. Porém, o que nós esquecemos é que antes da fé a pessoa tem de ter resolvida igualmente a sua humanidade. Ninguém conseguirá um dia distanciar a sua fé da sua humanidade, ou usar apenas a fé. Nem os santos.
Outra pergunta que se faz, ou que é apenas minha e agora, é Porque é que ninguém se apercebeu ou fez alguma coisa, ou esteve ali presente para segurar o braço de quem se queria lançar no abismo. E também a resposta me veio sofrida, mas escorreita. Ninguém consegue viver nem sentir autenticamente Deus se não souber amar e viver essa maravilha do amor. Isso pode acontecer e expressar-se de muitas formas, mas tem de existir. Disso tenho a firme certeza. Pois é ou são esses amores que sustentam a nossa vontade de viver! Pois é ou são esses amores que estão ao nosso lado e nos podem segurar quando já não temos mão para agarrar ou não temos mão em nós.