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terça-feira, maio 26, 2020

Rezar com eles

Ontem à noite descansei do meu confinamento para ir a um bairro da paróquia rezar com alguns paroquianos. Soube, por uma das senhoras que ali habita, que todos os dias deste mês de maio, às vinte e uma horas, uma das vizinhas colocava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima num pequeno patamar de um parque que o bairro tem, com vela acesa, uma jarra com flores e um terço ao pescoço. Os vizinhos vão chegando e, com as devidas distâncias, rezam o terço em conjunto. Sei que há mais bairros da paróquia a fazê-lo, de modo muito parecido mas em outros horários. Ontem estavam umas dez pessoas. Mais eu, que cheguei sem avisar. Foi uma alegria. Rezei com eles. Ainda me pediram para presidir. Não. Tinha ido rezar com eles. E assim foi. Muito bonita a noite com as luzes dos candeeiros e uma estrela no céu a cintilar. Foi retemperador. 
Afinal, também há e houve coisas lindas a nascer nestes tempos de pandemia, mesmo em termos de fé. Estes grupos que, por si mesmo, se reuniram a rezar, são dom de Deus que prova que a Igreja é muito mais do que aquilo a que estamos habituados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é a minha arma"

domingo, maio 17, 2020

A caminhar se faz o caminho!

A primeira vez que a Valentina falou comigo estes dias foi para me segredar que estava sem rumo, perdida, cheia de medos, receios, dúvidas, angústias. Estava cheia de todas aquelas palavras que tentam definir o pânico. Não sabia que fazer. Não sabia nada de nada. Não estava bem. 
Fui-lhe respondendo que era normal termos receios, mas que não vermos para além deles, era o mesmo que tapar os olhos à luz que se procura no fundo do túnel. Até à presença de Deus que se pressente. Que o caminho a fazer era continuar a viver no meio das limitações... que, afinal, sempre existiram. Agora só nos parecem mais visíveis. E mais isto e mais aquilo, no sentido de apaziguar aquele coração e convidá-lo a fazer caminho. 
Não passaram vinte e quatro horas quando a Valentina me contactou para me dizer que se estava a fazer luz na sua vida e fé, embora com dificuldades. É isso, respondi. O caminho faz-se caminhando, sem certezas que não seja fazer o caminho, mesmo caindo, mesmo voltando um pouco atrás, mesmo com vontade em desistir, mesmo com obstáculos a ultrapassar. O importante na fé não são as certezas, mas o caminho! força... a todos os que se chamam, por estes dias, de Valentina. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres que não sabem que caminham"

quarta-feira, maio 13, 2020

A Igreja que faz o mesmo de sempre

Temos continuado, nestes tempos de pandemia, a fabricar uma Igreja centrada no padre, ou seja, clerical, e nos sacramentos, nomeadamente a missa, ou seja, sacramentalizadora. Com tudo o que isso tem de bom e de preocupante. Chegamos a transformar o meio num fim. Abusamos um pouco multiplicando celebrações e sinais de que, com boas intenções, conseguimos transformar o invisível e escondido das nossas igrejas fechadas, vazias e silenciadas, num certo produto de consumo e num certo proselitismo, ainda que inconsciente. O objectivo parece passar por mantermos as gentes e os crentes connosco. Com a Igreja dos padres. E nós funcionamos, mesmo sem querer, como funcionários de uma Igreja aparentemente aberta, mas realmente fechada. Ou seja, uma Igreja com cheiro a mofo, porque fechada, e em ruínas, porque não tem crentes. 
É o problema de sempre na Igreja dos últimos tempos, aquele para o qual o Papa Francisco tanto tem alertado. É o problema de uma Igreja em constante manutenção. Conservando-se. Fazendo o mesmo de sempre, embora com novos meios.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O papa e os padres"

segunda-feira, maio 11, 2020

Na tua opinião, como é que Igreja Católica tem procedido, em termos sanitários, e como Igreja diante da pandemia do Covid-19?

Na última sondagem, colocada online a 22 de fevereiro, fazíamos a pergunta: "Acreditas na vida eterna?". Já nessa altura se começava a ouvir falar da pandemia causada pelo Covid-19. Por isso a sondagem ganhava maior sentido. Deixamos os resultados: 


Hoje, em tempos de confinamento e de contingências diversas, mesmo ao nível da Igreja, propomos duas novas sondagens, em simultaneo, uma que se refere ao modo como a Igreja Católica portuguesa tem lidado, em termos sanitários, com a pandemia, e outra que tem a ver com o modo como tem procurado ser Igreja:
1. "Na tua opinião, como tem a Igreja Católica portuguesa lidado com a pandemia do covid-19 em termos sanitários?"
2. "Na tua opinião, o modo como a Igreja tem procurado ser Igreja nestes tempos de contingência tem sido.."

Agradecemos a justificação das vossas opiniões, que poderão ser muito úteis. Aliás, era interessante perceber como tem sido nas vossas comunidades cristãs.

Pedimos desculpa pelo facto de, inicialmente, termos proposto apenas uma sondagem que, de certo modo, induzia em erro.

quarta-feira, maio 06, 2020

As igrejas vazias e fechadas

Sabemos que em todo o mundo, nestes tempos de crise, as igrejas estão vazias e fechadas. Podemos imaginá-las. Cheias de pó. Com cheiro a mofo das chuvas e do calor que se começa a sentir. A precisar de arejar. Sair das quatro paredes em que se seguram. Não é nada que não tivéssemos já imaginado. O vírus veio só apressar a imaginação. Aliás, em alguns países, isso já foi ocorrendo. Igrejas, seminários, mosteiros, casas paroquiais a esvaziarem-se. A perderem o nome. A silenciarem-se. 
Li há dias em Tomáš Halík que, quando a Igreja medieval fez um uso excessivo de proibições e sanções, levando a máquina eclesial a uma espécie de “greve geral”, sem celebrações e sacramentos, as pessoas começaram a procurar mais a relação pessoal com Deus, uma “fé nua”. Teve ali, de certo modo, o nascimento da mística espanhola, a quem muito devemos hoje na mística e na contemplação. 
Talvez tenhamos agora a oportunidade de encher as nossas igrejas vazias com as portas abertas a um modo de estar mais verdadeiro, mais interior. Mais silencioso e, ao mesmo tempo, mais vivo e verdadeiro. Talvez tenhamos agora a oportunidade de ir ao centro do Evangelho, fazer uma viagem ao interior da nossa fé despida, e revisitar a Igreja que está em todo o lado e é muito humana e doméstica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Deus não quer a nossa religiosidade"

segunda-feira, maio 04, 2020

Funerais a fugir

São os funerais de hoje. É o que tenho sentido em cada funeral que tenho presidido durante este período de contingência. No cemitério. Distantes uns dos outros. Com máscaras e outras protecções. Pouquíssimas pessoas. Familiares que nem podem ir. Amigos, só se a família for muito reduzida. Chora-se para dentro. Chora-se mais, mas para dentro. É o desespero de não ter espaço e tempo para chorar.
Ainda me recordo do primeiro funeral. Precisei de um minuto para me recompor e limpar as lágrimas. Recordo de modo especial o funeral de um jovem de dezoito anos. Chorei do início ao fim, em solavancos com as palavras. Não consegui aguentar a máscara. Não consegui limpar os olhos. Não consegui senão manifestar que estávamos unidos até neste não saber como fazer e sofrer.
Habitualmente tardo uns quinze minutos. Depende um pouco. Tento dar dignidade à celebração. Pelo menos tento. Ela é digna por si mesma. Vale pela presença de Deus e não pela presença das pessoas, em multidão. Não vale pelo que digo, mas pelo que Deus diz. Mas fico sempre com a sensação de que toda a gente quer sair dali o mais depressa possível. Toda a gente tem pressa. Dizem-me os cangalheiros. Demore pouco, padre. A família olha para mim a ver a hora em que termina o desconsolo. Os senhores da funerária querem ir desinfectar-se para casa. Para mim é tudo muito estranho. Depois da leitura do evangelho, partilho umas palavras. Mas soam-me a palavras que sobram. Nalgumas ocasiões pelo menos. Rezamos. Estamos. Unimo-nos. Mas tudo parece correr. Tudo parece ser a fugir. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais Covid"

sexta-feira, maio 01, 2020

A Igreja que está aí

A pandemia do coronavírus fez com que as celebrações religiosas passassem a ser recebidas através dos meios de comunicação social e virtual. A Igreja passou a viver e a expressar-se nestes meios. Mas esta não é a Igreja. Esta é a Igreja de uma situação difícil. A Igreja, por si mesma é uma comunidade real. É o Povo de Deus que caminha no acto da fé e do seu amadurecimento, no acto da caridade e do testemunho, no acto da Palavra e dos sacramentos. 
É verdade que a Igreja vive à volta dos sacramentos, e especialmente do sacramento da eucaristia, fonte e cume da vida cristã. Mas não depende exclusivamente deles. Ela depende do Senhor Deus. Por isso também pode viver sem eles. Não pode é banalizá-los ou dar a ideia - demasiado clerical, por sinal – que, sem eles, não há forma de se alimentar, celebrar e viver a fé. Se já antes muitos dos nossos sacramentos perdiam alguma autenticidade, porque ausentes de fé, agora esse risco aumentou. Tanto que o Papa Francisco, na homilia da Missa na Casa Santa Marta de 17 de abril, sublinhou este risco de viver a comunhão eclesial apenas de modo virtual. 
Os sacramentos valem por si, mesmo à distância. Há uma certa presença, embora virtual, através destes meios de comunicação social e virtual. Não são falsos, mas também não são a realidade, mesmo que a reproduzam muito bem. 
Talvez a pastoral das nossas comunidades, nestes tempos de contingência, se tenha vindo a centrar em demasia na celebração eucarística, absorvendo muitas das nossas energias, salientando o quantitativo, em detrimento do serviço da Palavra, da formação e, nalguns casos, da caridade. Talvez seja um hábito que vem de trás. E talvez seja este o salto que a Igreja que está para vir deveria fazer. O salto de uma Igreja sacramentalizadora para uma Igreja missionária, de uma Igreja eclesiocêntrica para uma Igreja cristocêntrica. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Gostava de fechar a minha Igreja.

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

sábado, abril 25, 2020

"Dia da Revolução"

Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. Que está a ocorrer uma revolução viral. E falam muito de solidariedades, atenções, correntes de vizinhanças, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado e em todo o mundo. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. Que agora sentimos que precisamos uns dos outros e que os valores que nos têm guiado não são os valores que nos devem guiar. Que agora descobrimos que precisamos da ajuda de Deus porque sozinhos não nos bastamos. 
Mas… 
Li, há dias, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! 
Li também algures que alguns médicos e enfermeiros, no mesmo país, têm recebido missivas de vizinhos a pedir que se mudem para outras habitações longe deles, pelo risco que correm. 
Li ainda que num estudo realizado, durante os 6 dias com o maior número de mortes por coronavírus, no mesmo país, pelo Laboratório de Economia Comportamental (LoyolaBehLAB) da Universidade de Loyola, depois de terem oferecido vales de 100€ aos participantes, se verificou que estes fariam menos doações à medida que a pandemia aumentasse e houvesse uma maior exposição à ameaça do COVID-19. 
Por estas e por outras é que não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros. Talvez nestes tempos haja uma preocupação maior pelos outros. Talvez nos lembremos mais dos que amamos. Talvez estejamos mais atentos às necessidades que ao nosso redor se encontram. 
Mas… 
Dizemos que é preciso uma revolução no mundo, e que pode ter chegado a hora dessa revolução… Que o maldito vírus veio fazer uma revolução entre nós. 
Mas a denominada revolução não está nas mãos do vírus. Ela está nas nossas mãos! 
Vivemos num mundo, numa criação, numa sociedade que nos foram dados por Deus, como dons, para nós administrarmos. Mas enquanto pensarmos que é o mundo, a criação e a sociedade que nos têm de servir, será difícil fazer desta “Casa Comum” um lugar melhor para se viver e, mais importante ainda, um lugar para conviver, isto, viver com 
A revolução não está nas mãos do vírus. Ela está nas nossas mãos! 
Hoje, dia 25 de abril de 2020, faço votos de que estejamos unidos na liberdade de poder fazer uma revolução… no nosso interior 

Este texto também foge um pouco ao estilo literário que gosto de usar neste espaço. 
Aliás, é um texto ampliado do que escrevera aqui
Mas achei que era uma partilha oportuna para fazer neste dia da "Revolução".

sexta-feira, abril 17, 2020

Padres covid II

Alguns colegas padres desdobram-se, na comunicação social e nas redes sociais, em dezenas de propostas e aparições, replicando-as e multiplicando-as, com o que isso tem de positivo e negativo. Não julgo. Evito ajuizar. Mas não evito pensar. Tenho andado a reflectir sobre este novo modo de ser e viver em Igreja, e ainda não tenho nada claro. 
No entanto, ouvi há dias um colega dizer uma coisa que me chamou a atenção e me fez pensar. Dizia que, no meio de tanta “informação”, ainda não tinha ouvido dizer que há padres que, nestas horas, rezam a Deus em silêncio pelas suas comunidades. Um padre rezar, no silêncio, sem alardes, sem mediatismos, pelos seus, neste momento, deveria ser uma coisa estranha! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padres covid"

terça-feira, abril 14, 2020

Linhas da frente

A minha sobrinha enfermeira foi para a linha da frente no combate à pandemia que alastra vírus e pânicos. Como muitos outros. Como tantos. Como tantos a quem temos de agradecer muito! 
Na ocasião que informou a família, não tive tempo para medir as palavras ou os pensamentos. Disse-lhe o que pensava, embora o fizesse com o coração nas mãos. Com o coração apertado nas mãos. Na minha humilde opinião, é mais maravilhoso que melindroso ir para a linha da frente! Ter nas mãos a possibilidade de ajudar, é uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem ao seu alcance numa ocasião como esta! Deveríamos viver para ajudar a viver. Por isso fiquei orgulhoso por ela e com ela. Apreensivo, mas orgulhoso. Pedi-lhe que não desvalorizasse nunca o cuidado e a precaução. Sem medo, mas com consciência de que devia também cuidar dela para poder continuar a cuidar dos outros! 
Cuida-te. Eu rezarei por ti, e através de ti, por todos os que como tu, estarão nessa linha. E assim, a rezar, espero estar na linha da frente!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver"

quinta-feira, abril 09, 2020

Encontrei o beijo do meu pai

Foi numa destas tardes solarengas. Mas escuras por dentro. A meio da tarde. Depois de ter falado com o meu pai em videoconferência. Cada um de nós no ecran. Unidos e separados pelo ecran. Depois a videoconferência alongou-se a mais três pessoas. As minhas irmãs e suas filhas. E ele desatou a chorar compulsivamente. Tivemos de desligar. Desalentados pela dor, pela distância, pela impotência, pela saudade. Marcados por lágrimas. Maldito vírus! 
Voltei sozinho mais tarde. Depois que me disseram da Unidade de Cuidados Continuados que ele não parava de chorar dizendo que eram saudades. Voltei. Falámos entre palavras e uns arranques de lágrimas da sua parte. Entendia o que eu dizia. Os meus apelos à força. As minhas explicações. As insinuações da fé. Que o amávamos muito. Que agora andava uma coisa no ar, uma espécie de bicho que não nos deixava estar juntos. Mas que nunca o abandonávamos. Que eu nunca o abandonaria. Ele ia respondendo à letra, dizendo que nos amava, que me amava. Já passou, pai. Pois já, respondia. Mas voltava. 
Nisto, o tablet do outro lado começou a mexer-se. Contou depois a fundionária que ele lhe retirou o tablet das mãos. Ele que tem cada vez maior dificuldade motora. Ele que tem cada vez menos capacidade cerebral. Fazia-me festas pelo ecran. Disseram-me depois. E às tantas, isso eu dei conta, aproximou o ecran e deu-me um beijo. Um beijo que, mesmo à distância foi dos mais inesquecíveis e robustos que me deu até hoje. 
O vírus não vence tanto amor! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O beijo do meu pai"

terça-feira, abril 07, 2020

Olha, faz o bem

Sabes aquela sensação de não saber? Aquela sensação de que determinada situação ou gesto ou palavra são um sinal, mas não sabes dar-lhe forma? Não sabes que cor, que sabor, que odor tem? Foi assim, hoje, no diálogo breve com meu pai, por vídeo-conferência. 
A conversa com ele foi muito boa, ou seja, foi mais fluida do que o habitual. O que comeste ao almoço, pai? Eu comi um bife, pai, e tu? Eu comi dois. Tu estás lindo, paizinho. Tu é que és lindo, meu filho. Amo-te muito, pai. Meu mais que tudo. Eu ainda te amo mais, meu filho. Toma lá milhares de beijinhos, pai. E faço gesto com boca e com a mão a ir da boca ao écran. Sem que eu lhe peça nada, leva a mão à boca, com dificuldade, e manda beijos pequeninos, quase inaudíveis. Mas do tamanho do mundo. Ó pai, até já. É assim que me despeço dele, porque o meu adeus é sempre um até já. E ele responde de um modo que não vou esquecer nunca mais. Olha, meu filho, faz o bem. Faz o bem. 

A POPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Meu pai e minha mãe"

sábado, abril 04, 2020

O vidro que não nos separa

Uma paroquiana avó mandou-me um vídeo do filho, do lado de lá da porta de vidro, a falar com o neto, uma criança de poucos meses, do lado de cá do vidro. É ao que obriga o período de quarentena. Mas foi tão bonito ver. Foi tão maravilhoso. A avó dizia que eram tempos muito duros e difíceis, mas que acreditava que tudo ia correr bem. Eu manifestei-lhe que era muito bonito o que me enviara. Mesmo, mesmo. Pode parecer, à partida, duro e triste. Mas eu achava-o bonito. Claro que achava. Era muito bonito ver que um vidro não separa duas pessoas que se amam. Porque nada nos pode separar, se o nosso coração não deixar. O coração é que nos liga e aproxima!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É um pai que ama como o Pai ama"

terça-feira, março 31, 2020

Contaminados pelo vírus do pânico

Hoje não quero sair de casa. Fico aqui, escondido, com as teclas do meu computador. Eu e elas. Para não sermos contaminados. Para ver se esse maldito vírus não entra nas nossas vidas. Só que o vírus já entrou. Tem entrado. Está a entrar nas nossas vidas pelo pânico. Mesmo fechados em  casa. Mesmo aqui fechado, o vírus não para de entrar em minha casa. Por isso rezo com as teclas, aceleradas. Escrevo tudo o que posso para afastar o vírus. Faço isto como se ele ainda não estivesse cá dentro. Sem dar conta que ele já entrou por todo o lado. Pela televisão, pelo computador, pela internet, pelas redes sociais, pelo telefone, por todo o lado. Se há uns milhares de infectados com o coronavírus, há muitos mais contaminados pelo medo e ansiedade. Nos teclados rugem. Nos teclados se escondem. Nas entrelinhas das palavras e afectos à distância. Hoje estamos quase todos contaminados pelo pânico do vírus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Se morresse" ou "A Rosário, apertada pela vida"

domingo, março 29, 2020

super-padre

Há uns quinze dias, quando nos começámos a isolar, quando as celebrações comunitárias foram suspensas e as igrejas fechadas, dei por mim, em casa, a perguntar-me que fazer para, com simplicidade e naturalidade, continuar a guiar estes meus rebanhos, estas minhas comunidades. Estava nisto quando uma catequista me contactou, porque precisava falar. Ter com quem trocar uns dedos de conversa. Ou melhor, ter quem a ouvisse. Falámos um pouco de muitas coisas relacionadas com este mal-estar. E, às tantas, manifestei-lhe a preocupação que carregava. 
Como resposta a esta inquietação, olhem só o que o Senhor Deus tinha preparado para mim da boca desta minha paroquiana. Senhor padre, não queira carregar a cruz sozinho. Neste momento, os seus paroquianos querem apenas que continue a ser o nosso padre. Para ser mais claro, refiro que disse o meu nome próprio. Nós queremos que continue a ser o nosso padre tal. E continuou. Às vezes queremos fazer coisas que não dependem da nossa vontade. E nós precisamos de saber que está bem. Foi mais ou menos isto que ela disse ou quis dizer, ou eu interpretei. E não sabe o bem que me fez! 
Ninguém tem de ser um super-herói diante destas contingências. Temos de ser quem somos. Não tenho de ser um super-padre. Eu tenho de ser o padre que tenho sido. Isso já é heroico.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

sábado, março 28, 2020

revolução viral ou então não

Escrevem e dizem alguns que, depois deste furacão chamado coronavírus, a nossa vida não voltará a ser a mesma. E falam muito de solidariedades, atenções, gestos maravilhosos que vão ocorrendo por todo o lado. Que as pessoas estão mais atentas aos seus vizinhos. E até certo ponto, é verdade. Dizem também que há menos poluição. Menos Co2. As águas mais limpas. Que, no plano climático, está a valer a pena. Que a natureza nos está a obrigar a rever o nosso estilo de vida. Que o capitalismo vai sofrer um desfalque. E por aí fora e por aí adentro. Mas será assim? Será assim no final deste período de contingência? Ou não será apenas um conto de fadas porque agora ninguém quer ver filmes de terror? 
Li, no jornal espanhol “El Mundo”, que, em Espanha, na província espanhola de Cádis, onde um grupo de quase três dezenas de idosos tiveram de ser realojados pelo Governo depois de terem sido despejados de um lar por estarem infetados com a Covid-19, os veículos de transporte médico que transportavam os idosos foram apedrejados e um carro chegou mesmo a atravessar-se no caminho. Os populares receberam aqueles idosos com pedras e explosivos! Ora digam-me lá se isto não nos faz pensar! Por isso não sei se haverá alguma revolução viral. Até porque o vírus parece querer isolar-nos. E cada um parece preocupar-se mais com a sua sobrevivência que com a vida dos outros. 
Deixem passar a pandemia e os meses ou anos que se lhe hão-de seguir, e veremos se não voltamos ao capitalismo destroçador, à economia que mata, à tecnocracia burguesa, ao individualismo antropocêntrico, às relações virtuais… 
A revolução não está nas mãos do vírus, mas nas nossas mãos! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É dentro de nós que a vida se resolve."

quarta-feira, março 25, 2020

os funerais covid

Contaram-me que alguns colegas têm ouvido reclamações e desaforos de pessoas por causa das restrições dos funerais e por não haver missa de sétimo dia. É verdade que, a cada dia que passa e diante das evidências, têm diminuído este tipo de atitudes e reacções. Mas ainda há poucos dias, um agente funerário me contava que uma neta de uma senhora falecida discutira com ele, porque queria ver a avó a todo o custo. Queria velório como se nada fosse. Queria tudo e mais alguma coisa a que achava que tinha direito. Isto é duro. Muito duro. 
O primeiro funeral a que presidi, com uma pequena celebração no cemitério, na presença de pouquíssimos familiares, doeu muito. Doeu tanto que, ainda antes de começar, olhei para os rostos daquelas pessoas e as lágrimas caíram-me pelo rosto sem eu lhes dar licença. É bem provável que tenhamos de buscar uma nova forma de fazer o luto! Mas também é importante não deixarmos que a dor seja mais forte que a nossa racionalidade! Neste momento há um bem maior do que a nossa própria dor. O bem comum. E é bom recordar o que ocorreu, por exemplo, num funeral, em Espanha, onde se contaminaram dezenas de pessoas. Ou o que, no Irão, e diante da enorme dificuldade em tratar da sepultura de quem morre com o vírus, como dizem algumas informações, os corpos têm sido sepultados em valas abertas. Assim como é de supor o que poderá acontecer em paróquias onde o pároco contrair o vírus e tiver de ficar em casa. 
É doloroso ouvir estas coisas. Saber delas. Pensar nelas. Imaginá-las. Tudo é doloroso neste momento. Rezemos. Rezemos por quem tanto sofre num momento como este e partilhemos da sua dor na oração!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como serão os funerais quando não houver padres?"

domingo, março 22, 2020

Eu sou padre

Só na última semana, numa diocese de Itália faleceram mais de dez padres. Em toda a Itália, segundo as informações que vão chegando, o número já vai, pelo menos, nos trinta. Tive oportunidade de ler os seus nomes num artigo. Um a um, ofereci-os a Deus. Em Espanha também li que faleceu, pelo menos, um. Mas são inúmeros os que estão em isolamento ou em cuidados intensivos. Ontem falou-se do primeiro padre contaminado em Portugal. E não é uma questão de números. Nem uma questão de os padres sermos diferentes dos outros. Porque não somos. Somos todos iguais no sofrimento e na morte. Nenhum de nós está livre ou isento de vírus e pandemias. Mas isto faz-me pensar. A mim. A minzinho. Faz-me pensar na minha vocação e missão. Tenho lido alguns testemunhos de colegas nestas circunstâncias, e fazem-me pensar no “até que ponto estou disponível para dar a minha vida pelos outros”, ou no “até que ponto eu entreguei totalmente a minha vida a Deus”. Sim, faz-me entrar na humildade e pequenez da minha vida e vocação. Sim, faz-me meditar no que sou e para que sou o que sou. Faz, faz.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É aqui que se tem de estar"

sexta-feira, março 20, 2020

a nossa parte

Dizem-me que algumas pessoas ficaram indignadas por não terem missa estes dias. Dizem-me que algumas já tinham ficado indignadas com a Igreja quando se lhes sugeriu que não comungassem, por uma questão higiénica, na boca, alegando que se a hóstia consagrada era o Senhor, nada deveríamos temer. Recebi um correio electrónico com uma carta de um suposto colega alertando para o perigo de não celebrarmos missas com as pessoas. Tive oportunidade de ver uns vídeos de umas missas onde, em Espanha, um determinado bispo dava comunhão na boca, exclusivamente, sem medidas de higiene. Algo similar de um padre que percorrera as ruas com o Santíssimo a bater à porta para que as pessoas fossem à missa. 
Respeito que pensem diferente de mim e que, supostamente, confiem em Deus ao ponto de depositar n’Ele toda a acção. No entanto, estas atitudes ou reacções fazem-me lembrar os estudantes que rezam insistentemente para obterem ajuda nos exames, até acendem uma velinha a Nossa Senhora, mas depois não estudam ou não estudam o suficiente! 
Deus faz muito. Deus até pode fazer tudo. Mas também quer que nós façamos a nossa parte!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha Igreja do futuro"