sábado, outubro 07, 2006

Obrigado pela fé que me destes

Estava a conduzir quando me descobri com as lágrimas nos olhos e depois a escorrer pela face. Apeteceu-me não parar de conduzir. Deixar o rumo das lágrimas conduzirem-me. Deixar que o volante circunscrevesse as linhas da estrada. Sim, padre também chora. Como agora, as lágrimas a desenharem o teclado. Lembras-te, mãe? Foi nos últimos dias que te apresentei o meu carro novo, pela janela. Disseste, da cama, que tinha uma cor linda, que o resto não conseguias ver bem. Eu respondi, num sorriso forçado, que ainda havíamos de viajar muito nele. Hoje, passados cinco anos, penso que ainda fazes muitas viagens comigo. Agora fizeste de certeza. Lembras, mãe, a força que tinhas e que eu gostava de ter no sofrimento? Ainda ontem me contaram coisas que doeram. Como é possível que haja gente interessada no sofrimento dos outros, sem interesse, nem que para isso se inventem as histórias mais inóspitas!? Sinto-me atraiçoado pelo mundo, pela vida, pela morte. Mas tu aguentavas e sorrias. E agradecias a Deus. Não esqueço nunca as palavras que numa das últimas eucaristias que eu celebrei para ti, em casa, disseste: obrigado, Senhor, pelo sofrimento que me dás. E aqueles segundos em que eu elevava a hóstia, já consagrada, e os dois olhávamos, discretamente, através dela, um para o outro, num sinal de cumplicidade umbilical?! E a tua despedida, quando chamaste todos os filhos e genros à beira da cama e pediste perdão por alguma falha?! Meu Deus, como foi difícil sorrir! Mereceste a Festa com que te presenteei no funeral. Dia de Nossa senhora do Rosário. Nada melhor para quem rezava todos os dias o rosário. Três terços, e um deles pela fidelidade do filho consagrado. Deus lá sabe porque escolhe estes dias. Foi das eucaristias mais verdadeiras que celebrei. Cantei quanto pude. Falei da minha felicidade, da tua missão, da fé, da alegria de ir ao encontro do Criador. Muitos amigos. E a canção que os teus filhos cantámos no velório, à volta da tua mortalha? Ó anjos cantai comigo, ó anjos cantai sem fim. Dar graças eu não consigo. Ó anjos dai-as por mim. Aprendemos tanto contigo. Hoje sinto saudades do teu colo, o colo que escutava os meus desabafos de padre, de homem. Fazes-me falta. Na fotografia do meu escritório tenho uma rosa seca. Já secou, mas ainda lá está, como eu desejo que estejas sempre perto de mim, dos meus trabalhos, da minha vida. Ainda hoje rezo quase todos os dias as orações que me ensinaste. E peço a Deus, porque os médicos disseram que o teu cancro possivelmente era hereditário, que se alguém tiver de ser escolhido entre nós, que seja eu, que não tenho filhos e esposa. Até na dor ensinaste a fé. Dizia uma flor de uma criança que tu ensinaras na catequese: Obrigado por me teres ensinado a fé! E hoje, outra vez dia de Nossa Senhora do Rosário, vou ver-te ao teu último reduto. Sei que já estás com Deus. Mas aquele pedaço de terra é como que o santuário da tua vida, o altar onde te podemos mostrar o nosso amor. Vou levar-te uma flor. Eu sei que não precisas. Mas preciso eu de a levar. Devo-te a vida, tanto a biológica como a da fé. Por isso vou lá dizer três coisas, uma a Deus, outra a ti, e outra a ambos. Obrigado, Senhor, pela mãe que me deste. Obrigado, mãe, por seres a minha mãe. Obrigado pela fé que me destes.

41 comentários:

migalhas disse...

Obrigado meu amigo.
Desde que te conheci que gostei de ver a foto da tua mãe aí, no teu escritório.
.......
Não consigo dizer mais nada...
Vou deixar que as lágrimas corram pelo meu rosto abaixo.
Um abração e obrigado por me teres feito chorar
.......

elsa sequeira disse...

Confessionário!!!

mais uma vez me fizeste chorar!!!
me emocionaste!!

obrigado por te dares assim deste jeito.... élindo!!

marta disse...

Obrigada, padre, pelo testemunho e força que nos dá!
Obrigada...

Anónimo disse...

Porque é que nos fazes sentir através do que sentes?
Porque é que nos dás Deus assim de forma tão real?
Porque é que eu não consigo ser cristão?

Confessionário disse...

Claro que podes ser cristão, anónimo. Desde que ames de verdade a Deus e aos outros...
E obrigado pelas palavras bonitas...

Fátima disse...

Já há algum tempo que me deram a conhecer este blog e, sempre que posso, dou aqui um saltinho para ler as palavras bonitas aqui escritas (pois sou mais de ler do que de comentar)!
Mas hoje não consigo passar sem escrever algo, por estas palavras que também a mim fizeram chorar... Os nossos entes queridos que já partiram deste mundo estão bem, certamente melhor do que nós, na companhia de Deus. E acredito piamente nisto que estou a escrever e sou muito mais feliz por acreditar. Só não consigo evitar as saudades que tenho por tudo o que perdi com a sua partida... Ela queria ir, para junto de Deus e do meu avô, e lá foi ela. Mas as saudades apertam, avó...
Obrigada, Mestre, pela minha fé e obrigada, padre, por partilhar connosco a sua!

nahar disse...

Desculpa meu irmão mas não pude de deixar que as minhas lágrimas caissem ao ler este teu jogo de palavras.
Agradeço a partilha, apenas queria dizer que não tenhas medo do mundo nem te sintas atraiçoado pelo mundo, Cristo está contigo. So Deus basta, ainda que nós sejamos limitados e fragéis é certo.

Hoje ao rezar o Rosário durante a procissão de velas na minha paróquia, tenho-te presente irmão.

Abraço em Cristo

Pitux disse...

Eu que nem sou de me emocionar facilmente... até fiquei ao ler este post. Um texto muito bem escrito e com palavras muito verdadeiras.

MC disse...

Ó rapaz,

que te posso dizer? Para já, que juntei as minhas lágrimas às tuas. Depois, que maior que as lágrimas que choramos pelas nossas mães, é a nossa gratidão por tudo o que recebemos delas. E que é muito bom sabermos que, nem a sua morte nos afastou do seu amor. Ele está presente, em todos os caminhos da nossa vida.

E termino, com mum beijo de muita ternura, especial para este dia.

Anónimo disse...

Nada consigo dizer...apenas chorar.
Obrigada Padre.
LN

jmexia disse...

Obrigado por esta "memória" viva.
Acompanho-o neste reavivar de uma vida que deu vida.
Em Fevereiro deste ano faleceu a minha mãe com 96 anos.
Os últimos 6 anos foram extremamente dificeis para ela, não só em relação à sua saúde, mas também à sua vida social que ela tanto gostava.
Nunca lhe ouvi um queixume, mas apenas uma entrega na certeza de que tudo o que ía passando aqui, era uma purificação para o depois.
Devo-lhe duas vidas: a que me deu como mulher, e a que me deu com as suas constantes orações, porque sei, tenho a certeza no meu coração, que se não fossem as suas orações nunca teria voltado a encontrar a fé que me dá vida e "vida em abundância".
Por isso o entendo muito bem e lhe agradeço por me ajudar a viver a graça que Deus me deu na minha mãe.
Abraço-o em Jesus Cristo
Joaquim

Dad disse...

Olha Confessionário!

Hoje bebi cada palavra escrita de ti para a tua mãe, quase como se de mim se tratasse e...chorei, chorei muito, porque tu puseste em palavras, sentimentos que eu também sinto pela minha, que também já lá está.

Mas as lágrimas são de saudade, embora muitas vezes, como tu, ainda pareça que a sinto perto de mim, nos momentos mais complicados da vida.

O teu testemunho sentido, foi muito bonito e sentido. Bem hajas.

Abração,

Andante disse...

Cheguei só agora e também chorei!
Chorei a falta de coragem de ir junto do meu pai. Já vão 18 anos, que parecem dias... A mesma angústia, a mesma saudade e as palavras que não foram ditas...
Obrigada pela tua partilha. Também juntamos as nossas orações às tuas.

Beijos peregrinos

Pe. Tó Carlos disse...

Um abraço forte de coragem!

Pe. Tó Carlos disse...

Um abraço forte carregado de coragem e esperança!

xana disse...

É fantástico que existas.
E ainda mais divino, que através dessa tua existência, nós consigamos ver uma outra, a brilhar de fé, de bondade, de amor, de entrega.
Vê só como é belo: não conhecemos, a tua mãe - Mas conhecendo um pouco de ti, conseguimos até sentir a beleza da sua humanidade. Em ti. E também em Ti!
..
E que bom que ela te deixou assim esse dom. O de precisamente existires. E sobretudo do modo como o fazes. Parabéns aos dois.

Fernanda disse...

Ao ler este texto fez-me recordar as saudades que tenho da minha mãe. Pois também ela partiu á 13 anos. E que falta ela me faz para me ajudar a criar os meus filhos, que ela tanto orgulho teria s os tivesse cnhecido.

A vida ás vezes é ingrata. no meio desta minha ferida que não cura, simplesmente adormece não consigo falar em fé. Só sinto muitas saudades.
E muitas lagrimas.......

Lua dos Açores disse...

É bom vir ler-te. É tão bom que apetece "armar a tenda" e ficar...Há paz nas tuas palavras nas tuas lágrimas e eu gosto da Paz.

Abraço fraterno

palheirense disse...

Sublime lição de amor e fé.
Bem haja pela partilha desses dois dons.
Abraço em cristo.

Paulo disse...

Bonita dedicatória feita a uma Mãe, de alma e coração.

Joana disse...

A minha avó também faleceu com cancro, há 2 anos. Por isso, não pude ficar indiferente ao seu texto.
Não sinto revolta [acho que nunca senti], mas as lágrimas vêem, de vez em quando, recordar-me aquele colo de infância, aquele aroma a canela, aquele terço sobre a mesinha de cabeceira... Recordações nostálgicas que me vão aquecendo nos dias frios e agitados da adolescência.
Lembro-me de concluir que, aquilo que Deus Faz, Decide e Escolhe tem todo o sentido. Ela era a pessoa mais corajosa que eu conhecia, quem sabe se a mais capaz de transportar tal cruz... E fê-lo [a sorrir]!
Isto transformou-me. Agora, mais do que nunca, quero que a Vó se orgulhe do que sou e do que faço. Talvez um dia consiga ser [quase] tão corajosa como ela.

Tenho a certeza que a sua mãe se sente orgulhosa de si!

Um abraço

js disse...

Que se sintam também reconfortados aqueles a quem as vicissitudes da vida (e as imperfeições pessoais) não permitiram viver uma relação tão bela como a que é descrita...

Fá disse...

"...vou lá dizer três coisas, uma a Deus, outra a ti, e outra a ambos. Obrigado, Senhor, pela mãe que me deste. Obrigado, mãe, por seres a minha mãe. Obrigado pela fé que me destes..."

Obrigado por o termos, Padre, disponível, para nos ajudar a sentir essa Fé de que nos dá testemunho!

Força, também, para que não desista nunca daqueles que o desiludem hoje!
Um abraço amigo

a capela disse...

É difícil comentar este 'texto' assim sentido. Faltam palavras que correspondam à beleza deste exemplo de fé e coragem. Doeu-me e encorajou-me em cada linha. De repente passa-me igualmente a imagem de Santa Mónica e Santo Agostinho. Tanto ainda por digerir em tanto amor e de parte a parte.

Nossa Senhora (do Rosário) é Mãe, mas com certeza, um bocadinho mais sua.
Só um Obrigada, mas o maior de todos que encontro em mim.

Malu

tito pereira disse...

De facto sóme resta reiterar a carga emocional e profundidade transmitida neste teu texto.
è um enorme prazer conhecer-te ainda que virtualmente.
Deus te abençoe

Vítor Mácula disse...

Tocante, mesmo.

Abraço, bom dia.

Nônô disse...

É a primeira vez que participo neste bloge e confesso que este post nao deixa ninguem indiferente, principalmente quem ja sofreu na pele esta ferida, que jamais tem cura. As lagrimas correram-me pelo rosto, à medida que ia lendo, porque fui testemunha de toda esta situaçao de dôr.Só com muito amor e à luz da fé, conseguimos ultrapassar estes momentos dificeis. Por isso, a palavra magica é coragem.
um beijo amigo!...

NaSacris disse...

Abraço fraterno e consolador.

Avozinha disse...

Uma lagrimita, padre. Eu podia dizer quase exactamente o mesmo da minha mãe, que partiu há 31 anos. (Tirando a Nossa Senhora do Rosário...)
E gostaria que os meus filhos pudessem dizer o mesmo de mim, quando Deus quiser.

Catequista disse...

Obrigada pelo teu testemunho. Nem imaginas o que me sensibilizou - o teu amor, a tua fé. Fizeste-me lembrar o meu pai, que infelizmente não conheci (ainda estava no ventre de minha mãe), mas em quem penso todos os dias e que um dia espero encontrar junto a Deus.

Confessionário disse...

Obrigado a todos pelo calor, pelo carinho,pela fé, pelas palavras. Sobretudo pelo carinho à minha mãe. Mãe, adoro-te.

Anónimo disse...

Confessionário
Quando ainda há dias descobri que esses óculos estavam em cima de um papel e não de um bordado,não imaginava que me iria fazer chorar desta maneira.
OBRIGADA pelo seu testemunho de tão intenso amor e de tanta Fé.Obrigada também pela esperança que me dá de que um dia os meus filhos me amarão assim.
NG

mi disse...

Olá Confessionário!

Desde que voltou de férias, penso que ainda não tinha vindo vê-lo com calma, com tempo...

Estou muito emocionada com o que escreve sobre a sua Mãe, vieram-me as lágrimas aos olhos, estou comovida.

Tenho pensado muito em Maria nos últimos tempos.

Maria é a mãe biológica de Jesus, a mãe de Deus, mas é também (e principalmente)uma pessoa que teve fé, que fez a vontade de Deus, que acreditou na palavra, que disse "sim" a tudo o que Deus lhe propôs.

A sua Mãe é semelhante a Maria,
o Confessionário é o nosso Jesus da internet...

Que belas coincidências! Estou muito feliz!

:-)

Confessionário disse...

Jesus da Internet, MI? Ui ui...

Dulce disse...

Desculpa-me. É a tua mãe. Mas eu não consigo compreender esse "Obrigada pelo sofrimento que me dás". Não sou capaz. Mas é tão lindo o teu texto, estas lembranças, esta mãe!

gota de chuva disse...

uf,
acho q nem vou dizer nada. palavras significam pouco perante sentimentos destes.
Abraço em Cristo

Anónimo disse...

"A chama da fé aqueçe os corações e ilumina o nosso caminho..."

Mais um rio de lágrimas...
Mais uma vez obrigado, também minha mãe...
HL

Anónimo disse...

Neste dia tão importante...
venho trazer-lhe a minha flor.
Parabéns, também minha mãe...
HL

Anónimo disse...

Em dia de aniversário... passo para deixar mais uma rosa branca!
Obrigado também "minha mãe", por também me teres dado mais fé!
Parabens pelos 75 anos que farias!

HL
2 de Fevereiro de 2011

Anónimo disse...

Ao ler este tua partilha senti o que provavelmente toda a gente sentiu e não digo porque tu já sabes. Aqui fala-se da morte que nos bateu à porta. Foi por isso que parei e entrei. Estava a necessitar de alijar peso, porque a morte também já bateu à minha porta e veio sem avisar. Mas hoje, pela primeira vez, ando por aqui em bicos de pés e com o coração nas mãos. A relação entre a ti e a tua mãe é um mundo tão precioso e só vosso, em que não quero tocar nem sequer de raspão. Receio até usar alguma palavra solta que resvale e o invada. Vou só olhar para o belo retrato que nos deixaste da tua mãe, aquele que está pousado em cima da tua secretária, e agradecer-lhe em silêncio não só a fé que te deu, mas também o bom coração, que por certo herdaste dela, por serem dons que temos a graça de partilhares connosco. De seguida, agradeço-te a ti, por me recordares que nada temos de garantido e eterno. Depois e sempre agradeço a Deus.

Confessionário disse...

Obrigado