sexta-feira, março 31, 2006

Ambos entraram no céu carregados pelas mesmas mãos, as de Deus

Foi à mesma hora, que não havia outra maneira. Nisto esti-vemos de acordo. Dois funerais em um. Até aqui nada de anormal, que o caso é sempre melindroso. Nem mesmo a cerimónia teve o seu quê. Ambos homens. Ambos com o mesmo nome. Se não fosse funeral e momento de dor para alguns, a coincidência dava para sorrisos. Não sorri. Que me custa fazer funeral que seja. A dor dos outros provoca um mal estar que não consigo explicar, apesar do hábito, que isto tem sido, como diria alguém, às dúzias. Mas no final deu-me que pensar. Saí a correr com o peso dos pensamentos às costas. Explico. Para transportar os corpos é costume termos duas opções. Ou vai à mão, que o cemitério é perto. Ou vai na carrinha funerária. Não obsto nunca, pelo menos ali que, como afirmei, o cemitério é perto. A Igreja estava cheia, como sempre se enche em ocasiões idênticas. Muitos homens. E o caso aconteceu assim, tão simples como conto. Um dos caixões foi transportado por vários homens, em número de seis. O outro foi pela carrinha, e até lá, apenas pelo cangalheiro e por um senhor da família. E havia lá mais homens vigorosos, digo eu.
Fui para casa sem jeito, porque eu costumava dizer que nesta hora todos somos iguais, não há ricos nem pobres. E hoje fiquei com dúvidas. A única certeza que me resta é a de Deus. Que ambos entraram no céu carregados pelas mesmas mãos, as de Deus. Com o mesmo amor, o de Deus

terça-feira, março 28, 2006

Palavra puxa palavra

O padre António tinha a seu cuidado a visita à prisão. Lá ia de sotaina e batina, para impor o respeito. Digamos que estava encarregado de ajudar a carregar estes momentos de sofrimento. Não era muitas vezes, mas algumas era chamado para dar as últimas palavras aos que iam ser excutados. Tipo, "Unção dos Tementes" ou sei lá. E assim o padre António, cheio de zelo, levava debaixo da manga a Bíblia, a Palavra de Deus. Tinha chegado a hora do "Escaramuça", famoso pelas actividades criminais dignas de um filme. E lá vai o nosso amigo à prisão dar a última bênção ao preso minutos antes da execução.
- Vim trazer-lhe a Palavra de Deus! - diz de chofre o padre António
E responde-lhe o "escaramuça":
- Não era preciso padre! Daqui a pouco eu vou estar pessoalmente com Ele....

quarta-feira, março 22, 2006

O senhor padre ainda é novo

Uma daquelas senhoras lamentadeiras. Devia dizer lamenta-doras. Mas quero referir-me a um estado quase de profissão. Lamentava-se da vida. Ai ora eu, ora eu. E voltava-se para mim e dizia: O senhor padre ainda é novo. Depois repetia. Fazia um coro: ai ora eu ora eu o senhor padre ainda é novo. O ritmo era quase certinho. Não percebo muito, mas acho. Assim fiquei com ele a martelar na minha cabeça, certinho. Mais certo que o da lamentadeira. Claro que o novo é sempre relativo. E aqui paro para me tentar justificar, que a idade vai passando. O velho é que não é tão relativo. Foram estes os meus pensamentos durante uma boa hora e meia. Como será quando for velho?! Uma coisa é certa. De tão rabugento que irei ser… Estas coisas crescem. Já me entendem! De tão rabugento que irei ser, quem me vai aturar? Quem estará disposto e disponível para aturar um velho rezingão, habituado a viver sozinho, a viver com os seus pensamentos e botões? Quem terá coração para ainda amar um homem assim? Houve um pensamento que me respondeu Todos. Não quis acreditar. Bem vejo a diferença de um funeral com família ou de um funeral sem família. Os teus amigos, acrescentou outro pensamento. Não acreditei. A maior parte deles estará também a precisar e os restantes devem ter mais com que se ocupar. Um terceiro pensamento, o mais chato de todos, teve a brilhante ideia de falar num lar. Neste momento, nem fui capaz de responder. Nem de fazer abordagens de fé. Se tiver que ser, que seja. Não seria o primeiro. E muitos inclusive com família. Porém, assaltou-me outra questão. E quem me visitava? A família? Qual? Aquela que está interessada na herança? Por isso é que eu vou gastar o dinheiro enquanto puder. Não amealho senão para o essencial. E dar enquanto puder ver a quem dou. Ainda me imaginei a celebrar caquéctico de todo, sentado, com alguém a segurar-me nos livros, e nas mãos, e na cabeça que está pendente para o lado direito. Vá-se lá saber porquê! E nas palavras. Também me seguram nas palavras. Não partilho Cristo na Comunhão porque não consigo segurá-Lo. Já não consigo segurar nada. Pelo menos há uma coisa melhor. Já não me deito sozinho. Deitam-me.
E com todos estes pensamentos, decidi ser sempre um padre novo!

sábado, março 18, 2006

Tenho fé, mas também tenho medo, senhor padre

Ele já tinha ligado uma vez ou duas. A insistência da chama-da dizia-me algo. O acaso de Deus faz o resto. Estava de passagem. Aproveitei para visitar os meus doentinhos. Os das minhas paróquias. O hospital é enorme. Coimbra, a cidade dos estudos e das camas. Montes de camas com gente assustada. Isso assustou-me. Fui direito aos assuntos. Uma primeira visita, e depois uma outra. O José. De cara lavada. Sabia que eu tinha intenção de o visitar. Desfizera a barba nesse dia. Notava-se porque estava escanhoada, e porque perguntei. A visita devia ser importante. Não por mim, mas pela visita. Uma visita. Uma, no meio de muito poucas em três semanas. Que aquele hospital fica longe do mundo. Conversámos sobre o tempo, as dores, os exames, a vida. O sorriso nos lábios, no corpo todo, era visível. Demais, para minha alegria. Eu estava, imaginem, bem. Sentia-me a usufruir do momento. Um momento de partilha. Ele estava, como hei-de dizer, bem com a visita, mas nada bem. Só na despedida me apercebi verdadeiramente. Tenho de ir, Zé. Pois, senhor padre, tem de ser. E o rosto muda completamente. Então e a esposa, tem vindo? Não. Seco na palavra, mas molhado no olhar. Já tenho saudades de dar-lhe uns beijitos. Petrifiquei. É melhor para ela. Da última vez foi daqui pior que estragada. Não quero que me veja assim. Um colega de cama insistiu comigo. Olhe que este homem anda desanimado. Perguntei porquê. Isto dói, e a gente está para aqui. Não me sabem dizer o que tenho. Já fizeram tantos exames. Tenho medo. Quer dizer, tenho fé, mas também tenho medo. Esperava já estar em casa. Estou aqui sozinho. Foi assim um desfiar de frases. Quase soltas, que me deixaram com o corpo a sair dali, mas com os pensamentos e os sentimentos naquela cama, sentados ao seu redor, com ambas mãos a afagar. Afaguei mesmo o seu rosto. Pela primeira vez lhe afaguei o rosto. Lá na paróquia isso não tem jeito. Viva senhor padre, e apresenta-se uma mão para apertar. Não fica bem estender a mão para o rosto em vez de para a outra mão. Digo eu. Mas ali senti que ele precisava desse gesto, desse afago. As lágrimas eram seguradas a custo. As minhas cerradas bem cá dentro. Disse mais uma ou duas coisas para animar. Fiz umas graças. Prometi que lhe ligava e fiz-lhe prometer o mesmo. Cada vez que precisar de uma palavra. Era só isso que eu tinha para dar. Saí mesmo. Quase voltei costas a tudo. Fui todo o caminho a conversar comigo. A tentar perceber os desígnios de Deus. O que me pede, o que nos pede, o que o Zé precisa.

quinta-feira, março 09, 2006

Sinto-me desumano

Tenho andado a pensar na minha gatita. Minha companhia. Olhos tão azuis e tão meigos. Está naquela época. Não a costumo deixar sair. Até para não ser atropelada. Mas não é simples gostar-se assim de um animal. Há dias perguntaram-me porque não a deixava fazer aquilo. Aquilo o quê? Perguntei. Ir ao gato. E respondi em tom de brincadeira. Já que o dono tem de ser casto, ela também tem de fazer sacrifício. Já me aconselharam algumas coisas, tipo pílula, laqueação, veterinário (não entendi bem quando me aconselharam o veterinário sem explicar o que ele podia fazer! Imagino que fosse a laqueação!) … Mas a que me deram como melhor medida foi mesmo a do gato. Ela precisa, padre. Não se faz isso! Até se torna mais adulta depois de ser mãe. A verdade é que me dói vê-la aqui a gemer. Geme de dor. Vê-la alçar o rabito. Roçar-se. Mas o pior é quando olha para mim, olhos nos olhos, e como que me pede. Como que me implora ajuda, que isto é do outro mundo! Olho-a bem. Faço-lhe umas festas. Peço-lhe para aguentar. E depois. Depois penso em mim… desumano…

domingo, março 05, 2006

Padre, Será que o meu marido está no céu?!

O luto roubara-lhe o sentido da vida. Preto por fora e por den-tro. Só não lhe roubara as flores que colocava todos os dias, cada dia, na campa do marido. Mais as missas e as orações. O resto foi levado com a morte.
Eu estava sentado no sofá, com amigos. Não que me fosse pouco importante dizer-lhe algo. Que até era. Mas é preciso que a pessoa queira. Tenho consciência que as palavras podem cair em saco roto quando o saco não está preparado. As pessoas foram saindo. Ela também. Mas voltou atrás. Padre, Será que o meu marido está no céu?! Eu já desconfiava que o seu problema não passava desta questão. Amara-o. Ama-o. Sem dúvida. Por isso teme o Pai que leva os que queremos para Ele. Teme que o tenha querido, mas não o tenha levado para ao pé. Era uma resposta difícil, porque há coisas que estão nos desígnios de Deus. Mas, olhando para a figura de um pai bom, fui indicando que um pai gosta de todos os seus filhos. Mas gosta de maneira diferente. Ama-os como eles necessitam. Por isso, mesmo que um deles se tenha afastado por momentos, como o “filho pródigo”, ele continua a amá-lo e a querê-lo do seu lado. Por mais pecador que um filho seja, o pai está disposto a amar o filho. Não interessa por isso tentarmos saber quanto Deus ama, mas que nos ama a todos, de forma diferente, mas ama. Também é lógico, dizia eu, que quando mostramos o nosso amor ou quando correspondemos a um amor, a pessoa em causa fica agradada. Mais que isso, o nosso relacionamento interpessoal melhora. Aumenta. Dito de outra forma. Uma pessoa que ame a Deus claramente, aumenta o seu relacionamento com Ele e Ele com ela. É lógico que Deus quer estes bem pertinho. Mas também não quer os outros longe. Ela ia serenando. Mas continuava. E o que é a ressurreição. E eu respondi que, basicamente era passar desta vida para a vida eterna, a vida ao lado de Deus. Mas, e todos ressuscitam? Todos, respondi. Se Deus quer salvar a todos - e isso expliquei-o com passagens bíblicas - Ele não quer excluir ninguém. Então e o que é o inferno? Agora estava acordado. A palavra acordara-me. No sofá ia-me deixando dormir, de cansado. Agora acordava para falar. Bom, eu nunca vi esta teoria em lado nenhum. Não será por isso uma questão teológica. Mas para mim é muito pior estar a cinco quilómetros de uma pessoa que amo sem a ver, do que estar a mil quilómetros e ter a consciência que não posso mesmo ver. A insatisfação é maior no primeiro caso. Eu tenho para mim que todos vamos para junto de Deus. Mas que uns ficam mais perto, porque mais amaram. E outros ficam mais longe porque menos amaram. Mas também não é uma questão de distância, que ali não há espaço nem distância. É uma questão de amor. Quem mais ama, mais sabe sentir o amor. Quem menos ama tem de aprender a sentir o amor.
A conversa ia longa e a história também. Fica para outro dia a continuação…

quarta-feira, março 01, 2006

Uma daquelas...

Início da Quaresma, como todos os anos, com a Quarta-feira de Cinzas. Cerimónia obrigatória da Imposição das Cinzas nas paróquias. Bastante gente, que aqui ainda há gente. Cerimónia simples e interessante. Explico. Benzem-se as cinzas feitas com os ramos de Domingo de Ramos do ano anterior. Benzem-se. Depois impõem-se sobre a cabeça de cada pessoa, dizendo “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Ainda se podem dizer outras coisas. Mas digo esta enquanto coloco sobre a cabeça um pedaço de cinza. Explica-se a cerimónia depois da homilia. Aí vem o pessoal todo. Nem uma pessoa só fica sem vir até ao padre ou até ao ministro receber a dita imposição. O senhor António também. Até é dos que pratica. De vez em quando comunga. Avistei-o ainda ao longe, umas três ou quatro pessoas atrás. Geralmente baixam a cabeça para a imposição. Ele levantou-a bem. “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Eu disse, e dispus-me a deixar cair a cinza sobre a sua cabeça. Mas não. Ele não se mostrava interessado. Língua de fora e Ámen. Era a sua hora da Comunhão. Esboço um sorriso. Pisco-lhe o olho. Para dizer que não tinha mal o hábito ou distracção. E impus-lhe as cinzas.